Missal: Sob as naves Missal · Capítulo 4 de 44
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Missal: Sob as naves

Sob as naves

Áquella hora, meio tarde no dia, não

sei que compuncção evangélica me assaltou,

me invadio a alma, que eu penetrei

no templo illuminado.

Altas naves sombrias pela névoa crepuscular

da tarde, já em tons violaceos,

abriam-se aos meus olhos, n’uma solemne

paz mystica.

Do alto do altar-mór vinha uma austera

eloquencia de Religião, de Fé Catholica,

de Rito Romano.

Velas amarelladas e frias, de chamma

nobre e ardente, elevavam-se em tocheiros

cinzelados, n’uma luz oscillante, tremula ás vezes por alguma momentanea aragem,

como almas na indecisão do viver.

Na capella do Santissimo, rutilante de

caros brocados e douraduras custosas,

de fulgentes pratarias, de tons azulados

e brancos de jarras esbéltas, uma lampada

fulgurava, toda em

em esmaltes de

prata, por entre a meia-tinta avelludada

da hora, atravez do silencio eucharistico,

monastico da capella.

Uma serenidade de força divinal, de

magestade tranquilla, enchia o templo de

um grande ar pantheista.

Nos altares lateraes, os santos, hysterismos

mumificados, no immortal resplendor

das cousas abstractas, dos impulsos

mysteriosos que, allucinam e por

vezes fazem vacillar a materia, tinham

dolorosas e fortes expressões de luxuria.

Eu sentia, sob aquellas rigidas carnes

mortificadas, frémitos vivos do sangue

envenenado e demoniaco do peccado

E, de repente, não sei porque profana,

tentadora suggestão, vi nitidamente

Nossa Senhora descer aos poucos do

altar, branca e muda, arrastando um

manto estrellado, e, vindo anhelante para

mim, de braços abertos, dar-me, com os

olhos claros de azul, profundos e céltas,

infinitas, ineffaveis promessas...

Ah! naturalmente eu sonhára accordado,

porque Tu, durante este meu somnambulismo

de satyro lascivo, subitamente

entraste, tréfega, com vivacidades de passaro,

no templo illuminado; e eu então

logo senti que os lindos olhos claros de

azul que virginalmente se encaminharam

para os meus, na ardencia de um desejo,

eram, por certo, os teus olhos, sempre

meigos, sempre amorosos, ó luz, ó sol,

ó esplendor dos meus olhos!

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