A fé, quando é verdadeira, não se deixa aprisionar por terrenos demarcados, CNPJs burocráticos ou zonas de ruído urbano. Ela escorre como água entre os dedos, escapa das amarras, ganha passaporte e atravessa fronteiras. Foi exatamente isso que aconteceu com Raham, uma força que se recusava a ser contida.
O convite chegou por e-mail, em inglês mal traduzido, mas carregado de uma sinceridade tocante.
"Convidamos representantes da Comunidade Raham para o Fórum Internacional de Espiritualidades Marginais, em Lisboa, Portugal. Esperamos vossas histórias."
Calum sorriu quando leu, um sorriso que misturava surpresa e uma ponta de ironia. Mas sua voz, ainda frágil como um fio de seda, não daria conta de um evento daquele porte. Foi Lúcia quem, com sua determinação característica, decidiu.
— Eu vou.
— Vai sozinha?
Perguntou Aletéia, a preocupação evidente em sua voz.
— Claro que não, menina. Você vem comigo. Raham não é monólogo. É coral.
A resposta de Lúcia ecoou com a sabedoria de quem entende que a fé é um ato coletivo, uma sinfonia de vozes. Em poucos dias, embarcaram com roupas simples, doações costuradas com amor, e um manifesto impresso em um envelope amassado, testemunha de tantas mãos que o tocaram. Não foram representar uma religião institucionalizada. Foram mostrar feridas cicatrizando, almas se reconstruindo, amor em ação.
O simpósio era chique demais, formal demais, discurso acadêmico demais. Mas quando Lúcia subiu ao palco, de vestido florido e sotaque do interior que carregava a autenticidade da terra, a sala, antes fria e protocolar, silenciou.
— A nossa fé não tem altar. Ela tem abraço. Raham nasceu onde as igrejas nos disseram que Deus não morava mais.
Pausou, deixando as palavras ecoarem, penetrarem nas almas presentes.
— Ele não tem hino, mas escuta cantiga de ninar. Não tem dogma, mas ouve quem grita. Não tem doutrina..., mas tem colo.
A sala, fria até então, esquentou como se um fogo invisível tivesse sido aceso. Gente chorou, lágrimas que lavavam anos de desilusão. Aletéia falou em seguida, com sua arrogância lírica transformada em ternura, sua raiva que havia se metamorfoseado em compaixão.
— Eu era uma ateia raivosa. Agora... sou a herege feliz. Não queremos fiéis. Queremos gente com cicatriz e coragem. Gente que quer ser amada e amar em troca, sem rótulos, sem máscaras, sem amarras. Somente gente de verdade.
As palavras de Aletéia ressoaram como um manifesto de liberdade, uma declaração de guerra contra a hipocrisia. O vídeo das falas caiu na internet como raio em lenha seca. Em menos de 48 horas, Raham virou assunto em cinco países, as palavras se espalhando como sementes ao vento. O Deus Apócrifo. Manifesto da Nova Fé. Raham significa Amor. Só que, claro, isso incomoda. Sempre incomoda quando a verdade decide se mostrar sem maquiagem.
No Brasil, a mídia conservadora reagiu. E reagiu pesado, com a fúria dos que veem seu território ameaçado. Domingo à noite, horário nobre, o programa sensacionalista "Alerta Cristão" apresentou uma reportagem com música de suspense e imagens distorcidas, uma montagem que transformava amor em escândalo.
"Raham, O Deus Apócrifo: a nova seita da libertinagem?"
Cenas editadas com a malícia de quem quer destruir. Travestis rindo alegres, transformadas em ameaça. Pessoas dançando de mãos dadas, retratadas como depravação. Calum em silêncio, pintado como manipulador. Lúcia com crianças no colo, mostrada como sedutora. Aletéia beijando uma mulher, exibida como se fosse um crime contra a natureza. Tudo mostrado através das lentes distorcidas do preconceito.
O apresentador, inchado de moralismo barato, perguntou com a indignação teatral de quem lucra com o ódio.
— Onde vamos parar, Brasil? Que Deus é esse?
Calum assistiu àquilo com o olhar calmo de quem já apanhou demais para se assustar com palavras, de quem conhece a diferença entre ruído e música. Sem dizer nada, pegou uma folha de cartolina, escreveu em silêncio, com a paciência de quem planta árvores. Ligou a câmera. Gravou um vídeo mudo, só com a placa na mão.
"O tempo é o senhor da verdade. A verdade não grita. Ela permanece."
Publicou no canal da comunidade. Foi compartilhado milhares de vezes. Não era resposta. Era resistência. Era a dignidade que se recusa a descer ao nível da baixeza. Duas semanas depois, com a casa reaberta e os corações aquecidos, os encontros voltaram com força renovada.
Mas algo novo pairava no ar, uma energia diferente, uma necessidade que brotava das profundezas da alma. Uma travesti de cabelos azuis, chamada Clara, aproximou-se após uma roda de conversa, os olhos brilhando com uma mistura de esperança e vulnerabilidade.
— Eu quero ser... batizada.
Disse, com a voz trêmula, carregada de uma emoção que mal conseguia conter. Todos pararam, o silêncio caindo como um manto sagrado. Lúcia se aproximou, a mão repousando suavemente no ombro de Clara, um gesto que falava mais do que mil palavras.
— Quer ser renomeada?
— Não. Eu quero me afundar. Não para nascer de novo..., mas para voltar ao que eu era antes de me dizerem que eu era errada.
A resposta de Clara ecoou como um grito de libertação, um desejo profundo de reconciliação consigo mesma. Silêncio. Calum fechou os olhos, como se estivesse ouvindo uma voz que só ele podia escutar. A voz, agora plena, voltou.
— Raham te ama como você é. Ele te enxerga. Não precisa de batismo.
— Eu sei, mas a minha vida toda me disseram que eu deveria ser outra pessoa. Hoje quero ser essa pessoa renovada, mas real.
A confissão de Clara tocou o coração de todos, um testemunho da dor e da esperança que coexistem na alma humana. Calum olhou para Lúcia, um entendimento silencioso passando entre eles, e disse.
— Então vamos ao rio.
No domingo seguinte, caminhavam todos até o riacho atrás do bairro, uma procissão de amor e esperança. Músicos levavam violões, as cordas prontas para cantar a alegria. Crianças carregavam flores, pequenas mãos oferecendo beleza ao mundo. Era como se fosse uma procissão de sorrisos, uma celebração da vida em sua forma mais pura.
Ao chegarem, Calum, sorrindo, olhou para todos e falou, sua voz carregada de uma solenidade doce.
“O batismo é um encontro suave entre o céu e a terra, onde as águas acolhem o peso das nossas histórias e devolvem a leveza da graça. É um renascimento em gotas, um mergulho no mistério do perdão, onde o velho se dissolve como sombra ao amanhecer e o novo emerge, ainda tímido, mas cheio de esperança.
Na correnteza simbólica da vida divina, encontramos o abraço de um amor que nos precede, que nos envolve e que nos chama pelo nome, não mais como estranhos, mas como filhos da luz. É também um passo em direção ao infinito, uma promessa selada na água e no espírito, onde a fé começa a tecer sua história numa teia de significados.
O batismo não é apenas um gesto, mas um sim que ecoa no tempo, um compromisso de caminhar com Cristo, de viver em comunidade e de carregar, em cada gesto simples, a memória daquela água que nos limpou por dentro e nos reconstruiu por inteiro.”
As palavras de Calum fluíam como o próprio rio, carregadas de uma poesia que tocava a alma.
Clara entrou na água com passos lentos, os olhos marejados pelas lágrimas que eram uma mistura de medo e esperança. Lúcia segurou sua mão, um elo de amor e apoio. Calum a olhou, com doçura e solenidade.
— Clara... a água não te lava. Ela te reconhece. E Raham não te julga... te acolhe.
Ela mergulhou, e por um segundo, o mundo pareceu parar, como se o próprio tempo estivesse prestando homenagem àquele momento sagrado. Quando voltou à superfície, Clara estava sorrindo, seus gestos exagerados, passando a mão nos cabelos molhados. Mas não era um sorriso comum. Era aquele sorriso de quem sentiu Deus... não como doutrina, mas como respiro, como presença viva e amorosa.
A multidão, sem ensaio, começou a cantar. Uma melodia sem nome, nascida do coração, gente chorando lágrimas de alegria, gente de mãos dadas, formando uma corrente de amor que se estendia além do visível.
A gravação foi feita por um adolescente da comunidade, suas mãos trêmulas capturando um momento de eternidade. Subiram o vídeo com o título simples, mas poderoso.
"Raham acolhendo mais um filho."
Explodiu nas redes, tocando corações ao redor do mundo, uma prova de que o amor, quando é genuíno, não conhece fronteiras.
Dois dias depois, uma carta simples chegou por debaixo da porta, escrita à mão em papel amarelo, as palavras tremulando com emoção.
"Sou pastor há 30 anos. Nunca ouvi Deus tão claro quanto quando vi aquele mergulho. Posso visitar vocês? Em silêncio. Só para escutar."
Calum segurou a carta com as duas mãos, como se estivesse segurando algo sagrado. Leu. Sorriu. Mostrou para Lúcia e Aletéia. Falou.
— Ele vem.
— Quem?
Perguntou Aletéia, a curiosidade evidente em sua voz.
— O Deus deles.
— E vai encontrar quem?
Disse Lúcia, um sorriso brincando em seus lábios.
— Raham, com os braços abertos.
A resposta de Calum ecoou como uma promessa, uma certeza de que o amor sempre encontra o amor.
Raham agora tinha passaporte. Tinha vídeo-denúncia. Tinha batismo em riacho. Mas, mais que tudo isso, tinha uma certeza que crescia como raiz em chão seco, uma verdade que se aprofundava a cada dia.
"A fé que nasce do afeto... é a única que sobrevive à tempestade."
E assim, Raham continuava a crescer, não como uma religião, mas como um movimento de amor, uma revolução silenciosa que transformava vidas, uma gota de cada vez.