Missal: Dolencias Missal · Capítulo 2 de 44
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Missal: Dolencias

Dolencias

Tu, na emoção desse encanto doloroso

e acérbo da Arte, te sentirás, um dia,

velho, fatigado, como um peregrino que

percorreu anciosamente todas as viassacras

torturantes e perigosas.

Essa maravilhosa seiva de pensamentos,

toda essa purpura espiritual, as vivas

forças impetuosas do teu sangue, agindo

poderosamente no cerebro, irão aos

poucos, momento a momento, desapparecendo,

n’um brilho esmaecido, vago, o

brilho branco e virgem das estrellas

glaciaes.

A tu’alma será, condemnada á solidão e silencio, como certas formosuras claustraes

de monjas que brumalmente appa.

recem por entre as céllas, deixando no

espirito de quem as vê, quasi que o

mysterio de um religioso esplendor...

E, já assim emmudecido e gelado para

as nobres sensações do Amor, ficarás

então como se estivesses morto -- sem

cabellos, sem dentes, sem nariz, sem

olhos -- sem nenhuma dessas expressões

physicas que tornam os seres humanos

harmoniosamente perfeitos.

Em vão te recordarás da doçura de

mãos avelludadas e brancas, da amorosa

diaphaneidade de uns olhos claros...

As tuas Ieddos, as tuas Lésbias e as

tuas Aldas, fluidamente te passarão na

memoria, alvas e frias...

Por infinitamente tratar de idéas como

de astros prodigiosos, sonhaste com os

opulentos, doirados prestigios da Gloria;

pensaste na Elevação como na solemnidade

augusta das montanhas.

Mas, velho já, lembrarás um sol apagado,

cuja fórma material poderá persistir

talvez ainda e cuja chamma fecundadôra

e ardente se extinguirá para

sempre...

Não crêr em nada, não sentir nada,

não pensar nada, será a tua philosophia

da senilidade. E, neste estado do ser,

mais cruel que o Bhudismo, deixarás,

como disse Heine, que a morte vá emfim

tapar-te a bocca.com um punhado

de terra...

No emtanto, pela tua retina cansada,

desfillará tudo o que tu outr’ora amaste

com intensidade: os occasos affogueados,

de verberações de metal sobre o mar e

sobre o rio. Os finos frios radiantes, de

azul resplandescente. A Lua, como estranha

rosa branca, perfumando o ar,

derramando lactescencias luminosas nos

campos alfombrosos. Os navios, as escunas

e os hiates, todas as embarcações

admiraveis, que fazem sonhar, balouçando nas ondas, em relêvos nitidos, em gravuras

esmaltadas ao fundo dos horisontes.

Tudo o que pensaste, o que trabalhaste

pela Fórma, com nervos e com

sangue; tudo o que te deixou despedaçado,

na amargura das luctas com o estylo

e com a phrase, cantará saudosamente

no teu peito, cantará grandioso,

solemne, como os Psalmos de Salomão.

Com essa natureza mystica, quasi religiosa,

que possúes, o Mundo te parecerá

uma cathedral vastissima, colossal, de

biliões e biliões de torres de crystal, de

saphyra, de rubim, de ametista, de onix,

de topasio e d’esmeralda.

E, á hora longinqua de profundo luar

glacial e immovel, de cada uma dessas

torres surgirá um espectro branco dos

teus sonhos, como uma ronda phantastica,

e os sinos plangentemente vibrarão

ao mesmo tempo, com tristezas nocturnas

e lancinantes, por todo o sepulchramento

dos teus Ideaes.

E tu, velho, embora, na torre verde d’esmeralda, ficarás egrégio, vencedor, immortal, eterno, só e sereno, ao alto, sob as estrellas eternas...

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