Ao irmão Antônio Ribeiro, do Rio de Janeiro, a 5 de junho de 1587 Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões · Capítulo 22 de 38
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Ao irmão Antônio Ribeiro, do Rio de Janeiro, a 5 de junho de 1587

J XXII Ao IRMÃO ANTÔNIO RIBEIRO, DO RIO DE JANEIRO, A 5 DE JUNHO DE 1587. Jesus. Irmão em Cristo Antônio Ribeiro. Pax Christi. Bem entendo que credes, que pelo amor que vos tenho, e desejo de vosso bem espiritual, folgara de vos ter sempre em minha companhia, mas, pois Nosso Senhor ordena, convém que trabalhemos de ter sempre por companheiro aquele que em todas as partes e em todo o tempo está comnosco. O qual, ainda que nós ás vezes o engeitemos, contudo sempre está batendo á porta de nosso coração, esparando que lhe abramos para entrar e fazer morada em nós, vindo juntamente com ele o Padre e o Espírito Santo, para que nenhuma parte de nós fique que não seja cheia, nem haja outro que em nós possa ter quinhão, nem no mais pequeno escaninho de nossa alma. Porque (como diz o glorioso São Francisco) não quer o diabo de nós mais que um cabelinho, porque logo dele faz uma grande amarra, com que nos prende e tem por seus. Se um dia queremos fazer nossa vontade em coisa alguma, por pequena que sej/ outro dia faz que a procuremos de a fazer em outra, e outras, a que perdemos a obediência que consiste em não fazermos nossa vontade, senão a de Deus, que é interpretada pelos Superiores. Se uma vez nos descuidamos num pensamentozinho da carne, daquelle lança mao, e se contenta com ele, porque trás dele nos leva a outros peores Se começamos a nos esfriar um tamanino na oração e desejo ae tratar com Deus com muita humildade, pedindo-lhe continua-

mente ajuda para nossas fraquezas, pouco a pouco nos mete tanto regêlo no coração, que vimos não somente a não desgostar da vida e da Religião, desejando liberdade para poder ter gostos do mundo. Assi é em tudo, pelo que, caríssimo, esforçai-vos. Muito caminho tendes já andado com a graça do Senhor. Ele sabe quanto vos falta por andar, que porventura será mui pouco, e vos quer ajudar nele, sendo vosso companheiro. Não percais tal companhia, porque ainda que vos pareça peregrino, como parecia aos discípulos de Emaus, contudo logo vosso coração arderá quando vòs Ele falar, dando-vos suas consolações espirituais, como eu sei que vos deu muitas vezes, principalmente quando vos parte o pão na oração, e quando comungais. E quando vos achardes muito desconsolado e afligido, tomai por remédio singular puxar-lhe pela capa e dizer-lhe: "Senhor, ficai-vos comigo, que se me faz tarde e a noite da tentação vem sobre mim", e pedi licença ao Superior para comungardes. Porque eu confio, que no partir deste divino pão o conhecereis com tanta alegria e tanto esforço, que não pareis até chegardes á celestial Jerusalém. Esta podereis comunicar com o Irmão nosso, porque também para ele escrevo, desejando que vós, e ele, e todos os da Companhia sejamos cheios de Espírito Santo, que hoje vem sobre os discípulos, e fiquemos confirmados com sua graça, que nunca mais queiramos nem possamos ofendê-lo, antes tendo tão bom amigo, e tão suave hóspede em nossas almas, perseveremos até o fim em seu divino amor. O Senhor com a Virgem Nossa Senhora seja sempre convosco. Amen. Deste Rio de Janeiro, hoje, dia do Espírito Santo, 1587. Vosso Irmão em Cristo.

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