Universo da obra
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É astuto, sagaz, desconfiado. Tinha de sê-lo ao acampar e isolar-se entre inimigos. A culpa é do meio; é do índio ardiloso, do jaguar traiçoeiro, do país, também dos tiranos.
Na diplomacia crioula prosperou a expressão “política guarani”, que se toma em mau sentido. Ela exprime certa habilidade sutil com que o paraguaio sem instrução, mas inteligente, vence os doutores, homens que em outras partes se prezam por espertos. O charlatão mais ou menos lido está perdido nas redes finíssimas da política guarani, traço que há de interessar a quem estuda a psicologia dos povos.
Fala o guarani, isto é, possui o gênio do indígena: língua cheia de astúcias como a estirpe índia que a falava, rica em ironias que castigam a fraqueza humana. Formaram-na o canto dos pássaros, os rumores do vento; mas ela é reflexiva, calculadora em seu raro polissintetismo. Em guarani o pensamento marcha de outro modo, ao contrário do castelhano, começando, por exemplo, pelo possuidor e acabando na coisa possuída; daí que o paraguaio, em sua tradução mental, torture sua inteligência. É uma dificuldade que o estudante vence, contudo, à força de trabalho; uma dificuldade e uma ginástica do espírito.
Falando seu sonoro guarani, é alegre, outro índice de sua saúde física e mental, outra prova de sua superioridade. As raças tristes são desgraçadas, enfermas. “O turco não ri.” O paraguaio, como o francês, é alegre até nos transes apertados. A desgraça não o abate, e nisto se avantaja ao francês, a quem o fracasso desconcerta. Nossa gente, derrotada hoje, torna e retorna à carga. Sabe que vai à morte e zomba dela com ironia piranesca. Um batalhão de soldados assim lutará até morrer o último. “Dos que fomos contra o inimigo”, contava um veterano, “voltei só eu, comendo bolacha e com as tripas penduradas.” E ria o condenado.
Eu dizia que a língua acusa uma faculdade calculadora; e assim é o paraguaio: calculador. Sua imaginação é um pouco seca. A prosódia de seu guarani, com sua descarga de agudos, não se presta aos versos. Sua inteligência é concreta, analítica, nunca flutua no vazio. A fraseologia oca não é seu defeito. É crítico, filósofo a seu modo. Um que nos conhecia bem dizia: de tolo não tem nem um pingo o paraguaio.
Naquilo que ele é, em seu sentimento alegre da vida, tiveram parte sem dúvida as harmonias de sua natureza risonha, seu céu azul, seu horizonte, país do sonho e das flores, onde parece deslocado o instinto feroz e sanguinário. Influiu em seu modo de ser o ar, tanto quanto a raça, a educação guerreira e o alimento. A condição higrométrica do ar no Paraguai é favorável à economia humana: a transição de uma estação a outra não é muito sensível, o que é decisivo, higienicamente falando. Em direção ao Alto Paraná nota-se nessa transição uma igualdade e constância raras. Na saúde do paraguaio, em seu equilíbrio mental, reclamam também sua parte a água e a luz. O paraguaio é como o inca, filho de seu sol rutilante. Com outras águas, outro ar, outro alimento, outra raça e seu sol de fogo, não teria sido tão são, nem tão forte, nem tão ágil, nem tão sofrido. Há regiões no Paraguai onde as pessoas só morrem de velhice.
O médico estrangeiro que mais anos de residência teve no Paraguai, o doutor Stewart, disse a Du Graty: “O clima é tão são e saudável quanto doce e benéfico.”
Não há no mundo país mais saudável que aquele, é a nota de um célebre viajante.
Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.
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