Broquéis: Lua Broquéis · Capítulo 20 de 53
Obra Menu

Broquéis: Lua

Lua

Clamydes frescas, de brancuras frias,

Finissimas dalmáticas de neve

Véstem as longas arvores sombrias,

Surgindo a Lua nebulosa e leve...

Névoas e névoas frígidas ondulam...

Alagam lacteos e fulgentes rios

Que na enluarada refracção trémulam

D’entre phosphorescencias, calafrios...

E ondulam névoas, setinosas rêndas

De virginaes, de prónubas alvuras...

Vagam balladas e visões e lêndas

No flórido noivado das Alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade

Fluctúa como as brumas de um lethargo...

E érra no espaço, em toda a immensidade,

Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,

Das sideraes abobadas ceruleas

Cae a luz em antiphonas, em thrênos,

Em mysticismos, orações e dúlias...

E entre os marfins e as pratas diluidas

Dos languidos clarões tristes e enfêrmos,

Com grinaldas de rôxas margaridas

Vagam as Virgens de scysmares êrmos...

Cabellos torrenciaes e dolorosos

Bóiam nas ondas dos ethéreos gêlos.

E os corpos passam niveos, luminosos,

Nas ondas do luar e dos cabellos...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam

Em grandes procissões, em grandes alas,

Dentre as auréolas, os clarões que alagam,

Opulencias de pérolas e opalas.

E a Lua vae chlorótica fulgindo

Nos seus alpérces ethereaes e brancos,

A luz gelada e pallida diluindo

Das serranias pelos largos flancos...

O’ Lua das magnolias e dos lyrios!

Geleira sideral entre as geleiras!

Tens a tristeza mórbida dos cyrios

E a lividez da chamma daa poncheiras!

Quando resúrges, quando brilhas e amas,

Quando de luzes a amplidão constéllas,

Com os fulgôres glaciaes que tu derramas

Dás febre e frio, dás nevrôse, gélas...

A tua dôr crystallisou-se ontr’ora

Na dôr profunda mais dilacerada

E das dôres estranhas, ó Astro, agora,

És a suprema Dôr crystalisada!...

1/1
Menu

Fazer anotação