Universo da obra
Universo da obra
Todos os fatos têm suas causas físicas ou morais: têm-nas a ambição, o valor...
Há variedades de homens como há de touros e cavalos.
Taine
A energia que o Paraguai revelou durante a guerra despertou admiração entre os contemporâneos, fez algum ruído no mundo e deu, e ainda dá, bastante que dizer. Que houve energia, e energia extraordinária, ninguém nega: nisso estão de acordo amigos e inimigos, atores e testemunhas. A divergência começa quando se procuram suas causas.
Alguém, não conseguindo explicar a ausência de medo de nosso soldado diante da morte, disse que o paraguaio era insensível à dor porque era selvagem. Parece que, de fato, o homem de civilização refinada é mais sensível que o homem não civilizado; mas o paraguaio não era selvagem, e que era superior ao inimigo se verá mais adiante.
Outro entendeu que, se nosso soldado lutava como um leão, era porque não lhe importava morrer: López lhe teria assegurado que, morrendo no campo de batalha, ressuscitaria em Assunção. Tão simples era o nosso soldado que engoliu essa bela mentira.
Não faltou também quem, com toda formalidade, assegurasse que, se os paraguaios nunca pediam a vida ao inimigo, era porque não sabiam castelhano. Assim, nesse juízo, só em castelhano se pede clemência.
O ministro norte-americano Washburn vai por outro lado. Ouçamo-lo: “A razão por que os paraguaios lutam de modo desesperado é que há sempre mais perigo em retroceder do que em marchar adiante”. Atrás, López poria regimentos destinados a fuzilar os covardes, e, com essa estratégia, os combatentes se fariam heróis. Washburn distribuiu essa descoberta ao corpo diplomático em circular datada de Buenos Aires, 24 de setembro de 1868. O homem acabava de sair do Paraguai, parecia bem informado, e aquilo circulou. O segredo do valor com que se batia o maldito paraguaio estava revelado.
É o famoso medo ao tirano. Segundo esse encantador juízo, o paraguaio matava desesperadamente para que López não o matasse.
Nem se entende bem o que se quer dizer, porque, passando-se ao inimigo, o paraguaio não ficaria livre das garras do tirano? Voltaire, isto é, o bom senso, com sua habitual lucidez, já disse no Dicionário filosófico que o temor a um tirano não gera o heroísmo; mas, com Voltaire ou sem ele, qualquer pessoa de juízo suspeita que a excelsa virtude do heroísmo deve vir de outra estirpe que não a do medo covarde.
Quero investigar as causas daquela energia, desentranhá-las, se possível. Meu trabalho será, em parte e de passagem, um modestíssimo ensaio de psicologia histórica, no qual melhor se exercitaria a inteligência de um Taine, a fina penetração de um Renan. Pouparei palavras, segundo meu costume, caminhando depressa, escrevendo “por subtração e não por soma”.
Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.
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