Ao irmão Francisco de Escalante, do Espírito Santo, a 7 de julho de 1591
XXIV Ao IRMÃO FRANCISCO DE ESCALANTE, DO ESPÍRITO SANTO, A 7 DE JULHO DE 1591
IRMÃO em Cristo caríssimo. Pax Christi. Quasi me havia esquecido de escrever-lhe em castelhano, contudo não importa muito a linguagem. Todo o ponto está, não em falar, senão em obrar, e em desejar a virtude e não saber outra prática que a que sabe a obediência. Esta é a que Deus com mais gosto entende e esta é própria prática sua. E onde não há obediência, em vão se fazem prolixos coloquios com ele, que não ouve palavras ditas por desobediente. Daqui entenderá bastantemente que, quando a obediência o ocupar em suas obras de maneira que não lhe fique tempo para rezar, que então a mesma obediência rezará por V., e rezará, por quem obedeceu, até a morte. Confio pela mercê, que Deus lhe fez, que sabe isto bem, e que converte o trabalho de suas mãos em exercício de oração. Quando começa e quando continua sua obra, volva a alma a Deus e lhe ofereça, em sacrifício, seu trabalho e, acabada a obra, renda-lhe graças porque o teve por digno de ocupá-lo em seu serviço e em coisa que, sabe certo, é vontade dele. E logo tome para si os Domingos e Festas, para recuparar o tempo passado; ouça muitas missas, e demore então na oração, que nesse tempo satisfaz Deus, com divinos consolos, os trabalhos feitos por obediência. Contudo quero avisá-lo aqui que, nesse tempo, o obriga uma grande dívida. Perguntar-me-á: Qual? Que rogue a Deus por mim, que esta é a dívida devida á caridade, a qual ainda que mais pa-
guemos, nunca a dívida tem fim, nem a paga, porque a paga mesma com que pagamos é dívida que, de novo, devemos á caridade e, assi, quanto mais pagas se fazem, tanto mais dívidas ficará por pagar. E não é para mim coisa de pouco gozo tê-lo por tal devedor, pois se me paga melhor, e mais do que me deve, e desta maneira é mais seu ganho que seu gasto, pois gastando em pagarme, cada dia se faz mais rico. Deus por sua liberalidade lhe acrescente com suas imensas riquezas, pelas quais pode fazer bem a si e a seus Irmãos, delas necessitados. Aos Irmãos Luiz Fernão, Tinozio e a todos os demais que quiser e puder, rogo eu dê saudações minhas no Senhor. Da Capitania do Espírito Santo, 7 de Julho de 1591. Seu Irmão em Cristo.