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Apologia de Sócrates

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Apologia de Sócrates

Capítulo 1 · Apologia de Sócrates

PARTE I — 17a–20c

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PARTE I — 17a–20c

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Não sei, homens de Atenas, que impressão meus acusadores causaram em vocês. Quanto a mim, por pouco não me esqueci de quem eu era, de tão persuasivamente que falavam. E, no entanto, para dizer a verdade, não disseram praticamente nada verdadeiro. Entre as muitas mentiras que contaram, uma sobretudo me espantou: afirmaram que vocês deviam tomar cuidado para não serem enganados por mim,

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pois eu seria hábil no falar. Não se envergonharem de que logo serão desmentidos por mim, pelos próprios fatos, quando eu demonstrar não ser hábil no falar de modo algum, foi o que me pareceu a maior falta de vergonha da parte deles. A menos, talvez, que chamem de hábil no falar aquele que diz a verdade. Pois, se é isso o que querem dizer, eu admitiria ser um orador, mas não à maneira deles.

Eles, portanto, como digo, disseram pouca ou nenhuma verdade. De mim, porém, vocês ouvirão toda a verdade. Não, por Zeus, homens de Atenas, em discursos de palavras elegantes como os deles,

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nem ornamentados com expressões e termos escolhidos. Vocês ouvirão coisas ditas sem preparação, com as palavras que me ocorrerem, pois confio que é justo o que digo. E nenhum de vocês espere outra coisa. De fato, homens, não ficaria bem que, nesta idade, eu viesse diante de vocês como um rapazote que fabrica discursos.

Mas há algo que peço muito a vocês, homens de Atenas, e que lhes rogo que me concedam: caso me ouçam defender-me com as mesmas palavras que costumo empregar na ágora, junto às mesas dos cambistas, onde muitos de vocês já me ouviram, e também em outros lugares, não

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se espantem nem façam tumulto por causa disso. A situação é esta: hoje compareço pela primeira vez diante de um tribunal, aos setenta anos de idade. Sou, portanto, inteiramente estrangeiro à maneira de falar daqui.

Assim como, caso eu fosse de fato um estrangeiro, certamente me desculpariam se falasse na língua e nos modos em que fui criado,

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também agora lhes faço um pedido que me parece justo: deixem de lado a maneira como me expresso, seja ela pior, seja talvez melhor, e considerem apenas isto, dirigindo a isso sua atenção: se digo coisas justas ou não. Pois esta é a virtude do juiz; a do orador é dizer a verdade.

É justo, portanto, homens de Atenas, que eu me defenda primeiro das primeiras acusações falsas feitas contra mim e dos primeiros acusadores; depois, das acusações posteriores e dos acusadores

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mais recentes. Pois muitos têm sido meus acusadores diante de vocês, desde muito tempo, já há muitos anos, sem dizerem nada verdadeiro. A esses temo mais do que ao grupo de Ânito, embora estes também sejam temíveis. Mas os primeiros são ainda mais temíveis, homens, pois tomaram muitos de vocês desde a infância, persuadiram-nos e acusaram-me sem nada dizer de verdadeiro: que existe certo Sócrates, homem sábio, investigador das coisas do alto, que pesquisou tudo o que existe sob a terra e que torna mais forte o argumento mais fraco.

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Esses, homens de Atenas, os que espalharam tal fama, são meus acusadores temíveis. Pois aqueles que os escutam julgam que quem investiga essas coisas também não reconhece os deuses.

Além disso, esses acusadores são numerosos e vêm me acusando há muito tempo. E falavam com vocês numa idade em que mais facilmente acreditariam neles: alguns de vocês eram crianças, outros, rapazes. Acusavam-me simplesmente à revelia, sem que ninguém apresentasse defesa.

O mais absurdo de tudo é que nem sequer é possível saber e dizer os

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nomes deles, salvo quando algum deles é, por acaso, autor de comédias. Todos os que, movidos por inveja e calúnia, persuadiam vocês, e também aqueles que, já persuadidos, persuadiam outros, são os mais difíceis de enfrentar. Não é possível trazer nenhum deles aqui diante de vocês, nem refutar pessoa alguma. Sou obrigado simplesmente a defender-me como quem luta contra sombras e a refutar sem que ninguém responda.

Reconheçam, portanto, como venho dizendo, que tenho duas espécies de acusadores: de um lado, os que me acusaram agora; de outro,

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os antigos, de quem estou falando. E considerem que devo defender-me primeiro destes últimos, pois vocês os ouviram acusar-me antes e muito mais do que ouviram esses acusadores recentes.

Pois bem. É preciso defender-me, homens de Atenas, e tentar

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retirar de vocês, em tão pouco tempo, essa calúnia que conservaram por tanto tempo. Eu desejaria que isso acontecesse, caso daí resulte algo melhor tanto para vocês quanto para mim, e que eu consiga alguma coisa com esta defesa. Penso, contudo, que seja difícil, e não desconheço a natureza da tarefa. Ainda assim, que isso siga o rumo que for caro ao deus. Quanto à lei, é preciso obedecer-lhe e apresentar a defesa.

Retomemos, portanto, desde o princípio: qual é a acusação da qual

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nasceu a calúnia contra mim e na qual Meleto confiou ao apresentar esta denúncia? Pois bem, o que diziam os que me caluniavam? É preciso ler as palavras deles como se fossem a declaração juramentada de acusadores:

“Sócrates comete injustiça e se ocupa indevidamente de investigar as coisas sob a terra e as celestes, de tornar mais forte o argumento mais fraco

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e de ensinar essas mesmas coisas aos outros.”

A acusação é mais ou menos essa. Vocês mesmos viram isso na comédia de Aristófanes: certo Sócrates levado de um lado para outro, dizendo que caminha pelo ar e proferindo muitas outras tolices, assuntos dos quais não entendo absolutamente nada, nem muito nem pouco.

Não digo isso para desprezar semelhante conhecimento, caso alguém seja sábio nessas matérias. Que Meleto não venha a mover contra mim ainda tantas outras ações! O fato é, homens de Atenas, que nada tenho que ver com essas coisas.

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Apresento como testemunhas muitos de vocês e peço que instruam e informem uns aos outros, todos os que alguma vez me ouviram dialogar. E muitos de vocês estão entre esses. Digam, portanto, uns aos outros se algum de vocês jamais me ouviu discutir, pouco ou muito, a respeito de tais assuntos. Assim reconhecerão que as demais coisas que a multidão diz a meu respeito têm a mesma natureza.

Nada disso é verdadeiro. E, caso tenham ouvido de alguém que procuro educar pessoas e que cobro dinheiro,

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isso também não é verdade. Embora me pareça realmente belo que alguém seja capaz de educar seres humanos, como Górgias de Leontinos, Pródico de Ceos e Hípias de Élis.

Cada um deles, homens, é capaz de ir a qualquer cidade e persuadir os jovens, que podem conviver gratuitamente com qualquer um de seus concidadãos que escolherem, a abandonar a companhia deles e passar

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a conviver com os próprios sofistas, pagando-lhes dinheiro e ainda lhes ficando agradecidos.

Há também aqui outro homem sábio, natural de Paros, cuja visita à cidade fiquei sabendo. Aconteceu de eu encontrar um homem que pagou aos sofistas mais dinheiro do que todos os demais juntos, Cálias, filho de Hipônico. Como ele tem dois filhos, perguntei-lhe:

“Cálias, se seus dois filhos fossem potros ou bezerros, poderíamos contratar para eles um responsável que

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os tornasse belos e bons segundo a excelência própria de sua natureza. Seria alguém entendido em cavalos ou na agricultura. Mas, já que são seres humanos, quem você pensa em tomar como responsável por eles? Quem conhece essa excelência, a humana e política? Imagino que você tenha examinado a questão por ter filhos. Existe alguém”, perguntei, “ou não?”

“Certamente”, respondeu ele.

“Quem é, de onde vem e quanto cobra para ensinar?”

“É Eveno, Sócrates”, respondeu, “natural de Paros, e cobra cinco minas.”

E eu considerei Eveno afortunado, caso possuísse verdadeiramente essa arte

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e ensinasse por preço tão moderado. Eu mesmo certamente me orgulharia e me encheria de satisfação se soubesse essas coisas. Mas não as sei, homens de Atenas.

Talvez, então, algum de vocês intervenha:

“Mas, Sócrates, qual é afinal a sua atividade? De onde nasceram essas calúnias contra você? Pois certamente não teria surgido tamanho rumor e tanta conversa, se você não se ocupasse de nada mais extraordinário que os outros, se não fizesse algo diferente da maioria. Diga-nos então o que

Apologia de Sócrates

Sinopse

Defesa de Sócrates diante do tribunal ateniense, em tradução brasileira integral a partir do grego, com a numeração Stephanus preservada. Edição Literunico vinculada ao texto original.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978658961157187088805177
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