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Causas do Heroísmo Paraguaio

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Causas do Heroísmo Paraguaio

Capítulo 2 · Causas do Heroísmo Paraguaio

II. A formação do paraguaio

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Não está fora de propósito começar em verso. Barco de Centenera disse que ao Paraguai vieram:

Mayorazgos e hijos de señores

De Santiago y San Juan Comendadores

Ou, em prosa clara: o Paraguai foi colonizado pela mais alta nobreza da Espanha, pela melhor gente do melhor tempo, sobretudo por bascos e castelhanos; o que convém ter em conta hoje, quando se concede grande importância à raça, ou à causa interna.

O nobre forte misturou seu sangue com o do guarani, que era sofrido, e nasceu o mestiço, que não era o de outras partes. Aquele mestiço, na cruza sucessiva, foi-se tornando branco a seu modo, porque se aprende na história natural que o tipo superior reaparece na quinta geração; branco sui generis, no qual há muito do espanhol, bastante do indígena e algo que não se encontra, ou não se vê, nem em um nem em outro, separados, por aquilo de que “caracteres latentes, aptidões novas, revelam-se pelo cruzamento, do mesmo modo que em química dois corpos que se combinam formam um terceiro que possui propriedades novas”.

Houve admirável adaptação nesse enxerto do basco ou do godo no indígena, adaptação em que a antropologia já se fixou.

Uma das provas daquela afinidade ou simpatia orgânica é a força prolífica da mistura. Os descendentes degenerados de uma cruza inconveniente no sentido zoológico são quase estéreis, e a população do Paraguai oferece um coeficiente de multiplicação extraordinário: eram cem mil em 1800 e, sem receber imigrantes, eram 1.300.000 em 1862, segundo Du Graty.

Disse que o paraguaio era superior ao inimigo, e preciso prová-lo, mas prová-lo muito bem: este trabalho não tem outro objetivo.

Azara era um tanto maledicente; fixava-se mais nos defeitos que nas boas qualidades. Dizem que era neurótico, e em alguns de seus trabalhos transparece seu mau humor. Digo, portanto, que, se elogiava alguma boa qualidade, seria porque ela era notória, indiscutível. E Azara, o maledicente, escreve:

“Os paraguaios avantajam-se aos de Buenos Aires em sagacidade, atividade, estatura e proporções.” Em tudo.

Prossegue: “Em Buenos Aires, a raça dos mestiços foi-se tornando mais europeia sem conseguir as vantagens mencionadas dos paraguaios.” Isto é sério: o paraguaio melhor que o portenho, e ninguém há de negar que o portenho é gente esperta.

Não é tudo. “Acho que os paraguaios são muito astutos, de luzes mais claras que os crioulos”, isto é, que os filhos de espanhóis e espanholas. O paraguaio, superior ao portenho, é também superior ao crioulo.

Daí se tira que “as espécies se melhoram com as misturas”, antecipando-se a Martin de Moussy e a Waitz.

Mas há algo mais: “Os paraguaios são de luzes mais claras que os espanhóis da Europa.” O paraguaio, superior ao portenho, superior ao crioulo, é também superior ao espanhol da Europa.

Eu não fantasiaria tanto. Um espanhol verdadeiro, sagaz, que estudou o pardo como estudou o quadrúpede e a ave, que esteve vinte anos no Rio da Prata, isto é, que teve tempo de olhar e tornar a olhar as coisas, é quem coloca o paraguaio acima de seus próprios compatriotas.

Buffon achou por bem dizer que “os habitantes do Paraguai são de boa estatura”; o suíço Rengger nos estudou durante seis anos e deu parecer muito favorável sobre a raça paraguaia; Du Graty, o belga, também nos observou, admirando a capacidade mental de nossa gente: suspeitava que o paraguaio fosse superior aos próprios conquistadores. Antes veio Demersay, para averiguar que “os paraguaios possuem todas as vantagens exteriores da bela raça a que pertencem seus pais, unidas aos caracteres morais dos índios de que descendem pelo lado materno”. Em seguida, Thompson cravou no paraguaio seus olhos de inglês e certificou que “a raça paraguaia era fisicamente superior à dos Estados vizinhos”: Brasil, Uruguai e Argentina. Guiado talvez pelos citados, Larousse estampou em seu dicionário este juízo honroso para o Paraguai: sua população “formou uma raça muito bela, certamente igual, se não superior, à dos primeiros conquistadores”. E Quatrefages, homem de ciência, antropólogo se os há, funda-se nas qualidades e condições do paraguaio ao sustentar a vantagem da cruza, sua tese favorita.

Acabamos de ver que Buffon menciona a estatura do habitante do Paraguai como algo que vale a pena consignar. Demersay, nesse ponto, é mais explícito: “A estatura do paraguaio é frequentemente superior à dos europeus. A causa dessa superioridade nos escapa; é preciso admitir influências locais que determinam esse traço de conformação que, por sua generalidade, se torna típico.” A Demersay não agradava afirmar sem provar, e ele se deu ao trabalho de precisar a altura média de nossa gente, obtendo 1 metro e 72 centímetros, dado muito significativo para quem recorda que a estatura média humana é de 1 metro e 62.

Mas o paraguaio bem desenvolvido poderia ser como o patagão, um índio grande, e convém dizer que não era assim. Em nenhuma colônia latina havia tanta população branca como no Paraguai. Havia cinco brancos para cada mulato ou negro, enquanto em quase todas as demais colônias espanholas havia um branco para vinte e cinco indivíduos de cor, e no Brasil um branco para quarenta e cinco negros. Em 1862, o número de índios e mulatos no Paraguai havia diminuído ainda mais, segundo Du Graty. Com esses dados pode-se afirmar que, não relativamente, mas absolutamente, no Paraguai, antes da guerra, havia mais brancos que em qualquer país latino-americano.

Em suma: quatro franceses de autoridade, cada qual por seu rumo - Buffon, Demersay, Larousse, Quatrefages -, um espanhol, Azara; um suíço, Rengger; um belga, Du Graty; e um inglês, Thompson, declaram que no Paraguai habitava uma raça notável por sua estatura e por sua capacidade mental. O espanhol e o inglês, separados por oitenta anos de distância, são terminantes: o paraguaio é superior aos vizinhos, no intelectual e no físico. O espanhol e o inglês não falam por ouvir dizer; estiveram anos e anos no Paraguai, trataram com seus habitantes, estudaram-nos.

E, em geral, não insistiram os viajantes em que nosso povo, como massa, era melhor que outros povos americanos?

Sua capacidade revelou-se inteira no tempo de Dom Carlos A. López. Houve paraguaios que, “para não ficar à toa”, fizeram-se sapateiros, carpinteiros, alfaiates, mecânicos, arquitetos, tipógrafos e músicos. Um só paraguaio era, ao mesmo tempo, tudo isso e algo mais, coisa quase inacreditável.

E não dá também o que pensar o fato de nossos estudantes sobressaírem no estrangeiro entre os demais estudantes? Matemático, médico, normalista, o que quer que sejam, distinguem-se em sua linha. Artilharia, infantaria, cavalaria, marinha, tanto faz: vão adiante, na República Argentina, no Chile. Que o paraguaio estude ou não estude, é inteiramente igual: comissário, vigilante, soldado engajado, operário, peão, busca e ocupa a primeira fila. O que foi apontado acima se presta a maiores reflexões quando se pensa no escassíssimo número de nossos estudantes. A seleção opera sobre poucos. Compreendo e explico que, de mil estudantes paraguaios, sobressaiam alguns que se avantajem a outros tantos ou mais estrangeiros; mas que, como sucedeu no Chile, a primeira nação americana em disposição guerreira, de dez jovens militares paraguaios designados ao acaso ou por capricho, sem consultar suas notas, todos os dez se sobreponham e vençam seus milhares de companheiros, é algo muito estranho, talvez único no mundo.

Três jovens paraguaios foram ao Paraná seguir a carreira do magistério, e os três, de um salto, puseram-se à cabeça de suas classes. Antes deles, três estudantes paraguaios - Duarte, Núñez, Ayala - ingressaram na Escola Naval Argentina, e os três fizeram brilhante carreira, os três caminharam à frente de seus companheiros. Com os jovens Escobar sucedeu o mesmo. Não sei o que há nos paraguaios, disse alguém: em toda parte chamam a atenção. O paraguaio, disse outro, é soldado consumado em menos tempo que outro americano.

E tenha-se presente que hoje somos menos do que fomos, por causa que se verá em outro capítulo. Antes, durante e depois da independência, nossos compatriotas, seculares ou sacerdotes, soldados ou civis, governadores ou subordinados, dentro e fora do país, avantajavam-se aos outros americanos. Colossais para seu tempo são Ruy Díaz de Guzmán, mestiço inteligente se houve algum, Hernandarias, Cañete; e paraguaios eram por educação ou por sangue.

Quem sabe! Quem sabe se a raça paraguaia não estava, ou não está, chamada a alcançar os cumes a que só chegam as raças muito superiores. Algo disso entrevê Rengger, a cabeça científica mais bem organizada que visitou o Paraguai depois de Bonpland.

Vou indagando esse não sei quê do paraguaio.

Causas do Heroísmo Paraguaio

Sinopse

Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.

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