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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 9 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Conclusão

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De quanto tenho dito até o presente não tem sido com a intenção de revoltar pessoas alguma de meu sexo contra os homens, nem de transformar a ordem presente das coisas, relativamente ao Governo e autoridade. Não, fiquem as coisas no seu mesmo estado: eu pretendo somente fazer ver, que meu sexo não é tão desprezível como os homens querem fazer crer, e que nós somos capazes de tanta grandeza d’alma com os melhores desse sexo orgulhoso; estou mesmo convencida que seria vantajoso para os dois sexos pensar desta maneira. Esta verdade se prova pelas más consequências que resultam do erro contrário.

Crendo-se incapazes de aperfeiçoar o nosso entendimento, os homens nos têm inteiramente privado de todas as vantagens da educação e, por este meio, têm contribuído tanto quanto lhes é possível a fazer-nos criaturas destituídas de senso, tais quais eles nos têm figurado. Assim, faltas de educação, somos entregues a todas as extravagâncias porque nos tornamos desprezíveis; temos atraídos sobre nós seus maus tratamentos por faltas de que eles têm sido nos autores, tirando-nos os meios de evitá-las.

Qual é o resultado desse tratamento tirânico que eles nos fazem experimentar? Recai por ultimo sobre si mesmo. A falta de saber e educação, que arrasta as mulheres às ações que os homens reprovam, as priva das virtudes que poderiam sustentá-las contra os maus tratamentos que eles imprudentemente lhes fazem sofrer; faltas destas virtudes elas imaginam os meios os mais condenáveis para se vingarem de seus tiranos. Donde resulta que em geral os homens e mulheres têm, uns para com os outros, um soberano desprezo e combatem à porfia quem trata pior o outro; quando, pelo contrário, deveriam viver felizes, se ambos os sexos se resolvessem a tomar um pelo outro os sentimentos de estima, que se devem reciprocamente.

Entretanto, se quiséssemos falar a verdade, é fora de toda a dúvida que o vitupério recai principal e originariamente sobre os homens: porque se se quiser somente conceder às mulheres as vantagens da educação e do saber, elas aprenderão a desprezar estas loucuras e bagatelas, que lhes granjeiam presentemente um injusto desprezo; elas estarão em estado de dar aos homens uma melhor opinião da capacidade de seu engenho e da disposição do seu coração, e os homens diminuirão e reformarão gradualmente seus maus procedimentos, à proporção da estima que lhes inspirarmos. Elas capricharão em aperfeiçoar seus talentos, melhor adquirirão os conhecimentos, ocupar- se-ão a entreter os homens instrutivamente e ajuntar a solidez aos seus encantos.

Por este meio os dois sexos viverão felizes e não terão motivos de se acusarem mutuamente; mas enquanto os homens nos fecharem toda a entrada às ciências, eles não poderão, sem fazer recair sobre si toda a repreensão, lançar-nos ao as faltas de conduta que a ignorância nos faz cometer e nós acusaremos sempre de injustiça e crueldade os desprezos e maus tratamentos que eles têm para conosco, por faltas que não está em nossas mãos remediar.

Não seria mais necessário falar neste objeto senão para responder a algumas pessoas fracas, que se persuadam indevidamente existir, relativamente à virtude, diferenças reais entre nós e os homens; entretanto não há maior absurdo, pois existem muitos bons e maus em ambos os sexos e, mesmo supondo-se que algumas mulheres têm levado a maldade além dos homens, isto não pode desonrar o sexo em geral. Os bons que se corrompem, tornam- se sempre os mais malvados; e quando conhecêssemos que algumas de nosso sexo têm excedido aos homens nos vícios, seria preciso necessariamente confessar, que estes excedem em número. Eu creio e ninguém duvidará, que falando de maus, há mil homens maus para haver uma mulher má e ainda assim, é julgando as coisas muito favoravelmente aos homens. Mas para saber- se se uns são naturalmente mais viciosos que os outros, é preciso atender que só a alma é que é susceptível de virtude e que esta consiste em uma resolução firme de fazer-se o que se julga mais conforme às regras da razão, nas diferentes circunstâncias da visa.

Ora, a alma das mulheres não é menos susceptível que a dos homens, desta resolução firme que constitui a virtude, e elas sabem também, como eles, as ocasiões de pôr em prática. Inda que fracas se julguem as mulheres em geral, nós sabemos reger também nossas paixões, como os homens, e não temos mais que eles propensão aos vícios. Nós podemos mesmo fazer inclinar aqui a balança em nosso favor, sem ofender a justiça e a verdade; entretanto, suposto mesmo que houvesse lugar de achar-se os dois sexos igualmente em falta, aquele que acusa o outro peca contra a equidade natural. Se existe mais maldade nos homens que em nós e são tão cegos para percebê-la, são bastante temerários em achar o que repreender em nosso sexo; e se descobrem nossas faltas e ocultam maliciosamente a suas, que são mais condenáveis, não é isto uma baixeza neles, fazer-nos um crime daquilo que possuímos menos que eles? Se há mais bondade nas mulheres que nos homens, não se devem taxá- los de ignorantes e invejosos por não quererem convir nisto?

Quando uma mulher tem mais virtudes que vícios, não devem uma fazer desaparecer os outros? Isto é tanto verdade, quanto nossos defeitos são insuperáveis e se nos negam os meios de nos corrigir. Eis aqui precisamente o caso de quase todas as faltas de nosso sexo e porque merecem mais compaixão que desprezo. Enfim, se nossas faltas não são tais senão em aparência, ou pelo menos são por si mesmas muito ligeiras, não se podem supor duráveis nelas sem muita imprudência e maldade de sua parte.

Ora, é muito fácil provar que estas são a maior parte das faltas que se nos exprobam, as quais são comuns a todo nosso sexo de uma ou de outra maneira. Eu julgo ter suficientemente demonstrado que injustamente os homens nos acusam de não ter aquela solidez de raciocínio, que atribuem a si com tanta confiança; nós temos o mesmo direito que eles, aos empregos públicos: a Natureza nos deu um gênio como a eles, tão capaz de os preencher e nossos corações são tão susceptíveis de virtudes, como nossas cabeças o são de aprender as ciências: nós temos espírito, força e coragem para defender um País e bastante prudência para governá-los. Nós temos em geral os órgãos mais delicados. Se se comparar a estrutura dos corpos para decidir o grau de excelência dos dois sexos, não haverá mais contestação: eu julgo que os homens mesmos não terão dificuldade em nos ceder a este respeito: eles não podem negar que temos que sobre si toda vantagem pelo mecanismo interno do nosso corpo, pois que é em nós se produz a mais bela considerável de todas as criaturas. Que superioridade não temos sobre eles pela forma externa? Que beleza, que ar, que graças a Natureza não tem juntado aos nossos corpos e privado aos seus? Eu me envergonharia somente de falar, se não pensasse que há uma razão a mais para crer que nossas almas são tanto mais delicadas, porque não posso deixar de pensar que o Sábio Autor da Natureza proporcionou nossas almas aos corpos que os deu: certamente a delicadeza de nosso espírito e a finura do que se passa no interior de nossa cabeça devem pelo menos tornar-nos iguais aos homens, que nosso exterior raras vezes deixa de nos fazer suas senhoras absolutas.

Eu não quererei, entretanto, que pessoa alguma de meu sexo apoie sua autoridade sobre um alicerce tão frágil. Não, o bom senso deve sempre exceder à beleza o rosto, porque o ascendente, que a razão tem sobre os corações, é mais durável. Eis porque exorto a todas as mulheres a desprezar os vãos divertimentos e a aplicar-se à cultura de suas almas, a fim de se tornarem capazes de obrar com toda dignidade a que a Natureza nos destinou; sem procurarmos elevar-nos e engrandecer-nos, façamos ver que merecemos dos homens tanta parte de sua estima, quanto arrogam a si além de nós.

Em uma palavra, mostremos-lhes, pelos poucos que fazemos sem o socorro da educação, de quanto seriamos capazes se se nos fizessem justiça..

Obriguemo-lo a envergonhar-se de si mesmo, se é possível, a vista de tantas injustiças que praticam conosco, e façamo-los enfim confessar que a menor das mulheres merece um melhor tratamento de sua parte, do que o que hoje prodigalizam a mais digna dentre nós.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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