PARTE V — 33a–35d Apologia de Sócrates · Capítulo 5 de 7
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PARTE V — 33a–35d

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sobreviveria. Mas, por toda a minha vida, sempre que tomei parte em alguma questão pública, verão que fui assim; e, em particular, fui exatamente o mesmo: nunca concordei com ninguém em coisa alguma contrária à justiça, nem com qualquer outra pessoa, nem com nenhum daqueles que os que me caluniam dizem serem meus discípulos.

Eu, porém, nunca fui mestre de ninguém. Mas, se alguém deseja ouvir-me enquanto falo e cuido das minhas próprias questões, seja mais jovem, seja mais velho, jamais o impeço. Também não converso somente quando recebo dinheiro, recusando-me quando nada recebo. Ao contrário,

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ponho-me igualmente à disposição do rico e do pobre para que me façam perguntas; e, se alguém quiser, pode responder-me e ouvir o que tenho a dizer. Se algum deles se torna um homem de bem ou não, não seria justo que eu fosse responsabilizado, pois nunca prometi ensinamento algum a ninguém, nem jamais ensinei. E, se alguém afirma que alguma vez aprendeu ou ouviu de mim, em particular, algo que todos os outros não tenham igualmente ouvido, saibam muito bem que não diz a verdade.

Mas por que, afinal, alguns gostam de passar tanto

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tempo comigo? Vocês já ouviram, homens de Atenas. Eu lhes disse toda a verdade: é porque gostam de ouvir quando são examinados aqueles que julgam ser sábios, mas não são. Isso não deixa de ser agradável.

Quanto a mim, como afirmo, foi o deus quem me ordenou realizar essa tarefa, por meio de oráculos, sonhos e de todas as maneiras pelas quais alguma determinação divina jamais ordenou a um homem que fizesse alguma coisa.

Isso, homens de Atenas, é verdadeiro e fácil de verificar. Pois, se realmente estou corrompendo alguns jovens e já corrompi outros,

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seria de esperar que, ao envelhecerem, alguns deles percebessem que, quando eram jovens, eu lhes dei algum conselho nocivo. Nesse caso, deveriam agora subir aqui, acusar-me e exigir minha punição. E, se eles próprios não quisessem fazê-lo, algum de seus familiares, pais, irmãos ou outros parentes, caso alguém de sua família tivesse sofrido algum mal por minha causa, deveria agora recordar-se disso e exigir minha punição.

De todo modo, muitos deles estão aqui, e eu os vejo. Primeiro, este Críton, meu contemporâneo e membro do mesmo demo, pai deste Critobulo. Depois, Lisânias de Esfeto, pai deste Ésquines. Também este Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes. E há ainda estes outros, cujos irmãos participaram dessas conversas: Nicóstrato, filho de Teozótides, irmão de Teódoto. Teódoto já morreu, portanto não poderia pedir-lhe que se calasse.

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Há também este Páralo, filho de Demódoco, cujo irmão era Teages; e este Adimanto, filho de Aríston, de quem este Platão é irmão; e ainda Eantodoro, de quem este Apolodoro é irmão.

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Eu poderia citar muitos outros. Meleto deveria ter apresentado algum deles como testemunha em seu discurso. Se naquela ocasião se esqueceu, que o apresente agora. Eu lhe cedo a palavra. Que diga se possui algum testemunho dessa espécie.

Mas vocês encontrarão exatamente o contrário disso, homens: todos estão dispostos a ajudar a mim, o corruptor, aquele que causa mal aos seus familiares, como afirmam Meleto e

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Ânito. Talvez os próprios corrompidos tivessem algum motivo para me ajudar. Mas os que não foram corrompidos, homens já mais velhos, parentes daqueles, que outro motivo poderiam ter para me ajudar, senão o motivo correto e justo: saberem que Meleto mente e que eu digo a verdade?

Muito bem, homens. O que eu teria a dizer em minha defesa é mais ou menos isso, além talvez de outras coisas semelhantes.

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Talvez algum de vocês fique indignado, ao recordar-se de si mesmo, caso, enfrentando um julgamento menos grave do que este, tenha suplicado e implorado aos juízes entre muitas lágrimas, fazendo comparecer seus filhos para despertar a maior compaixão possível, além de muitos parentes e amigos; ao passo que eu não farei nada disso, embora esteja correndo, ao que parece, o risco extremo.

Talvez alguém, refletindo sobre isso, se torne mais hostil comigo e, irritado precisamente por esse motivo, deposite seu voto com

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raiva. Caso algum de vocês esteja assim disposto, o que não creio que aconteça, mas, se acontecer, penso que lhe responderia razoavelmente dizendo:

“Meu caro, também tenho, certamente, alguns familiares. Pois, para usar a própria expressão de Homero, também eu não nasci de um carvalho nem de uma pedra, mas de seres humanos. Por isso, tenho familiares e também filhos, homens de Atenas: três, um já rapaz e dois ainda crianças. Apesar disso, não farei nenhum deles subir aqui para lhes suplicar que me absolvam.”

Por que não farei nada disso? Não por arrogância, homens

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de Atenas, nem por desprezo a vocês. Se enfrento a morte com coragem ou não, essa é outra questão. Mas, no que diz respeito à reputação, tanto a minha quanto a de vocês e a de toda a cidade, não me parece honroso que eu faça qualquer dessas coisas, tendo a idade que tenho e carregando este nome, seja ele merecido ou não. De todo modo, estabeleceu-se a opinião

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de que Sócrates se distingue de grande parte dos homens.

Seria vergonhoso, portanto, se aqueles dentre vocês que parecem distinguir-se pela sabedoria, pela coragem ou por qualquer outra virtude se comportassem dessa maneira. Muitas vezes vi alguns homens que pareciam ser alguma coisa agirem de modo espantoso ao serem julgados, como se acreditassem que sofreriam algo terrível caso morressem, quase como se fossem tornar-se imortais, desde que vocês não os condenassem à morte.

Parece-me que tais homens cobrem a cidade de vergonha, a ponto de algum estrangeiro poder

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supor que os atenienses mais destacados pela virtude, aqueles que os próprios cidadãos escolhem dentre si para as magistraturas e outras honrarias, em nada diferem das mulheres.

Essas coisas, homens de Atenas, não devem ser feitas por vocês que parecem ter algum valor; e, se nós as fizermos, vocês não devem permiti-las. Pelo contrário, devem deixar claro que condenarão com muito maior severidade aquele que apresenta esses espetáculos dignos de compaixão e torna a cidade ridícula do que aquele que se mantém sereno.

Além da questão da reputação, homens, também não me parece justo

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suplicar ao juiz e escapar por meio de súplicas, mas instruí-lo e convencê-lo. Pois o juiz não ocupa seu lugar para conceder a justiça como um favor, mas para julgar segundo ela. E jurou não favorecer quem lhe pareça bem, mas julgar de acordo com as leis.

Portanto, nem nós devemos acostumá-los a violar seus juramentos, nem vocês devem adquirir esse costume, pois nem uns nem outros agiríamos piedosamente.

Não esperem, portanto, homens de Atenas, que eu faça diante de vocês coisas que não considero belas, nem

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justas, nem piedosas, sobretudo, por Zeus, quando estou sendo acusado de impiedade por este Meleto. Pois é evidente que, se eu os convencesse e, por meio de súplicas, os obrigasse a agir contra o juramento que fizeram, estaria ensinando que vocês não acreditam na existência dos deuses; e, justamente ao apresentar minha defesa, estaria acusando a mim mesmo de não reconhecer os deuses.

Mas está muito longe de ser assim. Pois acredito neles, homens de Atenas, como nenhum de meus acusadores; e confio a vocês e ao deus o julgamento a meu respeito, para que se decida da maneira que há de ser a melhor tanto para mim quanto para vocês.

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