A Casa Nova
— Quê, ali na madeira preta? — gritou a madrinha, e saltou do chão de um pulo, como se estivesse sentada sobre um formigueiro.
Era junto daquela madeira que ela se sentara na sala. E agora suas costas ardiam; ela se virava, olhava para trás, passava a mão para cima e para baixo, sem conseguir sair da angústia de que a aranha negra estivesse pousada em sua nuca. Também aos outros o coração se apertara quando o avô se calou. Um silêncio aflito caíra sobre eles.
Ninguém ousava zombar; concordar com a coisa também não agradava. Cada um preferia esperar a primeira palavra do outro, para então ajustar a própria fala; assim se errava menos. Então veio correndo a parteira, que já chamara várias vezes sem receber resposta. Seu rosto ardia vermelho-vivo, como se a aranha houvesse rastejado por cima dele. Começou a ralhar porque ninguém queria vir, por mais alto que ela chamasse.
— Isso também é uma coisa bem esquisita; quando a gente cozinha, ninguém quer vir à mesa, e depois, se tudo já não está bom, a culpa deve ser toda minha. Eu sei muito bem como isso vai. Uma carne tão gorda como a que está lá dentro ninguém mais consegue comer se esfriar; além disso, ainda faz muito mal.
Então as pessoas vieram, sim, mas muito devagar, e ninguém queria ser o primeiro à porta; o avô teve de ir na frente.
Dessa vez, não era tanto o costume habitual, o de não querer parecer que não se podia esperar até chegar a hora de comer. Era a hesitação que toma todos quando estão à entrada de um lugar medonho; e, contudo, lá dentro nada havia de medonho.
Sobre a mesa reluziam claras, recém-cheias, as belas garrafas de vinho; dois presuntos lustrosos se exibiam; assados enormes de vitela e carneiro fumegavam; Züpfen frescas estavam dispostas entre eles; pratos com Tateren, isto é, tortas, e pratos com três tipos de bolinhos se apertavam no meio; e também não faltavam as pequenas jarras de chá doce.
Era, portanto, uma bela visão; e, no entanto, todos lhe davam pouca atenção. Todos olhavam em volta com olhos aflitos, para ver se a aranha não cintilava em algum canto, ou se não os encarava com seus olhos venenosos de cima do presunto vistoso.
Não a viam em parte alguma; e mesmo assim ninguém fazia os cumprimentos de costume: o que estariam pensando para pôr ainda tanta coisa na mesa; quem, afinal, haveria de comer aquilo; já tinham comido mais que o bastante. Ao contrário, todos se comprimiam nos cantos inferiores da mesa; ninguém queria subir para a cabeceira.
Em vão se chamava os convidados para cima, apontando-lhes os lugares vazios; eles permaneciam embaixo como pregados ao chão. Em vão o pai da criança servia vinho e dizia que viessem fazer um brinde, pois já estava servido! Então ele tomou a madrinha pelo braço e disse:
— Seja você a mais ajuizada e dê o exemplo.
Mas, com toda a força, que não era pequena, a madrinha resistiu e gritou:
— Nem por mil libras me sento outra vez lá em cima. Sinto um formigar pelas costas, para cima e para baixo, como se passassem urtigas nelas. E, se eu me sentasse ali diante do Bystal, sentiria sem cessar a aranha terrível em minha nuca.
— A culpa é sua, avô — disse a avó —, por que traz essas coisas à baila? Hoje em dia, falar disso não rende nada e pode prejudicar a casa inteira. E, se um dia as crianças voltarem da escola chorando e se queixando porque as outras crianças lhes disseram que a avó delas foi uma bruxa e está banida no Bystal, aí a culpa será sua.
— Fique tranquila, avó — disse o avô. — Hoje em dia tudo logo se esquece, e nada fica muito tempo na memória como antigamente. Quiseram ouvir de mim essa história, e é melhor que as pessoas saibam ponto por ponto a verdade do que inventem alguma coisa por conta própria. A verdade não traz desonra à nossa casa. Mas venham e sentem-se; vejam, diante da cavilha eu mesmo me sentarei. Afinal, já me sentei ali muitos milhares de dias, sem medo nem sobressalto, e por isso também sem perigo.
— Só quando pensamentos maus subiam em mim, desses que poderiam servir de pega ao Diabo, parecia-me ouvir algo ronronar atrás de mim, como ronrona uma gata quando a gente se ocupa dela, lhe alisa o pelo e ela fica satisfeita; e algo me corria pelas costas, estranho e singular. Fora isso, ela fica quieta como um rato ali dentro; e, enquanto aqui fora não se esquecer Deus, ela precisa esperar lá dentro.
Então os convidados tomaram coragem e se sentaram, mas ninguém se chegou muito perto do avô. Só agora o pai da criança pôde servir. Pôs um pedaço poderoso de assado no prato de sua vizinha; ela cortou um pedacinho dele e pôs o resto no prato do vizinho, empurrando-o do garfo com o polegar. Assim o pedaço deu a volta, até que alguém disse que pensava ficar com ele, pois ainda havia mais de onde aquele saíra. Um novo pedaço começou a ronda.
Enquanto o pai da criança servia vinho e comida, e os convidados lhe diziam que naquele dia ele tinha uma lida pesada, a parteira andava em volta com o chá doce, fortemente temperado com açafrão e canela. Oferecia-o a todos e perguntava: quem gostasse, que dissesse, pois havia para todos. E a quem dizia ser apreciador, ela despejava chá no vinho e dizia que também gostava assim; podia-se suportar muito melhor o vinho, ele não dava dor de cabeça. Comia-se e bebia-se.
Mas mal passou o alvoroço que sempre surge quando se atacam novos pratos, todos tornaram a ficar em silêncio, e os rostos se puseram sérios. Bem se percebia que todos os pensamentos estavam na aranha. Tímidos e furtivos, os olhos olhavam para a cavilha atrás das costas do avô; e, no entanto, cada um receava começar de novo a falar dela. Então a madrinha soltou um grito alto e quase caiu da cadeira.
Uma mosca correra por cima da cavilha; ela acreditara que as pernas negras da aranha formigavam para fora do buraco, e tremia de susto no corpo inteiro. Quase não riram dela. Seu susto foi pretexto bem-vindo para se começar de novo a falar da aranha; pois, quando uma coisa tocou de verdade nossa alma, esta não se solta dela tão depressa.
— Mas escute, primo — disse o padrinho mais velho —, desde então a aranha nunca saiu do buraco? Ficou sempre ali dentro por tantos séculos?
— Ora — disse a avó —, seria melhor que se calassem sobre essa história inteira; já se falou dela a tarde toda.
— Ora, mãe — disse o primo —, deixe seu velho falar. Ele nos fez o tempo correr depressa, e ninguém lançará essa coisa contra vocês, pois vocês não descendem de Christine. Além disso, a senhora não vai tirar nossos pensamentos do assunto; se não pudermos falar disso, também não falaremos de mais nada, e então o tempo não passará depressa. Vamos, avô, fale; sua velha não nos permitirá.
— Bem, se quereis forçar, então forçai, por mim; mas teria sido mais ajuizado começar agora outro assunto, especialmente agora, aproximando-se a noite — disse a avó.
Então o avô começou, e todos os rostos voltaram a se prender nele:
— O que sei já não é muito; mas o que sei, direi. Talvez alguém, nos tempos de hoje, possa tirar disso um exemplo; a muitos, na verdade, mal algum faria.
Quando as pessoas souberam que a aranha estava presa e voltaram a estar seguras de suas vidas, dizem que se sentiram como se estivessem no céu e o bom Deus, com sua bem-aventurança, estivesse bem no meio delas; e por muito tempo tudo correu bem. Mantinham-se junto de Deus e fugiam do Diabo; e também os cavaleiros que se instalaram de novo no castelo respeitavam a mão de Deus, tratavam os homens com brandura e os ajudavam a reerguer-se.
Esta casa, porém, todos a contemplavam com reverência, quase como uma igreja. No começo, é claro, estremeciam quando a viam, quando viam o cárcere da aranha terrível e pensavam em como facilmente ela poderia irromper dali e recomeçar a miséria desde o princípio, com o poder do Diabo. Mas logo viram que ali o poder de Deus era mais forte que o do Diabo; e, por gratidão à mãe que morrera por todos, ajudaram os filhos e lhes construíram sem pagamento a propriedade, até que eles próprios pudessem trabalhá-la.
Os cavaleiros queriam permitir-lhes construir uma casa nova, para que não precisassem temer a aranha, nem que esta se soltasse por acaso dentro de uma casa habitada; e muitos vizinhos queriam ajudá-los, pois não conseguiam livrar-se do horror diante do monstro perante o qual haviam tremido de modo tão terrível. Mas a velha avó não quis fazê-lo.
Ela ensinou aos netos: aqui a aranha foi banida por Deus Pai, Filho e Espírito Santo; enquanto estes três santos nomes valessem nesta casa, enquanto em nome destes três santos nomes se comesse e bebesse nesta mesa, estariam seguros da aranha e ela ficaria firme no buraco, e nenhum acaso mudaria coisa alguma.
Ali, àquela mesa, tendo atrás de si a aranha, jamais se esqueceriam de quanto Deus lhes era necessário e de quão poderoso Ele era; assim a aranha os lembraria de Deus e teria de tornar-se, apesar do Diabo, salvação para eles. Se, porém, se afastassem de Deus, ainda que estivessem a cem horas dali, a aranha poderia encontrá-los, ou o próprio Diabo. As crianças entenderam aquilo, ficaram na casa, cresceram tementes a Deus, e sobre a casa repousou a bênção divina.
O menininho que fora tão fiel à mãe, e a quem a mãe fora tão fiel, cresceu e se tornou um homem imponente, amado por Deus e pelos homens, e encontrou graça junto aos cavaleiros. Por isso foi também abençoado com bens terrenos, e por causa deles jamais se esqueceu de Deus, jamais se tornou avarento; ajudava os outros em suas necessidades, como desejava que o ajudassem em sua última necessidade; e, quando era fraco demais para ajudar por si mesmo, tornava-se ainda mais vigoroso intercessor junto de Deus e dos homens.
Foi abençoado com uma esposa sábia, e entre eles havia uma paz insondável; por isso seus filhos floresceram piedosos, e ambos encontraram, tarde na vida, uma morte suave. Sua família continuou a florescer no temor de Deus e no reto proceder.
Sim, sobre todo o vale repousava a bênção de Deus, e havia felicidade no campo e no estábulo, e paz entre os homens. A terrível lição entrara no coração das pessoas; elas se mantinham firmes em Deus. O que faziam, faziam em seu nome; e, quando alguém podia ajudar outro, não se demorava. Do castelo não lhes vinha mal algum, mas muito bem.
Cada vez menos cavaleiros moravam ali, pois cada vez mais duro se tornava o combate em terra de pagãos, e cada vez mais necessária era toda mão capaz de lutar. Os que ficavam no castelo, porém, eram diariamente advertidos pelo grande salão dos mortos, onde a aranha havia exercido seu poder sobre cavaleiros e camponeses, de que Deus está com igual força sobre todo aquele que dele se afasta, seja camponês ou cavaleiro.
Assim muitos anos passaram em felicidade e bênção, e o vale se tornou famoso acima de todos os outros. Imponentes eram suas casas, grandes suas provisões; muita moeda repousava nas arcas; seu gado era o mais belo de monte e vale; suas filhas eram famosas país afora, e seus filhos bem-vistos por toda parte.
E essa fama não murchou de uma noite para outra, como a planta de sombra de Jonas; ela durou de geração em geração, pois, no mesmo temor de Deus e na mesma honradez dos pais, viviam também os filhos, de geração em geração.
Mas assim como justamente na pereira mais ricamente alimentada, que cresce mais forte, o verme se enfia, roe-a em volta, faz que murche e a mata, assim acontece que, onde a corrente da bênção de Deus flui mais rica sobre os homens, o verme entra nessa bênção, incha os homens e os cega, de modo que, por causa da bênção, esquecem Deus; por causa da riqueza, esquecem aquele que a deu; tornam-se como os israelitas que, depois de Deus tê-los ajudado, o esqueceram diante de bezerros de ouro.
Assim, depois que muitas gerações haviam passado, soberba e vaidade se instalaram no vale; mulheres estrangeiras trouxeram e aumentaram ambas. As roupas se tornaram mais vaidosas, viam-se joias cintilar; sim, até dos sinais sagrados a vaidade ousou aproximar-se, e, em vez de seus corações estarem fervorosamente junto de Deus durante a oração, seus olhos se prendiam, vaidosos, às esferas douradas de seus rosários. Assim, seu culto tornou-se pompa e soberba, mas seus corações ficaram duros contra Deus e contra os homens.
Não se importavam com os mandamentos de Deus; zombavam de seu serviço e de seus servidores. Pois onde há muita soberba ou muito dinheiro, logo nasce a ilusão de que os próprios desejos são sabedoria, e essa sabedoria é posta acima da sabedoria de Deus.
Como antes haviam sido atormentados pelos cavaleiros, tornaram-se agora duros com os serviçais e passaram a atormentá-los; e, quanto menos eles próprios trabalhavam, tanto mais exigiam deles; e, quanto mais trabalho exigiam de criados e criadas, tanto mais os tratavam como gado sem razão; e não pensavam que estes também tinham almas a guardar.
Onde há muito dinheiro ou muita soberba, começa-se a construir, um querendo fazer mais bonito que o outro; e, como antes os cavaleiros construíam, assim construíam agora eles; e, como antes os cavaleiros os atormentavam, agora eles não poupavam nem serviçais nem gado quando o demônio da construção se apossava deles. Essa mudança também havia sobrevindo a esta casa, embora a antiga riqueza houvesse permanecido.
Quase duzentos anos haviam passado desde que a aranha se sentara presa no buraco; então uma mulher astuta e vigorosa era aqui senhora. Não era uma Lindauerin, mas em muitas coisas se parecia com Christine. Também viera de fora, entregue à vaidade e à soberba, e tinha um único filho; o marido havia morrido sob seu mando. Esse filho era um belo rapaz, tinha bom coração e era cordial com homens e animais; ela também o amava muito, mas não deixava que ele percebesse.
Ela o comandava a cada passo, e nenhum passo era bom se ela não o houvesse permitido. Ele já era adulto havia muito tempo, mas não podia ir à companhia dos outros nem a nenhuma Kilbi sem a mãe o acompanhar. Quando por fim o julgou suficientemente velho, deu-lhe uma esposa de sua parentela, uma que lhe agradava.
Agora ele tinha dois senhores em vez de um só, e ambas eram igualmente vaidosas e soberbas; e, por serem assim, Christen também deveria sê-lo. Quando ele era cordial e humilde, como tão bem lhe assentava, aprendia quem mandava.
A velha casa havia muito era para elas um espinho no olho, e tinham vergonha dela, pois os vizinhos possuíam casas novas e, contudo, mal eram tão ricos quanto elas. A tradição da aranha e o que a avó dissera ainda estava então na memória de todos; caso contrário, a casa velha teria sido derrubada havia muito. Mas todos as impediam. Elas, porém, tomavam cada vez mais esse impedimento por inveja, como se ninguém lhes concedesse uma casa nova. Além disso, sentiam a casa velha cada vez mais inquietante.
Quando se sentavam aqui à mesa, parecia-lhes ora que atrás delas ronronava satisfeita uma gata, ora que o buraco se abria de leve e a aranha mirava suas nucas. Faltava-lhes o espírito que fechava o buraco; por isso temiam cada vez mais que o buraco se abrisse. Assim encontraram um bom motivo para construir uma casa nova, na qual não teriam, segundo pensavam, medo da aranha.
A velha casa queriam deixar aos serviçais, que muitas vezes ficavam no caminho de sua soberba; assim decidiram.
Christen fazia isso com grande desgosto; sabia o que a velha avó havia dito e acreditava que a bênção da família estava ligada à casa da família. Não temia a aranha; quando se sentava aqui em cima, à mesa, parecia-lhe que podia rezar com mais devoção. Disse o que pensava, mas suas mulheres mandaram-no calar; e, como era criado delas, calou-se também, embora muitas vezes chorasse amargamente quando elas não viam.
Lá acima da árvore debaixo da qual nos sentamos deveria ser construída uma casa como ninguém possuía em toda a região.
Em impaciência vaidosa, porque não entendiam de construção e não queriam esperar até poderem se gabar da casa nova, atormentaram na obra os serviçais e o gado, não pouparam nem mesmo os dias santos, e nem à noite lhes concediam repouso; e não havia vizinho que pudesse ajudá-las de modo que ficassem satisfeitas, nem a quem elas não desejassem mal quando ele, depois da ajuda gratuita que já então uns prestavam aos outros, voltava para casa a fim de cuidar também de seus próprios assuntos.
Quando ergueram a estrutura e cravaram a primeira cavilha no limiar, subiu fumaça do buraco como de palha molhada quando se quer acendê-la; então os trabalhadores balançaram a cabeça, preocupados, e disseram em segredo e em voz alta que a nova construção não envelheceria. Mas as mulheres riram daquilo e não deram atenção ao sinal.
Quando enfim a casa foi construída, mudaram-se para lá, instalaram-se com uma pompa inaudita e deram, como chamada inauguração de casa, uma Kilbi que durou três dias e da qual filhos e filhos dos filhos ainda contavam por todo o Emmental.
Mas durante os três dias, dizem, ouviu-se por toda a casa um estranho zumbido, como o de uma gata que fica satisfeita porque lhe alisam o pelo. A gata de onde vinha o som, porém, não puderam encontrar, apesar de todas as buscas; e muitos ficaram inquietos e, apesar de todo o esplendor, saíram do meio da festa. Só as mulheres nada ouviam, ou não davam atenção; com a casa nova pensavam ter ganhado tudo.
Sim, quem é cego também não vê o sol, e quem é surdo também não ouve o trovão. Por isso as mulheres da casa nova se alegraram, tornaram-se todos os dias mais vaidosas, não pensavam na aranha, mas levavam na casa nova uma vida suntuosa e ociosa, feita de enfeitar-se e comer; nenhum ser humano conseguia agradá-las, e em Deus não pensavam.
Na casa velha ficaram os serviçais sozinhos, vivendo como queriam; e, quando Christen queria mantê-los sob sua vigilância, as mulheres não o toleravam e o repreendiam, a mãe sobretudo por soberba, a esposa mais por ciúme. Assim, lá embaixo, não havia ordem, e logo também não havia temor de Deus; e, onde não há senhor, assim acontece por toda parte.
Quando nenhum senhor se senta à cabeceira da mesa, quando nenhum senhor segura as rédeas fora e dentro de casa, logo se julga o maior aquele que age de modo mais grosseiro, e o melhor aquele que profere as falas mais ímpias.
Assim era na casa de baixo; e todo o conjunto de criados logo se parecia com uma ninhada de gatos quando fazem sua maior arruaça. De oração já nada se sabia; por isso não se tinha respeito nem pela vontade de Deus, nem por suas dádivas. Como a vaidade das mulheres senhoras já não conhecia limite, assim a insolência animal dos serviçais já não tinha freio.
Desonrava-se o pão sem receio; empurrava-se o mingau de aveia pela mesa com as colheres, atirando-o na cabeça uns dos outros; sim, sujava-se bestialmente a comida, para tirar maldosamente dos outros a vontade de comer. Provocavam os vizinhos, maltratavam o gado, zombavam de todo culto divino, negavam todo poder superior e atormentavam de todos os modos o sacerdote que lhes falara em repreensão; em suma, já não tinham temor de Deus nem dos homens e se tornavam mais grosseiros a cada dia.
A vida mais desregrada levavam criados e criadas; e, ainda assim, atormentavam-se uns aos outros tanto quanto possível. Quando os criados já não sabiam de que novo modo poderiam atormentar as criadas, ocorreu a um deles assustá-las, ou amansá-las, com a aranha no buraco. Atirava colheradas cheias de mingau de aveia ou leite contra a cavilha e gritava que a de dentro devia estar com fome, pois não tivera nada por tantos séculos.
Então as criadas gritavam de modo horrível e prometiam tudo o que podiam; e até os outros criados ficavam arrepiados. Como o jogo se repetiu sem castigo, deixou de fazer efeito. As criadas já não gritavam, já não prometiam nada, e os outros criados também começaram a fazer o mesmo. Então aquele passou a avançar com a faca contra o buraco, jurando, entre maldições horríveis, que soltaria a cavilha, pois queria ver o que havia lá dentro, e elas também precisavam ver alguma coisa nova.
Isso despertou novo terror; e o rapaz que fazia aquilo tornou-se senhor de todos e podia forçar o que quisesse, especialmente entre as criadas.
Dizem, porém, que esse também era um homem estranho; ninguém sabia de onde viera. Podia ser manso como um cordeiro e feroz como um lobo. Quando estava sozinho com alguma mulher, era um cordeiro manso; diante da companhia, porém, era como um lobo dilacerador, e agia como se odiasse a todos, como se quisesse lançar-se contra tudo com atos e palavras selvagens; e justamente esses, dizem, são os que as mulheres mais apreciam.
Por isso as criadas se horrorizavam publicamente com ele; mas, quando estavam sozinhas, dizem que gostavam dele mais do que de todos. Tinha olhos desiguais, mas não se sabia de que cor; e ambos se odiavam, jamais olhavam para o mesmo caminho, embora ele soubesse escondê-los sob cílios longos e sob um olhar humildemente abaixado.
Seu cabelo era belamente cacheado, mas não se sabia se era ruivo ou baio; na sombra era o mais belo cabelo de linho, mas, quando o sol batia nele, nenhum esquilo tinha pelagem mais vermelha. Atormentava o gado como ninguém. Por isso também o gado o odiava. Entre os criados, cada um julgava que ele era seu amigo, e contra cada um ele atiçava os demais.
Entre todos, só ele era aprovado pelas mulheres senhoras; só ele ia muitas vezes à casa de cima. Então, lá embaixo, as criadas faziam desordem; assim que ele percebia, cravava a faca na cavilha e começava suas ameaças, até que as criadas viessem rastejando à cruz. Mas esse jogo também não conservou por muito tempo seu efeito. As criadas se acostumaram a ele e acabaram dizendo:
— Pois faça, se ousa; mas você não ousa.
Aproximava-se o Natal, a noite santa. No que ela nos consagra, eles não pensavam; haviam combinado uma vida alegre nessa noite. No castelo lá embaixo morava apenas um velho cavaleiro, e este pouco se importava com as coisas temporais; um vogt velhaco administrava tudo em seu próprio benefício. Por alguma ladroeira, eles haviam negociado com esse homem um nobre vinho húngaro, perto de cuja terra os cavaleiros travavam grande combate; a força e o fogo daquele nobre vinho eles não conheciam.
Subiu um temporal pavoroso, com relâmpagos e tempestade, como raramente há naquela época; nem um cão se teria expulsado de baixo do forno. Ir à igreja, porém, não foi o mau tempo que os impediu: também com tempo bonito eles não teriam ido; deixariam o senhor ir sozinho. Mas o temporal impediu outros de visitar a igreja; eles ficaram sozinhos na casa velha, junto do nobre vinho.
Começaram a noite santa com maldições e danças, com coisas mais selvagens e piores; depois se sentaram para a refeição, para a qual as criadas haviam cozido carne, papa branca e tudo o mais de bom que puderam roubar.
Então a brutalidade se tornou cada vez mais horrível. Desonraram todos os alimentos, blasfemaram contra tudo que era sagrado; o criado de que falamos zombou do sacerdote, distribuiu pão e bebeu seu vinho como se celebrasse a santa missa, batizou o cão debaixo do forno, levou a coisa a tal ponto que até os outros, ímpios como eram, ficaram com medo e aflição. Então enfiou a faca no buraco e jurou que ainda lhes mostraria coisas muito diferentes.
Como eles não quiseram se assustar com aquilo, pois ele já muitas vezes fizera o mesmo, e como com a faca quase nada se podia tirar da cavilha, agarrou, em meio delírio, um trado, jurou da maneira mais terrível que eles veriam do que ele era capaz, que pagariam pelo riso até que os cabelos se lhes eriçassem, e cravou com impulso selvagem o trado dentro da cavilha.
Gritando alto, todos se precipitaram sobre ele; mas, antes que alguém pudesse impedir, ele riu como o próprio Diabo e deu um forte puxão no trado.
Então a casa inteira tremeu com um golpe monstruoso de trovão; o criminoso caiu de costas no chão. Uma torrente vermelha de brasa rompeu para fora do buraco, e bem no meio dela estava sentada, grande e negra, inchada do veneno de séculos, a aranha, encarando com prazer venenoso os profanadores, que, petrificados em angústia mortal, não conseguiam mover um membro para escapar ao monstro terrível, que, lento e malicioso, lhes rastejava pelo rosto, inoculando neles a morte de fogo.
Então a casa estremeceu com um uivo pavoroso de dor, que cem lobos não seriam capazes de soltar quando a fome os tortura. E logo um grito semelhante soou da casa nova; e Christen, que naquele instante subia a montanha, vindo da santa missa, pensou que ladrões haviam invadido a casa. Confiando em seu braço forte, precipitou-se para socorrer os seus.
Não encontrou ladrões, mas a morte. Com ela lutavam sua esposa e sua mãe, e já não tinham voz nos rostos negros, inchados em alto relevo; serenas dormiam suas crianças, e saudáveis e vermelhos estavam seus rostos vivos.
Subiu em Christen a terrível suspeita do que havia acontecido. Precipitou-se à casa de baixo; ali viu todos os serviçais mortos, a sala transformada em câmara mortuária, aberto o buraco horrendo no Bystal, na mão do criado monstruosamente desfigurado o trado, e na ponta do trado a terrível cavilha. Então soube o que ali acontecera, bateu as mãos sobre a cabeça e, se a terra o houvesse engolido, teria sido justo para ele.
Então algo rastejou para fora de trás do forno, achegando-se a ele. Horrorizado, ele se encolheu; mas não era a aranha, era um pobre menininho que ele acolhera em casa por amor de Deus e deixara entre os serviçais ímpios, como também hoje muitas vezes acontece: tomam-se crianças por amor de Deus e elas são entregues nas mãos do Diabo.
O menino não participara dos horrores dos serviçais; assustado, fugira para trás do forno. Só ele fora poupado pela aranha, e agora pôde contar como tudo havia acontecido.
Mas, enquanto o menininho ainda contava, soaram através do vento e do temporal gritos de angústia vindos de outras casas. Como em prazer inchado por cem anos, a aranha voava por toda a região do vale, escolhendo primeiro as casas mais opulentas, onde menos se pensava em Deus e mais no mundo, e onde, por isso, menos se queria saber da morte.
O dia ainda não havia nascido, e a notícia já estava em cada casa: a velha aranha se soltara, andava de novo pela comunidade trazendo morte; muitos já jaziam mortos, e, lá atrás no vale, grito após grito subia ao céu dos marcados que precisavam morrer. Pode-se imaginar que miséria havia na terra, que angústia em todos os corações, que Natal foi aquele em Sumiswald.
Na alegria que ele costuma trazer, nenhum ser humano podia pensar; e tamanha miséria vinha da profanação dos homens. A miséria, porém, tornava-se maior a cada dia, pois a aranha agora era mais rápida e mais venenosa do que da primeira vez. Ora estava na frente, ora no fundo da comunidade; aparecia ao mesmo tempo nos montes e no vale.
Como antes ela marcara para a morte, em geral, um aqui e outro ali, agora raramente deixava uma casa antes de envenenar todos; só quando todos se contorciam na morte ela se sentava na soleira e encarava com malícia o envenenamento, como se quisesse dizer: era ela, estava ali de novo, por mais tempo que a houvessem prendido.