Parte I
Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Viseu. Do ventre materno passou à roda dos expostos, e daí aos cuidados de uma pobre mulher de aldeia.
Aos dez anos não conhecia pai; e sua mãe, mulher do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do nobre, que se dignara descer até ela para honrá-la com desonra.
Bernardo, aos dez anos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus companheiros era ele o mais desprezado, porque também era o mais preguiçoso.
O rapaz vivia triste como se a idade lhe permitisse compreender a dor imensa de um grande desastre. Lá dentro naquele coração infantil falava uma profecia fúnebre. Com os olhos sempre extáticos no horizonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o daquele letargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a tarefa molhada de lágrimas.
Aos 13 anos era ainda um aprendiz de alfaiate, repelido deste para aquele mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por todos. Chamavam-no incorrigível, e ele mesmo conheceu que o era.
Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era aí, como em toda a parte, conhecido pelo «Bernardo Enjeitado.» Nunca ninguém se lembrou de reputá-lo filho de alguém: nem Lucena se lembrou, alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados à roda, poderia ser seu lacaio.
Bernardo era criado de taboa.