Universo da obra
Universo da obra
Este romance não devera chamar-se «romance.» Desde que esta palavra é o atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escritor fantástico, não há história verdadeira que possa, como tal, recomendar-se com aquele titulo.
Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulário romântico, e afeiçoados às leis do estilo romântico, são verdades que não deram brado, nem se gravaram na memória da geração que as viu e as não compreendeu.
Na vida moral da sociedade há fenômenos cuja causa ninguém estuda. No drama da família há lances que são do domínio do público, e o público não pode, ainda que o tente, explicá-los. Nas atribuições individualíssimas do homem há fases extraordinárias de sofrimento, que esta sociedade de entranhas cruéis lhe recrimina, reputando-lhes os efeitos necessários das causas, consequências do crime voluntário.
A sociedade, a família e o homem expiam incessantemente a culpa do homem, da família, e da sociedade. Opera-se uma continua redenção do gênero humano. O homem é, desde o seu princípio, a vítima da culpa com o lábio colocado no cálice da agonia.
A vida sobre a terra é uma interminável expiação. Eu pago pelos crimes de meu pai, meus filhos expiarão meus crimes, e o último ser vivo da animalidade inteligente será o holocausto do primeiro homem criminoso.
É forçoso recorrer ao inconcebível, ao sobrenatural, ao misticismo da providência oculta para compreender o que vulgarmente se diz «fatalidade.»
Na história, que vai ser lida, é tão sensível esta necessidade, tão aterrado se sente o espírito diante de um fato consumado, que eu não tive escrúpulo religioso ou filosófico em subordinar um encadeamento de infortúnios de uma família à praga rogada nas escadas da forca.
Leia gratuitamente Uma Praga Rogada nas Escadas da Forca, de Camilo Castelo Branco, em versão com ortografia normalizada para português brasileiro moderno pelo Literunico. O texto foi extraído de Cenas Contemporâneas, em fonte de domínio público, e organizado em partes para leitura no Aurora.
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