Parte VIII
Lucena correu a casa com os olhos injetados de fogo. Precisava de uma vítima! Encontrou no caminho João Leite, mas este não podia justificadamente ser sua vítima. João Leite mostra-lhe a carta que recebera de Eulália. Isto foi exacerbá-lo. «Não se lhe dê de ser repelido por essa infame, — lhe disse ele — Eu vou provar-lhe que sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um enjeitado...»
Entrando em casa, procurou o «enjeitado.» Encontrou-o ainda estupidamente absorvido na meditação daquela carta. A entrada rápida que fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena arrancou-lhe a com uma convulsão de raiva superior à fúria de um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som, lançou mão de uma cadeira, e, à segunda pancada, Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue inocente que reclamava justiça. Era um sangue inocente que pedia a intervenção de Deus. A justiça, filha legítima do céu, virá mais tarde salpicar daquele sangue a face de quem o derramava.
Bernardo, ferido, e pisado de sucessivas pancadas, não pronunciara uma só palavra durante este infernal martírio. Impelido por pontapés, foi lançado fora da porta do quarto. As forças faltaram-lhe. O sangue corria a jorros. Esvaiu-se-lhe a cabeça, e caiu.
O fidalgo chamou dois criados, e mandou pôr aquele homem fora da porta. Era ao anoitecer. O enjeitado foi arremessado à rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciência, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgraça pelos lábios molhados de fel.
E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da bem-aventurança.