A Primeira Peste
Então pareceu a Christine que de repente seu rosto se rompia, como se brasas ardentes nascessem nele, ganhassem vida, se arrastassem por seu rosto, por todos os seus membros, como se tudo nela se tornasse vivo e, abrasado, rastejasse por todo o seu corpo. Então viu, no clarão pálido do relâmpago, aranhas negras incontáveis, venenosas, de longas pernas, correrem por seus membros e saírem pela noite; e atrás das que haviam desaparecido seguiam outras incontáveis, venenosas, de longas pernas.
Por fim, já não viu mais nenhuma seguir as primeiras; o incêndio no rosto se aquietou, a aranha baixou, tornou-se de novo um ponto quase invisível, e, com olhos que se apagavam, contemplou sua cria infernal, que havia parido e enviado como sinal de quanto o Verde se deixava escarnecer.
Fraca, como uma puérpera, Christine se arrastou para casa; embora a brasa já não ardesse tão quente em seu rosto, a brasa no coração não diminuíra. Embora os membros abatidos ansiassem por repouso, o Verde não lhe dava mais repouso; com quem ele uma vez fica, assim ele faz.
Lá dentro, na casa, porém, eles jubilavam e se alegravam, e por muito tempo não ouviram como o gado berrava e se agitava no estábulo. Enfim se sobressaltaram; foram ver, e voltaram pálidos de terror os que haviam ido, trazendo a notícia de que a vaca mais bela jazia morta, e as outras se debatiam e se enfureciam como nunca se vira. Aquilo não estava certo; algo estranho mandava ali. Então o júbilo emudeceu; todos correram para o gado, cujos berros ressoavam por montes e vales, mas ninguém tinha conselho.
Contra o feitiço tentaram-se artes mundanas e espirituais, mas tudo em vão. Antes ainda que o dia clareasse, a morte estendera todo o gado no estábulo. Mas, assim que ali se fez silêncio, começou a berrar acolá e mais além; os que ali estavam ouviram como a desgraça havia entrado em seus estábulos, como o gado chamava dolorosamente seus donos em socorro, em sua angústia horrorosa.
Como se a chama saltasse de seus telhados, apressaram-se para casa, mas socorro não levaram; aqui como ali a morte estendia o gado. Gritos de dor de homens e animais encheram montes e vales, e o sol, que deixara o vale tão alegre, olhou para dentro de espantosa miséria. Quando o sol brilhou, os homens enfim viram como nos estábulos, onde o gado havia caído, fervilhavam incontáveis aranhas negras.
Elas rastejavam sobre o gado, sobre a forragem; e aquilo que tocavam ficava envenenado, e o que estava vivo começava a se debater, logo estendido pela morte. Nenhum estábulo em que elas estivessem podia ser limpo dessas aranhas; era como se brotassem do chão. Nenhum estábulo em que ainda não estivessem podia ser protegido contra elas; de repente rastejavam de todas as paredes, caíam aos montes do teto. Tocavam o gado para os pastos, mas apenas o tocavam para a garganta da morte.
Pois, assim que uma vaca punha o pé num pasto, o chão começava a ganhar vida; aranhas negras, compridas, brotavam, terríveis flores alpinas, rastejavam sobre o gado, e um grito pavoroso e dolorido soava dos montes até o vale. E todas essas aranhas se pareciam com a aranha no rosto de Christine, como filhos se parecem com a mãe; e iguais àquelas ninguém ainda havia visto.
Os gritos dos pobres animais também haviam chegado ao castelo, e logo pastores os seguiram, anunciando que seu gado havia tombado por causa dos bichos venenosos. Com ira cada vez mais alta, von Stoffeln ouviu como rebanho após rebanho se perdera; ouviu que pacto se firmara com o Verde, como o haviam enganado pela segunda vez, e que as aranhas se pareciam tanto, como filhos da mãe, com a aranha no rosto da Lindauerin, que fizera sozinha a aliança com o Verde e nunca dera relato verdadeiro a respeito.
Então von Stoffeln cavalgou em furiosa cólera morro acima e trovejou contra os pobres, dizendo que não queria perder rebanho após rebanho por causa deles; aquilo em que fora prejudicado eles deveriam repor, e aquilo que haviam prometido deveriam cumprir; o que haviam feito voluntariamente deveriam carregar. Prejuízo por causa deles ele não queria sofrer; e, se sofresse, teriam de pagar mil vezes por isso. Que se acautelassem.
Assim lhes falou, sem se preocupar com o que lhes exigia; não lhe ocorreu que os empurrara para aquilo, e o que eles tinham feito ele debitava a eles.
Para a maioria, já havia começado a clarear que as aranhas eram uma praga do Maligno, uma advertência para cumprir o pacto, e que Christine devia saber mais a respeito, que não lhes havia contado tudo quanto negociara com o Verde.
Agora tremiam de novo diante do Verde, já não riam dele; tremiam diante de seu senhor temporal. E, se satisfizessem aquele, que diria o senhor espiritual? Permitiria aquilo? E não teria ele então alguma penitência para eles? Assim, na angústia, reuniram-se os mais considerados num celeiro isolado, e Christine teve de comparecer e dar resposta clara sobre o que de fato negociara.
Christine veio embrutecida, sedenta de vingança, torturada de novo pela aranha que crescia.
Quando viu o temor hesitante dos homens e nenhuma mulher por perto, contou ponto por ponto o que lhe sucedera: como o Verde a tomara depressa pela palavra e lhe dera como penhor um beijo, ao qual ela não dera mais importância que a outros. Como agora, naquele mesmo lugar, a aranha lhe crescera sob tormento infernal desde o instante em que se batizara a primeira criança.
Contou como a aranha, justamente quando se batizara a segunda criança e se zombara do Verde, parira, sob dor infernal, aranhas em número imenso; pois ele não se deixava escarnecer sem castigo, como ela sentia em dores de morte multiplicadas por mil. Agora a aranha tornava a crescer, a dor aumentava, e, se a próxima criança não fosse do Verde, ninguém saberia quão pavorosa seria a praga que cairia sobre eles, nem quão pavorosa a vingança do cavaleiro.
Assim contou Christine, e o coração dos homens tremeu, e por longo tempo ninguém quis falar. Aos poucos, de gargantas comprimidas pela angústia, vieram sons quebrados; e, quando se juntavam esses sons, queriam dizer exatamente o que Christine queria, mas nenhum deles, isoladamente, havia dado seu consentimento ao conselho dela.
Só um se levantou e falou de modo breve e claro: o melhor lhe parecia ser matar Christine a pancadas; uma vez morta, o Verde poderia agarrar-se à morta, e já não teria pega sobre os vivos. Então Christine soltou uma gargalhada selvagem, pôs-se diante de seu rosto e disse que ele golpeasse; por ela estava bem, mas o Verde não queria a ela, queria uma criança não batizada; e, assim como a marcara, também poderia marcar a mão que se atrevesse a tocá-la.
Então a mão do homem que sozinho falara estremeceu; ele se sentou e ouviu calado o conselho dos outros. E, em falas quebradas, nas quais ninguém dizia tudo, mas cada qual apenas alguma coisa que devia significar pouco, chegaram ao acordo de sacrificar a próxima criança; mas ninguém queria oferecer a própria mão para isso, ninguém queria levar a criança ao Kilchstalden, onde haviam depositado as faias.
Para o bem geral, como pensavam, ninguém receara servir-se do Diabo; mas nenhum desejava travar conhecimento pessoal com ele. Então Christine se ofereceu de boa vontade; pois quem uma vez já lidou com o Diabo, pouco dano maior pode sofrer na segunda. Sabia-se bem quem deveria dar à luz a próxima criança, mas disso nada se falou, e o pai dela não estava presente.
Entendidos com palavras e sem palavras, separaram-se.
A jovem mulher que, naquela noite pavorosa em que Christine trouxera notícia do Verde, sentira medo e chorara, sem saber então por quê, esperava agora a próxima criança. Os acontecimentos anteriores não a tornavam segura nem confiante; uma angústia inominável pousava em seu coração, e ela não conseguia afastá-la nem com orações nem com confissão.
Um silêncio suspeito parecia cercá-la; ninguém mais falava da aranha. Suspeitos lhe pareciam todos os olhos que repousavam nela; pareciam calcular a hora em que se apossariam de seu filho e poderiam reconciliar o Diabo.
Assim se sentia só e abandonada diante da força sinistra em torno de si; não tinha amparo senão a sogra, uma mulher piedosa, que ficava ao seu lado. Mas que pode uma velha contra uma multidão selvagem?
Ela tinha o marido. Ele havia prometido todo bem; mas como se lamentava por seu gado e como pensava pouco na angústia da pobre mulher! O sacerdote prometera vir tão depressa e tão cedo quanto o chamassem, mas o que poderia acontecer desde o instante em que se mandasse chamá-lo até a hora em que chegasse? E a pobre mulher não tinha mensageiro mais seguro que o próprio marido, que deveria ser sua proteção e sua guarda. Além disso, morava na mesma casa que Christine; seus maridos eram irmãos, e ela não tinha parentes próprios. Órfã, viera para aquela casa. Pode-se imaginar a angústia do coração da pobre mulher. Só na oração com a mãe piedosa encontrava alguma confiança, que logo se dissipava assim que ela olhava para os olhos maus.
Enquanto isso, a doença ainda estava ali; mantinha vivo o terror. É verdade que apenas aqui e ali caía uma cabeça de gado, e só raramente as aranhas se mostravam. Mas, assim que em alguém o medo enfraquecia, assim que alguém pensava ou dizia que o mal arrefecia por si mesmo e que se deveria refletir bem antes de pecar contra uma criança, a dor infernal de Christine aumentava, a aranha se estufava no alto, e contra aquele que assim havia pensado ou falado a morte voltava com nova fúria para seu rebanho.
Quanto mais se aproximava a hora esperada, mais a necessidade parecia tornar a crescer; e reconheceram que deviam combinar com precisão como se apoderariam da criança com segurança e sem falha. Ao marido temiam mais que tudo, e usar força contra ele lhes repugnava. Então Christine assumiu a tarefa de ganhá-lo, e ela o ganhou.
Ele não queria saber de nada; queria atender à mulher, chamar o sacerdote, mas não se apressar, e, quanto ao que acontecesse em sua ausência, não perguntaria. Assim se acertava com a própria consciência. Com Deus queria acertar-se por meio de missas, e pela alma da pobre criança talvez ainda se pudesse fazer alguma coisa, pensava ele; talvez o piedoso sacerdote ainda a reconquistasse do Diabo. Então estariam fora do negócio, teriam feito sua parte e ainda assim ludibriado o Maligno.
Assim pensava o homem; e, em todo caso, fosse como fosse, ele não teria culpa em todo aquele negócio, desde que não agisse ali com as próprias mãos.
Assim a pobre mulherzinha estava vendida, e não o sabia; esperava com tremor a salvação. No conselho dos homens, decidira-se o golpe contra seu coração; mas aquilo que o de cima havia decidido ainda estava encoberto pelas nuvens que repousam diante do futuro.
Era um ano de tempestades, e chegara a colheita; todas as forças eram empregadas para levar o grão ao teto seguro nas horas claras. Era uma tarde quente; cabeças negras de nuvens erguiam-se sobre os montes escuros; as andorinhas esvoaçavam assustadas em torno do telhado, e à pobre mulherzinha tudo se fez estreito e angustioso, sozinha na casa, pois até a avó estava lá fora no campo, ajudando mais com a vontade que com a ação.
Então a dor lhe cortou medula e ossos como lâmina de dois gumes; tudo escureceu diante de seus olhos, ela sentiu a aproximação de sua hora, e estava só. A angústia a impeliu para fora de casa; pesada, caminhou em direção ao campo, mas logo teve de se sentar. Quis mandar a voz para longe, mas esta não quis sair do peito oprimido. Com ela estava um menininho pequeno, que apenas aprendia a usar as perninhas, que jamais estivera sobre as próprias pernas no campo, mas apenas nos braços da mãe.
Desse menininho a pobre mulher teve de se servir como mensageiro, sem saber se ele encontraria o campo, se suas perninhas o levariam até lá. Mas o fiel menininho viu em que angústia a mãe estava, e correu, e caiu, e tornou a levantar-se; a gata perseguia seus coelhos, pombas e galinhas corriam-lhe em torno dos pés, seu cordeiro saltava atrás dele, esbarrando e brincando; mas o menininho nada viu, não se deixou atrasar e cumpriu fielmente sua mensagem.
Sem fôlego apareceu a avó, mas o marido tardava; disseram que ele só precisava descarregar ainda a carroça. Passou uma eternidade; enfim ele veio. E tornou a passar uma eternidade; enfim partiu, devagar, pelo longo caminho, e em angústia mortal a pobre mulher sentia como sua hora se aproximava cada vez mais depressa.
Lá fora, no campo, Christine observava tudo em triunfo. É verdade que o sol queimava quente sobre o trabalho pesado, mas a aranha quase já não ardia, e leve lhe parecia a caminhada das próximas horas. Ela impelia alegremente o trabalho e não se apressava em voltar para casa, pois sabia quão lento era o mensageiro. Só quando o último feixe foi carregado, e rajadas de vento anunciaram a tempestade próxima, Christine correu para a presa que, segundo pensava, já estava segura para ela.
E, enquanto ia para casa, acenou de modo significativo a muitos que encontrava; estes lhe fizeram sinais de volta, levaram rapidamente a mensagem para casa; então muitos joelhos tremeram, e muitas almas quiseram rezar em angústia involuntária, mas não conseguiram.
Lá dentro, no quartinho, gemia a pobre mulher, e os minutos se transformavam em eternidades; a avó não conseguia acalmar sua aflição com orações e consolos. Havia trancado bem o quartinho e posto móveis pesados diante da porta.
Enquanto estavam sozinhas na casa, ainda havia como suportar; mas, quando viram Christine chegar, quando ouviram passos furtivos à porta, quando escutaram lá fora ainda outros passos e sussurros secretos, e nenhum sacerdote aparecia, nenhum outro ser humano fiel, e se aproximava cada vez mais o instante outrora tão desejado, pode-se imaginar em que angústia nadavam as pobres mulheres, como em óleo fervente, sem socorro e sem esperança.
Elas ouviram que Christine não saía da porta; a pobre mulher sentia os olhos ardentes da cunhada selvagem atravessarem a porta, e esses olhos a queimavam através do corpo e da alma. Então o primeiro sinal de vida de uma criança choramingou através da porta, sufocado tão depressa quanto possível, mas tarde demais. A porta voou aberta sob um golpe furioso e preparado; e, como o tigre se atira sobre a presa, Christine se atirou sobre a pobre puérpera.
A velha mulher, que se lança contra a tormenta, cai por terra. Em sagrada angústia materna, a puérpera se ergue, mas o corpo fraco desaba; nas mãos de Christine está a criança. Um grito medonho irrompe do coração da mãe; depois o desmaio a envolve em sombras negras.
Temor e horror tomaram os homens quando Christine saiu com a criança roubada. O pressentimento de um futuro pavoroso se abriu diante deles, mas nenhum teve coragem de impedir o ato, e o medo das pragas do Diabo era mais forte que o temor de Deus.
Só Christine não hesitava; seu rosto brilhava em brasa, como brilha o rosto do vencedor depois da luta vencida. Parecia-lhe que a aranha a acariciava com suave coceira; os relâmpagos que lambiam seu caminho até Kilchstalden pareciam-lhe luzes alegres, o trovão, um resmungo terno, a tempestade que soprava vingança, um sopro encantador.
Hans, marido da pobre mulher, havia cumprido sua promessa bem demais. Devagar seguira seu caminho, contemplara ponderadamente cada campo, observara cada ave, esperara pelos peixes no riacho, vendo como saltavam e apanhavam mosquitos antes da tempestade que chegava.
Então algo o impelia para a frente; deu passos rápidos, tomou impulso para correr. Havia algo dentro dele que o caçava, que lhe eriçava os cabelos da cabeça. Era a consciência, que lhe dizia o que merecia um pai que traía mulher e filho; era o amor que ele ainda tinha por sua mulher e pelo fruto de seu corpo.
Mas então outra coisa o detinha, e era mais forte que a primeira: o medo dos homens, o medo do Diabo e o amor por aquilo que este lhe podia tomar. Então voltava a andar mais devagar, lento como um homem que faz sua última caminhada, que vai para o lugar da execução. Talvez fosse isso mesmo; pois muita gente não sabe que faz a última caminhada. Se soubesse, não a faria, ou a faria de outro modo.
Assim se fizera tarde quando chegou a Sumiswald. Nuvens negras corriam sobre o Münneberg; gotas pesadas caíam, chamuscavam-se no pó, e, rouco, o sininho da torre começou a lembrar aos homens que pensassem em Deus e lhe pedissem que não fizesse sua tempestade tornar-se juízo sobre eles.
Diante de sua casa estava o sacerdote, preparado para qualquer caminho, a fim de estar pronto caso seu Senhor, que passava por cima de sua cabeça, o chamasse para junto de um moribundo, de uma casa em chamas ou para qualquer outro lugar. Quando viu Hans chegar, reconheceu o chamado para a difícil jornada; arregaçou a veste e mandou recado a seu sacristão, que estava tocando o sino, para que fosse substituído na corda e viesse acompanhá-lo.
Enquanto isso, ofereceu a Hans uma bebida restauradora, tão benfazeja depois de corrida rápida em ar abafado; Hans não precisava dela, mas o sacerdote não suspeitava da perfídia do homem. Ponderadamente, Hans se refez. Devagar chegou o sacristão, e aceitou de bom grado participar da bebida que Hans lhe ofereceu. Preparado, o sacerdote estava diante deles, recusando toda bebida de que não precisava para tal caminho e tal combate.
Não gostava de ordenar que se afastassem da jarra que ele mesmo havia posto ali, não gostava de violar os direitos do hóspede; mas conhecia um direito mais alto que a hospitalidade, e a bebida tardia fazia-lhe correr ira pelos membros.
— Estou pronto — disse ele enfim. — Uma mulher aflita espera, e sobre ela paira um crime horrendo; entre a mulher e o crime devo eu ficar com armas sagradas. Por isso, não tardeis, vinde. Lá em cima ainda haverá algo para quem aqui embaixo não apagou a sede.
Então falou Hans, marido da mulher que esperava:
— Não há tanta pressa assim. Com minha mulher, toda coisa é difícil.
E no mesmo instante um relâmpago flamejou dentro da sala, de tal modo que todos ficaram cegos, e um trovão rebentou sobre a casa, fazendo tremer cada poste da casa, cada membro dentro dela. Então falou o sacristão, depois de terminar sua bênção:
— Ouçam como está lá fora. O próprio céu confirmou o que Hans disse, que devemos esperar. E de que serviria se fôssemos? Vivos já não chegaríamos lá em cima. E ele mesmo disse que com sua mulher não há tanta pressa.
E de fato avançava uma tempestade como poucas se haviam vivido em memória humana.
De todas as gargantas e fundos ela se lançava, vinha de todos os lados, impelida por todos os ventos, e se ajuntava sobre Sumiswald; cada nuvem se tornava exército de guerra, uma nuvem investia contra a outra, uma nuvem queria a vida da outra, e começou uma batalha de nuvens, e a tempestade parou no alto; relâmpago após relâmpago foi solto, relâmpago após relâmpago golpeou a terra, como se quisessem abrir uma passagem pelo meio da terra até o outro lado dela.
Sem cessar rugia o trovão; furioso uivava o vento; o seio das nuvens se rompera, torrentes despencavam, mas por causa de seus companheiros o sacerdote hesitava.
Quando, tão súbita e poderosa, rebentou a batalha das nuvens, o sacerdote não respondeu ao sacristão, mas também não se sentou; uma angústia sempre crescente o tomou, veio-lhe um impulso de lançar-se para fora no tumulto dos elementos. Então lhe pareceu ouvir, através da voz terrível do trovão, o grito de dor de uma mulher, cortante até a medula. O trovão de repente se tornou para ele a terrível palavra de repreensão de Deus por sua demora; ele se pôs em marcha, dissessem o que dissessem os outros dois.
Ele avançou, preparado para tudo, para dentro do tempo de fogo, para a fúria da tempestade, para a torrente das nuvens; devagar, contrariados, os dois o seguiram.
Tudo zunia, bramia e estrondeava, como se aqueles sons devessem fundir-se na trombeta final que anuncia o fim dos mundos; e feixes de fogo caíam sobre a aldeia, como se cada cabana devesse levantar-se em chamas. Mas o servo daquele que dá voz ao trovão e tem o relâmpago por criado não precisa temer esse outro criado do mesmo Senhor; e quem anda pelos caminhos de Deus pode confiar aos temporais de Deus aquilo que lhes cabe.
Por isso o sacerdote caminhou sem temor através da tempestade em direção ao Kilchstalden. Mas os outros não o seguiam com o mesmo ânimo, pois o coração deles não estava no mesmo lugar. Não queriam descer o Kilchstalden, não com tal temporal, não em noite tão avançada; e Hans tinha ainda uma razão própria para não querer. Pediram ao sacerdote que voltasse, que tomasse outros caminhos. Hans conhecia caminhos mais curtos; o sacristão, melhores; ambos advertiam contra as águas no vale, contra o Grüne inchado.
Mas o sacerdote não ouvia, não dava atenção à fala deles; levado por impulso maravilhoso, apressava-se sobre as asas da oração rumo ao Kilchstalden. Seu pé não batia em pedra alguma, seu olho não era cegado por relâmpago algum. Tremendo e bem atrás dele, protegidos, como julgavam, pelo Santíssimo que o sacerdote trazia consigo, seguiam Hans e o sacristão.
Quando saíram para diante da aldeia, onde o Stalden desce para o vale, o sacerdote parou de repente e protegeu os olhos com a mão. Abaixo da capela, no clarão do relâmpago, cintilava uma pena vermelha; e o olho agudo do sacerdote viu, sob a sebe verde, destacar-se uma cabeça negra, e sobre ela balançava a pena vermelha.
E, olhando ainda mais, viu na encosta oposta, vindo em carreira rapidíssima, como caçada pelo golpe mais selvagem do vento, uma figura feroz voar em direção à cabeça escura, sobre a qual a pena vermelha oscilava como uma bandeira.
Então se inflamou no sacerdote o santo impulso de combate, que, pressentindo o Maligno, sobrevém aos que são de coração consagrado a Deus, como o broto sobrevém ao grão quando a vida penetra nele, como penetra na flor quando ela deve desabrochar, como sobrevém ao herói quando seu inimigo ergue a espada.
E, como o sedento se lança à fresca correnteza do rio, como o herói à batalha, precipitou-se o sacerdote Stalden abaixo, precipitou-se para o mais audaz combate, meteu-se bem no meio entre o Verde e Christine, que naquele instante queria pôr a criancinha nos braços do outro; lançou entre eles os três mais altos nomes santos, ergueu o Santíssimo diante do rosto do Verde, aspergiu água benta sobre a criança e atingiu Christine ao mesmo tempo.
Então o Verde partiu com uivo de dor pavoroso; como uma faixa vermelho-incandescente, fugiu até que a terra o engolisse. Tocada pela água consagrada, Christine encolheu-se com silvo horrendo, como lã no fogo, como cal na água; encolheu-se silvando, soltando chamas, até restar apenas a aranha negra, horrível, inchada em alto relevo em seu rosto; encolheu com ela, silvou para dentro dela, e esta ficou agora no meio da criança, desafiadora, cheia de veneno, lançando de seus olhos olhares furiosos contra o sacerdote.
Este aspergiu água benta contra ela, e aquilo silvou como água comum sobre pedra quente. A aranha tornava-se sempre maior, estendia cada vez mais suas pernas negras sobre a criança, encarava o sacerdote com veneno cada vez mais forte. Então ele, em ardorosa fúria de fé, avançou para ela com mão audaz. Era como se agarrasse espinhos em brasa; mas, inabalável, segurou firme, arremessou longe o bicho imundo, tomou a criança e correu sem demora para junto da mãe.
E, assim que seu combate terminou, também se acalmou o combate das nuvens; elas tornaram a correr para suas câmaras escuras. Logo o vale, onde pouco antes bramara a mais selvagem batalha, cintilava em quieta luz de estrelas; e, quase sem fôlego, o sacerdote alcançou a casa em que se cometera o crime contra mãe e filho.
Ali a mãe ainda estava desacordada; com o grito cortante, havia lançado para longe a própria vida. Ao lado dela sentava-se, rezando, a velha, ainda confiando em Deus, que é mais poderoso que o Diabo mau. Com a criança, o sacerdote devolveu também a vida à mãe.
Quando ela, despertando, tornou a ver a criancinha, atravessou-a uma bem-aventurança como só os anjos no céu conhecem; e, nos braços da mãe, o sacerdote batizou a criança em nome de Deus Pai, do Filho e do Espírito Santo. E então ela foi arrancada para sempre ao poder do Diabo, a menos que um dia se entregasse a ele voluntariamente. Mas disso a guardasse Deus, em cujo poder agora sua alma fora entregue, enquanto o corpo ficava envenenado pela aranha.
Logo sua alma partiu de novo, e o corpinho estava marcado como por manchas de queimadura. A pobre mãe chorou, sim; mas, quando cada parte torna a ir para onde pertence, a alma para Deus, o corpo para a terra, o consolo se apresenta, a um mais cedo, a outro mais tarde.
Assim que o sacerdote cumpriu seu santo ofício, começou a sentir uma coceira estranha na mão e no braço com que havia arremessado a aranha. Pequenas manchas negras viu na mão; visivelmente elas se tornavam maiores e inchavam. Um calafrio de morte lhe correu pelo coração. Abençoou as mulheres e correu para casa; queria, como fiel combatente, levar as armas sagradas de volta ao lugar a que pertenciam, para que estivessem à mão de outro depois dele.
O braço inchava alto; bolhas negras subiam cada vez mais. Ele lutava contra o abatimento da morte, mas não se rendia.
Quando chegou ao Kilchstalden, viu Hans, o pai esquecido de Deus, de quem ninguém sabia onde ficara, deitado de costas no meio do caminho. Seu rosto estava enorme de inchaço e negro como queimadura; e no meio dele estava sentada, grande, negra e horrenda, a aranha. Quando o pastor chegou, ela se inflou; os pelos de suas costas se eriçaram venenosos, venenosos e faiscantes seus olhos o encararam. Agia como a gata quando se prepara para saltar no rosto de seu inimigo mortal.
Então o sacerdote começou uma boa fórmula sagrada e ergueu as armas santas; a aranha encolheu, rastejou com suas longas pernas para fora do rosto negro e se perdeu na relva sibilante. Depois o pastor seguiu até sua casa, pôs o Santíssimo em seu lugar e, enquanto dores selvagens lhe rasgavam o corpo para a morte, sua alma esperou em doce paz por seu Deus, por quem havia combatido retamente no audaz combate divino; e Deus não a fez esperar muito.
Mas tal doce paz, que aguarda quietamente o Senhor, não havia no fundo do vale, nem no alto das montanhas.
Desde o instante em que Christine descera a montanha com a criança roubada rumo ao Diabo, um terror sem salvação entrara em todos os corações. Durante a tempestade terrível, as pessoas tremiam nos sustos da morte, pois seus corações bem sabiam que, se a mão de Deus viesse destruidora sobre elas, isso seria mais que merecido.
Quando o temporal passou, correu de casa em casa a notícia de que o pastor trouxera de volta a criancinha e a batizara, mas que nem Hans nem Christine tinham sido vistos.
A manhã cinzenta encontrou apenas rostos pálidos, e o belo sol não lhes devolveu cor, pois todos bem sabiam que só então viria o terrível. Ouviu-se que o pastor morrera coberto de bolhas negras; encontrou-se Hans com rosto medonho; e, da aranha horrenda em que Christine fora transformada, ouviam-se palavras estranhamente confusas.
Era um belo dia de colheita, mas mão alguma se movia para o trabalho. As pessoas ajuntavam-se, como costuma acontecer no dia seguinte ao dia em que uma grande desgraça se abateu. Sentiam apenas então, em suas almas trêmulas, o que significava querer comprar a libertação da necessidade e da praga terrenas com uma alma imortal; sentiam que há um Deus no céu, que vinga terrivelmente todo mal feito a pobres crianças que não podem defender-se.
Assim estavam juntos, tremendo e lamentando; e quem estava entre os outros já não ousava voltar para casa. Ainda assim havia briga e disputa entre eles; um lançava culpa sobre o outro, e cada qual dizia ter aconselhado contra aquilo e ter advertido; e cada um não se opunha a que o castigo atingisse os culpados, mas queria a si mesmo e à própria casa livres de castigo.
E, se naquele esperar e discutir terrível eles tivessem sabido de uma nova vítima inocente, não haveria nenhum que não cometesse crime contra ela, na esperança de salvar a si próprio.
Então, no meio do ajuntamento, um homem soltou um grito pavoroso. Pareceu-lhe ter pisado num espinho em brasa, como se lhe pregassem o pé ao chão com um prego incandescente, como se fogo lhe corresse pela medula dos ossos. A multidão se afastou de um salto, e todos os olhos se voltaram para o pé ao qual ia a mão do homem que gritava. Sobre o pé, porém, estava sentada a aranha, negra e grande, olhando ao redor com veneno e malícia.
Então primeiro se gelou a todos o sangue nas veias, o fôlego no peito, o olhar nos olhos; e quieta, maliciosa, a aranha mirava em torno, e o pé se tornava negro, e dentro do corpo era como se fogo e água lutassem, sibilantes e furiosos. A angústia rompeu as amarras do pavor; a multidão se dispersou.
Mas, com rapidez maravilhosa, a aranha havia abandonado seu primeiro assento; rastejou sobre o pé deste, sobre o calcanhar daquele, e ardor atravessava-lhes o corpo, e seus gritos horrendos afugentavam os fugitivos ainda mais violentamente. Com a rapidez do vento, em terror de morte, como caça fantasmagórica diante da caçada selvagem, dispersaram-se rumo às suas cabanas; e cada um julgava ter a aranha atrás de si, trancava a porta com ferrolhos, e ainda assim não deixava de tremer em angústia indizível.
E por um dia a aranha desapareceu; nenhum novo grito de morte se ouviu. As pessoas tiveram de deixar as casas trancadas, tiveram de procurar alimento para o gado e para si mesmas; fizeram-no em angústia mortal.
Pois onde estava agora a aranha? E não poderia estar aqui, pousar de repente no pé de alguém? E aquele que pisava com maior cuidado e espreitava com olhos mais agudos via a aranha subitamente sentada em sua mão ou pé; ela lhe corria pelo rosto, ficava negra e grande sobre o nariz, e o encarava nos olhos; espinhos de fogo remexiam seus ossos, o incêndio do inferno se fechava sobre ele, até que a morte o estendesse.
Assim a aranha ora não estava em parte alguma, ora estava aqui, ora ali, ora no vale embaixo, ora nas montanhas acima; sibilava pela relva, caía do teto, emergia do chão. Ao claro meio-dia, quando as pessoas se sentavam em torno de seu mingau de aveia, ela aparecia, encarando, na parte baixa da mesa; e, antes que os homens se dispersassem pelo susto, havia corrido sobre as mãos de todos, estava na cabeceira, sobre a cabeça do pai da casa, encarando por cima da mesa, por cima das mãos que se enegreciam.
À noite caía no rosto das pessoas, encontrava-as no bosque, visitava-as no estábulo. Os homens não podiam evitá-la; ela não estava em lugar nenhum e estava em toda parte; acordados, não podiam proteger-se dela; adormecidos, não estavam seguros. Quando mais seguros se julgavam, sob o céu aberto, no topo de uma árvore, o fogo lhes subia pelas costas; sentiam na nuca os pés ardentes da aranha, que os encarava por cima do ombro.
A criança no berço, o velho no leito de morte, ela não poupava; era uma mortandade como nunca se conhecera, e morrer dela era mais terrível do que jamais se experimentara; e mais terrível ainda que a morte era a angústia sem nome diante da aranha, que estava em toda parte e em parte alguma, e que, quando alguém se julgava mais seguro, de súbito o encarava nos olhos, trazendo a morte.
A notícia desses horrores, naturalmente, logo penetrara no castelo, levando também para lá medo e discórdia, até onde isso podia acontecer sob as regras da Ordem. Von Stoffeln ficou aflito com a possibilidade de que também eles fossem visitados do mesmo modo como antes fora seu gado; e o sacerdote falecido havia dito muitas coisas que agora lhe revolviam a alma.
Muitas vezes lhe dissera que todo sofrimento que ele causasse aos camponeses recairia sobre ele; mas ele jamais acreditara nisso, pois julgava que Deus saberia fazer diferença entre um cavaleiro e um camponês, já que, de outro modo, não os teria criado tão diferentes. Agora, porém, sentia medo de que as coisas se passassem segundo a palavra do sacerdote, dirigia palavras duras a seus cavaleiros e achava que lhes vinha agora grave castigo por causa de suas falas levianas.
Mas os cavaleiros também não queriam carregar culpa, e um a empurrava para o outro; e, ainda que nenhum o dissesse, todos pensavam que aquilo cabia propriamente apenas a von Stoffeln, pois, considerando bem, era ele o culpado de tudo. Ao lado dele, olhavam para um jovem cavaleiro polonês; fora ele, na verdade, quem dissera a maior parte das palavras levianas sobre o castelo e mais atiçara von Stoffeln à nova construção e à temerária alameda de sombra.
Ele era ainda muito jovem, mas o mais selvagem de todos; e, quando se tratava de uma ação atrevida, ia na frente. Era como um pagão e não temia nem Deus nem o Diabo. Bem percebeu o que os outros pensavam, mas não ousavam lhe dizer; percebeu também o medo secreto deles.
Por isso escarneceu deles e disse que, se tinham medo de uma aranha, que fariam então contra dragões? Depois armou-se bem e cavalgou vale acima, prometendo não voltar antes que seu golpe estendesse a aranha e seu punho a esmagasse.
Cães ferozes saltavam ao redor dele, o falcão estava em seu punho, a lança pendia da sela, alegremente o cavalo empinava. Meio zombeteiros, meio aflitos, viram-no sair a cavalo do castelo e lembraram-se da vigília noturna em Bärhegen, onde a força das armas mundanas se mostrara tão fraca contra aquele inimigo.
Ele cavalgou à beira de um bosque de pinheiros, rumo à propriedade mais próxima, espreitando com olhar agudo ao redor e acima de si. Quando avistou a casa e pessoas em volta dela, chamou os cães, descobriu a cabeça do falcão, e a adaga tilintou frouxa na bainha. Assim que o falcão voltou os olhos descobertos para o cavaleiro, esperando seu sinal, saltou de seu punho e disparou no ar; os cães que tinham corrido até ali uivaram e buscaram distância com o rabo entre as pernas.
Em vão cavalgou e chamou o cavaleiro; não tornou a ver seus animais. Então cavalgou até as pessoas, querendo colher notícias. Elas ficaram paradas até ele se aproximar. Então gritaram horrivelmente e fugiram para o bosque e para a garganta; pois, sobre o elmo do cavaleiro, estava sentada, negra, em tamanho sobrenatural, a aranha, olhando para a terra com veneno e malícia.
Aquilo que procurava, o cavaleiro trazia consigo sem saber. Em cólera ardente, chamou e cavalgou atrás das pessoas, chamou cada vez mais furioso, cavalgou cada vez mais louco, bramiu cada vez mais horrendo, até que ele e seu cavalo despencaram por um penhasco abaixo, rumo ao vale. Lá encontraram elmo e corpo; e, atravessando o elmo, os pés da aranha haviam queimado caminho até o cérebro do cavaleiro, acendendo ali o incêndio mais terrível, até que ele encontrou a morte.
Então o medo entrou de vez no castelo. Fecharam-se por dentro e ainda assim não se sentiram seguros; procuraram armas espirituais, mas por muito tempo não encontraram ninguém que soubesse manejá-las e ousasse fazê-lo. Por fim, um padre distante deixou-se atrair por dinheiro e palavras; veio e quis sair com água benta e fórmulas santas contra o inimigo mau.
Mas, para isso, não se fortaleceu com oração e jejum; sentou-se à mesa logo cedo com os cavaleiros, não contou as taças e se regalou com veado e urso. Entre uma coisa e outra, falou muito de seus feitos heroicos espirituais, e os cavaleiros, dos seus mundanos; não se contavam as taças uns aos outros, e esqueceram a aranha.
Então, de repente, toda vida se apagou. As mãos seguravam, rígidas, taça ou garfo; a boca permanecia aberta; todos os olhos estavam fixos, vidrados, num único ponto. Só von Stoffeln esvaziava a taça e continuava a contar um feito heroico em terra de pagãos. Mas sobre sua cabeça estava sentada, grande, a aranha, olhando em volta da mesa dos cavaleiros; e o cavaleiro não a sentia.
Então o braseiro começou a correr por cérebro e sangue. Horrivelmente ele gritou, levou a mão à cabeça, mas a aranha já não estava ali; em sua rapidez terrível, correra pelo rosto de todos os cavaleiros, e nenhum pôde impedi-la. Um após outro gritou, consumido pelo fogo; e, da careca do padre, ela olhava para baixo, para dentro do horror; com a taça que não queria soltar da mão, o padre queria apagar o incêndio que ardia da cabeça até a medula e os ossos.
Mas a aranha resistia a essa arma e olhava de seu trono para baixo, para dentro do horror, até que o último cavaleiro soltasse o último grito e terminasse no último fôlego.
No castelo ficaram poupados apenas poucos criados, que nunca haviam escarnecido dos camponeses; eles contaram como tudo se passara de modo terrível. Mas a sensação de que os cavaleiros tinham recebido o que mereciam não consolou os camponeses; o medo tornou-se cada vez maior, mais horrendo. Muitos tentaram fugir. Uns quiseram deixar o vale, mas justamente esses caíram nas garras da aranha. Pelo caminho encontraram seus cadáveres.
Outros fugiram para as montanhas altas; mas lá em cima, diante deles, estava a aranha, e, quando se julgavam salvos, ela lhes pousava na nuca ou no rosto. O monstro tornava-se cada vez mais maligno, cada vez mais diabólico. Já não surpreendia de modo inesperado, já não imprimia a morte de súbito; sentava-se diante do homem na relva, pendia sobre ele na árvore, encarava-o com veneno.
Então o homem fugia até onde seus pés o levavam; e, quando parava sem fôlego, lá estava a aranha diante dele, mirando-o venenosa. Se fugia de novo, e precisava de novo conter os passos, ela estava outra vez diante dele; e, quando ele já não podia fugir, só então ela rastejava lentamente até ele e lhe dava a morte.
Então muitos, no desespero, tentaram resistir, para ver se a aranha não podia ser morta; atiravam pedras de quintal sobre ela quando estava diante deles na relva, golpeavam-na com tacapes, com machados. Mas tudo era em vão. A pedra mais pesada não a esmagava, o machado mais afiado não a feria; inesperadamente ela estava no rosto do homem, rastejava intacta até ele. Fuga, resistência, tudo era vaidade. Então toda esperança se apagou, e o desespero encheu o vale, sentou-se sobre as montanhas.