Universo da obra
Universo da obra
Maitê Azevedo chegou ao Hotel Miraluz às vinte e duas horas, horário péssimo para consultoria e excelente para escândalo. O saguão tinha mármore claro, orquídeas brancas e funcionários sorrindo com a expressão exata de quem recebera treinamento para não demonstrar pânico. Ela carregava uma mala de mão, um notebook e o contrato que dizia, em linguagem cara, que teria dez dias para impedir a venda forçada do hotel. A crise começara com vazamento de planilhas, denúncia de assédio contra um diretor antigo e uma fotografia de Davi Santoro saindo da suíte vinte com a camisa aberta e o rosto de homem que preferia enfrentar incêndio a explicar vida pessoal. Maitê fora contratada para limpar a narrativa pública. Detestava essa expressão, por isso cobrava caro.
Davi esperava perto dos elevadores privativos. Era alto, moreno, terno escuro sem gravata, olhar de reunião hostil e cansaço guardado com disciplina. Maitê reconheceu o tipo antes de apertar sua mão. Homem acostumado a ser obedecido por cansaço alheio, não por força da própria razão. Ele agradeceu por ela ter vindo tão tarde. Ela respondeu que crise boa raramente respeitava expediente. A mão dele estava quente, firme, e demorou meio segundo além do necessário. Maitê percebeu. Davi também. Nenhum dos dois comentou. O elevador subiu em silêncio até o vigésimo andar, onde o hotel ficava mais quieto, mais caro e mais perigoso para decisões tomadas com pouco sono.
A suíte vinte era o centro do problema. Tinha sala ampla, varanda de vidro, quarto separado por porta dupla e uma mesa onde alguém deixara uma garrafa de vinho aberta, duas taças limpas e uma pasta de couro. Davi explicou que a fotografia vazada fora tirada ali, depois de uma reunião com investidores. Maitê abriu a pasta. Havia relatórios financeiros, contratos antigos e cartas escritas por Beatriz Santoro, avó de Davi, fundadora do hotel. As cartas eram íntimas demais para arquivo corporativo. Falavam de um acordo feito com um sócio desaparecido, de um quarto fechado no vigésimo andar e de uma mulher chamada Irene, nome que não aparecia em nenhum material institucional. Maitê perguntou se ele sabia de Irene. Davi disse que pagava a ela para descobrir, não para fingir delicadeza.
A resposta deveria irritá-la apenas. Irritou e acendeu outra coisa, pequena, incômoda. Maitê gostava de homens educados. Gostava ainda mais de homens que perdiam educação por medo de serem vistos. Davi percebeu o movimento no rosto dela e pediu desculpa, sem baixar os olhos. Disse que o hotel fora da avó, depois do pai, e agora parecia pertencer a advogados, acionistas e gente que jamais passara uma madrugada ali ouvindo cano velho reclamar. Maitê fechou a pasta e caminhou até a varanda. A cidade estava acesa lá embaixo. Davi ficou atrás dela, perto o bastante para que o perfume dele chegasse antes da voz. Ele perguntou o que ela precisava. Maitê respondeu que precisava de acesso total, nenhum segredo e distância física durante conversas depois da meia-noite.
Davi soltou uma risada baixa. Não era charme ensaiado, e isso o tornava pior. Disse que acesso total podia conceder. Segredos dependeriam do que ela chamava de segredo. Distância física, pelo visto, já começara mal. Maitê virou. O espaço entre eles era pequeno, controlável, profissional se ambos fingissem muito. Ela disse que sabia lidar com cliente difícil. Ele respondeu que não era difícil, só estava cercado por gente tentando vender a casa da avó e transformar luto em cláusula de saída. A frase quebrou uma parte do verniz. Maitê viu ali o homem sob a fotografia. Ainda arrogante, ainda perigoso, porém ferido num lugar que explicava a pressa.
O primeiro ruído veio do quarto. Três batidas contra madeira. Davi endureceu. Maitê não se moveu. O hotel era antigo, e ela não acreditava em fantasma quando havia investidor, diretor e parente interessado no prédio. A porta dupla do quarto abriu um centímetro. De dentro veio cheiro de pó de arroz e lavanda, deslocado no ar refrigerado da suíte. Davi disse que aquela porta ficava trancada havia anos. Maitê pegou o celular para filmar. A tela apagou. Sobre a mesa, uma das cartas de Beatriz deslizou sozinha até a borda e caiu no tapete. Maitê se abaixou para pegá-la. No verso havia uma frase que ela jurava não ter visto antes. Irene ainda dorme no vigésimo andar, e Davi não pode vender o que nunca foi dele.
Maitê Azevedo é consultora de crise e aceita salvar a imagem de um hotel de luxo prestes a perder investidores. No vigésimo andar, encontra Davi Santoro, herdeiro do grupo, viúvo jovem, frio em reuniões e perigoso quando deixa a máscara cair. O acordo profissional exige distância. A convivência noturna no hotel, os segredos da antiga dona e uma suíte que guarda cartas íntimas transformam o contrato em desejo, disputa e escolha.
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