Universo da obra
Universo da obra
O folheto precedente deu motivo a uma carta do general José Ignacio Garmendia, publicada em La Nación, de Buenos Aires. Então o doutor Domínguez respondeu em Los Sucesos, de Assunção, o que segue:
Senhor general dom José Ignacio Garmendia,
Buenos Aires.
Meu distinto General:
Ninguém nega que o Paraguai demonstrou energia sublime na guerra, nem é possível negar que o patético heroísmo há de ter sua explicação ou causa. Os lopistas encontram essa causa em López; e o curioso é que os antilopistas, depois de rugir maldições contra o tirano, acabam também, sem suspeitá-lo, por converter López no único herói dessa Ilíada.
Essa opinião eu não referendo, não quero referendá-la. Creio que o Paraguai foi heroico apesar dos tiranos, de nenhum modo por virtude magnética dos tiranos. Creio que o foi por razões étnicas, físicas, morais, que nada têm a ver com López, tiranos nem terrores. Anjo ou demônio, com minha explicação, López, com alguma injustiça, ficava de lado; e o terreno em que me pus parecia facilitar uma conciliação, já que o herói da guerra era o próprio povo, não somente López. Tive a desgraça de não ser compreendido aqui e vejo, para maior desgraça, que tampouco V. me compreende bem.
Com efeito, V., em amável carta que me dirige desde La Nación dessa capital, encontra “a origem da eletricidade que deu vida ao valor e à constância do soldado paraguaio” no “terror” que López infundia, “na disciplina feroz” que impôs a um “povo acostumado à obediência passiva” por jesuítas, espanhóis e tiranos. E no livro de V., Campanha de Corrientes e do Rio Grande, V. diz também que “López era o fogo sagrado que animava” aquele “exército de crianças, adultos, velhos e inválidos”. Lopismo puro! A avassaladora vontade de um tirano férreo empurra e arrasta um punhado de infelizes até os cumes do heroísmo. V. faz de López um Mitrídates ensanguentado, mas soberbo e estupendo, glorioso à sua maneira, o único herói da defesa, o poeta da guerra!
Mas, se não me engano, no meu folheto Causas do Heroísmo Paraguaio, que V. comenta com gentileza que agradeço, está a refutação de sua carta; e nessa crença recopilo e resumo seu conteúdo nestas linhas que confio à circulação de Los Sucesos. Acrescento muito pouco, quase nada, e sigo a linha reta, brevíssima.
O terror não pode ter a virtude de converter covardes em leões. O heroísmo é o esforço eminente, excelso e supremo. O medo abate, o terror deprime. Voltaire, o fino, o está dizendo: não se tem bravura por temor. O chinês teme seu divino imperador mais do que o paraguaio temia López, e o chinês não é valente. O terror, quando muito, serve às vezes, por momentos, para matar a anarquia ou esmagar o inimigo interior.
Já sei que a disciplina férrea é condição necessária de todo exército, mas não é condição suficiente do exército ideal. Há aquilo que justamente se disciplina: a força mecânica interior e a vontade mais ou menos forte, a energia muscular e cerebral, o motor oculto da máquina humana. Um exército de cafres bem disciplinados não terá a iniciativa, a resistência, o ímpeto de um exército alemão ou francês também disciplinado. De dois cavalos, o árabe e o lapão, disciplinados de igual modo para o hipódromo, vencerá em velocidade e em resistência o árabe, por levar em si maior capacidade nativa, enterrada em seus ossos, músculos e nervos. Pressuposta a disciplina, há exércitos mais ou menos inteligentes na guerra, mais ou menos resistentes a suas fadigas e penúrias. Há em cada variedade de homens diferente capital guerreiro. Enfim, nos exercícios sublimes da guerra, desempenha papel muito principal a arquitetura orgânica que se chama raça.
Vejamos a raça que habitava e habita o Paraguai. Em textos de geografia que correm no estrangeiro, em livros e discursos, diz-se e repete-se que a população do Paraguai é guarani. “Raça indiana de terrível bravura”, V. nos chama em um de seus livros. Valera cria que o povo paraguaio é guarani. Goicochea Menéndez intitulou Guaraníes o folheto em que, acreditando celebrar o valor de nosso povo, canta o valor do índio infeliz, adorna-o com rendas, embeleza-o com sua rauda fantasia. E no Paraguai esse fantasma não existe. Este povo é branco, quase nitidamente branco. Com Azara, que tinha um censo à vista, provo em meu folheto que no Paraguai havia, desde o período colonial, cinco brancos para um homem de cor, índio ou negro; e nas outras colônias, segundo Du Graty, havia vinte e cinco homens de cor para um branco. O que significa, para quem sabe o capital muscular e cerebral superior que supõe o branco, que a energia étnica do Paraguai era de 5 para 1, diante da debilidade de seus vizinhos, cuja expressão era de 1 para 25. É o fundamento matemático da categórica afirmação de Thompson quando diz que, ao começar a guerra, o Paraguai era “fisicamente superior a seus vizinhos”. O argumento é contundente, decisivo, em favor do Paraguai; e, sendo tão decisivo e contundente, V. cala o argumento sem opor outro cálculo, outro censo e outra asserção ao censo colonial, ao asserto de Thompson, aos cálculos de Azara e Du Graty.
Mas há brancos e brancos, e como eram os brancos do Paraguai?
Azara afirma, com afirmação sustentada, que o paraguaio era mais inteligente que seus vizinhos; Azara e Demersay, que era de talhe superior; Demersay e Du Graty, que era menos sanguinário e mais hospitaleiro que os mesmos. Mais brancos, mais altos, mais inteligentes, mais hospitaleiros e menos sanguinários que os outros! A questão não é comigo, General. É com Azara, Demersay, Thompson, Du Graty.
Era também mais sofrido que seus vizinhos, condição tão apropriada para a guerra. “Os naturais desta província do Paraguai são reputados por mais constantes no trabalho que quaisquer outros e denominados por isso os galegos da América”, dizia Pinedo ao rei em 1777. Anglés e Gortari, antes de Pinedo; o doutor Andrés Gelly, antes da guerra; Masterman, na guerra, notaram o mesmo em informes e histórias; e um sábio vivo, o doutor Bertoni, diz também que “o paraguaio, nos ervais, oferece diariamente um esforço muscular sem exemplo na América”; e um médico argentino, o doutor Wilde, diz o que disseram os demais. Resistência maior que a de seus vizinhos para suportar trabalhos, fadigas e dores, por culpa de Wilde, Bertoni, Masterman, Pinedo. É a virtude que há de resplandecer no herói da guerra, fibra metálica que a fadiga inenarrável não há de romper e que há de sustentá-lo nos combates de sete dias travados sem comer e sem dormir, coisa que não se lê nem em Ilíadas, nem em histórias, nem em romances; alento de Encélado que nem a derrota, nem a fome, nem o martírio quebrantaram. Ficamos em que o Paraguai se avantajava aos aliados em inteligência natural, em talhe e em sua pasmosa resistência.
E, porque as qualidades e condições de uma raça ou povo se explicam em grande parte pelo meio ambiente, de passagem, para não romper o equilíbrio, tomei em conta as causas que se dizem físicas: céu, luz, ar, água, solo e alimento; clima, numa palavra. “Estudar uma comarca é estudar uma nação.” E ponho em relevo que o herdeiro dos godos no Paraguai foi são e forte porque se desenvolveu em admirável meio ambiente.
Mas só até certo ponto “o valor e a covardia são fenômenos físicos”. Com licença de Moleschott, nem tudo é física e química no homem. A raça mais nobre e mais esbelta no país mais belo e mais são do mundo pode degenerar, efeminar-se. As vantagens combinadas do meio e da raça são, ou podem ser, anuladas pela educação, pelo costume, pelo hábito. Interrogo a história do período colonial e da conquista, e a história me responde que era a educação do Paraguai viver em guerra: era batalhar pelo único país americano que, desde a conquista até a independência, conheceu o serviço militar obrigatório. Aos dados que dou no folheto, somo o testemunho inestimável de Antequera: “Todos os paraguaios são soldados e até as mulheres do Paraguai são nobres Amazonas.” Ou os mortos não governam os vivos, fracassa a lei da herança, ou os descendentes daqueles soldados e daquelas nobres amazonas hão de nascer com natureza bélica, com estratégia inata. Depois da independência, o povo “seguiu vivendo com o fuzil ao ombro”. O povo composto do maior número de brancos, o mais hospitaleiro e o menos sanguinário, é também o mais aguerrido da América. Mas, com todas essas vantagens, ainda seria pouco menos que selvagem se não soubesse ler e escrever.
Instrução primária. “Desde 1860 não havia soldado paraguaio que não soubesse ler; a própria Europa não oferece exemplo semelhante”, dizia um ilustre compatriota de V., Alberdi; e eu provei, com Azara na mão, que desde o período colonial havia no Paraguai mais escolas primárias que no Rio da Prata. Não preciso dizer que aquela instrução primária não era ideal, mas, tal como foi, era preferível a não tê-la.
Mas ao país em que quase todos os habitantes sabiam ler, o mais aguerrido e todo o mais, faltaria o essencial se não tivesse intenso amor à sua independência. O povo a quem não incendeia esse fogo divino é massa quase inerte. E o Paraguai sentia idolatria por sua independência. Sentiu-a desde cedo. Cria que sua independência perigava, antes e depois de Rosas, razão a mais para amá-la com delírio. V. crê que esse fanatismo pela independência foi coisa que os tiranos incutiram no povo, e não é assim. É o patriotismo segundo os tempos e o meio, resultado da geografia e da história. O Paraguai foi nação antes que nenhuma outra colônia, unidade étnica, com selo próprio. Cerro Porteño é anterior aos tiranos. O patriotismo e o orgulho nacional cresceram com o isolamento, que por sua vez se relaciona com a perpétua ameaça de invasão estrangeira. Nação com frenética paixão por sua independência, na qual não havia habitante sem lar: tal era o Paraguai ao começar a guerra.
E temos, em resumo, as principais causas étnicas, físicas, morais, que fizeram forte o Paraguai.
V. crê que o jesuíta nos acostumou à obediência passiva, erro vulgar que deriva de confundir o Paraguai com as Missões. O jesuíta dominou sobre o índio puro e sem mistura; ao sul do Tebicuary, índio que, por não se haver cruzado com o espanhol, tornou a seus bosques quando da expulsão da ordem. O colono, mestiço em sua origem, branco em seguida, formou o povo paraguaio; e esse colono, longe de deixar-se dominar pelo jesuíta, odiava-o cordialmente. Decretou sua expulsão duas ou três vezes antes que a Europa pensasse em fazê-lo. Questão econômica acendeu o ódio do encomendero ao jesuíta: em prejuízo dos conquistadores e seus descendentes, o jesuíta havia-se apoderado dos melhores campos e ervais do Paraguai.
V. entende que, sob o período colonial, o Paraguai se fazia notar por sua obediência passiva. Lenda! Lenda, General. Lozano comparava o Paraguai a um mar revolto; Pinedo o tinha por infiel e rebelde. Foi a única colônia que registrou em seus anais uma Revolução dos Comuneros.
E os tiranos? Mataram o civismo, mas sem matar as excelsas qualidades do guerreiro sem igual do período colonial.
Parece também crer V. que o exército paraguaio resistiu à Aliança mediante “suas posições inacessíveis”. Eu ignorava que o Paraguai fosse país montanhoso, escarpado, inacessível. Mas sei, de todo modo, que o homem vale mais que as montanhas e os penhascos. “Homens, e não muralhas, defendem as nações”, bela legenda das medalhas distribuídas aos soldados que entraram em Pequim. E, em todo caso, seria irrisória a vantagem do terreno para quem, com canoas, canhões lisos e fuzis de pederneira, tinha de fazer frente ao inimigo que vinha com encouraçados, canhões raiados e fuzis de retrocarga.
Transijamos, diz V. com generoso arranque. Transijamos e abracemo-nos, meu General, digo eu. Paraguaios e argentinos são irmãos na história e na raça, e sempre o serão. Mas convém desterrar a crença de que no medo que López infundia e na natureza do terreno estava o segredo de nossa resistência.
De outro modo, López continuará sendo o único herói da defesa. O doutor Zeballos é menos lopista e mais certeiro quando diz que, sem López, “no solo paraguaio não teriam faltado profetas que, retemperando nos espíritos o varonil vigor, teriam proclamado a guerra desde Curupayty ao Rio Branco e desde Assunção às Altas Cordilheiras”.
A explicação de V. é, de certo modo, perigosa; é lopismo puro, com a graça de se enunciar em tom de antilopismo; convém aos tiranos, olha a aparência das coisas, é a de Washburn, uma preocupação vulgar. A minha é sã e liberal, não convém aos tiranos, penetra nas entranhas da história, busca, encontra ou crê encontrar a alma da raça, que certamente encarnou em López sua vontade indomável, seu orgulho irredutível.
V. proclama um erro psicológico ao dizer-nos que o medo ao tirano fez valente o paraguaio: o medo ao tirano realizando o mais belo milagre do mais belo heroísmo! Eu entendo que o caudal do heroísmo brota de fonte mais pura que o medo covarde aos tiranos.
V., enfim, cobre a cabeça trágica de López com um nimbo de glória que eu, sem desconhecer o que também se deve àquele herói da defesa, dou principalmente à minha pátria, à minha história e à minha raça.
Sempre de V., seu servidor,
Manuel Domínguez
Assunção, 2 de março de 1907.
Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.
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