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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 7 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo V - Se as mulheres são naturalmente capazes de ensinar as ciências ou não

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Quanto à Retórica, é preciso convir que nós somos os seus modelos e mestres avaliados. A eloquência é um talento tão natural e particular às mulheres, que ninguém lhes pode disputar. Elas estão em estado de persuadir tudo que lhes apraz:

podem ditar, defender e distinguir o justo do injusto sem o recurso das leis. Não tem havido Juiz que não tenha experimentado que elas são os mais esclarecidos conselheiros, e poucos ligantes que não saibam por experiência, que elas são juízes muitos retos, cujo talento é o mais ilustrado. Quando as mulheres tratam de algum objeto, elas se dirigem de uma maneira tão delicada, que os homens são obrigados a reconhecer que elas lhes fazer sentir o que dizem. Toda arte oratória das escolas não é capaz de dar a um homem esta eloquência e facilidade de se expressar, que a nós nada custa; e o que sal baixa inveja chama em nós uma superfluidade de palavras, não é outra coisa mais que uma prontidão de ideias e uma facilidade de discursos, que eles não podem adquirir, senão em muitos anos de penível trabalho.

Quanto embaraço e perturbação não têm eles para fazerem entender seus pensamentos? Se dizem alguma coisa melhor, que gestos insípidos, redundanciais e carenhoncas não fazem, que destroem o pouco bom que dizem? Quando pelo contrário uma mulher fala, seu ar é ordinariamente nobre e agradável, seu gesto fácil e cheio de dignidade, suas ações decentes, seus termos dóceis e insinuantes, seu estilo patético e persuasivo, sua voz melodiosa e seu tom proporcionado ao objeto.

Ela pode sem vaidade elevar-se ao nível da inteligência mais sublime e, com uma complacência natural à delicadeza de sua figura, chegar sem baixeza ao alcance do espírito o mais moderado. Qual é o objeto que nós não possamos tratar, sem ofender à decência? Quando falamos do bem e do mal, sabe-se muito bem que estamos em estado de conduzir a um e desviar do outro os homens os mais obstinados, por pouco que seus espíritos sejam susceptíveis de raciocinar e capazes de seguir um argumento. Esse caráter de retidão que tem todo nosso exterior, quando falamos, faz nosso poder de persuadir inda mais vitorioso. Certamente se temos uma eloquência mais comunicável que a sua, nós devemos ser, ao menos como eles, tão capazes de ensinar as ciências; e se não nos veem nas cadeiras das Universidades, não se pode dizer que seja por incapacidade, mas sim por efeito da violência com que os homens se sustentam nesses lugares em nosso prejuízo; ou pelo menos deve-se reconhecer nisto, que temos mais modéstia que eles e menos ambição. Se quiséssemos aplicar- nos à Jurisprudência, faríamos tantos progressos como os homens.

Não se nos disputa o talento natural de explicar e desenvolver os trabalhos os mais difíceis e complicados de bem estabelecer nossas pretensões e as dos outros, de descobrir o fundo de uma dificuldade de pôr em prática todos os meios capazes de nos fazer obrar justiça: isto basta, creio, para provar que, se questiona de satisfazer as funções de Advogado, Juiz, Magistrado, nós apresentaríamos uma capacidade para esses trabalhos de que bem poucos homens são susceptíveis. Mas a paz e a justiça são nosso único estudo; toda nossa ambição se reduz a reparar os danos que esse sexo corrompido procura fazer-nos com tanto furor.

Nosso sexo parece nascido para ensinar e praticar a medicina, para tornar a saúde aos doentes e a lhes conservar. O asseio, a prontidão e o cuidado e fazer a metade de uma cura; e por este motivo os homens nos deviam adorar.

Na verdade nós lhes cedemos a nosso turno a arte de inventar os termos bárbaros, de embaraçar uma cura pelo numero de remédios e de aumentar a pena de uma moléstia com as despesas que lhes causam. Mas nós podemos imaginar e temos mesmo inventado, sem recurso de Galeno e Hipócrates, uma infinidade de remédios para as moléstias, que nem os melhores autores têm podido aperfeiçoar, nem desaprovar: e uma receita de - curandeira -, como eles chamam, tem quase sempre destruído tal moléstia inveterada, que resiste obstinadamente a toda ciência de um Colégio de Graduados.

Em uma palavra: as observações que as mulheres fazer em sua prática têm-se achado tão exatas e apoiadas sobre razoes tão solidas, que tem demonstrado mais de uma vez a inutilidade e pedantaria da maior parte dos sistemas das Escolas. Eu duvido que o nosso sexo quisesse passar tantos anos tão inutilmente, como fazem esses homens que se apelidam Filósofos; se quisesse aplicar-se ao estudo da Natureza, estou persuadida que acharíamos um caminho mais breve para chegarmos a esse fim. Não faríamos, como certos homens, que empregam anos inteiros e algumas vezes mesmo toda sua vida, a raciocinar sobre entes de razão e bagatelas imaginarias, que só existem em seus próprios cérebros.

Nós acharíamos meios de empregar utilmente nossas indagações antes, que de aprofundar o espírito para descobrir se além da última circunferência do universo existe algum espaço imaginário e se este parto de nossa imaginação é finito ou infinito; se um átomo pode tornar-se em uma infinidade de partes, ou quando uma coluna de ar, que corresponde do Céu até quase sobre a cabeça de um homem, parece menos pesada que um fardo sobre os ombros. Se quiséssemos exprimir o que concebemos de Deus, não ousaríamos representá-lo como um venerável ancião. Não, nós temos uma ideia muito nobre para comparar a algum ente criado.

Concebemos que deve haver um Deus, pois que sentimos que nem nós, nem os objetos que nos cercam, podem ser obra do acaso, nem da nossa produção. Ademais, considerando-se todos os dias que o sucesso de nossas empresas não é o efeito natural dos meios de que nos servimos para alcançá- lo, estamos convencidas que a série de nossas ocupações não é a consequência de nossa providência; e assim concluímos que isto deve ser o efeito de uma providência superior e geral.

Jamais imaginaríamos raciocinar sobre nossas próprias hipóteses quiméricas e de encher um volume para responder às impossibilidades, como se poderíamos lançar uma pedra até a visão beatifica etc.

Entretanto, poderíamos raciocinar sobre nossas próprias hipóteses quiméricas e de encher um volume para responder às impossibilidades, como se poderíamos lançar uma pedra até a visão beatífica etc.

Entretanto, poderíamos sem vaidades aspirar a ser tão nos filósofos e Teólogos como os homens, e talvez melhores, se é que compreendo bem a significação destas palavras. Certamente os Filósofos e Teólogos (seguindo o verdadeiro sentido das palavras) são seres profundamente versados nos segredos da Natureza e mistério da Religião. Isto posto, e conhecendo-se mais que o principal fruto de todo saber, é bem discernir o verdadeiro do falso, a evidência da obscuridade, nós somos igualmente capazes de uma e de outra coisa.

Se quiséssemos ser Filósofas e Teólogas, nos proporíamos a formar ideias da Divindade e das revelações, tão justas, quanto a fraqueza de Natureza humana pode permitir, e seguiríamos a natureza em todos os seus efeitos, remontando-nos à sua origem: mas como sabemos que o conhecimento de nós mesmas e dos objetos que os cercam é absolutamente necessário para tornar úteis os conhecimentos de que vimos de falar, em lugar de perder o tempo em bagatelas que ocupam o estudo da maior parte dos maus Filósofos, nos aplicaríamos a refletir sobre nós mesmas e sobre os diversos objetos que nos cercam, a fim de descobrir que relações podem ser vantajosos, e corresponder ao fim para que nos foram dados.

Não poderíamos pois por este meio ser Filósofas tão sábias e Teólogas tão capazes como os homens e em estado de aprender e mesmo de ensinar, pelo menos tantos quanto eles são?

A prática prova suficientemente que não somos menos boas Cristãs que eles; recebemos o Evangelho com respeito e humildade e os submetemos à sua doutrina de uma maneira mais exemplar, mesmo, que a maior parte dos homens. Eu confesso que algumas pessoas de nosso sexo têm levado o culto religioso a uma espécie de superstição, mas o mesmo não se observa com muitos homens? Entretanto, eles são muito mais culpáveis que elas, pois que a ignorância em que têm sido criadas faz cair toda culpa sobre eles, que lhes não têm dado os meios de a evitar assim se seu zelo tem sido indiscreto, sua intenção tem sido boa e podemos assegurar com certeza - visto a facilidade com que elas têm abraçados a religião e se conservam firmemente ligadas, apesar de tantas desvantagens com que se lhes representa – que elas teriam se ligado com mais firmeza à verdadeira piedade, se lha tivessem feito conhecer debaixo de um ponto de vista mais justo.

Quem poderá pois nos impedir de nos reger sobre a fé e disciplina de Jesus Cristo e da Igreja? Se possuímos os fundamentos da Filosofia e Teologia Escolástica, não seremos tão capazes, como os homens, no curso de nossos estudos, de entender, conferir e interpretar as Santa Escrituras, as obras dos Santos Padres e os Sagrados Cânones? Não poderemos tirar dos nossos espíritos e corações as obras de piedade, pregar, refutar as inovações, conduzir-nos mesmas e aos outros, destruir os escrúpulos mal fundados e decidir os casos de consciência tão bem como os mais hábeis casuístas que temos? Eu digo mais, não há ciência, nem cargo público no Estado, que as mulheres não sejam naturalmente próprias e preenchê-los tanto como os homens.

É portanto verdadeiro que, quanto à Teologia, Deus tem restringido nossos talentos naturais por uma lei positiva. Assim, nós não temos de reclamar o que não poderíamos praticar, senão por uma intrusão sacrílega.

Entretanto, pode-se observar de passagem que a proibição que nos fez nosso Divino Salvador, de exercer algumas funções religiosas, não nos proíbe de outros ofícios públicos. Ela nem mesmo prova que sejamos indignas ou naturalmente incapazes de exercer aqueles mesmos. Proibir-nos destas funções é concordar que nós poderíamos preenche-las. Mas por que nos proibiu Ele? Somente por uma presunção se poderá penetra. Entretanto, se é permitido raciocinar sobre os preceitos Divinos, nós poderíamos dar uma razão que seria em honra e não em desvantagem de nosso sexo. Deus sabe incontestavelmente a inclinação geral que os homens têm à impiedade e à irreligião, por conseguinte não devia reservar as funções religiosas a esse sexo para atrair ao menos uma parte dele aos deveres, para que têm uma oposição tão geral? Além disso, nosso sexo tendo uma inclinação natural a praticar a virtude a religião, não era necessário ajuntar mais recursos exteriores à sua graça divina, par nos atrair a um caminho, para o qual nosso corações nos conduzem.

Se, pois, se destruísse o prejuízo e o costume nenhuma surpresa haveria em nos ver dar lições públicas de ciências, em uma cadeira da Universidade, pois que para trazer, entre mil, um exemplo, certa moça estrangeira, cujo mérito e capacidade extraordinária têm obrigado a muito tempo uma Universidade da Itália a se apartar, em seu favor, das regras da parcialidade, do costume e do prejuízo, par lhe conferir o grau de Doutor: é uma prova evidente dos grandes progressos que poderíamos fazer nas ciências, se se nos fizesse justiça.

Não é tanto para justiçar meu sexo que cito este exemplo, e sim para favorecer os homens e fazer que não é absolutamente impossível que eles sejam algumas vezes justos, sem milagre. Na verdade, seria preciso recorrer a tantos países, como um judeu errante, para achar nesse sexo invejoso e pouco generoso, alguns outros exemplos de uma semelhante equidade a nosso respeito. Mas para encontrar muitas mulheres, cujo merecimento não cede ao daquela italiana, não é preciso recorrer-se à antiguidade, nem mesmo fazer a despesa de uma viagem a países estrangeiros. Nosso próprio século e nossa Pátria pode gabar-se de ter sido mais de uma Safo, de uma Cornélia e muitas Schumans e Dacieres. Se eu quisesse escolher uma que ajunta em si só os diversos talentos de todos esses nomes ilustres, poderia citar uma Elizabete, tão estimável pela alta superioridade de seu gênio e de seu juízo e tão célebre pelo uso que lhes deu. Seus progressos na ciência antigas e modernas em geral a têm elevado tanto acima dos homens, que as mais excelentes virtudes juntas a seus profundos conhecimentos lhe têm atraído a estima das mulheres; não admirável eu nos pertence a liberdade de fazer justiça e este mérito, sem temer os reproches de parcialidade, pois que os homens mesmos são obrigados a admirá-la, a despeito de sua inveja.

Entretanto, como sua excelência tem arrancado os justos louvores de boa mesmo do prejuízo, eu me dispensarei de a pintar, contente de ver que esse sexo lhe tem feito o mesmo também, como eu não poderia fazer; e é porque remeto os meus leitores ao que tem dito sobre o caráter desta mulher o célebre Birch, na história das Obras dos Sábios. Este elogio é tanto menos suspeito por ter sido tecido por um homem, e por um homem que parece alardear de não ter mais que a equidade precisa para louvar uma mulher acima de seu mérito. Se a comparação que faz este homem, e por homens, eles o devem escusar e perdoar. Devem-lhe pelo menos a obrigação de nos ter provado com seu exemplo, que não é impossível encontrar-se um homem capaz de sacudir o jugo de paixão e do prejuízo, em favor da verdade e boa fé.

Nós podemos, pois, facilmente concluir que, se nosso sexo, como se tem visto até o presente, tem todos os talentos e requisitos para aprender e ensinar as ciências, que põem os homens em estado de possuir o poder e as dignidades, elas são igualmente capazes de reduzir seu saber à prática no exercício de seu poder e dignidades; pois que esta Nação tem mostrado, como acabamos de dizer, muitos exemplos gloriosos de mulheres que têm todas as qualidades e requisitos para exercer toda autoridade pública, reunidos em suas pessoas. Por que, todas as qualidades e requisitos para exercer toda autoridade pública, reunidos em suas pessoas. Por que, pois, o nosso sexo não será ao menos capaz de preencher os postos subordinados de Ministros de Estado, Vice-Rei, Governadores, Secretários, Conselheiros privados e Tesoureiros? Ou por que não poderão elas, sem ser admirável, ser Generais de Exército, ou almirantes de Esquadra?

Porém isto é um ponto que vale a pena ser examinado separadamente.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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