deivesferraz
@deivesferraz
Boa noite Literunicos 😁
Gosto de me arriscar no terror, principalmente quando se trata de contos e mini contos.
Outro dia um entregador me acordou e me veio a história na cabeça. É estranho o que pode nos inspirar.

Se quiser ler fique a vontade, mas já fica o aviso:
NÃO LEIA ANTES DE DORMIR!!

Não Durma
Deives Ferraz

— Tá preparado?
O comandante gritava para me acordar dentro do carro tático. A dor no meu ombro estava de matar.
— Sim, senhor! — respondi sem muito entusiasmo, massageando o pescoço. Ele me observou com atenção.
— Você dormiu, soldado. Isso não é bom sinal.
— Não é nada. Apenas um torcicolo.
Ele colocou a mão no meu braço e me olhou no fundo dos olhos.
— Isso é guerra. Lembre-se do seu treinamento!
Assenti, cansado. Sentia-me enfraquecido, mas assim que as portas do veículo se abriram, saltei, mirando nos alvos e atirando. Ouvia gritos, pessoas correndo, muita poeira e explosões. Os vagalumes piscavam os traseiros como luzes de alerta. Espera um pouco… Todos sabem que vagalumes estão extintos. Maldição, isso não pode estar acontecendo!

Meus olhos se abrem, mas mal consigo me mover. Estou deitado de lado, na cama do meu quarto. As agulhadas no ombro confirmam o que eu já desconfiava. Estico a mão e sinto a pele espessa do corpo que me cobre, agarrado às minhas costas, saboreando meu sangue. Não preciso vê-lo para saber como parece: totalmente preto, sem braços ou pernas. O couro cheio de muco, ondulando sobre músculos sem esqueleto. A boca, um triturador cheio de dentes feitos para sangrar ao máximo suas vítimas.
Esse verme deve ter se esgueirado pela fresta embaixo da porta. Se Caramelo não me avisou do perigo, já deve ter sido sugado para dentro do estômago dessa coisa nojenta que agora esfrega a barriga molhada por toda minha pele. Preciso alcançar a arma embaixo do travessei…

— Vanessa, oi!
O que minha ex está fazendo nesta cidade?
— Sabia que você mudou recentemente para cá. Vim te ver!
O pôr do sol destacou o brilho desse olhar que nunca esqueci. O vento nos cabelos. O perfume, floral e leve, bem diferente do peso da arma na minha mão. Arma? Ela parece não ver que estou armado. Será que temos alguma chance ainda? Esses vagalumes em volta dela a deixam ainda mais linda. Ah! Droga! Vagalumes…

— Como vai o treinamento? — perguntou meu chefe, apertando meu ombro. Gente fina ele, mesmo que desvie um pouco de dinheiro da empresa de vez em quando.
— Você parece cansado — disse, sorrindo. — Cuidado para não dormir. Os superiores estão grudados na nossa cola.
Superiores grudados… Cocei o ombro oposto com a ponta da arma que segurava.

— Você sabe o que precisa fazer.
— Mãe? — Abracei-a já com os olhos marejados. — Como pode?
— Calma, filho! Vai dar tudo certo.
Era tudo tão real, mas sabia que ela havia morrido há muito tempo. Ela pegou minha mão com a arma e encostou a ponta gelada pouco acima da clavícula.
— Estou com medo! Vai estraçalhar meu ombro.
— Só assim pra você se livrar desse vampiro.
Ela estava calma, serena. Acariciou meu cabelo. Lembra do treinamento!
— Deixa eu ficar aqui contigo!
— Ainda não. Mas vou estar aqui te esperando. — Ela colocou minha outra mão em cima do cabo. — Te amo filho.
Ela estava certa. O projétil atravessaria meu ombro e a cabeça daquele bicho, me libertando. Isso se ainda tivesse sangue o suficiente no meu corpo para me manter vivo.

Apertei o gatilho e os vizinhos acordaram com o estouro do tiro e meu grito de dor.