A carteira de meu tio

Universo da obra

A carteira de meu tio

Capítulo 1 · A carteira de meu tio

Introdução et cetera

EU....

Bravo! bem começado! com razão se diz que — pelo dedo se conhece o gigante! — Principiei tratando logo da minha pessoa; e o mais é que dei no vinte; porque a regra da época ensina que — cada um trate de si antes de tudo e de todos.

Aquele que enrugar a fronte com esta minha franqueza, ou é um velhaco ou um tolo: se for velhaco, não espere que eu lhe dê satisfações; pode ir seguindo a sua derrota; abra as velas do seu barco, faça boa viagem, pois que lhe sopra vento galerno e propício, e não se importe comigo. Agora, se for tolo, o remédio é antigo e sabido: — peça a Deus que o mate, e.... et cetera.

Egoísmo! bradarão aqueles que não vêm meio palmo adiante do nariz: patetas! lhes respondo eu de antemão. A regra, a que me cingi, não tem nada de vil nem de baixa; e a prova é que ela nos vem dos grandes, que não são vis, e se observa no poleiro político, que não fica em baixo.

Eu sigo as lições dos mestres.

No pronome Eu se resume atualmente toda política e toda moral: é certo que estes conselhos devem ser praticados, mas não confessados; bem sei, bem sei, isso é assim: a hipocrisia é um pedaço de véu furtado a uma virgem para cobrir a cara de uma mulher devassa: tudo isso é assim: mas o que querem?... ainda não sou um espírito forte completo, ainda me não pude corrigir do estúpido vício da franqueza.

Eu digo as coisas como elas são: há só uma verdade neste mundo, é o Eu; isto de pátria, filantropia, honra, dedicação, lealdade, tudo é peta, tudo é história, ficção, parvoice; ou (para me exprimir no dialeto dos grandes homens) tudo é poesia.

Pátria!... é verdade: por exemplo, que é a pátria?... ora eu vou dizer em poucas palavras o que ela é, pelo menos aqui na nossa terra.

A pátria é uma enorme e excelente garoupa: os ministros de estado, a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séquito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama — nós —, o séquito um pouco mais numeroso se compõe dos seus afilhados, e se chama — vós —, e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo se denomina — eles —: ora agora aqui vai a teoria do Eu: os ministros repartem a garoupa em algumas postas grandes, e em muitas mais pequenas, e dizem eloquentemente: «as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós» e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles. O resultado é que o tolo do povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séquito passam às mil maravilhas à custa dela!

Eis aí o que é a pátria atualmente!

Se pois a religião do Eu é tão cultivada lá por cima: porque não a cultivarei também apesar de andar cá por baixo?... a verdade é a verdade em toda parte, e tanto no sobrado, como na casa térrea.

Viva o Eu!

Bem fazem os Ingleses que escrevem sempre Eu com letra maiúscula; seguindo-se daí que cada Inglês entende que não há ninguém no mundo maior do que ele: o povo inglês é por isso um povo maiúsculo; e eu tenho cá para mim, que este respeito que os Ingleses consagram ao pronome Eu é a base, e a primeira causa da fidelíssima aliança, que une o nosso governo com o da Inglaterra. Sagrados laços esses, que foram apertados pelo Eu!...

Mas que vergonhosa contradição! tenho despendido mil palavras a falar do Eu em abstrato, e ainda não disse nada a respeito de mim mesmo, como o dogma ensina! triunfe pois o concreto sobre o abstrato! o concreto é este criado dos senhores leitores: vou já emendar a mão; estou em cena.

Senhores, eu sou sem mais nem menos o sobrinho de meu tio: não se riam, que não há razão para isso: queriam o meu nome de batismo ou de família?... não valho nada por ele, e por meu tio sim, que é um grande homem. Estou exatamente no caso de alguns candidatos ao parlamento e a importantes empregos públicos, cuja única recomendação é neste o ser filho do Sr. Fulano, naquele ser neto do Sr. Beltrano, e até às vezes naquele outro ser primo da Sra. D. Sicrana.

Quererão observar-me, que, em vez de me declarar sobrinho de meu tio, deveria antes apresentar-me, como filho de meu pai?... eis aí uma asneira como tantas outras! eu gosto de cingir-me aos usos de minha terra, e há nela muita gente, mesmo, ou principalmente entre os senhores fidalgos, que costuma esquecer-se do modo o mais completo, de quem fora seu pai: a moda é esta: agora a razão de tão inocente capricho, que a digam os Excelentíssimos esquecidos.

Sou, portanto, o sobrinho de meu tio, e tenho dito: na atualidade já não é qualquer coisa ser um homem sobrinho de seu tio: e se não, que responda uma das primeiras nações do mundo, porque se entregou amarrada de pés e mãos a um senhor só e simplesmente por ele ser sobrinho de seu tio.

Aceitem-me pois tal qual sou, sobrinho de meu tio, e nada mais: e nem preciso, nem desejo ser outra coisa.

Aos vinte anos de minha idade parti para Europa, a fim de completar os meus estudos (à custa de meu tio, já se sabe). Estudei com efeito muito em Paris, onde assentei a fateixa: oh! sim, estudei muito! passeei pelos boulevards; fui aos teatros; apaixonei-me loucamente por vinte grisettes; tive dez ou doze primeiros amores: por me faltar o tempo não pude ver uma só biblioteca; por me acordar sempre tarde nunca frequentei aula alguma; e no fim de cinco anos dei um pulo à Alemanha, arranjei uma carta de doutor (palavra de honra que ainda não tive a curiosidade de examinar em que espécie de ciência), e voltei para este nosso Brasil, apresentando-me a meu tio logo no primeiro instante com as mais irrecusáveis provas do meu aproveitamento, isto é, vestido no último rigor da moda, falando uma algaravia, que é metade francês e metade português, e ostentando sobretudo por cima do meu lábio superior um bigodinho insidioso, por baixo do meu lábio inferior uma pera fascinadora, e para complemento desses encantos, um charuto aromático preso de contínuo entre os lábios, perfumando a pera e o bigode.

Meu tio ficou quase doido de alegria com a minha chegada: abraçou-me, deu-me beijos, chorou, riu-se, e fez-me trezentas perguntas, que eu muito naturalmente satisfiz com trezentas mentiras: fiquei um mês em companhia do velho para matar-lhe as saudades.

Meu tio, pelo que posso julgar, é um homem que sabe muito, e que fala pouco: nunca foi eleito deputado, por ter essas duas terríveis qualidades. Felizmente eu sou o avesso do bom velho; não sei coisa alguma nesta vida, e falo mais do que uma velha metida a literata: está visto que, se eu já tivesse quarenta anos, entrava necessariamente em alguma lista tríplice para senador.

Passou enfim o mês consagrado a matar as saudades de meu tio, e em uma tarde, em que eu me achava à janela do meu quarto saboreando um primoroso havana da Bahia, e lembrando-me da minha boa vida de Paris, entrou o velho e veio sentar-se defronte de mim.

— Adivinho em que estavas pensando, sobrinho; me disse ele.

— Pois em que, meu tio?... perguntei.

— Pensavas na vida que deves seguir.

Confesso que até aquela data nunca me havia ocupado um só instante de semelhante bagatela; entretanto arranjei, como pude, um certo ar de melancolia, e respondi:

— É verdade.... é verdade.... era isso mesmo.

— Ora vejamos, tornou-me o velho: que é que pretendes ser?...

— Tenho assentado, que devo continuar a ser sempre o sobrinho de meu tio.

Lágrimas de ternura arrasaram os olhos do pobre homem!

— Mas além de seres meu sobrinho, não podes deixar de te ocupar de alguma coisa, disse-me ele.

— Se em suma isso for indispensável....

— Sem dúvida; consulta pois as tuas disposições, e decide.

Pensei.... pensei.... e pensei....

— Decidiste?

— Sim senhor, e irrevogavelmente.

— O que queres ser então?...

— Político, meu tio.

Com efeito, do mesmo modo que sucede a todos os vadios de certa classe, a primeira ideia, que me sorria, tinha sido a política!

— Mas olha que a política não é meio de vida; observou o velho.

— Engano, meu tio! a pátria deve pagar bem a quem quer fazer o enorme sacrifício de viver à custa dela.

— Bom: já vejo que estás adiantado na moral do século: julgas-te porém preparado para entrar e aparecer na política?...

— Estou a par de todos os conhecimentos humanos; cheguei há um mês de Paris.

— Melhor ainda: tens as duas principais qualidades, que são indispensáveis ao homem, que quer subir: és impostor, e atrevido.

— Obrigado, meu tio.

— Mas cumpre que estudes ainda.

— Convenho: estou pronto a voltar para França.

— Não; não é lá que deves estudar agora.

— Então onde?...

— Em um grande livro.

— Qual?...

— No livro da tua terra.

— Diabo! eu sábia que no Brasil haviam inteligências descomunais, e homens enciclopédias; tinham-me, porém, asseverado, que, dessas inteligências, umas eram engarrafadas, e outras capazes de tudo, de tudo, e de tudo, menos somente de fazer um livro!

— Não te falo dos livros, que escrevem os homens, sobrinho: refiro-me ao livro que só se pode ler, viajando e observando.

— Ah!

— Concordo pois com a tua sábia resolução: serás político; mas com a condição de fazeres o contrário do que fazem os grandes estadistas da nossa terra.

— Então que é que eles fazem, e que é que eu devo fazer, meu tio?...

— Eles empregam no Brasil uma governação que aprendem nos livros da França e da Inglaterra; improvisam no mundo novo as instituições do mundo velho, algumas das quais têm tanta relação com as nossas circunstâncias, como um ovo com um espeto!

— E eu?...

— E tu estudarás o que convém ao teu país, no que se passa nele, e nos costumes do nosso povo.

— E portanto?...

— E portanto, já amanhã te hás de pôr a caminho.

— Misericórdia!... amanhã já?!

— Sem dúvida: o melhor político é aquele que acorda mais cedo: irás viajar por tua terra: dar-te-ei para isso o meu cavalo ruço-queimado.

— Outra vez misericórdia, meu tio! O seu cavalo ruço-queimado é um ronceiro diabólico! anda mais devagar, do que as obras da nação.

— Por isso mesmo: quero que a tua viagem seja vagarosa e demorada, para que melhor observes.

A só ideia de viajar no ruço-queimado de meu tio era capaz de desanimar ao mais teimoso e emperrado dos pretendentes políticos: o tal cavalo ruço-queimado é uma espécie de hipogrifo, que apenas gasta três horas para vencer uma légua: se ele tivesse existido no tempo dos antigos e sábios sacerdotes do Egito, andar um dia no ruço-queimado de meu tio seria a última prova imposta àqueles que quisessem ser admitidos no sapientíssimo grêmio, e penetrar os recônditos mistérios.

Asneira e soleníssima asneira de meu tio! Que maldita escola política concebeu ele! Pois deveras será necessário estudar nos livros dos homens, ou ainda mesmo no da experiência, para um moço de esperanças, como eu, ou qualquer outro tornar-se apto para ser deputado, presidente de província, ou ministro de estado?... Eu entendo que não: nos bailes, nos teatros, nas visitas e nos cumprimentos é que se demonstram os futuros estadistas: vale mais uma carta de um compadre ou sócio de ministro, mais ainda a recomendação da Ex.ma quarentona, com quem dançamos, e passeamos no baile, do que um diploma da mais célebre academia, e as provas as mais evidentes de uma inteligência superior: o patronato é a placenta da sabedoria, e a medida do mérito: tomara eu ser afilhado de algum bom padrinho, que verão como fico imediatamente sábio, e até mesmo benemérito da pátria!

Mas, de que serve a filosofia, quando se tem por diante um homem teimoso e enfesado, como meu tio?... eu estava desesperado; demonstrei com toda força da lógica a inconveniência da viagem, e a incapacidade do cavalo ruço-queimado, tudo foi em vão: o velho embirrou.

— Hás de ir, exclamou ele, e amanhã sem falta.

— Meu tio, aquele cavalo não merece a minha confiança; não lhe posso dar o meu voto.

— Que me importa!

— Condena-me, portanto, a uma viagem monótona e aborrecida!

— Quero que estudes.

— Não saberei ler, nem entender uma só palavra do seu livro.

— Dar-te-ei uma intérprete, que te ensinará a compreendê-lo.

— Meu tio, uma há de concordar por força com um substantivo feminino; veja bem o que diz!

— Repito o que disse: uma intérprete.

— E quem é ela?...

— A mais bela e respeitável Senhora!

— O que é que está dizendo, tio do coração?...

— Falo sério.

— A mais bela?!!! E quantos anos tem essa incomparável Senhora?...

— Trinta.

— Trinta?! Perdoe, meu tio; mas, deveras, ela é bonita?...

— Adorável....

— E há de viajar comigo?...

— A teu lado.

— Olhe que isso tem seus perigos: suponhamos, que eu me apaixone....

— Estimarei muito, e que lhe sejas fiel.

— Porque, meu tio?...

— Porque serias o primeiro, que lhe conservasse fidelidade.

— Então ela?...

— Já recebeu juramentos de amor e fidelidade sem conta, e nem por isso é menos desamada e atraiçoada.

— Pobre moça! já se vê que deve ter sofrido muito! espanta-me porém nunca ter ouvido falar a respeito dela.

— Pois o seu nome anda na boca de todos.

— E onde mora essa beleza?...

— Num túmulo.

— Pior está essa!... então ela vive....

— Não; está morta.

— Morta, meu tio?...

— E nunca viveu.

— E vossa mercê quer que eu viaje com uma defunta?...

— É verdade.

— Isto é uma charada indecifrável!

— Amanhã a decifrarás: apronta-te, que, antes de montar a cavalo, receberás em teu seio a tua companheira de viagem.

— No meu seio?... uma defunta?...

Meu tio não me deu resposta; sorriu-se tristemente, voltou-me as costas, e foi-se.

Fiquei fora de mim, e não dormi toda a noite: como sei bem que espécie de homem é meu tio, tratei de arranjar a minha mala de viagem; porque, por fas ou por nefas, estava decidido, que eu partiria na manhã seguinte.

Ao romper da aurora, veio logo o velho chamar-me; almoçamos juntos, e logo depois recebi de suas mãos uma bolsa bem recheada, e um enorme cartapácio, que ele chamava — sua Carteira — e onde eu deveria escrever as minhas impressões de viagem.

— Agora, vem cá; disse-me com ar grave.

Lembrei-me da formosa defunta; confesso, que a curiosidade começava a transpirar-me até pela ponta do nariz.

— Onde vamos, meu tio?... perguntei.

— Vou confiar-te a tua bela companheira de viagem.

— Qual?... a defunta?...

— Sim; vem comigo.

Saímos de casa.

À porta estava já selado e pronto para a partida o terrível cavalo ruço-queimado; ah! maldito! no rápido olhar que de passagem lhe lancei, contei-lhe um por um todos os ossos, e o diabo nem por isso estava magro: vejam só que organização de animal!

Acompanhando a meu tio, entrei com ele no seu jardim, e dirigindo-nos ambos a um bosquezinho de ciprestes e de árvores da independência, um pouco enfesadas e tristes, descobri por entre alguns pés de perpétuas roxas, um túmulo extremamente pequeno, que teria, quando muito, um palmo de comprido, quatro polegadas de largo.

— Eis-aqui! disse meu tio suspirando.

— Pois é isto?... perguntei admirado.

— Sim; é isto mesmo.

— E a moça, meu tio?

— Está aí dentro encerrada.

Eu me sentia cada vez mais curioso e surpreso.

— Dize, o que vês sobrinho?

— Vejo sobre este túmulo uma pintura rude, que representa uma lindíssima donzela escorregando de um berço para uma cova: é célebre!... a desgraçada ainda está com metade do corpo no berço, e já tem os pés metidos dentro da cova!

— É isso mesmo; tornou o velho suspirando outra vez.

— Então, meu tio, esta senhora, que passou logo do berço para o túmulo, já nasceu moça feita?...

— É verdade.

— Cada vez compreendo menos!...

— Lê o seu epitáfio.

Li o epitáfio: continha apenas cinco palavras: era o seguinte:

«AQUI JAZ QUEM NUNCA VIVEU.»

— Agora, meu sobrinho, abre esse túmulo, abre os caixões que encontrares, e recebe em teu seio a Santa Mártir, que dentro estiver encerrada.

— Meu tio, aqui dentro não pode estar senão uma boneca.

— Abre, sacrílego! bradou o velho com voz forte e com aspecto ameaçador.

Abri o túmulo e encontrei primeiro um caixãozinho de ouro; abri também este, e encontrei um outro caixãozinho de prata; abri ainda este, e encontrei um terceiro de chumbo, e dentro deste, finalmente, envolvido em uma espécie de mortalha de veludo verde e amarelo, vi um pequenino livro, em cuja primeira página li o seguinte título:

CONSTITUIÇÃO DO IMPÉRIO DO BRASIL

25 de março de 1824.

TIPOGRAFIA DE SEIGNOT-PLANCHER.

Olhei para meu tio: o nobre velho tinha os olhos cheios de lágrimas: depois de um curto silêncio, disse-me:

— Eis-aí, pois, a Santa Mártir, meu sobrinho: quando ela nasceu, um povo inteiro saudou-a, como a fonte inesgotável de toda sua felicidade; como o elemento poderoso de sua grandeza futura; saudou-a com o entusiasmo e a fé com que os Hebreus receberam as doze Tábuas da Lei: pobre Mártir! não a deixaram nunca fazer o bem que pôde: apunhalaram-na, apunhalam-na ainda hoje todos os dias, e entretanto cobrem-se com o seu nome, e fingem amá-la, os mesmos sacrílegos, que a desrespeitam, que a ferem, que a pisam aos pés!...

Meu tio respirou um momento, e depois continuou:

— Eis-aí; eu a deposito em tuas mãos; vai e viaja com ela; observa o que se passa em nossa terra, e compara o que observares com o que ela te disser em seus sábios preceitos: escreve tudo; porque quando a Carteira de teu tio estiver cheia das tuas impressões de viagem, e enfim, voltares a ter comigo, terás já aprendido a grande verdade, a única tábua de salvação do Estado, o remédio santo e exclusivo para curar todos os nossos sofrimentos políticos; isto é, terás reconhecido por experiência, que a Constituição nunca foi e não é ainda hoje executada; e que, quando o for, o Brasil será feliz e apreciará devidamente e mais que até agora a sua bela monarquia.

Não tive nada que responder a meu tio: voltamos ambos para casa, e fazendo as nossas últimas despedidas, e tendo guardado cuidadosamente no seio a Constituição do Império, minha adorável companheira de viagem, dispus-me a partir, levando-a, como um talismã sagrado, bem ao pé do meu coração.

Tomei a bênção a meu tio, o qual abraçando-me, disse quase chorando de saudade:

— Vai, sobrinho, toma sentido em ti, e no que vires; sobretudo, não escrevas parvoíces na Carteira de teu tio; estimo que sejas o avesso de todos os viajantes, isto é, que não pregues mentiras.

— Farei por isso, meu tio.

E já eu estava com o pé no estribo, quando o bom do velho me tornou:

— Oh lá, espera, leva mais isto.

Voltei os olhos e vi nas mãos de meu tio alguns outros pequenos livrinhos no mesmo formato da Constituição, que eu já tinha comigo.

— Pois ainda mais?...

— Sim, são uns filhinhos da bela moça, que levas contigo; alguns são muito mal criados, outros, verdadeiros inimigos de sua mãe, achando-se com ela em evidente contradição, mas, enfim, são leis do Império, e é preciso respeitá-las; leva-os em tua companhia, e quando tiveres necessidade, consulta com eles.

Recebi os livrinhos: eram os nossos códigos, a lei de eleições, a da guarda nacional, e algumas outras principais da nossa coleção de leis; arranjei este novo presente dentro da minha mala, e disse adeus a meu tio.

— Boa viagem! exclamou o velho.

— Duvido muito, senhor! respondi eu enterrando inutilmente as esporas no ventre do impassível ruço-queimado.

Finalmente, parti sem saber para onde; perdi de vista a casa de meu tio, e ao menos por desenfado, pretendo escrever tudo quanto me parecer curioso ou digno de menção na extravagante viagem que vou fazer.

E porque não há livro sem título, darei ao que sou obrigado a escrever, o que melhor lhe compete; chamar-se-á, pois,

A carteira de meu tio

Sinopse

Narrativa satírica de Joaquim Manuel de Macedo em que um jovem, protegido pela influência do tio, atravessa o Brasil imperial e expõe com humor a vida política, os interesses privados e os costumes de seu tempo. Edição integral com ortografia normalizada para o português brasileiro moderno, baseada na terceira edição de 1867 da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

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