Contos Populares do Brasil

Universo da obra

Contos Populares do Brasil

Capítulo 1 · Contos Populares do Brasil

Introdução — Origens da nossa poesia e de nossos contos populares

Indicar no corpo das tradições, contos, cantigas, costumes

e linguagem do atual povo brasileiro, formado do concurso de três raças, que, há quatro séculos, se relacionam; indicar o que pertence a cada um dos fatores quando muitos fenômenos já se acham baralhados, confundidos, amalgamados; quando a assimilação de uns por outros é completa aqui e incompleta ali, não é coisa tão insignificante, como à primeira vista pode parecer.

Comecemos pela poesia.

Quais são aqui os agentes criadores e quais são os transformadores? O agente transformador por excelência tem sido entre nós o mestiço. Mas será verdade que os selvagens e os africanos possuíssem uma poesia, que tenha passado às nossas gerações atuais? Nós o cremos: mas eis aí a grande dificuldade. Fala-se muito de uma decantada poesia dos índios dos três primeiros séculos da conquista; poucos são os fragmentos coligidos. Ainda pior é o que se tem dado com os africanos. Demais, hinos líricos, cantados pelo povo brasileiro, são vazados nos moldes da língua portuguesa pura e estreme. Como marcar o veio negro e vermelho em canções que afetam uma só forma? As dificuldades abundam. Incontestavelmente o português é o agente mais absoluto da nossa vida espiritual. Devemos-lhe a crença religiosa, as instituições civis e políticas, a língua e o contato com a civilização europeia. Na poesia popular a sua superioridade é, portanto, incontestável. Pertencem-lhe, entre nós, todos os romances cavaleirescos, como D. Infanta, Noiva roubada, Bernal Francês, D. Duarte e Donzilha, D. Maria e D. Arico, e outros que se encontram em nosso Cantos populares do Brasil, e que têm seus correspondentes nas coleções europeias.

Éainda obra sua a maior parte das canções soltas em quadrinhas, que em Sergipe têm o significativo nome de versos gerais.

As relações da raça superior com as duas inferiores tiveram dois aspectos principais: a) relações meramente externas, em que os portugueses não poderiam, como civilizados, modificar sua via intelectual, que tendia a prevalecer, e só poderiam contrair um ou outro hábito e empregar um ou outro utensílio na vida ordinária; b) relações de sangue, tendentes a modificar as três raças e formar o mestiço.1

No primeiro caso, compreende-se de pronto que a ação dos índios e dos negros sobre o europeu não era muito profunda e radical; no segundo, a transformação fisiológica produzia um tipo novo; se não eclipsava o europeu, ofuscava as duas raças inferiores.

Na poesia popular, portanto, depois do português, é o mestiço o principal fator. Aos selvagens e africanos, que não são autores diretos, coube aí mesmo, porém, uma ação mais ou menos eficaz.

Nos romances de vaqueiros há influxo indígena, e nos versos de reinados ou reizados, cheganças, congos, taieiras, influência africana.

Os autores diretos, repitamos, que cantavam na língua como sua, foram os portugueses e os mestiços. Quanto aos índios e negros, verdadeiramente estrangeiros, e forçados ao uso de uma língua imposta, a sua ação foi indireta, ainda que real. Na formação da psicologia do mestiço, a que iam transmitindo as suas tendências intelectuais com todas as suas crenças, abusões, lendas e fantasias, é que se nota o seu influxo. A ação fisiológica dos sangues negro e indígena no genuíno brasileiro explica-lhe a força da imaginação e o ardor do sentimento. Não há aqui, pois, em rigor, vencidos e vencedores; o mestiço consagrou as raças e a vitória é assim de todas três. Pela lei da adaptação elas tendem a modificar-se nele, que, por sua vez, pela lei da concorrência vital, tendeu e tende ainda a integrarse à parte, formando um tipo novo em que prevalecerá a ação do branco. Pertencem-lhe diretamente em nossa poesia popular todas as cantigas que não encontram correspondentes nas coleções portuguesas, como todos os romances sertanejos, muitas xácaras e versos gerais de um sabor especial. Nestas criações, que chamamos mistas, dá-se cumulativamente a ação das três raças, e ao mestiço pertencem, como próprios, o langor lascivo e os cálidos anhelitos da paixão. Quase todos os versos desta espécie coligimos da boca de ariscas e faceiras mulatas.

Encontram-se ainda entre nós certa tendência de ridicularizarem-se mutuamente as diversas raças. O caboclo foi, desde os tempos coloniais, objeto de muitos motejos e lendas debicativas; era considerado o tipo da tolice e da fatuidade, a encarnação do parvo e do basbaque. O negro era, por sua vez, bem escarnecido, e o português alcunhado de maroto, galego, marinheiro etc. Ao mestiço deu-se o nome de cabra, bode, e outros títulos malsinantes. Este estado de luta latente ainda se nos depara no folclore brasileiro.

Passemos aos contos e lendas. Aí é direta a ação das três raças e a influência do mestiço ainda muito insignificante, a não ser como agente transformador. Temos contos de origem portuguesa (ariana), americana (pretendida turana), africana (raças inferiores) e mestiça (formação recente).

Entre os primeiros destacam-se todos aqueles contos que têm análogos nas coleções europeias e especialmente portuguesas. Citaremos, como espécimens, O Bicho Manjaléu, Os três coroados, O sargento verde, Príncipe cornudo, Maria Borralheira, João e Maria etc.

De origem indígena coligimos diversos, muito popularizados e repetidos por toda parte. Alguns deles têm seus paradigmas originais entre os colhidos por Couto de Magalhães no seu livro O selvagem.2 Os que vulgarizamos agora correm entre nossas populações cristãs. São muito diversos dos de origem portuguesa, cujos originais primitivos podem ser cotejados nas coleções de Adolfo Coelho e Teófilo Braga. Os mais notáveis são do ciclo do cágado, o jabuti dos índios, e do ciclo da raposa, a micura dos tupis. Tais são: O cágado e a fruta, O cágado e o teiú, O cágado e o jacaré, A onça e o veado, Amiga folhagem etc. Um ou outro desses contos tem análogo em Portugal e se prendem pela maior parte do ciclo europeu do renard.3 É incontestável, porém, que os nossos indígenas, além dos grandes ciclos de contos do jabuti e da onça, tinham também muitos contos da raposa (micura).

Os negros também contribuíram com o seu contingente e diversos contos de proveniência sua correm entre nós.

Não são tão fantasiosos como os portugueses, que se perdem no vasto ciclo de mitos arianos, os mais belos da humanidade; mas têm uma certa ingenuidade digna de ser apreciada. Constituem a terceira secção da presente coletânea, de parceria com as historietas sobre temas africanos, bordadas pelos mestiços. No terreno dos contos parece-nos que não têm ficado inativos, e alguma coisa têm produzido sobre elementos fornecidos pelas três raças mães. Neste número estávamos quase tentados a incluir a Mãe d’água, que nos parece, por um lado, ser tupi, e por outro ariano, ou de formação posterior e mestiça sobre elementos túpicos e europeus. Não podemos decidir com certeza e cortar a dúvida. Incluímo-lo na secção de origem portuguesa. O agente transformador neste terreno é principalmente o mestiço. O conto de origem indígena, A onça e o bode, é o mesmo publicado por Couto de Magalhães sob nº XII em O selvagem. O nosso povo substituiu o veado pelo bode e fez outras pequenas alterações. O mesmo dá-se com diversos contos portugueses, indígenas ou africanos, que se encontram modificados entre nós. A questão das origens nem sempre é fácil decidir: em muitos casos ficamos realmente embaraçados.

O conto O macaco e o rabo, por exemplo, que incluímos entre os africanos, encontra-se com o título O rabo do gato nos Contos populares portugueses, do Sr. Adolfo Coelho. Supomolo antes de origem africana. É um grande abuso dos escritores portugueses o falarem sempre das tradições e costumes de seu povo, como se ele nunca tivesse estado em contato com outras raças nem terras das conquistas e sido influenciado por elas. É evidente, porém, que as comunicações comerciais e coloniais e diretas e constantes dos portugueses com africanos, americanos e asiáticos; o fato das classes diretoras das suas colônias serem sempre compostas de indivíduos da metrópole, que para ali voltavam, levando às vezes família constituída durante o seu mandato; o fato de muitos filhos das novas terras se alistarem nas milícias e irem ter à Europa; a volta para ali de muitos negociantes ricos, já afeitos aos hábitos das novas gentes, o que ainda hoje acontece; a estada, em particular de muitos brasileiros, especialmente estudantes, em Portugal, já não falando nos antigos escravos negros, índios e mamelucos; todos estes fatos são mais que suficientes para garantirnos a veracidade da coisa. Pode, entretanto, bem ser que o conto de que falamos seja de origem europeia, e não fazemos disto grande questão. É verdade que não se poderá prová-lo só pelo fato de ter ele um análogo em Portugal.

Também alguns contos do ciclo do jabuti e da raposa têm semelhantes tradições arianas e ninguém lhes contestará a origem selvagem. Sabe-se que as criações míticas seguem também uma ordem e obedecem a certas leis. O seu paralelismo explica-se pelas leis fundamentais do espírito humano, as mesmas por toda a parte.

Sobre nossos contos haverá muito o que dizer no tocante a comparações de mitos de outros países, e especialmente sob o ponto de vista da teoria cósmica ou solar. Tais estudos, entretanto, são por enquanto prematuros. Só depois de uma vasta coleção que abranja todas as províncias se poderá tentar semelhante empresa. Carlos Frederico Hartt pondera que a nossa lenda túpica do jabuti que vence o veado (em Sergipe é o sapo que vence o veado) tem análogas em África e no Sião. Couto de Magalhães colheu-a e a publicou à pág. 185 de O selvagem. Nós encontramo-la também na tradição oral do Norte com a modificação indicada. Não negamos o fato alegado pelo falecido professor americano; parece, no entanto, que não era mister ir tão longe para encontrar as lendas paralelas àquela.

Eis o que diz o Dr. Gustavo Dodt numa carta ao autor de Oselvagem:

Comparações destas poder-se-iam multiplicar, trabalho aliás inútil quanto aos contos de origem portuguesa entre nós, que se prendem ao corpo de tradições indo-germânicas, que têm sido objeto dos mais acurados estudos. Qualquer curioso, compulsando, por exemplo, a coleção alemã dos irmãos Grimm e a italiana de Comparetti e d’Ancona, irá descobrir inúmeras lendas e fábulas análogas às nossas de origem portuguesa.

As de origem indígena e africana têm aqui e ali os seus congêneres. Iniciamos em tempo este trabalho, que abandonamos, por nos parecer mais enfadonho que valoroso. Dos encontros e paralelismos que então descobrimos, damos apenas aqui um caso. O mito cósmico dos nossos índios, com que explicam a separação do dia e da noite, tem bastante analogia com a lenda da Nova Zelândia, que dá conta da separação do céu e da terra. O mito neozelandês é mais épico e formoso; em ambos, porém, procura-se explicar de dois fenômenos capitais; em ambos fala-se de esposos que estavam ou vieram ficar separados, e trata-se de uma revolta ou desobediência. Citemo-los para estudo comparativo, segundo as lições de Couto de Magalhães e de Tylor.6 O mito cósmico neozelandês intitula-se Filhos do céu e da terra, e é como segue:

Belíssimo episódio cósmico de um povo selvagem e quase desconhecido!...

Vejamos o mito tupi. Couto de Magalhães intitula-o Como a noite apareceu. Ei-lo:

Éesta a lenda; comparem-na com a neozelandesa.

Dentre os contos indígenas, alguns passaram às populações cristãs do país, e outras não. Daquele transcrito não encontramos vestígios na tradição que consultamos. O mesmo deve ter acontecido a muitos africanos por certo e alguns portugueses: não passaram às nossas populações atuais. Mas não é somente nas canções e contos populares que se encerra tudo o que devemos às três raças que habitam o país. Aos portugueses devemos as dádivas principais de nossa civilização nascente; somos-lhes obrigados pelas ideias políticas e sociais que nos regem; ainda hoje sua velha legislação civil é a nossa.

Aordem religiosa, política, jurídica e social são entre nós obra europeia. É inútil comentar a influência e ação combinada destas instituições sobre o desenvolvimento de um povo.8

Os índios não são credores somente do influxo de seus yreytos ou yeroquis e de suas lendas. O uso de muitas plantas medicinais, o emprego de muitas indústrias rudimentares de jiquis, gererês, tapitis, urus; a manipulação de algumas substâncias comestíveis, como a carimã e a tapioca etc, devemos aos selvagens. Muitos outros usos e costumes, e até crenças fantásticas, como a do Caipora, passaram às nossas populações atuais; é verdade, porém, que as lendas de Sumé, Jeropari e Tamandaré perderam-se e o nosso povo as ignora.

Araça africana tem tido no Brasil uma influência enorme, somente inferior à influência da portuguesa; penetrou em nossa vida íntima e por ela moldou-se em grande parde a nossa psicologia popular. É fácil compreendê-lo.

Araça africana entre nós conta-se também como raça invasora e este fato merece atenção.

Oeuropeu julgou-se fraco para repelir o selvagem e para o amanho das terras, e recorreu a um auxiliar poderoso: o negro d’África. Ao passo que o índio, em diminuto número aliás, não excedente talvez a um milhão, tornava-se improdutivo, fugia, esfacelava-se e morria, durante mais de três séculos chegavam as levas de africanos, robustos, ágeis e domáveis, que vinham desbravar terras, fundar as fazendas e engenhos, construir as cidades e viver no seio das famílias coloniais.

Adiferença é enormíssima. Só um caboclista inconsciente poderá negá-la.

Oíndio foi um componente que se viu desequilibrado e feneceu; o negro um aliado do branco que prosperou.

Acresce que o número de africanos transportados ao Brasil, durante mais de trezentos anos, foi muito superior à população cabocla primitiva. Computam-se aqueles em milhões e toda essa gente válida e fecunda prosperou na América. O próprio fato da escravidão serviu para ainda mais vinculá-la ao branco.

As escravas, e raro era o colono que não as tinha, viviam no seio das famílias no serviço doméstico: daí o cruzamento natural; apareciam os mestiços, e novos laços se criavam. Os negros trabalhavam nas roças, produzindo o açúcar, o café, e todos estes gêneros chamados coloniais, que a Europa consumia.

Só por estes três fatos, a escravidão, o cruzamento e conchego doméstico, e o trabalho, é fácil aquilatar a imensa influência que os africanos tiveram na formação do povo brasileiro.

Aescravidão operou como fator social, modificando nossa psicologia, nossos hábitos e nossos costumes.

Habilitou-nos por outro lado a arrotear as terras e suportar em descanso as agruras do clima. Desenvolveu-se como fator econômico, produzindo as nossas riquezas, e o negro foi assim um robusto agente civilizador.

Ocruzamento modificou as relações do senhor e do escravo, trouxe mais doçura aos costumes e produziu o mestiço, que constitui a massa de nossa população e a beleza de nossa raça. Ainda hoje os mais lindos tipos de nossas mulheres são essas moças ágeis, fortes, morenas, de olhos e cabelos negros, em cujas veias, por certo, circulam, já bem diluídas, muitas gotas de sangue africano. O escravo foi todo o nosso passado, e até pouco era todo o nosso presente. “A Costa d’África civilizou o Brasil”, disse um de nossos homens de estado e disse uma verdade.

Onegro influenciou toda a nossa vida íntima, muitos de nossos costumes foram por ele transmitidos. Basta lembrar, por exemplo, que a cozinha genuinamente brasileira, a cozinha baiana, é toda africana. Muitos de nossos bailados, danças e músicas populares, uma literatura inteira de canções ardentes, tem essa origem. É pena, pois, que essa raça enérgica tenha sofrido o labéu da escravidão; fazemos um voto para se reivindique o seu lugar em nossa história. Havia outros meios de utilizar o negro sem aviltá-lo. O índio, por seu lado, foi também muito cruamente tratado e é admirável que, nestas condições, não tenhamos tido aqui guerras de raças, além dos pequenos episódios dos Emboabas, Mascates e Balaios.

De tudo que havemos dito é fácil a conclusão. Das três raças, que constituíram a atual população brasileira, a que rastro mais profundo deixou foi por certo a branca; segue-se a negra e depois a indígena. À medida, porém, que a ação direta das duas últimas tende a diminuir, com o internamento do selvagem e a extinção do tráfico de negros, a influência europeia tende a crescer, com a imigração e pela natural tendência de prevalecer o mais forte e o mais hábil. O mestiço é a condição desta vitória do branco, fortificando-lhe o sangue para habilitá-lo aos rigores do clima. É uma forma de transição necessária e útil que caminha para aproximar-se do tipo superior.9 Seja-nos permitido repetir algumas palavras em que esboçamos noutro lugar, e há vite e seis anos, esta ordem de ideias, referidas então pela primeira vez às populações nacionais:

Araça primitiva e selvagem está condenada a um irremediável desaparecimento.15 Dos dois povos invasores, o negro resistirá ainda por muito tempo; ir-se-á modificando no mestiço e ajudando, destarte, a formação do branco brasileiro, que acabará por triunfar de todo, não devendo, porém, nunca esquecer que foi ajudado pelas sofredoras e robustas raças americanas a conquistar este solo e a fundar uma nacionalidade, que pode um dia ser ainda original e forte.

Acondenação à morte dos aborígenes é fato confirmado pela história de todas as invasões nos países habitados por povos selvagens, e não podemos melhor concluir estas páginas do que citando as seguintes palavras de Quatrefages sobre a Polinésia:

Contos Populares do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Contos Populares do Brasil, de Sílvio Romero, clássico brasileiro em domínio público. A edição reúne uma introdução e 88 narrativas da tradição oral, organizadas em contos de origem europeia, indígena, africana e mestiça, com texto de leitura em ortografia atualizada.

Ir para o carrinho
Mercado de Contos Populares do Brasil

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de Contos Populares do Brasil

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 1 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo