@wilcipolli
há 1 semana
Público
Mar das férias
Algumas rotinas parecem feitas de pequenos retângulos: a tela do celular, a janela do ônibus, o caderno aberto sobre a mesa ou o notebook do serviço. Entre um e outro, o dia passa, a semana passa, o ano passa.
Acordar cedo, trabalhar, assistir aula, voltar cansado, e juntar forças para queimar os músculos na academia a fim de sentir algo além da mente desgastada. O corpo segue funcionando, já a cabeça viaja para outros lugares.
Esses lugares aparecem com frequência no dia a dia, basta rolar o feed por alguns segundos. Alguém filmando o pôr no mar, outro mergulhando, ondas acariciando a orla. Gente rindo com um sol quente na testa e uma cerveja na boca. A cada novo vídeo, cresce uma sensação difícil de explicar: não é exatamente inveja, mas uma rotina que implora por uma pausa.
Talvez por isso que o mar tenha virado quase um símbolo de descanso. Depois de um ano inteiro acumulando tarefas, provas, compromissos e horários, muita gente sonha com a mesma coisa: alguns dias em que o único dever seja olhar o horizonte e escutar o som do oceano.
Naquela tarde de labuta, naquela noite de estudos, sentado diante de páginas que pareciam não avançar, a mente começou a fugir outra vez. Primeiro veio a imagem vaga do litoral. Depois, mais nítido, um píer avançando sobre as águas. Não sei dizer se era lembrança, imaginação, pouco importa, pois deixei-me ir.
E lá estava. Mergulhando do píer. Vendo sua madeira — escura e molhada. Meu corpo seco e a água gelada. Arrastei-me do mar. O verão farpando minhas costas com insolação, aquela saudosa vermelhidão. A pele suplicando de novo o frio. A boca salgando e a areia lixando.
Durou pouco, mas ficará pra sempre aqui dentro.
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