fernandafrankka
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Quando o coração chama - Parte II
— Está linda! — Clara virou-se lentamente para encará-lo com curiosidade. O cantor franziu o cenho brevemente com a possibilidade de estar sendo atrevido, mas quando a menina sorriu ternamente, sentiu que o brilho da lua agora se alastrava por todo seu interior, e não somente pela sala.
— Eu sei quem você é. Ouço no rádio às vezes.
— Você gosta de música? — Rafael se aproximou um pouco mais, Clara baixou as vistas, não gostava de encarar as pessoas.
— Eu amo música. Amo como elas podem tocar as pessoas, mesmo quando estão longe.
— E você gosta da minha música? — A garota sorriu abertamente, mas o jovem não soube dizer se era um deboche ou elogio, mas sentiu um ligeiro vazio no peito quando a prima negou com a cabeça.
— Não? — A frustração acompanhou seu tom enquanto Clara negava mais uma vez — Seria muito idiota da minha parte perguntar porquê? — O músico estreitou as sobrancelhas na expectativa de uma resposta plausível, Clara parecia contar as estrelas no ar, olhando fascinada para o céu iluminado.
— As letras...elas não têm alma.
Rafael soltou o ar preso nos pulmões, surpreso com a resposta honesta e objetiva. Piscou algumas vezes, tentando assimilar o peso das palavras dela, sabia que não eram inverdades.
— Como acha que deveriam ser? — Clara voltou sua atenção para Rafael e deu dois passos, ficando muito próxima dele. Seus olhares se encontraram e o cantor estava hipnotizado pelos brilhantes olhos verdes. Clara estendeu a palma da mão no peito dele, na altura do coração. Ele suspirou forte.
— Elas têm que vir daqui...bem lá do fundo. Aí vai tocar as pessoas.
Rafael não sabia explicar, mas a presença da garota despertava sensações há muito tempo perdidas e como se estivesse envolvido por um campo magnético, queria estar cada vez mais próximo dela. Precisava descobrir mais. Num impulso, pôs sua mão sobre a dela por um segundo, uma eletricidade cortando todo seu corpo. Ficaram numa conversa muda com os olhos e quando o rapaz fez menção de se inclinar na direção dos lábios finos e rosados, seu bipe de alerta apitou, chamando-o para a realidade.
— Mariana!
Rafael entrou no quarto que dividia com a irmã num sobressalto, seu coração apertou ao ver a dificuldade que ela tinha para respirar.
— Calma! Eu estou aqui, Mari! Já vai passar. — falou, manipulando o cilindro de ar reserva para a troca segura da irmã. Suspirou aliviado quando acompanhou a respiração dela voltando ao normal gradativamente.
Após alguns minutos, Mariana voltou a dormir e Rafael retornou para a sala, na esperança de retomar a conversa com Clara, mas só encontrou o ambiente vazio.
Acordou mais cedo do que costumava e nem se preocupou em tomar café. Munido de seu violão, saiu porteira afora para arejar a mente. Precisava de um lugar quieto onde pudesse colocar para fora as palavras que não paravam de borbulhar em sua mente após sonhar com a misteriosa jovem da noite anterior.
Iniciou as primeiras notas e involuntariamente sentiu um alivio dominando todo seu coração. Havia escrito a letra assim que acordara antes dos primeiros raios de sol. À medida que a melodia crescia, Rafael sentia-se diferente de quando gravava as músicas impostas pela gravadora. Sabia que com certeza daria um tiro no escuro, mas algo dentro de seu coração dizia que aquela canção seria o renascer da sua carreira. Estava grato por ter encontrado Clara, pois sem sua ajuda, talvez, permanecesse no mesmo looping de músicas medíocres, mas que fazia muito sucesso com o público. Sentia-se um verdadeiro artista agora.
Voltou para o sítio revigorado. Marina tomava café e sorriu ao visualizar o semblante brilhante do irmão.
— Viu passarinho verde? Onde foi tão cedo?
— Terminei a canção, — Falou exultante, numa felicidade atípica de anos — Vai ser um estouro, maninha — afirmou, beijando o topo da cabeça da irmã — Onde está o tio?
— Saiu a alguns minutos, precisava ir num lugar, mas não sei onde.
— E a Clara? — Questionou mordendo uma torrada.
— Quem?
— Clara, nossa prima. Já apareceu pra tomar café? Preciso agradecer a ela por ser uma inspiração. — Rafael uniu as sobrancelhas quando a empregada trocou um olhar confuso com Marina. — O que foi?
— O moço vai desculpar, mas a menina Clara está no hospital já faz um ano. Hoje é aniversário dela.
Rafael sentiu o peito afundar uma tonelada, o baque deixou o músico desnorteado por alguns segundos. Como poderia a jovem estar internada quando conversaram na noite passada? Seu próprio tio confirmou que ela não saia do quarto? Não estava entendendo nada, mas não queria parecer um louco diante de toda a situação.
— Se ela está no hospital, por que ontem meu tio disse que ela mal saia do quarto e que até as refeições ela faz lá dentro?
— Seu tio sempre teve certeza que o espírito da filha permanecia aqui. Diz que a vê algumas vezes. Ele ainda não perdeu a esperança dela acordar a qualquer momento.
— Eu preciso vê-la. Qual é o hospital?
Continua...
Quando o coração chama - Parte II
— Está linda! — Clara virou-se lentamente para encará-lo com curiosidade. O cantor franziu o cenho brevemente com a possibilidade de estar sendo atrevido, mas quando a menina sorriu ternamente, sentiu que o brilho da lua agora se alastrava por todo seu interior, e não somente pela sala.
— Eu sei quem você é. Ouço no rádio às vezes.
— Você gosta de música? — Rafael se aproximou um pouco mais, Clara baixou as vistas, não gostava de encarar as pessoas.
— Eu amo música. Amo como elas podem tocar as pessoas, mesmo quando estão longe.
— E você gosta da minha música? — A garota sorriu abertamente, mas o jovem não soube dizer se era um deboche ou elogio, mas sentiu um ligeiro vazio no peito quando a prima negou com a cabeça.
— Não? — A frustração acompanhou seu tom enquanto Clara negava mais uma vez — Seria muito idiota da minha parte perguntar porquê? — O músico estreitou as sobrancelhas na expectativa de uma resposta plausível, Clara parecia contar as estrelas no ar, olhando fascinada para o céu iluminado.
— As letras...elas não têm alma.
Rafael soltou o ar preso nos pulmões, surpreso com a resposta honesta e objetiva. Piscou algumas vezes, tentando assimilar o peso das palavras dela, sabia que não eram inverdades.
— Como acha que deveriam ser? — Clara voltou sua atenção para Rafael e deu dois passos, ficando muito próxima dele. Seus olhares se encontraram e o cantor estava hipnotizado pelos brilhantes olhos verdes. Clara estendeu a palma da mão no peito dele, na altura do coração. Ele suspirou forte.
— Elas têm que vir daqui...bem lá do fundo. Aí vai tocar as pessoas.
Rafael não sabia explicar, mas a presença da garota despertava sensações há muito tempo perdidas e como se estivesse envolvido por um campo magnético, queria estar cada vez mais próximo dela. Precisava descobrir mais. Num impulso, pôs sua mão sobre a dela por um segundo, uma eletricidade cortando todo seu corpo. Ficaram numa conversa muda com os olhos e quando o rapaz fez menção de se inclinar na direção dos lábios finos e rosados, seu bipe de alerta apitou, chamando-o para a realidade.
— Mariana!
Rafael entrou no quarto que dividia com a irmã num sobressalto, seu coração apertou ao ver a dificuldade que ela tinha para respirar.
— Calma! Eu estou aqui, Mari! Já vai passar. — falou, manipulando o cilindro de ar reserva para a troca segura da irmã. Suspirou aliviado quando acompanhou a respiração dela voltando ao normal gradativamente.
Após alguns minutos, Mariana voltou a dormir e Rafael retornou para a sala, na esperança de retomar a conversa com Clara, mas só encontrou o ambiente vazio.
Acordou mais cedo do que costumava e nem se preocupou em tomar café. Munido de seu violão, saiu porteira afora para arejar a mente. Precisava de um lugar quieto onde pudesse colocar para fora as palavras que não paravam de borbulhar em sua mente após sonhar com a misteriosa jovem da noite anterior.
Iniciou as primeiras notas e involuntariamente sentiu um alivio dominando todo seu coração. Havia escrito a letra assim que acordara antes dos primeiros raios de sol. À medida que a melodia crescia, Rafael sentia-se diferente de quando gravava as músicas impostas pela gravadora. Sabia que com certeza daria um tiro no escuro, mas algo dentro de seu coração dizia que aquela canção seria o renascer da sua carreira. Estava grato por ter encontrado Clara, pois sem sua ajuda, talvez, permanecesse no mesmo looping de músicas medíocres, mas que fazia muito sucesso com o público. Sentia-se um verdadeiro artista agora.
Voltou para o sítio revigorado. Marina tomava café e sorriu ao visualizar o semblante brilhante do irmão.
— Viu passarinho verde? Onde foi tão cedo?
— Terminei a canção, — Falou exultante, numa felicidade atípica de anos — Vai ser um estouro, maninha — afirmou, beijando o topo da cabeça da irmã — Onde está o tio?
— Saiu a alguns minutos, precisava ir num lugar, mas não sei onde.
— E a Clara? — Questionou mordendo uma torrada.
— Quem?
— Clara, nossa prima. Já apareceu pra tomar café? Preciso agradecer a ela por ser uma inspiração. — Rafael uniu as sobrancelhas quando a empregada trocou um olhar confuso com Marina. — O que foi?
— O moço vai desculpar, mas a menina Clara está no hospital já faz um ano. Hoje é aniversário dela.
Rafael sentiu o peito afundar uma tonelada, o baque deixou o músico desnorteado por alguns segundos. Como poderia a jovem estar internada quando conversaram na noite passada? Seu próprio tio confirmou que ela não saia do quarto? Não estava entendendo nada, mas não queria parecer um louco diante de toda a situação.
— Se ela está no hospital, por que ontem meu tio disse que ela mal saia do quarto e que até as refeições ela faz lá dentro?
— Seu tio sempre teve certeza que o espírito da filha permanecia aqui. Diz que a vê algumas vezes. Ele ainda não perdeu a esperança dela acordar a qualquer momento.
— Eu preciso vê-la. Qual é o hospital?
Continua...
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