Parte III
Um ano depois, Bernardo fizera admiráveis progressos. Lia com inteligência do que lia; escrevia com acerto, e aprendera só consigo a gramática portuguesa, visto que seus amos lhe não tinham permitido esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permitir ao servo ciência que os amos não tinham! O muito ilustre Francisco de Lucena não daria o menor dos seus galgos pela vasta ciência do Lobato. E, talvez, tivesse razão.
Em casa de fidalgos desta bitola, quando um criado adquire a confiança dos amos, há sempre para isso uma de duas razões. Ou o criado, devasso como eles, encobre astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna estimável pelo zelo honroso com que procura encobrir-lhas, já que não pode repreender-lhas.
Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram livres e desmoralizados a não poder ser mais. Quiseram captar a benevolência do servo, não para aconselhá-los, que não desciam eles a isso, mas para acompanhá-los em empresas difíceis, daquelas em que o braço do plebeu é muitas vezes a salvação das costas do fidalgo.
Não o conseguiram nunca; mas também não tiveram de arrepender-se da confiança desse convite. Bernardo exercia uma influencia admirável sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da inteligência. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas ideias, e da linguagem escolhida com que o enjeitado se saía! O fato de ser enjeitado era em Bernardo, talvez, um motivo de superstição naquela casa. Se ele fosse reconhecido filho de algum borra-botas, como em linguagem nobiliárquica se chama um plebeu, de certo lhe não dariam a importância de o considerarem pela inteligência. Mas o mistério, a possibilidade de ser vergôntea infeliz de um tronco ilustre, cingiam-lhe a fronte de uma auréola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz aquele fruto do amor criminoso de alguma raça nobilíssima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!
Tudo isto era possível; mas o que eles julgariam, entretanto, impossível, é o que vai ler-se.