Universo da obra
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Qual era a situação econômica do Paraguai em 1864?
Era a idade de ouro da agricultura e da pecuária. Relativamente, o Paraguai produzia mais que qualquer outro povo americano. Havia chegado ao máximo de produção com o mínimo de consumo. O povo, sem necessidades supérfluas, era feliz em sua simplicidade. Não havia miséria; quase nem pobreza. Chamavam-no “o povo mais feliz da terra”.
O pobre tomava dinheiro emprestado do Tesouro e, dos terrenos do Estado, um pedaço que o Governo o obrigava a cultivar; o que não era muito constitucional, mas era muito conveniente.
Houve pedintes que, percorrendo as estâncias das Missões e aceitando aqui uma vaca de esmola, outra ali, voltavam para casa com uma tropilha que lhes servia de plantel para ficarem ricos.
O mais pobre era proprietário. Para que não houvesse deserdados, o Governo cuidava dos órfãos sem recursos e lhes dava ofício.
Não havia um só paraguaio sem lar. “Cada família tinha sua casa ou choça em terreno próprio”, diz Thompson; e aqui devo notar que o lar dá corpo, forma concreta, sensível, à ideia um pouco vaga, um pouco etérea, de pátria.
O lar é, segundo certa maneira de ver, a pátria. Não sei como explicar-me. Numa família, todos - pai, filhos, mãe - defendem a casa quando vem o invasor. O proprietário mais ignorante compreende que convém defender o que é seu. A pátria, no sentido mais estreito da palavra, vê-se, palpa-se: é a pequena comodidade em que o trabalhador é feliz com sua mulher e seus filhos. O patriotismo no vulgo é o sentimento e o temor de ser perturbado no bem-estar de que goza, diz D’Alembert. “Quando o cultivador não está ligado ao solo, a voz da pátria chega muito atenuada a seus ouvidos”, diz López Martínez. Por algo disse Michelet que um povo se faz patriota multiplicando o número de pequenos proprietários. É assim que, no sentimento da propriedade, o mais doce dos sentimentos, se buscou e encontrou a raiz do patriotismo.
Grande bem era, então, que não houvesse paraguaios sem casa em terreno próprio. O doutor Andrés Gelly viu de perto nossos pais, e a viveza de sua impressão transparece nestas linhas: “Sua família, seu vale, sua pátria, seu governo, a quem idolatra, eis o mundo para um paraguaio.”
E aquela família não era má. Que profundo respeito aos pais! Era o lar romano dos bons tempos. Nele se formaram aquelas almas rústicas, mas honradas e fortes, cujos últimos exemplares vão desaparecendo. Isso vinha de trás. Anglés e Gortari não mentiu ao declarar: “A criação que dão a seus filhos é tão conforme à inteireza que praticavam nossos avós que tenho por certo que, na relaxação do século, só os paraguaios a conservam.”
“O respeito à coisa pública existe até na classe mais íntima da população. Não se saberia citar um exemplo de falta de probidade para com o Estado, nem mesmo da parte da gente mais necessitada”, diz Demersay.
O coronel Centurión, suscitando a memória hoje borrada daquela sociedade, dizia-me: se o Paraguai era o povo mais virtuoso do mundo!
E, num povo assim, cuidado em pôr a pátria em perigo, porque nela está o lar. Até as crianças e a mulher bela e suave hão de empunhar baionetas.
Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.
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