PARTE IV — 28b–32e
PARTE IV — 28b–32e
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e creio que continuarão a condenar. Não há, porém, razão para temer que parem em mim.
Talvez alguém diga:
“Então você não se envergonha, Sócrates, de ter seguido uma ocupação pela qual agora corre o risco de morrer?”
A esse eu responderia com justiça:
“Você não fala bem, meu caro, caso pense que um homem de algum valor, ainda que pequeno, deve calcular o risco de viver ou morrer, em vez de considerar somente, ao agir, se o que faz é justo ou injusto e se seus atos são os de um homem bom ou de um homem mau.”
Pois, segundo o seu raciocínio, seriam desprezíveis todos os semideuses
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que morreram em Troia, tanto os demais quanto o filho de Tétis. Ele desprezou tanto o perigo, em comparação com a vergonha de suportar algo desonroso, que, quando sua mãe, que era deusa, lhe falou enquanto ele ardia por matar Heitor, dizendo-lhe mais ou menos assim, como suponho:
“Meu filho, caso vingue a morte de seu companheiro Pátroclo e mate Heitor, você mesmo morrerá, pois logo depois de Heitor, disse ela, seu destino estará pronto”,
ele, ao ouvir isso, pouco se importou com a morte e com o perigo. Temia muito mais
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viver como covarde e deixar seus amigos sem vingança.
“Que eu morra logo”, disse ele, “depois de castigar aquele que cometeu a injustiça, para não permanecer aqui, motivo de riso junto às naus recurvas, fardo inútil sobre a terra.”
Você acha que ele se preocupou com a morte e com o perigo?
Pois a verdade é esta, atenienses: onde quer que alguém tenha tomado posição por considerá-la a melhor, ou onde tenha sido colocado por um comandante, ali deve, segundo me parece, permanecer e enfrentar o perigo, sem pôr na conta nem a morte nem qualquer outra coisa antes da desonra.
Eu teria cometido algo terrível, atenienses,
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se, quando os comandantes escolhidos por vocês para me comandar me designaram um posto em Potideia, em Anfípolis e em Délio, eu tivesse permanecido onde me colocaram, como qualquer outro, correndo o risco de morrer, mas, quando o deus me designou, conforme entendi e aceitei, que eu deveria viver filosofando, examinando a mim mesmo e aos outros, então, por medo da morte
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ou de qualquer outra coisa, eu abandonasse o meu posto.
Isso, sim, seria terrível. E então alguém poderia, com toda justiça, levar-me ao tribunal por eu não acreditar que existem deuses, já que estaria desobedecendo ao oráculo, temendo a morte e julgando-me sábio sem o ser.
Pois temer a morte, atenienses, nada mais é do que julgar-se sábio sem ser. É pensar que se sabe aquilo que não se sabe. Ninguém sabe o que é a morte, nem mesmo se ela não vem a ser, para o ser humano, o maior de todos os bens. Contudo, as pessoas a temem como se soubessem perfeitamente
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que ela é o maior dos males. E como isso não seria aquela ignorância censurável que consiste em imaginar que se sabe aquilo que não se sabe?
Talvez seja justamente nisso, atenienses, que eu me diferencie da maioria das pessoas. E, caso eu afirmasse ser mais sábio do que alguém em alguma coisa, seria nisto: como não conheço suficientemente as coisas do Hades, também não imagino conhecê-las. Sei, porém, que cometer injustiça e desobedecer a quem é melhor, seja um deus, seja um ser humano, é mau e vergonhoso.
Portanto, diante dos males que sei serem males, nunca temerei nem evitarei aquilo que não sei se por acaso não é um bem. Assim, mesmo que
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vocês agora me absolvessem, recusando-se a acreditar em Ânito, que afirmou que, ou eu não deveria ter sido trazido aqui desde o início, ou, uma vez trazido, seria impossível não me condenar à morte, dizendo-lhes que, caso eu escapasse, todos os filhos de vocês, praticando aquilo que Sócrates ensina, ficariam completamente corrompidos; mesmo que, diante disso, vocês me dissessem:
“Sócrates, desta vez não obedeceremos a Ânito e vamos absolvê-lo, mas com uma condição: que você não passe mais o tempo nessa investigação nem filosofe. Caso seja apanhado fazendo isso outra vez,
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morrerá”;
se vocês me absolvessem nessas condições, eu lhes responderia:
“Atenienses, eu os respeito e os estimo, mas obedecerei antes ao deus do que a vocês. Enquanto eu respirar e tiver forças, jamais deixarei de filosofar, de aconselhá-los e de mostrar a verdade a cada um de vocês que eu encontrar, falando como costumo:
‘Meu caro, você é ateniense, cidadão da maior cidade, da mais célebre por sua sabedoria e por seu poder. Não se envergonha de cuidar do dinheiro para ter o máximo possível,
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bem como da reputação e das honrarias, mas de não cuidar nem se preocupar com o discernimento, com a verdade e com o modo de tornar sua alma a melhor possível?’”
E, caso algum de vocês conteste e afirme que cuida dessas coisas, não o deixarei imediatamente nem irei embora. Vou interrogá-lo, examiná-lo e submetê-lo à refutação. E, caso me pareça que ele não possui virtude,
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embora afirme possuí-la, vou censurá-lo por atribuir tão pouco valor às coisas mais valiosas e tanto valor às mais insignificantes.
Farei isso com qualquer pessoa que encontrar, jovem ou velha, estrangeira ou cidadã, mas sobretudo com os cidadãos, por serem mais próximos de mim pelo nascimento. Pois é isso que o deus ordena, saibam bem. E acredito que jamais surgiu para vocês, nesta cidade, bem maior do que o serviço que presto ao deus.
Nada mais faço senão andar por toda parte tentando persuadir cada um de vocês, jovens e velhos, a não cuidar do corpo
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nem do dinheiro antes e com tanta dedicação quanto deve cuidar da alma, para que ela se torne a melhor possível. Digo-lhes que não é do dinheiro que nasce a virtude, mas da virtude nascem o dinheiro e todos os demais bens humanos, tanto os particulares quanto os públicos.
Caso eu corrompa os jovens dizendo essas coisas, então elas seriam nocivas. Mas, se alguém afirma que digo algo diferente disso, não diz coisa alguma.
Diante disso, eu lhes diria, atenienses: obedeçam ou não a Ânito; absolvam-me ou não. Saibam que eu não agirei de outro modo,
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ainda que tenha de morrer muitas vezes.
Não façam tumulto, atenienses. Mantenham o acordo que lhes pedi: não protestem contra o que eu disser, mas escutem. Creio que ouvir será proveitoso para vocês. Estou prestes a dizer ainda outras coisas diante das quais talvez vocês gritem. Mas não façam isso de modo algum.
Saibam bem que, caso matem um homem como aquele que afirmo ser, causarão um mal maior a vocês mesmos do que a mim. Nem Meleto nem Ânito poderiam causar-me verdadeiro mal, pois não seriam capazes. Não creio que seja permitido
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que um homem melhor sofra verdadeiro mal pelas mãos de um homem pior.
Talvez Meleto possa mandar matar-me, expulsar-me ou privar-me dos direitos de cidadão. Ele e talvez algum outro considerem essas coisas grandes males. Eu, porém, não as considero assim. Considero muito pior fazer o que ele agora faz: tentar matar injustamente um homem.
Portanto, atenienses, longe de estar fazendo esta defesa em meu próprio favor, como alguém poderia imaginar, faço-a em favor de vocês, para que, ao me condenarem, não cometam um erro diante da dádiva que o deus
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lhes concedeu em minha pessoa.
Pois, caso me matem, não encontrarão facilmente outro homem assim, colocado pelo deus junto à cidade, embora a comparação possa parecer um tanto ridícula, como um moscardo junto a um cavalo grande e de boa raça, mas que, por causa do tamanho, é um tanto lento e precisa ser despertado por ferroadas.
Parece-me que o deus me colocou na cidade com essa função: despertar, persuadir e censurar cada um de vocês. Durante o dia inteiro, em toda parte, eu não paro de me aproximar de um e de outro
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e de me sentar ao seu lado.
Não surgirá facilmente para vocês outro homem assim, atenienses. Portanto, caso me escutem, vão poupar-me. Mas talvez vocês, irritados como quem é despertado durante o sono, deem-me uma pancada e, obedecendo a Ânito, matem-me com facilidade. Depois disso, poderiam passar o resto da vida dormindo, a menos que o deus, por cuidar de vocês, lhes enviasse outra pessoa.
Que eu seja precisamente um homem dado pelo deus à cidade, vocês poderiam compreender
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pelo seguinte: não parece algo simplesmente humano que eu tenha descuidado de todos os meus próprios assuntos e suportado que os interesses de minha casa permanecessem abandonados durante tantos anos, enquanto me ocupava sempre dos interesses de vocês. Aproximo-me em particular de cada um, como um pai ou um irmão mais velho, tentando persuadi-lo a cuidar da virtude.
Caso eu obtivesse algum benefício com isso e desse esses conselhos recebendo pagamento, minha conduta teria alguma explicação. Mas vocês mesmos veem que meus acusadores, embora tenham sido tão descarados em todas as outras acusações, não foram capazes de levar o descaramento a ponto
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de apresentar uma testemunha de que alguma vez cobrei ou pedi pagamento a alguém. Creio que apresento uma testemunha suficiente de que digo a verdade: minha pobreza.
Talvez pareça estranho que eu circule em particular, oferecendo esses conselhos e metendo-me nos assuntos dos outros, mas não tenha coragem de subir à tribuna pública e aconselhar a cidade diante da assembleia.
A causa disso é aquilo que vocês muitas vezes me ouviram dizer em muitos lugares: acontece comigo algo divino e
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daimônico, uma voz, justamente aquilo que Meleto, fazendo troça, incluiu em sua acusação.
Isso começou ainda em minha infância. É uma espécie de voz que, quando se manifesta, sempre me afasta daquilo que estou prestes a fazer, mas nunca me incita a fazer alguma coisa. É ela que se opõe a que eu me dedique à política, e me parece que faz muito bem em se opor.
Saibam perfeitamente, atenienses: caso eu tivesse tentado dedicar-me à política há muito tempo, há muito tempo estaria morto e não teria sido útil
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nem a vocês nem a mim mesmo.
E não se irritem comigo por dizer a verdade. Não há ser humano que possa salvar-se caso se oponha de maneira autêntica a vocês ou a qualquer outra multidão, impedindo que muitas injustiças e ilegalidades aconteçam na cidade. Pelo contrário,
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quem realmente luta pela justiça, se quiser sobreviver ainda que por pouco tempo, precisa atuar como particular e não como homem público.
Apresentarei a vocês grandes provas disso. Não palavras, mas aquilo que vocês valorizam: atos. Escutem o que me aconteceu, para que saibam que eu não cederia a ninguém contra a justiça por medo da morte e que, por não ceder, estaria disposto até mesmo a morrer.
Vou contar-lhes coisas talvez pesadas e próprias dos tribunais, mas verdadeiras.
Atenienses, nunca exerci qualquer outro cargo na cidade,
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mas fui membro do Conselho. Por acaso, nossa tribo, a Antióquida, exercia a pritania quando vocês decidiram julgar conjuntamente, contra a lei, os dez generais que não haviam recolhido os náufragos depois da batalha naval, decisão que mais tarde todos vocês reconheceram ter sido ilegal.
Naquela ocasião, fui o único entre os prítanes a me opor a que vocês fizessem algo contrário às leis e votei contra. Embora os oradores estivessem prontos para me denunciar e mandar prender, e embora vocês gritassem e exigissem que isso fosse feito, julguei que deveria
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correr o perigo ao lado da lei e da justiça, em vez de juntar-me a vocês numa deliberação injusta por medo da prisão ou da morte.
Isso aconteceu quando a cidade ainda era governada democraticamente. Mais tarde, quando se estabeleceu a oligarquia, os Trinta mandaram chamar a mim e a outros quatro à Tolo e nos ordenaram que trouxéssemos de Salamina Leão de Salamina, para que fosse morto. Eles davam ordens semelhantes a muitas outras pessoas, querendo envolver no maior número possível de crimes o maior número possível de cidadãos.
Nessa ocasião,
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demonstrei novamente, não por palavras, mas por atos, que a morte, para falar de maneira talvez um pouco grosseira, não me importa absolutamente nada, enquanto não praticar qualquer injustiça ou impiedade é algo que me importa inteiramente.
Aquele governo, embora tão poderoso, não me intimidou a ponto de me fazer cometer uma injustiça. Quando saímos da Tolo, os outros quatro foram a Salamina e trouxeram Leão. Eu, porém, fui embora para casa.
Talvez eu tivesse sido morto por isso, caso aquele governo não tivesse sido derrubado pouco depois. E
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muitas pessoas poderão testemunhar esses fatos diante de vocês.
Vocês acham, então, que eu teria sobrevivido durante tantos anos caso me tivesse dedicado aos assuntos públicos e, agindo como convém a um homem bom, tivesse socorrido a justiça e, como é necessário, considerado isso acima de tudo?
Muito longe disso, atenienses; nenhum outro ser humano tampouco