PARTE VII — 38d–42a Apologia de Sócrates · Capítulo 7 de 7
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PARTE VII — 38d–42a

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a todos vocês, mas aos que votaram por minha condenação à morte. E a esses mesmos digo ainda o seguinte.

Talvez vocês pensem, homens de Atenas, que fui condenado por falta de argumentos com os quais poderia tê-los convencido, caso julgasse necessário fazer e dizer qualquer coisa para escapar da condenação. Longe disso. Fui condenado por uma falta, sim, mas não por falta de argumentos. Faltaram-me audácia e desvergonha, e também a disposição de lhes dizer aquilo que vocês teriam mais prazer em ouvir: que eu chorasse, me lamentasse e fizesse e dissesse muitas outras coisas

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que considero indignas de mim, coisas que vocês estão acostumados a ouvir dos demais.

Mas nem então julguei que, por causa do perigo, devesse fazer algo indigno de um homem livre, nem agora me arrependo de ter me defendido desse modo. Prefiro muito mais morrer depois de uma defesa como esta do que viver depois de uma defesa como aquela.

Pois nem num julgamento nem numa guerra deve alguém, seja eu, seja qualquer outro,

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recorrer a toda espécie de artifício para escapar da morte, não importando o que tenha de fazer. Nas batalhas, muitas vezes fica evidente que alguém poderia evitar a morte abandonando as armas e voltando-se como suplicante para os perseguidores. E existem muitos outros meios, em cada situação de perigo, para escapar da morte, desde que se tenha a audácia de fazer e dizer qualquer coisa.

Mas talvez o difícil não seja escapar da morte, homens, e sim escapar da perversidade, o que é muito mais difícil,

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pois ela corre mais depressa que a morte. E agora eu, lento e velho como sou, fui alcançado pela mais lenta das duas; meus acusadores, porém, hábeis e velozes como são, foram alcançados pela mais rápida, a maldade.

Agora parto, condenado por vocês a pagar a pena de morte; eles partem condenados pela verdade a pagar a pena da vileza e da injustiça. Eu permaneço sujeito à minha pena, e eles à deles. Talvez fosse mesmo necessário que as coisas terminassem assim, e penso que terminaram de modo adequado.

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Depois disso, desejo profetizar para vocês que me condenaram. Pois já me encontro naquele momento em que os homens mais profetizam, quando estão prestes a morrer.

Digo-lhes, homens que me mataram, que imediatamente depois de minha morte virá sobre vocês um castigo, por Zeus, muito mais penoso do que a morte que me impuseram. Vocês fizeram isso agora porque pensam que assim ficarão livres de prestar contas da própria vida. Mas acontecerá exatamente o contrário, como lhes afirmo. Serão mais numerosos

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os que os examinarão, aqueles que até agora eu continha sem que vocês percebessem. E serão tanto mais incômodos quanto mais jovens forem, e vocês se irritarão ainda mais.

Pois, se pensam que, matando pessoas, impedirão que alguém os censure por não viverem corretamente, não estão pensando bem. Essa forma de libertação não é possível nem bela. A mais bela e mais fácil não consiste em reprimir os outros, mas em preparar a si mesmo para tornar-se o melhor possível.

É esta a profecia que deixo aos que votaram por minha condenação. E assim me despeço deles.

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Com os que votaram por minha absolvição, porém, eu conversaria de bom grado sobre o que acaba de acontecer, enquanto os magistrados estão ocupados e ainda não parto para o lugar onde, ao chegar, devo morrer.

Permaneçam comigo, homens, por esse breve tempo. Nada nos impede de conversar uns com os outros enquanto ainda é permitido.

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Quero mostrar a vocês, como a amigos, o que pode significar aquilo que me aconteceu agora.

Pois algo extraordinário me aconteceu, homens que verdadeiramente são juízes, já que é correto chamá-los de juízes. A advertência profética que habitualmente recebo, a do sinal divino, sempre se manifestava com muita frequência durante todo o tempo anterior e se opunha a mim até em coisas muito pequenas, quando eu estava prestes a agir de maneira incorreta. Agora, porém, aconteceram-me estas coisas que vocês mesmos veem, coisas que alguém poderia considerar, e que em geral são consideradas, os piores males. Mas,

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quando saí de casa ao amanhecer, o sinal do deus não se opôs a mim; nem quando subi até aqui, ao tribunal; nem durante minha fala, em nenhum momento em que eu estava prestes a dizer alguma coisa.

E, no entanto, em outros discursos, muitas vezes ele me interrompeu no meio do que eu dizia. Agora, porém, em nenhum momento se opôs a mim em relação a tudo isto, nem em qualquer ação nem em qualquer palavra.

Qual suponho ser a causa disso? Eu lhes direi. É bem provável que aquilo que me aconteceu seja um bem, e não há como estarmos certos nós que julgamos ser a morte um mal.

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Recebi uma grande prova disso. Pois seria impossível que o sinal habitual não tivesse se oposto a mim, caso eu não estivesse prestes a fazer algo bom.

Consideremos também, por este outro caminho, como há grande esperança de que a morte seja um bem.

Morrer é uma de duas coisas. Ou o morto deixa de ser alguma coisa e não possui sensação alguma de coisa alguma; ou, conforme se diz, a morte é uma espécie de mudança e de migração da alma deste lugar para outro.

Se não há sensação alguma, e a morte é como um sono em que quem dorme não vê sequer um sonho,

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então a morte seria um ganho extraordinário.

Pois imagino que, se alguém tivesse de escolher uma noite em que dormiu tão profundamente que não chegou a sonhar, e, colocando ao lado dela todas as outras noites e dias de sua vida, tivesse de considerar e dizer quantos dias e noites viveu de modo melhor e mais agradável do que naquela noite, penso que não apenas uma pessoa comum, mas até o Grande Rei encontraria poucos dias e noites assim, facilmente contáveis em comparação com todos os outros.

Portanto, se a morte é algo dessa natureza, eu a considero um ganho.

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Pois, desse modo, todo o tempo não parece ser mais do que uma única noite.

Se, por outro lado, a morte é como partir daqui para outro lugar, e se é verdade o que se diz, que lá estão todos os mortos, que bem poderia ser maior do que esse, homens que são juízes?

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Pois, se alguém, chegando ao Hades e livrando-se destes que aqui afirmam ser juízes, encontrar os verdadeiros juízes, aqueles que, segundo se diz, lá exercem a justiça, Minos, Radamanto, Éaco, Triptólemo e todos os outros semideuses que foram justos durante a vida, seria essa uma viagem sem valor?

E quanto alguém de vocês não daria para encontrar Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? Quanto a mim, estou disposto a morrer muitas vezes, caso essas coisas sejam verdadeiras.

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Para mim, seria extraordinário passar o tempo lá, quando encontrasse Palamedes, Ájax, filho de Télamon, e qualquer outro dos antigos que tenha morrido por causa de um julgamento injusto, comparando o que me aconteceu com o que aconteceu a eles. Imagino que isso não seria desagradável.

E o mais importante seria continuar examinando e investigando os que estão lá, como fiz com os que estão aqui, para descobrir quem entre eles é sábio e quem apenas pensa que é, sem ser.

Quanto alguém não daria, homens que são juízes, para examinar aquele que conduziu o grande exército contra Troia,

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ou Odisseu, ou Sísifo, ou incontáveis outros homens e mulheres que se poderiam mencionar? Conversar com eles, conviver com eles e examiná-los seria uma felicidade impossível de medir.

Certamente os que estão lá não matam ninguém por fazer isso. Em todos os demais aspectos, os que estão lá são mais felizes do que os que estão aqui e, pelo restante do tempo, são imortais, se o que se diz é verdade.

Mas vocês também, homens que são juízes, devem ter boa esperança diante da morte e conservar como verdadeira esta única ideia:

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nenhum mal pode atingir um homem bom, nem em vida nem depois da morte, e seus assuntos não são negligenciados pelos deuses.

Também o que agora me acontece não aconteceu por acaso. Para mim está claro que morrer agora e livrar-me das ocupações era melhor.

Por isso o sinal em nenhum momento me desviou, e eu não sinto grande ira contra os que votaram por minha condenação nem contra meus acusadores. É verdade que não foi com essa intenção que me condenaram e acusaram, mas pensando que me prejudicariam.

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Por isso, merecem censura.

Peço-lhes, contudo, apenas uma coisa. Quando meus filhos chegarem à juventude, castiguem-nos, homens, causando-lhes a mesma aflição que eu causei a vocês, caso lhes pareça que eles cuidam do dinheiro ou de qualquer outra coisa antes de cuidar da virtude. E, caso pensem ser alguma coisa sem nada serem, repreendam-nos como eu repreendi vocês, por não cuidarem do que devem cuidar e por julgarem ser alguma coisa quando não têm valor algum.

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Se fizerem isso, eu e meus filhos teremos recebido de vocês um tratamento justo.

Mas já é hora de partir: eu, para morrer; vocês, para viver. Quem de nós se encaminha para uma condição melhor é algo obscuro para todos, exceto para o deus.

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