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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 6 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo IV - Se as mulheres são ou não próprias a preencher os cargos públicos

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Para que os homens creiam que uma coisa é bem fundada, basta que a vejam estabelecida. Como nos observam em toda parte sujeitas e absolutamente dependentes dos homens, privadas das vantagens das ciências e das ocasiões de fazer conhecer nossa capacidade para os cargos públicos, concluem daqui os homens (seguindo seu modo de raciocinar ordinário por verossimilhanças) que devemos ser assim.

Mas concedendo-se que as mulheres tenham sido sempre excluídas dos empregos públicos, segue-se necessariamente, que isto deva ser assim?

Deus tem sempre encontrado mais ou menos resistência da parte dos homens ingratos: não seria um absurdo concluir daqui, que esta resistência seja justa?

Mas por que se persuadem os homens que somos menos próprias que eles a ocupar os empregos públicos? Podem por ventura dar outra razão senão o costume e o prejuízo, que têm formado por aparências e falta de um exame mais exato? Se quisessem dar-se ao trabalho de remontar à origem das coisas e julgar os sentimentos e práticas dos homens dos primeiros séculos, pelo que descobrem em si mesmos, não se curvariam, como fazem, ao erro e absurdo; porque, olhando as mulheres em particular conheceriam que se temos sido sujeitas à sua autoridade, tem sido somente pela lei do mais forte; e se somos privadas do poder e privilégio, que põe seu sexo acima do nosso, não é por falta de capacidade natural e de merecimento, mas sim por falta de um igual espirito de violência, de uma injustiça manifesta e de uma opressão ilegítima, como a deles.

Todavia seu entendimento é tão fraco e seus órgãos tão pouco dispostos a escutar a voz da razão, que o costume os tem tornado escravos os mais decididos de seu senso, do que não o somos por sua usurpação:

estão tão acostumados a ver as coisas tais quais agora são, que não podem imaginá-las de outra maneira. Nada seria tão admirável para eles, que imaginar uma mulher combatendo à frente de um exército, dando leis sobre o trono, advogando causas, administrando justiça em um Tribunal de magistratura, marchando pelas ruas precedida de espadas, lança e outros sinais de autoridade como os Magistrados; ou ensinando Retórica, Medicina, Filosofia, ou Teologia, na qualidade de professora de uma Universidade. Se acaso eles descobrissem alguma coisa em que sua natureza oposta às regras incontestáveis e simples do bom senso, creio que achar-se- iam bem embaraçados para provar que não há nisto singularidade, ou que não se possam com a reta razão; porque por um pouco que se considere as mulheres como criaturas racionais e se afaste por um momento as desvantagens, que a sua usurpação injusta e tirânica tem lançada sobre elas, ver-se-á que não pelo menos tão capazes como eles, de preencher aquelas funções. É preciso pois convir que ver uma mulher seja qual for a sua capacidade, exercer algum desses empregos no século presente, seria um objeto de tanto espanto como se aparecesse alguém trajando agora as modas do tempo da Rainha Elizabeth. Entretanto, esta admiração em um e outro caso seria tão-somente o efeito da novidade.

Se em tempos imemoriais os homens tivessem sido menos invejosos e mais interessados em fazer justiça e nossos talentos, deixando-nos o direito de partilhar com eles dos empregos públicos, estariam tão acostumados em ver-nos preenchê-los, quanto estamos em os ver desonra-los, e uma mulher, ou na roda dos advogados, ou na Cadeira Magistral, não seria tão admirável como ver um Juiz grave, languidamente rendido ao lado de sua amante, ou um Lorde bordando um vestido para sua mulher. Um Eclesiástico com uma tese na mão explicando a Natureza em seus pontos mais inocentes e úteis, seria um objeto tão familiar como um Médico na sua carruagem aprendendo de cor e arte de amor de Ovídio. Uma Amazona com o escudo na cabeça não espantaria mais do que um capelista atrás do seu mostrador com um dedal no dedo, ou um Par de Grã-Bretanha brincando com a sua liga.

Não é a razão, mas sim o erro e a ignorância degenerada em hábito, que faz com que essas criaturas superficiais olhem estes objetos como extraordinários.

A Inglaterra é a única nação que reconhece nas mulheres toda capacidade para subir ao trono; ela tem conhecido, por experiência reiterada, que um Reino é mais feliz sendo governado por uma mulher do que por um homem. Este efeito prova pois, claramente, o absurdo da opinião contrária, quantas mulheres têm aparecido que merecem o primeiro lugar entre os Sábios e que são mais capazes de ensinar as ciências, do que muitos que presentemente ocupam a maior parte das cadeiras das Universidades? O século presente mesmo tem produzido tantas quantas apareceram nos séculos passados, não obstante sua modéstia tê-las condenado ao silêncio; e como pode-se dizer que o nosso sexo aplicando-se às ciências excede muito aos homens, deve-se por esta razão estimá-lo mais do que a eles, pois que para chegarem a esse conhecimento, precisam calcar aos pés a moleza em que são criadas, renunciar aos prazeres e à indolência a que um bárbaro costume as tem condenado a vencer os obstáculos exteriores que encontram em seu caminho, destruindo as ideias desfavoráveis, que o comum dos sexos tem concebido do saber das mulheres.

Ou seja que por estas dificuldades aumentam alguma sutileza ao seu entendimento, ou que a Natureza lhes tenha dado um gênio mais vivo e penetrante que aos homens, o certo é que muitas os têm excedido neste gênero. Com efeito, por que não seremos tão capazes como eles, de aprender e ensinar ao menos ao nosso sexo?

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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