Existe uma forma discreta de cansaço político que não aparece nas urnas, mas organiza quase tudo antes delas. É o cansaço de escolher não por adesão, mas por pânico. Vota-se menos em um projeto do que contra uma ameaça. Defende-se menos uma ideia do que uma trincheira. O candidato deixa de ser promessa e passa a ser extintor: não ilumina o caminho, apenas promete impedir que o incêndio do outro chegue à sala.
Essa é uma das faces mais eficientes da democracia publicitária. Ela não elimina o voto, não fecha o Congresso, não rasga a Constituição. Pelo contrário: mantém todos os ritos formais funcionando. A urna continua lá, as campanhas continuam lá, os debates continuam lá. O que muda é a matéria-prima da decisão pública. Em vez de formação política, temos segmentação emocional. Em vez de programas, temos marcas. Em vez de cidadãos em conversa, temos públicos-alvo em teste A/B.
Guy Debord escreveu sobre uma sociedade em que a experiência direta é substituída por representação. Sua crítica ao espetáculo ajuda a entender uma política que já não disputa apenas governo, mas atenção. A imagem do candidato passa a circular antes de qualquer proposta. O gesto vale mais que o argumento; o corte de vídeo vale mais que a entrevista inteira; a frase que humilha o inimigo vale mais que o parágrafo que explica o país.
Mas o espetáculo de hoje ganhou uma engenharia que Debord não chegou a ver em plena maturidade: o algoritmo. A vitrine deixou de ser igual para todos. Cada eleitor recebe um país ligeiramente diferente, montado a partir de medo, histórico de cliques, ressentimentos prováveis e desejos de pertencimento. A política não precisa mais convencer uma praça inteira. Ela pode apenas confirmar, silenciosamente, a sensação íntima de que o outro lado é intolerável.
Jürgen Habermas pensou a esfera pública como espaço de deliberação, onde argumentos circulam, são testados e podem formar opinião coletiva. O problema é que a esfera pública algorítmica não premia exatamente o melhor argumento. Premia retenção, choque, repetição, indignação e identidade. Aquilo que nos faz parar o dedo na tela ganha vantagem sobre aquilo que nos faria mudar de ideia.
Por isso a rejeição virou capital político. Um candidato com pouca capacidade de inspirar ainda pode sobreviver se conseguir convencer parte suficiente da sociedade de que sua derrota significaria uma catástrofe. A campanha deixa de perguntar “que país queremos construir?” e passa a insistir: “você sabe o que acontece se eles voltarem?”. O eleitor é colocado diante de uma chantagem moral permanente. Não se pede confiança. Pede-se medo disciplinado.
Bernard Manin descreveu a democracia representativa moderna como cada vez mais marcada por uma lógica de audiência. O representante se aproxima do ator público, dependente de visibilidade, performance e manejo de percepção. Nas redes, essa tendência se radicaliza. O político deixa de falar apenas ao eleitor médio e passa a falar simultaneamente a muitas plateias, às vezes contraditórias, cada uma recebendo um pedaço calculado do personagem.
A consequência é uma política que vive de adversários indispensáveis. O inimigo não é apenas alguém a derrotar; é alguém a manter em cena. Sem ele, a própria candidatura perde sentido. A rejeição do outro vira combustível, desculpa e método. Se o adversário é apresentado como barbárie, qualquer mediocridade própria pode ser vendida como responsabilidade histórica.
Hannah Arendt lembrava que a política depende de um mundo comum, de uma realidade compartilhada na qual diferenças possam aparecer sem destruir a possibilidade de fala. Quando esse mundo comum se fragmenta, a disputa pública deixa de ser conflito entre interpretações e passa a ser guerra entre realidades. Cada grupo já chega ao debate com seus fatos, seus mártires, seus traidores e sua versão editada do desastre iminente.
É nesse ponto que a democracia publicitária se torna mais perigosa. Ela não precisa fabricar uma mentira total. Basta organizar a percepção para que cada verdade parcial funcione como munição. Um dado sem contexto, uma cena sem antes e depois, uma fala cortada no ponto certo, uma estatística transformada em arma: tudo pode servir para confirmar que o voto no próprio campo não é escolha, mas defesa pessoal.
Byung-Chul Han observa que a comunicação digital tende a acelerar reações e enfraquecer mediações. Em política, isso significa menos tempo para elaboração e mais recompensa para descarga afetiva. O eleitor cansado não é convidado a pensar; é convidado a reagir. E, quando reage, entrega ao sistema mais sinais sobre seus medos. O ciclo se fecha: a máquina aprende a cutucar melhor a ferida que ela mesma ajuda a manter aberta.
A pergunta “você se sente representado?” então deixa de ser simples. Talvez muita gente se sinta representada apenas negativamente: não porque encontrou uma voz, mas porque encontrou um escudo contra a voz que odeia. É uma representação por aversão. O eleitor não diz “este sou eu”; diz “qualquer coisa, menos aquilo”.
Esse mecanismo empobrece a democracia porque transforma o voto em contenção de danos. A política vira seguro contra incêndio, não projeto de cidade. E o cidadão, em vez de sujeito da vida pública, vira audiência assustada de uma campanha infinita. O Brasil passa a aparecer não como comunidade em disputa, mas como painel publicitário rasgado ao meio: cada lado prometendo salvar o país do outro.
O papel de uma Esfera Pública digna desse nome não é fingir neutralidade diante desse processo. É interromper a hipnose. É perguntar quem ganha quando a sociedade só escolhe por rejeição. É separar crítica de vício algorítmico, indignação legítima de manipulação emocional, risco real de fantasma conveniente.
Democracia não é apenas o direito de escolher entre dois medos. Se for reduzida a isso, ainda teremos campanhas, jingles, urnas, pesquisas e comentaristas. Mas talvez já tenhamos perdido algo anterior e mais grave: a capacidade de imaginar uma escolha que não seja apenas fuga.
O Brasilianado começa aqui porque essa pergunta precisa ser feita de frente. Brasil, mostra tua cara. Mas mostra também quem está segurando o espelho, quem escolheu a luz, quem cortou a imagem e quem lucra quando o rosto do outro parece sempre uma ameaça.