PARTE III — 24c–28a Apologia de Sócrates · Capítulo 3 de 7
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PARTE III — 24c–28a

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reconhece, mas outras divindades, novas.

Essa é, pois, a acusação. Examinemos agora, uma por uma, cada parte dela.

Ele afirma que cometo injustiça por corromper os jovens. Eu, porém, homens de Atenas, afirmo que Meleto comete injustiça, porque trata com leviandade assuntos sérios, levando homens ao tribunal sem dificuldade e fingindo empenho e cuidado por coisas com as quais jamais se importou. Tentarei mostrar a vocês que é exatamente assim.

Venha cá, Meleto, e me diga: não é verdade que você considera da maior importância que os mais jovens se tornem tão bons quanto possível?

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— Sim, considero.

— Então diga agora a estes homens: quem os torna melhores? É evidente que você sabe, já que isso lhe importa. Afinal, segundo afirma, você descobriu quem os corrompe, eu, e me trouxe diante destes homens para me acusar. Pois bem, diga também quem os torna melhores e revele a eles quem é. Está vendo, Meleto? Você fica calado e não sabe o que dizer. Isso não lhe parece vergonhoso e uma prova suficiente do que estou dizendo, isto é, de que você nunca se importou com o assunto? Mas diga, meu bom homem: quem os torna melhores?

— As leis.

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— Não foi isso que perguntei, meu excelente homem, mas qual pessoa os torna melhores, uma pessoa que, antes de tudo, conheça justamente isto: as leis?

— Estes aqui, Sócrates, os juízes.

— O que você está dizendo, Meleto? Estes homens são capazes de educar os jovens e de torná-los melhores?

— Sem dúvida.

— Todos eles, ou alguns sim e outros não?

— Todos.

— Por Hera, você fala muito bem! Que abundância de benfeitores! E então? Os que nos escutam também os tornam melhores

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ou não?

— Também eles.

— E os membros do Conselho?

— Também os membros do Conselho.

— Mas então, Meleto, será que os cidadãos reunidos na Assembleia corrompem os mais jovens? Ou também eles, todos eles, os tornam melhores?

— Também eles.

— Ao que parece, portanto, todos os atenienses os tornam belos e bons, exceto eu; e eu, sozinho, os corrompo. É isso o que você diz?

— É exatamente isso o que digo.

— Você me condena a uma desgraça bem grande. Responda-me: em relação aos cavalos, também lhe parece que as coisas se passam assim? Todos os homens

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os tornam melhores, e um único homem os estraga? Ou acontece exatamente o contrário: há uma só pessoa capaz de torná-los melhores, ou pouquíssimas, os conhecedores de cavalos, enquanto a maioria, quando convive com cavalos e lida com eles, os estraga? Não é assim, Meleto, tanto com os cavalos quanto com todos os outros animais? É claro que é, quer você e Ânito o admitam, quer não. Seria realmente uma enorme felicidade para os jovens se apenas uma pessoa os corrompesse e todas as outras lhes fizessem bem.

Mas, Meleto, você já demonstrou suficientemente que jamais se preocupou com os jovens. Revela com toda clareza a sua própria negligência, pois não teve cuidado algum com as coisas pelas quais me trouxe aqui.

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Diga-nos ainda, por Zeus, Meleto: é melhor viver entre cidadãos honestos ou entre cidadãos perversos? Meu caro, responda. Não estou lhe perguntando nada difícil. Os perversos não fazem algum mal aos que estão sempre mais próximos deles, enquanto os bons lhes fazem algum bem?

— Sem dúvida.

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— Existe, então, alguém que prefira ser prejudicado pelas pessoas com quem convive a ser beneficiado por elas? Responda, meu bom homem, pois a lei também determina que você responda. Existe alguém que queira ser prejudicado?

— Certamente não.

— Pois bem: você me trouxe aqui por corromper os jovens e torná-los piores de maneira voluntária ou involuntária?

— Voluntária, é claro.

— Como assim, Meleto? Sendo você tão jovem e eu desta idade, é tamanha a sua sabedoria em comparação com a minha que você sabe que os maus sempre causam algum mal aos que lhes estão mais próximos,

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e os bons, algum bem, enquanto eu cheguei a tal ponto de ignorância que nem sequer compreendo que, se tornar perversa uma das pessoas que convivem comigo, correrei o risco de receber dela algum mal? E ainda assim pratico voluntariamente um mal tão grande, como você afirma?

Não acredito nisso, Meleto, e penso que nenhum outro ser humano acreditará. Ou não corrompo os jovens, ou, se os corrompo, faço isso involuntariamente; de modo que você mente em ambos os casos. E, se os corrompo involuntariamente,

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a lei não manda trazer para cá quem comete erros involuntários dessa espécie, mas tomar essa pessoa em particular, instruí-la e aconselhá-la. É evidente que, se aprender, deixarei de fazer aquilo que faço sem querer. Você, porém, evitou conviver comigo e me instruir, não quis fazer isso; em vez disso, trouxe-me para cá, lugar ao qual a lei manda trazer os que precisam de punição, não os que precisam de instrução.

Mas, homens de Atenas, já está claro aquilo que eu dizia: Meleto jamais se importou com essas questões, nem muito nem pouco.

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Ainda assim, diga-nos, Meleto: de que maneira você afirma que corrompo os mais jovens? É evidente, segundo a acusação que escreveu, que seria ensinando-os a não reconhecer os deuses que a cidade reconhece, mas outras divindades, novas. Não é ensinando essas coisas, segundo você, que eu os corrompo?

— É exatamente isso que afirmo.

— Então, pelos próprios deuses de que agora estamos falando, Meleto, explique isso com maior clareza, tanto para mim quanto para estes homens.

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Pois não consigo compreender se você afirma que ensino a reconhecer a existência de alguns deuses, caso em que eu próprio reconheço que existem deuses, não sou inteiramente ateu e não cometo injustiça nesse sentido, embora não reconheça exatamente os mesmos deuses que a cidade, mas outros, sendo esta a sua acusação contra mim, o fato de serem outros; ou se você afirma que não reconheço deus algum e ensino isso aos demais.

— O que digo é que você não reconhece absolutamente nenhum deus.

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— Admirável Meleto, com que propósito você diz isso? Então não reconheço como deuses nem o Sol nem a Lua, como fazem as outras pessoas?

— Por Zeus que não, senhores juízes! Ele afirma que o Sol é uma pedra e que a Lua é terra.

— Você pensa que está acusando Anaxágoras, meu caro Meleto? Despreza tanto estes homens e os julga tão alheios às letras que imagina que eles não sabem que os livros de Anaxágoras de Clazômenas estão cheios dessas ideias? E seriam os jovens que aprenderiam comigo coisas que às vezes podem comprar na orquestra por uma dracma, quando muito,

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e assim rir de Sócrates caso ele fingisse que essas ideias eram suas, sobretudo sendo elas tão extraordinárias? Mas, por Zeus, é isso mesmo o que você pensa de mim? Não reconheço a existência de deus algum?

— Não, por Zeus, de maneira nenhuma.

— Você não merece crédito, Meleto, e, ao que me parece, nem sequer para si mesmo. Pois este homem, homens de Atenas, parece-me extremamente insolente e desmedido; e foi simplesmente por insolência, desmedida e imaturidade que apresentou esta acusação.

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Ele se parece com alguém que compõe um enigma para me pôr à prova: “Será que o sábio Sócrates perceberá que estou brincando e contradizendo a mim mesmo, ou conseguirei enganá-lo e também aos demais ouvintes?” Pois me parece que ele se contradiz na própria acusação, como se dissesse: “Sócrates comete injustiça por não reconhecer deuses, mas por reconhecer deuses.” Isso, no entanto, é coisa de quem está brincando.

Examinem comigo, senhores, em que sentido me parece que ele diz essas coisas. E você, Meleto, responda-nos. Quanto a vocês, lembrem-se do pedido que lhes fiz no início: não façam tumulto se eu conduzir meus argumentos da maneira que me é habitual.

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Existe algum ser humano, Meleto, que reconheça a existência de coisas humanas, mas não reconheça seres humanos? Que ele responda, senhores, e não fique causando um tumulto depois do outro. Existe alguém que não reconheça cavalos, mas reconheça coisas relativas aos cavalos? Ou que não reconheça a existência de flautistas, mas reconheça coisas relativas à arte de tocar flauta? Não existe, meu excelente homem. Já que você não quer responder, eu respondo a você e aos demais. Mas responda ao menos à pergunta seguinte:

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existe alguém que reconheça coisas divinas, mas não reconheça divindades?

— Não existe.

— Que favor você me fez, respondendo enfim, ainda que só depois de ser forçado por estes homens! Portanto, você afirma que reconheço e ensino coisas divinas, sejam elas novas ou antigas. De qualquer modo, segundo as suas próprias palavras, reconheço coisas divinas, e isso você também jurou na acusação. Mas, se reconheço coisas divinas, é absolutamente necessário que eu reconheça também divindades. Não é assim? É assim, sem dúvida. Tomo seu silêncio como concordância, já que você não responde.

E não consideramos que as divindades sejam deuses ou filhos de deuses?

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Você concorda ou não?

— Concordo plenamente.

— Portanto, se reconheço divindades, como você afirma, caso essas divindades sejam deuses, seria exatamente aquilo que digo que você apresenta como um enigma e uma brincadeira: afirmar que não reconheço deuses e, ao mesmo tempo, que reconheço deuses, pois reconheço divindades. E, caso as divindades sejam filhos de deuses, algum tipo de filhos ilegítimos nascidos de ninfas ou de outros seres dos quais se diz que nasceram, que ser humano reconheceria a existência de filhos dos deuses, mas não a dos próprios deuses? Isso seria tão absurdo

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quanto alguém reconhecer a existência dos filhos de cavalos e jumentos, as mulas, mas não reconhecer a existência de cavalos e jumentos.

Não há como, Meleto, você ter apresentado esta acusação sem que fosse para nos pôr à prova, ou porque não sabia de que injustiça verdadeira poderia me acusar. Mas não há meio algum de você convencer qualquer pessoa que tenha o mínimo de entendimento de que reconhecer coisas divinas e coisas próprias dos deuses não pertence à mesma pessoa, e, inversamente, de que não reconhecer nem divindades, nem deuses, nem heróis também não pertence à mesma pessoa.

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Portanto, homens de Atenas, para mostrar que não cometo injustiça segundo a acusação de Meleto, não me parece necessária uma defesa muito longa; o que foi dito já basta. Mas aquilo que eu dizia anteriormente, que se formou contra mim uma grande hostilidade entre muitas pessoas, saibam bem que é verdade. E será isso que me condenará, caso eu seja condenado: não Meleto nem Ânito, mas a calúnia e a inveja da multidão. Elas já condenaram muitos outros homens bons

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