Parte IV Uma Praga Rogada nas Escadas da Forca · Capítulo 5 de 18
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Parte IV

A família que Bernardo servia compunha-se de pai, mãe, três filhos, e uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze anos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos também não; e a sensível menina precisava amar, porque o seu coração era da têmpera daqueles que não sabem conceber somente o amor com a condicional do casamento.

Eulália não tinha a mais superficial tintura de instrução, e por isso não podemos, em boa fé, chamar-lhe romântica. Não era janeleira, nem rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel setim para depósito de sensaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe douda.

Era uma mulher, e nisto está dito tudo.

Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristeza inconsolável como nenhuma. «A minha organização — dizia ele — é um aborto, uma enfermidade incurável.»

Eulália simpatizava com aquela tristeza, e com a figura do rapaz. Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via nele o que ela chamava «cara de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira de classificar as caras, porque não conheço as «caras de pessoas de mal» tenho-me visto em circunstâncias forçadas de dizer o mesmo, porque há neste val de lágrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas são as piores caras.

Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir à cozinheira da casa, e menos se lembraria de acender o fogo do amor no ilustre coração de uma Lucena, com quem em toda a sua vida falara três vezes.

Eulália passou da doce simpatia ao amor abrasado, e do amor abrasado à paixão violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina lançou ao escudeiro, o escudeiro ou não dava por eles, ou explicava-os de qualquer modo, com tanto que não ousasse ensoberbecer-se daquele afeto disparatado. E Eulália desesperava-se!

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