Missal: Sophia Missal · Capítulo 39 de 44
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Missal: Sophia

Sophia

Foi na sala branca, de leves listrões

d’ouro, que eu a vi interpretar um

dia ao piano Mendelsohn, Schumann, as

fugas de Bach, as symphonias de Beethoven.

Tinha um nome biblico, lembrando palmeiras

e cisternas: chamava-se Sophia.

Era alta, de uma brancura de hostia,

como certas aves esguias que os aviarios

conservam e que ahi vivem n’um grande

ar dolente de nostalgia de sélvas, de

mattas cerradas, de sombrios bosques.

Nervosa, de um desdem fidalgo de fria

flôr dos gelos polares, e triste, trahia a

Arte aquelle altivo aspecto, a orgulhosa cabeça erecta em frente das partituras,

que os seus olhos garços liam e que os

seus dedos rosados e aristocraticos executavam

com perfeição, com claro entendimento

nas téclas.

E de todo esse nobre ser delicado,

de todo esse perfil de imagem de jaspe,

irradiava uma harmonia vaga, melancholica,

uma auréola de pungitiva amargura,

mais desolada que as symphonias de

Beethoven, como se todas aquellas musicas

excélsas tivessem sido inspiradas

n’ella.

Ó aromas, subtilissimas essencias dos

finos frascos facetados do luxuoso boudoir

d’essa musical Magnolia; aromas

vaporosos, maravilhosos perfumes que

incensaes, á noite, de volupia, a sua

alcova, como as purpurinas boccas das

rosas, fallai a linguagem alada que as

vozes humanas não pódem fallar e dizei

os murmurios estranhos dos sentimentos imperceptiveis, immaculados, que alvoróçam

a alma anciosa d’essa sonhadora

Sophia.

Só os aromas, só as essencias terão

os effluvios castos, os fluidos luares de

expressão, o rhythmo ineffavel para contar

que latentes palpitações traz Ella no sangue,

que chamma d’astro lhe inflamma o

peito, quando vólta triste dos concertos

egrégios e vae enclausurar-se na alcova,

-- muda, muda, talvez sob a névoa das

lagrimas, na emovente concentração dos

que morrem amando...

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