Universo da obra
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Resumo. O Paraguai era superior ao invasor como raça e nas energias que derivam dessa causa: em inteligência natural, em sagacidade, em generosidade, em caráter hospitaleiro, até em estatura, como disse Azara; até no físico, como disse Thompson; no número de homens brancos, como digo eu. Era um branco sui generis, bravo, forte. Houve alguns poucos homens de cor no Paraguai, e na guerra sua inferioridade em ímpeto e resistência se pôs em evidência: nos primeiros choques se extinguiram.
Era superior pelo meio físico em que se desenvolveu sua raça e nas energias que derivam dessa causa: em sobriedade, agilidade, em ser infatigável, sofrido, muito sofrido, até o limite a que pode chegar a natureza humana.
Era superior em educação, no sentido lato desta palavra, e nas energias que derivam dessa causa: em espírito militar, o espírito de dez gerações guerreiras; em união fraterna; em igualdade democrática; em saber ler e escrever; na consciência de sua superioridade, fé soberana que centuplica as forças; em ser menos fanático pelos frades e mais fanático pela pátria, patriotismo de que é difícil formar ideia sem se pôr, com a imaginação, na mente e no coração de nossos pais.
Era superior por sua condição econômica, no sentido de que cada paraguaio tinha sua casa, seu terreno cultivado, seus gados, seu bem-estar, e dessa situação também brotam energias. É preciso colocar-se no ponto de vista daqueles agricultores e pecuaristas. O invasor tinha todo o aspecto do conquistador: vinha destruir sua felicidade, o encanto em que viviam; esmagaria seu lar e, com o lar, a pátria. Vinha acorrentar o Paraguai! Desde o fracasso de Belgrano aguardava-se sua volta à carga; os jornais de Rosas zombavam de nossa independência, e isso dava raiva até às nossas mulheres. Cria-se que o inimigo degolaria as crianças, que violaria as mulheres. Pode ser que nossos pais se enganassem em parte, mas esse era seu modo de ver e, o pior do caso, é que não podiam ver de outro modo. O patriotismo, assim, já era instinto de conservação. O lar há de ter defensores heroicos.
O Paraguai era superior a cada aliado como nação. Não era como a República Argentina, uma amálgama heterogênea de portenhos e provincianos, federais e unitários que se odiavam de morte; não estava, como o Brasil, fracionado em republicanos e imperialistas, em senhores e milhões de escravos. O Paraguai era uma unidade política, talvez a mais compacta e homogênea que se viu jamais, com uma só vontade, com um só sentimento: no momento do perigo comum, levantar-se-ia como um só homem.
E aquelas energias, devidas às particularidades de sua geografia e de sua história, representavam enorme capital guerreiro.
Enorme capital guerreiro, acabo de escrever, e assim era a verdade. López armou 80.000 combatentes; mas, para conhecer o poder com que fez frente ao inimigo, é preciso multiplicar a massa de seus 80.000 combatentes, cifra visível, por aquelas energias que constituem um fator invisível, e que por isso, por invisível, escapou ao cálculo dos historiadores.
Daí resulta uma força mecânica formidável, que há de ser manejada pelo Marechal, o qual, ao lado de um poder legal ilimitado, possuía uma vontade de ferro. Aquela força, tremenda por sua contextura, bem armada, teria sido invencível; dirigida por um Grande Capitão, teria afogado vinte vezes a Tríplice Aliança entre seus braços de aço.
Mas era colossal também a vantagem que, por seu lado, levava o invasor.
López tinha navios de madeira, e os aliados, encouraçados. López pôs-se em campanha com canhões lisos e fuzis de pederneira, e os aliados entraram em ação com canhões raiados e fuzis de retrocarga, o que é como pôr o Remington contra o Mauser: aqui a vantagem do inimigo era infinitamente grande. López e seus leões estavam presos pela geografia. O inimigo, superior em número, tinha livre comunicação com o exterior. A longo prazo, o heroísmo devia sucumbir.
Mas, levando em conta a qualidade de nossos soldados, compreende-se o frenesi com que entravam em combate, por que atacavam encouraçados em canoas, por que uns poucos homens faziam frente e até derrotavam batalhões inteiros, por que na luta corpo a corpo recobravam toda a sua superioridade, por que era tão terrível seu ataque à baioneta. Cada um de nossos soldados valia por vários inimigos - salvo talvez o rio-grandense, o portenho e o correntino -, por seu ímpeto, por sua bravura sem igual, por sua resistência, por seu orgulho, por sua casta. Nossos soldados de ferro, quando se chamavam Batalhão 40 ou batalhão de qualquer número, eram os primeiros batalhões do mundo! Compreende-se também por que, em toda ocasião, o prisioneiro paraguaio escapava do acampamento inimigo, onde comia bem, para seguir batalhando, faminto, pela causa nacional; por que nem as misérias espantosas, nem o número do inimigo, nem algumas ingratidões do tirano desesperado e aturdido, nem, nas últimas jornadas, o combater sem esperança, puderam quebrantar seu espírito heroico.
Explica-se a constância sublime do veterano inválido que conta como coisa muito natural: “depois de cinco anos de guerra encarniçada, nus e comendo couro duro, ou sem comer nada, demos as últimas batalhas.”
Concluo: Washburn não disse a verdade quando afirmou, em sua circular de 14 de setembro, que López punha atrás dos que entravam em combate batalhões com ordem de fuzilar os que não marchassem adiante. Precisamente sua falta de tática estava em não ter tropas de reserva com essa função nem com nenhuma outra. E, à parte tudo, Washburn, cego pelo ódio a López e a nosso povo, esqueceu-se de haver escrito dois meses antes da citada circular que o Paraguai “sustentou uma guerra com uma bravura e abnegação que hão de fazer dela uma das mais notáveis da história”, repetindo nove dias depois que López, com glória, “sustentou uma luta pela independência nacional quase sem paralelo”: pois não haveria bravura nem abnegação, mas covardia sem sentido comum, em matar para não ser fuzilado; nem glória de nenhuma espécie em valer-se de tão torpe estratégia.
Fica dito que às energias que brotavam de causas internas e externas se deviam aquela bravura e aquela abnegação. Desta sorte, e não pelo famoso medo ao tirano, explico eu o heroísmo que nossa pátria revelou.
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Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.
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