Capítulo XIV
Capítulo XIV
— Adeus, Betsy! Boa noite, Henk! Vou me deitar; estou exausta! — disse Eline de um só fôlego, ainda no vestíbulo.
— Você não quer comer alguma coisa antes? — perguntou Betsy.
— Não, obrigada.
Ela subiu a escada, enquanto Betsy encolhia os ombros. Betsy a conhecia, conhecia seus modos, e pelas palavras curtas e decididas adivinhou que Eline estava tomada por um daqueles estados de excitabilidade nervosa em que quase odiava qualquer pessoa que tentasse desviá-la de suas intenções.
— Que foi que aconteceu com Eline? — perguntou Henk, ansioso, quando entraram na sala de jantar.
— Ah, como vou saber? — exclamou Betsy. — Começou no concerto, e na carruagem ela nem sequer me respondeu, como você deve ter notado. Não me incomodo com isso, mas acho Eline insuportável quando lhe dão esses ataques ridículos.
Calma e digna, em sua penugem de cisne e pelúcia, Eline subiu a escada e entrou em sua saleta. O gás estava aceso, e um toro de lenha ardia na lareira. Por um momento ela olhou ao redor; depois arrancou dos cabelos a renda branca, tirou dos ombros a pequena capa e, de cabeça baixa e olhos fixos, ficou a olhar para a frente, com expressão vazia, como se esmagada sob o peso de uma decepção terrível.
No pequeno espelho veneziano, graciosamente suspenso por cordões e borlas vermelhas sobre o grupo branco de Amor e Psiquê, cuja aparência idílica fazia um contraste zombeteiro com a ironia de seus pensamentos, ela viu o próprio reflexo, cintilando em sua “seda reps cor-de-rosa”, com uma aigrette rosa nos cabelos, a mesma com que, três meses antes, vira Fabrice pela primeira vez.
E agora...
Quase riu em voz alta, de tão ridícula que se julgava; sentiu repulsa de si mesma, como se tivesse chafurdado na lama.
Houvera um concerto da Sociedade Diligentia no Salão de Artes e Ciências e, a pedido dela, Henk e Betsy a haviam acompanhado. Fabrice ia cantar; “o popular barítono da Ópera Francesa fora convidado a colher novos louros nos concertos do Salão”, dizia o parágrafo publicado no Het Vaderland.
Eline não descansou enquanto não teve certeza de que iria. Primeiro pedira aos Verstraeten; Madame Verstraeten não estava disposta, Lili ainda se achava doente. Depois pediu a Emilie; Emilie tinha um compromisso. Por fim recorreu a Henk e Betsy, que, embora nenhum dos dois fosse muito apaixonado por concertos, aceitaram ir. E Eline esperara grandes coisas ao ver Fabrice numa nova esfera, a de cantor de concerto. Felizmente, seus lugares ficavam perto do palco; ele — oh! ele devia tê-la notado na ópera, haveria de lhe fazer um sinal, ele a amava — o leque de Bucchi! E assim Eline prosseguia, criando ilusões sem fim; sua paixão lhe enchia a mente, cada vez mais, de uma segunda existência imaginária e fantástica, em que Fabrice e ela eram o herói e a heroína; um romance de improbabilidades, uma teia sempre crescente de extravagância poética.
Ele a achava bela, adorava-a; fugiriam, cantariam no palco, e através da pobreza e das privações chegariam à fama e à fortuna. Um arrebatamento febril, ao pensar que voltaria a vê-lo, espalhara uma leve tonalidade rosada sobre a palidez âmbar de suas feições; seus olhos haviam faiscado no brilho velado de seus olhares lânguidos; e... Foram. Ela tomou seu lugar, resplandecente de uma beleza que atraiu para si binóculo após binóculo, e as primeiras notas da sinfonia soaram em seus ouvidos como os doces acordes de um hino, carregados de alegres murmúrios de amor e felicidade. Então... então ele apareceu, em meio a uma tempestade de aplausos.
E agora, enquanto Eline fitava sem ver o espelho diante de si, voltou a imaginá-lo tal como surgira na plataforma do concerto.
Desajeitado, como um carpinteiro corpulento, numa casaca que parecia apertada demais para ele, os cabelos curtos e crespos gordurosos e viscosos de cosmétique, colados às faces, o rosto vermelho como uma lagosta, em contraste com o branco imaculado da frente da camisa, ele apresentava uma aparência grosseira e prosaica, com uma expressão desagradavelmente sombria em torno da boca barbada e nos olhos piscantes, semicerrados, sombreados por sobrancelhas espessas e cerradas. E pareceu a Eline que era a primeira vez que o via. Todo o encanto que ele exercera sobre ela na vivacidade talentosa de sua atuação, nos trajes brilhantes que lhe realçavam a figura do modo mais vantajoso, dissipara-se agora como por uma rajada violenta de vento. E embora sua voz ressoasse com o mesmo esplêndido timbre metálico que a enchera de arrebatamento na ópera, ela mal percebia que ele cantava, abalada como estava pela enormidade de seu engano.
Então ela não tinha olhos? Como! Aquele carpinteiro prosaico era o ideal de seu cérebro fantástico! Em seu desespero e decepção, teria podido soluçar de desgosto; mas nem uma feição se moveu, e ela permaneceu sentada, imóvel, quase rígida. Um leve estremecimento, porém, correu-lhe pelo corpo, enquanto puxava a capa em torno dos ombros. Enquanto ele cantou, ela o examinou da cabeça aos pés, como se não quisesse mais poupar a si mesma, e sua respiração vinha e ia rápida, agitada, agora que mergulhava nas profundezas de sua tristeza sem conseguir dar-lhe vazão. Por que não o vira assim quando o encontrara no Bosch, com sua capa, seu cachecol e o grande chapéu de feltro que lhe davam uma aparência romântica, algo de bandido italiano? Teria ela de fato se esquecido de si mesma a tal ponto? Estremecendo, olhou em torno da sala. Ninguém parecia notá-la, ninguém suspeitava da tempestade de decepção que lhe rugia por dentro; Fabrice absorvia a atenção de todos. Felizmente ninguém sabia, ninguém haveria de saber.
Mas a ideia de estar a salvo do olhar do mundo não lhe trazia consolo. Diante dela jaziam as ruínas despedaçadas do edifício aéreo, de vidro, de suas ternas visões e fantasias, que, pilar por pilar, leve e delicado, ela erguera para si, cintilante e belo, cada vez mais alto, em fantástico esplendor de cristal, sempre mais alto, mais alto ainda, até que, como numa apoteose, parecia atingir as próprias nuvens.
E agora tudo estava estilhaçado; todas as visões e fantasias do cérebro haviam desaparecido, dissipadas como por uma rajada de vento, e nem mesmo um caos restava de tudo aquilo: apenas um vácuo terrível; apenas aquele homem ali, com seu rosto vermelho de açougueiro, sua camisa branca, sua casaca apertada e seus cabelos lambuzados de gordura.
Nunca ela sofrera como sofreu naquela noite.
Durante três longos meses, aquele romance de amor fizera seu coração bater cada vez que o nome dele era pronunciado em sua presença, cada vez que via o nome dele anunciado em um cartaz; e agora... um olhar para aquele — as palavras de Vincent lhe ecoavam nos ouvidos, cheias de zombaria e escárnio — “sujeito gordo e feio” arrancara-lhe da alma esse romance, e tudo, tudo se fora.
Ela quase não falou; e quando, no foyer, Betsy, notando-lhe as feições contraídas e pálidas, perguntou se ela estava doente, Eline respondeu calmamente que sim: sentia-se um tanto fraca. Encontraram os Oudendyk e os van Laren, riram e gracejaram, mencionaram o nome de Fabrice; mas Eline deixou-se cair num banco, como uma pomba ferida, e ouviu, quase desfalecendo de dor, sem compreender nada, com um sorriso vazio, alguma coisa que o jovem Hydrecht lhe dizia.
Na segunda parte do concerto, Fabrice apareceu outra vez, e outra vez foi recebido com aplausos jubilosos; Eline sentiu-se fraca e tonta. Era como se o público, em sua admiração delirante, dançasse uma dança satânica em torno do barítono, sombrio, vermelho e grosseiro como antes. Gotas frias de suor se formaram em sua testa; suas mãos ficaram geladas e úmidas dentro do revestimento justo de peau de Suède, e seu peito se erguia em longos suspiros opressivos. Por fim — graças a Deus! — o concerto acabou.
Agora estava sozinha, e podia deixar-se levar o quanto quisesse por aquela tempestade de dor; não precisava mais obrigar-se a parecer alegre e sorridente diante do mundo. Assim, com um soluço de angústia, caiu de joelhos diante do sofá persa e escondeu a cabecinha palpitante no bordado das almofadas macias. Com as mãos tentou abafar os soluços arfantes que sacudiam toda a sua estrutura delicada; os cabelos desprenderam-se do fecho que os prendia e caíram em torno dela, numa massa de ondas lustrosas.
Depois da primeira dor e da primeira decepção, uma sensação amarga a dominou, como se ela, ainda que apenas aos próprios olhos, se tivesse entregue a um ridículo indelével, a algo indigno e risível, cuja mancha ficaria para sempre presa a ela, e cuja lembrança continuaria sempre a persegui-la como um fantasma zombeteiro e escancarado.
Permaneceu assim por muito tempo, a cabeça enterrada nas almofadas, todo o seu ser retorcendo-se na angústia do desespero. Primeiro ouviu Henk, depois Betsy, retirando-se para seus quartos; em seguida, Gerard fechando com ferrolho a porta da rua para a noite, o som ecoando pelo silêncio que reinava na casa. Depois disso nada mais se moveu, e Eline sentiu-se muito só, como se abandonada no meio de um oceano de tristeza.
De repente, um pensamento a fez sobressaltar-se. Ergueu-se depressa, enquanto os cabelos castanhos rodopiavam em torno dos ombros, e uma expressão de orgulho ferido lhe veio ao rosto manchado de lágrimas. Com firme resolução e aparente calma, aproximou-se da escrivaninha e, estremecendo, pôs a chave na fechadura; abriu a gaveta que outrora lhe fora tão querida e tirou dela o álbum. O veludo vermelho parecia queimar-lhe os dedos como fogo. Puxou uma cadeira para junto da lareira, onde o toro de lenha ainda ardia; abriu o livro. Então era esse o relicário de seu amor, o templo de sua paixão, em que adorara seu ídolo! E, à medida que virava as páginas, passava a procissão de retratos: Ben-Saïd, Hamlet, Tell, Luna, Nelusco, Alphonse, de Nevers — pela última vez. Com brutalidade, rasgando sob os dedos as folhas de bordas douradas, retirou as fotografias, uma a uma, e sem hesitar as despedaçou em pedacinhos, partindo o cartão duro no aperto furioso de seus dedos delicados. Atirou os pedaços ao fogo, um a um, e enquanto as chamas se enroscavam em torno deles continuou sua obra de destruição, lançando cada vez mais ao fogo, atiçando-o com o atiçador, até que tudo estivesse queimado. Aquilo passara; aquela vergonha estava purgada.
Então se levantou, um tanto aliviada. Mas o álbum rasgado, que ainda segurava entre os dedos, continuava a queimar-lhe a mão; e de súbito, agarrando o livro de veludo com tanta força que partiu as unhas, arremessou-o, com um grito abafado de repugnância, para longe de si, contra o piano, cujas cordas emitiram um suspiro baixo e surdo.
Depois recolheu do chão a capa e a renda, alisou a seda amarrotada do vestido e retirou-se para o quarto, onde uma pequena lâmpada noturna, branca como leite, espalhava em torno uma luz suave e triste.
E pareceu-lhe que de novo era mergulhada naquele oceano de tristeza, naquele abismo de decepções, enquanto de repente lhe veio à mente uma discussão com Betsy. Poucos dias antes, com efeito, declarara que Roberts, seu professor de música, estava ficando velho e já não servia para nada; que pretendia, dali em diante, tomar lições com um artiste — com Fabrice, por exemplo —, e Betsy lhe perguntara se ela estava louca, declarando que tal coisa certamente não se faria em sua casa.
Agora já não era preciso.