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ESTRADA

LITERÁRIA

Ana e Jonas

Um conto universo Atlantis, A Profecia, antes do apocalipse

Ana se olhou mais uma vez no espelho grande de seu quarto e aprovou o que viu.

A camisa de seda off white com punhos trabalhados em bordados delicados contrastava com a saia bordo, cuja barra ficava cinco dedos acima do joelho.

Gostaria que fosse uma mini saia, mas aí sua mãe a obrigaria a colocar um shorts por baixo e ela queria muito usar a lingerie do mesmo tom da saia, que comprara mais cedo no shopping e pagara uma boa grana nela.

Não que alguém fosse ver, mas ela se sentia bem sabendo a usar. Assim como o sutiã do mesmo conjunto, esse sim com seus bordados e rendas levemente visíveis através do tecido diáfano da camisa.

Insinuar sem mostrar, era uma das armas de sedução que havia aprendido.

Conferiu a maquiagem. Bem leve, como ela gostava afinal, bela como era, não necessitava de nenhum subterfúgio. Só retocou um pouco mais de sombra, para destacar seus lindos olhos azuis.

Estava escovando uma última vez seus cabelos naturalmente lisos, louros e bem tratados quando ouviu um carro parar em frente a sua casa.

Olhou disfarçadamente através da cortina de seu quarto no segundo andar e viu um rapaz descer de um carro esportivo importado.

Ana o mediu de cima a baixo e suspirou levemente. Era alto, forte com um corpo no estilo deus grego, tinha os cabelos louros quase encaracolados, olhos castanhos esverdeados e traços faciais bem marcantes. Era bonito. Meio burro, mas bonito.

Era Júnior, seu namorado da vez.

Se bem que era o relacionamento mais longo que tivera até então, cinco meses. Não que ela estivesse apaixonada, mas ele a levava a lugares descolados e caros e ainda a divertia, mais por seu jeito boboca de playbozinho metido a besta do que por seus papos e, Ana, tinha que admitir, beijar e dar uns amassos com ele era bem gostoso, mas nada que ultrapassasse os limites que ela mesma havia se imposto.

Quando completara quinze anos, alguns meses antes, não quisera a viagem ao exterior, nem uma festa deslumbrante em um dos mais requintados buffet da cidade que seus pais lhe ofereceram.

Ela pediu uma feira mística em seu colégio e seus pais anuíram.

Fora um evento grandioso, com dezenas de barracas com os mais diversos oráculos: leitura de mão, búzios, cartas, runas e um toque circense com mágicos, acrobatas, palhaços e até um Globo da Morte, além de gincanas e comidas e bebidas à vontade

Sim, Ana quis se exibir para todos com aquilo, mas havia por trás um legítimo interesse seu por misticismo.

E fora na barraca de uma cigana que sua mão fora lida e aquilo norteou uma das escolhas mais importantes de sua vida até então.

A mulher lhe disse que havia um rei em seu destino e que somente a ele se entregaria, pois seria o único e maior amor de sua vida.

A quiromante podia ter falado aquilo para dezenas de meninas naquele dia, mas para Ana soou como uma verdade profunda e tocou algo em sua alma e seu coração

Ela sempre fora mais pragmática do que romântica, mas naquele momento decidiu que iria se manter virgem, à espera deste amor.

Que, ela tinha certeza, não era Júnior.

Ele era filho do sócio de seu pai, então as famílias ficaram muito felizes quando souberam do namoro dos dois, acreditando que ia resultar em uma união futura de sobrenomes e fortunas. A mãe dele até já bradara aos sete ventos que lhes daria de presente uma lua de mel em Paris.

Diante de todas estas expectativas Ana sorria falsamente deliciada, em seu papel de patricinha fútil, mas, só o que queria mesmo era curtir.

Viu que o rapaz trazia nas mãos um buquê de flores e uma caixa.

As flores, com certeza, eram para sua mãe, mas a caixa, sabia, era para ela.

“Está aprendendo, meu cachorrinho”, pensou divertida.

Júnior, apesar de sempre ter estudado nas melhores escolas, em termos de educação, era um troglodita.

Mas ela o estava adestrando, lhe ensinando modos e como agir com mais elegância, principalmente em relação a ela. E uma das coisas que lhe falou foi que trazer presentes era de bom tom.

Voltou para a frente do espelho e aguardou o chamado, que logo veio

— Ana, Júnior está aqui — ouviu a voz de sua mãe vinda do pé da escada.

— Já vou — respondeu em voz alta.

Mas ela não iria tão rápido. Ia cozinhar o rapaz um pouco. Era bom para criar expectativas.

Acessou suas redes sociais, respondeu mensagens, postou selfies do espelho, onde fez caras e bocas.

Ouviu alguém saindo. Era seu irmão mais velho que ia encontrar a namorada.

— Ana? — repetiu sua mãe.

— Estou descendo.

Reparou que seu celular estava com pouquíssima bateria, mas não teria tempo para recarregar. Pegou sua bolsa de grife, colocou um chiclete, um blush, sua proteção e um batom.

Este era de uma cor nova, Framboesa Starlight. Gostaria de já sair usando-o, mas sua mãe não deixaria, por ser uma cor muito intensa para a idade dela.

“Preciso sempre lhe lembrar que é uma adolescente, pois parece que você esquece”, dizia Dona Alice.

Passou então um rosinha claro cor menininha comportada.

Se perfumou com uma fragrância importada cara, um floral aquoso, com notas de baunilha e hortelã.

Se mirou uma última vez no espelho:

— Se os anjos existem, eles são assim — murmurou para si mesma.

Finalmente desceu.

Atravessou o hall no pé da escada e adentrou a sala de estar. As três pessoas que lá estavam se viraram para ela.

No mesmo instante Ana viu a aprovação e o orgulho nos olhos de seus pais. Já Júnior a mirava com a face de alguém que está perdido no deserto e encontra um oásis.

— Olhe filha, o que Júnior me trouxe — sua mãe mostrou um vaso de cristal que ostentava uma dúzia de tulipas fechadas.

— São lindas — disse Ana e se voltou para o namorado. — E para mim, não trouxe nada? — perguntou com fingida inocência.

O rapaz saiu do transe e correu a pegar a caixa que Ana vira sobre um aparador próximo.

— É claro, quer dizer, com certeza, meu amor.

Ela recebeu a caixa branca, finamente trabalhada, fechada com um laço cor de rosa. O soltou e abriu a tampa.

Seus olhos brilharam. Eram bombons suíços, de uma marca famosa e muito cara. Cada um embrulhado como se fosse uma pequena joia.

— Oh! — exclamou — Amei!

Se levantou na ponta dos pés e deu um selinho no namorado, que sorriu feliz.

Ana começou a desembrulhar um. Sua mãe lhe chamou a atenção:

— Vai comer agora? Mas não jantarão?

— Só um — se defendeu Ana e colocou o doce na boca. Fechou os olhos e suspirou — Divino!

Dona Alice tirou a caixa das mãos dela:

— Deixe comigo, ou comerá todos. Eu te conheço, filha.

— Onde irão? — perguntou o Sr. Raul.

— Iremos comer King Crab no restaurante novo do chefe Pierre Lafont — respondeu Júnior.

— Excelente pedida — comentou o pai de Ana e, assumindo uma expressão austera começou a ladainha de todas as vezes: ela deve estar em casa até as 23:00 h, não pare o carro em lugares ermos e toda uma série de recomendações adornadas com veladas ameaças. Júnior só balançava a cabeça e murmurava um “sim, senhor”. Raul finalizou sua prelação com um “trate-a como a princesa que ela é. Você tem um tesouro nas mãos, rapaz”

— Sim senhor. Quer dizer, sei disso senhor.

O jovem casal finalmente se despediu. Antes de sair pela porta Ana se virou e disse:

— Não comam meus bombons.

— Só um — brincou o pai.

— Ou dois — emendou a mãe sorrindo.

Quando iam se aproximando do carro, Júnior se adiantou e abriu a porta para ela.

Ana sorriu internamente. “Está aprendendo mesmo”.

Ao entrar, Júnior se virou para ela, querendo beijá-la.

Ela levantou a mão e o deteve:

— Não aqui na frente da minha casa.

Ele pareceu contrariado, mas ligou o carro e arrancou.

Depois da primeira esquina, Ana desceu o quebra sol para se olhar no espelho enquanto passava seu Framboesa Starlight.

Júnior a olhou fazer toda a operação de apertar os lábios, fazer biquinho, retocar.

— Que batom bonito. Combina com você. E o cheiro é muito bom. Posso experimentar? — Pediu ele de forma insinuante.

Ana esticou o cosmético na direção dele:

— Claro. Fica à vontade.

O rapaz ficou alternando seu olhar entre a rua à frente e o batom que ela lhe oferecia, a testa franzida, não entendendo nada.

“Tapado”, pensou Ana.

Ele finalmente pareceu compreender e riu desdenhoso:

— Você é muito engraçadinha. Sabe bem o que eu quis dizer.

— Ah, gato — se defendeu ela toda dengosa — vai borrar todo meu batom.

— Mas eu não mereço? Depois dos bombons?

"É ele merece. Uma migalha".

Estavam parados em um semáforo, então ela se inclinou em direção a ele, que fez o mesmo.

Quando estavam com os rostos bem próximos, ele já de olhos fechados, Ana segurou-lhe cabeça com as duas mãos e lhe deu uma bitoca rápida, recuando logo depois.

Ele abriu os olhos com a contrariedade estampada neles, bufou e arrancou cantando pneus.

Ana sorriu. Gostava de provocá-lo.

Algumas quadras depois ele parecia ter se acalmado e como quem não quer nada, colocou a mão no joelho dela.

Ana colocou sua mão sobre a dele e começou a fazer-lhe carinho. Na verdade era para segurá-la caso ele pensasse em deslizá-la para dentro de sua saia.

Seguiam agora por um antigo bairro de classe média alta, com casarões com grandes muros e quintais. As ruas eram bem arborizadas, o que deixava a iluminação bem precária.

Havia também muitas praças e foi numa delas que Júnior estacionou sem avisar.

— Por que parou? — perguntou Ana.

Ele se virou e começou a acariciar-lhe o rosto:

— Pensei em namorarmos um pouco.

— Dá pra ser depois? Tô com fome — disse ela.

Júnior se aproximou mais:

— Eu também — rebateu com voz quente e uma expressão safada no rosto. — Por isso pensei em petiscar um pouco.

Ana o encarou estreitando os olhos.

“Esse cara tá me chamando de petisco?”

Mas depois relaxou. Que mal fazia dar uns amassos, afinal, namorar era isso.

Então sorriu de forma permissiva e ele entendeu que o caminho estava livre.

Foram muitos abraços e beijos intensos, até que ele levou a mãos aos seios dela.

Ana as retirou com suavidade.

Os carinhos continuaram e ele colocou a mão na coxa dela, acariciando e aos poucos começou a subi-la.

Ela a tirou e sussurrou no ouvido dele:

— Nada disso, safadinho.

Júnior riu e mais uma vez colocou a mão lá.

Novamente Ana a tirou e disse:

— Não.

Ele insistiu. Desta vez ela o empurrou com rispidez:

— EU DISSE NÃO!

Júnior esmurrou o volante do carro com raiva, erguendo a voz exaltado:

— Porra, Ana! Que….porcaria de namoro é esse que você nunca quer nada, fica me deixando na seca?

Ela deu de ombros sem olhar para ele e sim novamente para o espelho, retocando seu batom, e respondeu de forma evasiva:

— É muito cedo para isso, não temos nem seis meses de namoro. Não estou pronta.

O rapaz balançou a cabeça contrariado:

— Não está pronta? Mas para os outros caras você deu rapidinho, né?

Ela se virou rapidamente em direção a ela, os olhos azuis chispando:

— O que quer dizer com isso?

— Todo mundo sabe que você já transou com metade do colégio e agora fica regulando pra mim!

— Eu não…. — Ana engasgava de raiva. Sabia que os rapazes com quem tinha ficado, frustrados por não terem conseguido nada, a difamavam no colégio. Ela já havia esmurrado o nariz de dois deles e até de uma garota, que falavam mal dela —…. Eu nunca transei com ninguém! Sou virgem!

Júnior soltou uma gargalhada:

— Ah, conta outra — e depois avançou para ela, a pressionado contra a porta do carro, tentando colocar a mão em sua coxa. — E aí, vai liberar ou não? Um oralzinho, que tal?

Ana, furiosa, pensou em torná-lo o quarto a ter o nariz quebrado por ela. Mas pensou melhor, pois não estava no ambiente controlado do colégio.

Deixou a raiva fluir de forma mais amena e deu um tapa na cara de Júnior, que a encarou perplexo.

— Seu babaca! — ciciou ela e, aproveitando a hesitação dele, abriu a porta do carro e saiu.

Ele rapidamente saiu e a cercou, segurando-a pelo braço e jogando-a com violência contra a lateral do carro.

Ana perdeu momentaneamente o fôlego e antes que o recuperasse, o rapaz encostou seu corpo no dela e a pressionou contra a lataria, deixo-a imobilizada.

— Garota nenhuma diz não pra mim! Além do mais, depois de me fazer gastar a maior grana com você e aguentar os idiotas dos seus pais eu mereço uma compensação

As mãos dele, apoiadas no carro, deixavam seus braços na altura dos cotovelos de Ana, impedindo que ela erguesse os seus. E Júnior começou a empurrar seu joelho entre as coxas dela, tentando afastá-las.

Ana queria muito conseguir dar uma cabeçada no nariz ou na boca dele, mas ele era muito mais alto. Sabia que sua situação era crítica, de que não adiantaria pedir ou ameaçar para que ele parasse. A excitação dele estava em seus olhos, com suas pupilas dilatadas, em sua respiração acelerada e na dureza que ela sentia sendo pressionada na altura de seu ventre. Precisava libertar as mãos.

Hora de uma mudança de tática.

— Aiim — gemeu ela, mordendo o lábio inferior e fazendo cara de safada — para! Assim você me excita!

Júnior deu um sorriso doentio:

— Gosta com violência não é, vadiazinha?

— Sim — respondeu ela com voz rouca — Vamos fazer aqui mesmo, mas deixa eu pegar a proteção na minha bolsa.

— Haha, tá vendo? Eu falei que era papinho seu. Que virgem anda com proteção na bolsa? Mas não, eu quero sem.

— Ah, gato. Ela é saborizada, de um sabor que eu adoro. Faz isso por mim, vai?

Ele até parou de se mexer e a encarou com avidez:

— Vai chupar?

— Você vai ficar chocado com o que sei fazer.

— Tá bom, eu topo.

Ele a soltou e levou as mãos à braguilha da calça.

Ana rapidamente colocou a mão dentro de sua bolsa. Ouviu-se um estalo e um brilho azulado iluminou momentaneamente a noite e Júnior foi lançado a dois metros de distância quando ela encostou o taser em seu peito.

Ela correu até o rapaz que se contorcia no meio da rua e começou a chutá-lo em várias partes do corpo, inclusive no rosto.

— Seu escroto, abusador nojento, ordinário, seu….bosta

Ana estava tão furiosa que até engasgava. Por fim aplicou-lhe um belo pontapé entre as pernas. O rapaz gritou, virou de lado e vomitou.

— Isso é por ter esfregado essa coisa nojenta em mim!

Ela saiu andando com passos duros, mas logo depois parou, voltou e deu mais uma descarga elétrica no rapaz caído, que estrebuchou.

— E isso é por chamar meus pais de idiotas, seu idiota!

Saiu a passos rápidos e atravessou a pequena praça, os saltos de suas sandálias afundando na grama.

Quando saiu na rua do outro lado as tirou, para poder correr melhor. Precisava se esconder antes que Júnior se recuperasse e viesse atrás dela.

Entrou em algumas ruas e logo escutou pneus cantando em alguma esquina próxima.

Se enfiou em um nicho de um muro coberto de heras bem a tempo. Júnior passou em alta velocidade, freou na esquina procurando e depois arrancou, sumindo de vista.

Ana soltou a respiração.

Achava estar segura agora, porém, precisava dar um jeito de voltar para casa.

Pegou seu celular, mas a pouca bateria que tinha quando saíra já se esgotara.

Pensou em tocar a campainha de alguma casa, mas vendo todas escuras e silenciosas duvidava que alguém atenderia.

Andou a esmo, mas sempre alerta para qualquer sinal de Júnior, até que chegou em um ponto de ônibus.

Não tinha dinheiro, mas tinha certeza que se explicasse a situação para o motorista, ele a levaria até algum lugar onde pudesse pedir ajuda. Talvez um táxi passasse.

Não demorou muito um carro dobrou a esquina.

Não era Júnior. Seu carro tinha um ronco bem característico.

A luz dos faróis caiu sobre ela e o veículo diminuiu a velocidade e foi encostando.

Era um sedã grande de luxo.

“Algum velho tarado, com certeza”, pensou ela e segurou o taser dentro da bolsa.

O carro encostou, o vidro do passageiro abaixou e alguém pôs a cabeça para fora.

— Tá fazendo o que aqui sozinha, sua maluca?

Era Carlos, irmão de Jonas seu melhor amigo.

No volante estava o senhor Luís, pai dos dois, que a olhava com um misto de preocupação e censura:

— Menina, aqui é muito perigoso. Porque está aqui e só?

— Hãa, ah, eu….bem — Ana desconcertou-se diante do tom de voz firme do homem, que era um dos mais famosos advogados da cidade.

O vidro traseiro abriu-se e um rosto sorridente veio salvá-la:

— Oi Ana!

Era Jonas.

— O….oi

— Entre, vamos levá-la para casa — ordenou Luís.

Ela obedeceu e quando entrou e se sentou ao lado de Jonas, sentindo-se segura, seu corpo relaxou e expulsou a adrenalina e por pouco ela não chorou.

Seu amigo notou a mudança de sua expressão:

— Você tá bem? — perguntou preocupado.

Ela lhe sorriu:

— Agora estou.

Os dois estudavam juntos desde o maternal. Brincaram juntos e depois, já no fundamental, estudavam e faziam trabalhos escolares. Jonas frequentava a casa de Ana e era muito apreciado por seus pais, graças a sua educação e inteligência.

A amizade deles era tão profunda que uns três anos antes, quando as meninas da idade de Ana começaram a só falar sobre beijar, ela não quis estrear na modalidade com algum garoto aleatório em alguma festinha, então pediu, ou melhor, convocou Jonas para lhe dar seu primeiro beijo.

E ele aconteceu numa tarde no colégio, na biblioteca, onde os dois foram fazer um trabalho de história em dupla, atrás da estante de livros de filosofia.

Fora a primeira vez para os dois e, do alto de seus quase treze anos, não conseguiam avaliar depois se tinha sido bom ou não, até porque, envergonhados, nunca conversaram a respeito.

Carlos se virou:

— E cadê o babaca do seu namorado?

Apesar de ser irmão de Jonas, Ana não ia com a cara de Carlos.

Ele era o melhor amigo de Daniel, que era namorado de Cris, que por sua vez, era sua melhor amiga, então, quando Ana não estava envolvida em algum namoro, costumava sair com eles. As vezes Pedro, primo de Daniel e mais velho, também aparecia.

Ana achava os três rapazes uns imbecis, principalmente o cafajeste do namorado de sua amiga. Não entendia porque Cris ainda mantinha o namoro com aquele traste.

Carlos era cheio das piadinhas e vivia provocando Ana, por isso seu ranço em relação a ele.

Mas, naquele momento, o alvo de sua raiva era Júnior, então aceitou a referência de Carlos a ele como algo solidário.

— Eu estava com ele. Mas o ordinário, indecente e desprezível tentou passar dos limites.

Luís olhou preocupado através do espelho retrovisor.

— Você está bem? Quer ir à polícia, a um hospital, que chame seus pais?

— Não precisa —respondeu Ana. — Como eu disse, ele tentou, mas se deu mal.

Ela tirou o taser da bolsa e o acionou, fazendo suas faíscas azuis iluminarem o interior do veículo.

Os outros três ocupantes deram pulos assustados. Carlos se recuperou primeiro e deu uma gargalhada:

— Hahahahaha, você fritou as bolas dele?

— Carlos! — ralhou o pai parando o carro em um semáforo fechado, virou-se para Ana.

— Portar este tipo de equipamento é ilegal, mocinha, sabia?

Ana deu de ombros:

— Uma garota precisa poder se defender.

— Seus pais sabem que você possui isso?

Ela se remexeu inquieta, como se não fosse responder.

— Não — disse por fim — E agradeço se o senhor não contar.

— Infelizmente não posso fazer isto — rebateu o homem arrancando com o carro.

Jonas se inclinou para a frente:

— Mas, pai, isso ajudou Ana. O que teria acontecido se ela não tivesse como se proteger? Não conta, não.

— É verdade, pai — Carlos entrou na conversa. — Esse cara, o Júnior, é um babaca, mereceu o choque.

Ana ficou verdadeiramente surpresa pelo rapaz defendê-la.

— Se ele é assim e é maior de idade, deve ser denunciado. Você contará o ocorrido para seus pais?

— Sim, vou.

— Então não contarei — os meninos trocaram um olhar vitorioso. Luís, sem se virar levantou o braço e deixou a mão espalmada para o alto — Mas ficarei com o taser.

Ana bufou contrariada, mas depois pensou melhor e entregou o aparelho, afinal, se ele contasse, ficaria sem ele mesmo fora o castigo. E ela ainda tinha o spray de pimenta escondido no seu quarto.

Depois afundou no banco, com um suspiro:

— Aquele imbecil acabou com minha noite de sábado — resmungou.

— Quer ir jogar videogame lá em casa? — perguntou Jonas empolgado. — Baixei o The revenge of Atlantis!

Ana se empolgou:

— Demais! Faz um tempão que quero jogar esse! Eu topo!

— Aí pedimos uma pizza! Pode ser, pai?

— É claro que podem.

— O senhor poderia passar na minha casa primeiro? Quero falar com meus pais e também trocar essa roupa — pediu Ana.

— Com toda certeza. Vamos lá — concordou Luís.

***

Do seu quarto Ana podia ouvir seu pai no escritório, esbravejando com o sócio ao telefone.

Quando ele e sua mãe a viram chegando com Jonas, Carlos e o pai deles, pressentiram que algo de ruim havia acontecido.

Foram muitas perguntas até ficarem a par do que havia acontecido, com exceção do episódio do taser substituído por um “minhas aulas de karatê valeram a pena”,

Houve também muitos agradecimentos pela ajuda prestada a ela pelo senhor Luís e filhos e claro que eles a deixaram ir na casa deles jogar com Jonas.

Mas, primeiro, queriam ir até uma delegacia prestar queixa, ideia que foi apoiada por Luís, mas Ana bateu o pé e não quis. Disse que aquilo poderia prejudicar a relação de seu pai com o sócio e, afinal, nada de mais grave havia acontecido.

Seus pais anuíram, mas Raul foi ligar para o sócio para que ele tomasse alguma atitude contra o filho.

Quando Ana desceu as escadas Carlos estava encostado na parede ao final dela, de braços cruzados e levantou seus olhos para ela.

Ana havia trocado a roupa que usara por uma camiseta básica, calça jeans e tênis, sem nenhuma maquiagem ou adorno.

Ela pensou ter vislumbrado no olhar do rapaz a mesma admiração misturada com desejo que vira nos olhos de Júnior mais cedo, ali mesmo.

Mas logo o peculiar deboche tomou conta de sua expressão e ele disse:

— Ih, virou abóbora.

— Pois eu acho que você fica muito mais bonita assim — disparou Jonas, que também estava ali.

O garoto ficou vermelho pela forma intempestiva como falara, mas o sorriso de Ana o fez sorrir também.

Os adultos apareceram e Raul informou:

— Alex, pai de Júnior ficou muito constrangido e furioso com o filho. Disse que vai lhe tomar o carro e cortar sua mesada.

— Nossa. Graande castigo — murmurou Carlos, sendo ouvido apenas por Ana e Jonas.

— Ele vai ter outro castigo merecido — falou Ana também em baixa voz — Segunda, no colégio, vou contar pra todo mundo que bati nele e o deixei no chão, todo mijado.

— Ele….se urinou? — perguntou Jonas abrindo os olhos assombrado.

Ana deu de ombros:

— Não, mas é o que vou dizer, para enterrar qualquer popularidade que esse cara já teve.

No mundo particular dos adolescentes aquilo se espalharia como fogo em mato seco e realmente destruiria a imagem de Júnior, por isso Carlos riu e disse:

— Você é má, garota.

Ela o mirou com seus olhos azuis faiscando:

— Você não faz ideia.

Finalmente eles saíram e antes de se dirigirem ao carro Luís falou para os pais de Ana:

— Eu a trarei as 23:00 horas, tudo bem?

— Não precisa se incomodar — respondeu Alice — Vou pedir ao nosso filho mais velho, quando estiver voltando para casa que a busque.

— Mas ele costuma vir um pouco mais tarde — colocou Raul por sua vez — Se isso for um problema para vocês posso eu mesmo buscá-la.

— Problema nenhum — tranquilizou-os Luís — Dormimos tarde aos sábados. Assim eles podem se divertir por mais tempo.

Se despediram.

Ana e Jonas sentaram-se no banco traseiro e Luís assumiu o volante.

Carlos não entrou. Se debruçou na porta do lado do passageiro e pediu:

— Pai, vou na casa do Daniel, tudo bem?

— Tudo bem, mas não volte tarde.

— Num sábado à noite não era para seu amigo estar com Cris? — intrometeu-se Ana.

— Eles brigaram — informou Carlos.

— De novo, né? — colocou Ana de forma azeda.

No dia seguinte falaria com Cris e descobriria o que o cafajeste do Daniel havia feito desta vez.

"Aquele...", ela se forçou a não pensar nele. Ultimamente, sempre que fazia isso, sentia um comichão que não sabia de onde vinha, mas que não gostava de sentir.

Carlos a ignorou e se virou para ir, mas, de repente, voltou para janela e disse com um sorriso no rosto:

— Ah, irmãozinho, cuidado para não passar dos limites, hein? Ou ela frita suas bolas também.

— Carlos! — o repreendeu Luís.

O rapaz saiu gargalhando. Jonas se virou para Ana, novamente vermelho:

— Não liga pro meu irmão, ele é….

— Um bobo, eu sei. Mas, relaxa — Ana sorriu de forma significativa e disse em voz baixa. — E eu não tenho mais o taser, lembra?

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