Capítulo V
A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joana, estirada em uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava a sésta. Como madrugava muito, àquela hora da calma vinha-lhe sempre uma quebreira. As janelas estavam cerradas ao sol faiscante; as panelas no lume faziam um ron-ron dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia amodorroada no amolecimento do calor tórrido, quando Juliana entrou como uma rajada, atirou para o chão, furiosa, uma braçada de roupa suja, e gritou: —Raios me partam se não ha um escândalo em esta casa que vai tudo raso! Joana deu um salto estremunhada. —Quem quer as coisas em ordem olha por elas!—berrava a outra com os olhos injectados.—Não é estar todo o dia na sala a palrar com as visitas! A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada. —Que foi, Sr.. a Juliana, que foi? —Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem peguilhado por tudo! Não estou para a aturar, não estou!
E batia o pé com frenesi. —Mas que foi? que foi? —Diz que os colarinhos tinham pouca goma, pôs-se a despropositar! Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou até aqui!—bradava, puxando a pele engelhada da garganta.—Pois que me não faça sair de mim! Que me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e pouca vergonha, boas noites!... Quem quiser que se meta em alhadas... —Ó Sr.. a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!—E a Joana apertava a cabeça nas mãos.—Ai, se a senhora ouve! —Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta! Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo. —Sr.. a Juliana!—gritou Joana—Sr.. a Juliana! Falle! Borrifou-a de água; sacudia-a, anciosamente. —Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Falle! Juliana deu um suspiro longo, de alivio, cerrou as pálpebras. E arquejava devagarinho, muito prostrada. —Como se sente? Quer um caldinho?
É fraqueza, há de ser fraqueza... —Foi a pontada—murmurou Juliana. Ai! aqueles frenesis matavam-na!—dizia a cozinheira, remexendo-lhe o caldo, muito pálida também.—A gente tinha de aturar os amos! Que tomasse a sustância, que socegasse!... em aquele momento Luísa abriu a porta. Vinha em colete e saia branca. Que barulho era aquele? —A Sr.. a Juliana que lhe tinha dado uma coisa, quase desmaiara... —Foi a pontada—balbuciou Juliana. E erguendo-se, com um esforço: —Se a senhora não precisa nada, vou ao medico... —Vá, vá!—disse Luísa logo. E desceu. Juliana pôs-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joana consolava-a baixo:—Também, a Sr.. a Juliana arrenegava-se por qualquer coisa. E quando a gente tem pouca saúde não ha nada peor que emphrenesiar-se... —É que não imagina!—e abafava a voz arregalando os olhos—Tem estado de não se poder aturar! Está-se a vestir que nem para uma partida!
Amarfanhou uns poucos de Colares, atirou-os para o chão, que eu engomava que era uma porcaria, que não servia para nada... Ai! Estou farta!—repetia—Estou farta! —É ter paciência! Todos tem a sua cruz! Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande ai!, escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sótão. de aí a pouco, de luvas pretas, muito amarela, saiu. Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até ao medico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... Mas também, largar três tostões para trem!... —Pst, pst!—fez do lado uma voz dôce. Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu sorriso desconsolado. Que era feito da Sr.. a Juliana? a dar o seu passeio, hein? Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo de osso.—De muito gosto—disse.—E como ia de saúde? Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico... Mas a estanqueira não tinha fé nos médicos. Era dinheiro deitado á rua...
Citou a doença do seu homem, os gastos, um rôr de moedas. E para que? para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro que sempre chorava! E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do Sr.. Engenheiro? —Tudo sem novidade. —Ó Sr.. a Juliana, quem é aquele rapaz que vai agora por lá todos os dias? Juliana respondeu logo: —É o primo da senhora. —Dão-se muito!... —Parece. Tossiu, e com um comprimentosinho: —Pois, muito boas tardes, Sr.. a Helena. E foi resmungando: —Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma! Juliana detestava a vizinhança; sabia que a escarneciam, que a imitavam, que lhe chamavam a tripa velha!...—Pois também de ela não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro.—Para uma ocasião!—pensava com rancor, sacudindo os quadris. A estanqueira ficou á porta, despeitada.
E o Paula dos moveis, que as vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinelas de tapete: —Então a tripa velha escorregou-se? —Ai! não se lhe tira nada! O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tédio: —Aquilo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ela quem leva a cartinha, quem abre a portita de noite... —Tanto não direi! Credo! O Paula fitou-a com superioridade: —A Sr.. a Helena está aí ao seu balcão... Mas eu é que as conheço, as mulheres da alta sociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma cambada! Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumeráveis: até trintanários! Algumas fumavam, outras entortavam-se. E peor! E peor! —E passeiam por aí, muito repimpadas de carrinho, á barba da gente de bem! —Falta de religião!—suspirou a estanqueira. O Paula encolheu os hombros: —A religião é que é, Sr.. a Helena! C'os padres é que é! E agitando furioso o punho fechado: —C'os padres é uma choldra viva! —Credo, Sr.. Paula, que até lhe fica mal!...
E o carão amarelado da estanqueira tinha uma severidade de devota ofendida. —Ora, historias, Sr.. a Helena!—exclamou o homem com desprezo. E bruscamente: —Porque é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo lá dentro! —Oh Sr.. Paula! oh Sr.. Paula!—balbuciava a Helena, recuando, encolhendo-se. Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas. —Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterrâneo ter c'os frades. E era vinhaça e mais vinhaça. E batiam o fandango em camisa! Anda isso por aí em todos os livros. E erguendo-se nas chinelas: —E os jesuítas, se vamos a isso! Sim! diga! Mas recuou, e levando a mão á pala do boné: —Um criado da senhora—disse com respeito. Era Luísa que passava, vestida de preto, o véu descido. Ficaram calados, a olhal-a. —Que ela é muito bonita!—murmurou a estanqueira, com admiração. O Paula franziu a testa. —Não é mau bocado...—disse. E acrescentou, com desdem:—Pra quem gosta de aquilo!... Houve um silencio.
E o Paula rosnou: —Não são as saias que me levam o tempo, nem de isto!... E bateu no bolso do colete, fazendo tilintar dinheiro. Tossiu, pigarreou, e ainda áspero: —Venha de lá um pataco de Xabregas. Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos arregalaram-se indignados; em uma das janelas de cima na casa do Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura enfesada do Pedro, o carpinteiro. Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços: —E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola a entender-se com a criada! Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna: —Aquela casa vai-se tornando um prostíbulo! —Um quê, Sr.. Paula? —Um prostíbulo, Sr.. a Helena! É como se dissesse um alcouce! E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. Luísa ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na véspera, declarando logo «que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se apearem».
Bazilio ainda insistiu, falando em «sombras de alamedas, uma merendinha, relvas...» Mas ela recusou, muito teimosa, rindo, dizendo:—Nada de relvas!... E tinham combinado encontrar-se na praça da Alegria. Chegou tarde, já depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o rosto, toda assustada. Bazilio esperava, fumando, em um coupé, á esquina, debaixo de uma árvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luísa entrou fechando atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaçou-se no rufo de seda; e achou-se ao lado de ele, muito nervosa, ofegante, com o rosto abrazado, murmurando: —Que tolice, que tolice esta! Mal podia falar. O coupé partiu logo a trote. O cocheiro era o Pintéos, um batedor. —Tão cançada, coitadinha!—disse-lhe Bazilio muito meigo. Levantou-lhe o véu; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da excitação, da pressa, do medo... —Que calor, Bazilio! Quis descer um dos vidros do coupé. Não, isso não! Podiam vêl-os!
Quando passassem as portas... —Para onde vamos nós? E espreitava, levantando o store. —Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres? Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o véu e as luvas: sorria, abanando-se com o lenço, de onde saia um aroma fresco. Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôs-lhe muitos beijos longos, delicados, na pele fina, azulada de veiasinhas. —Tu prometeste ter juízo!—fez ela com um sorriso cálido, olhando-o de lado. Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia? Também era necessário não ser beata! E olhava-a avidamente. Os velhos stores do coupé corridos eram de seda vermelha, e a luz que os atravessava envolvia-a em um tom igual, cor de rosa e quente. Os seus beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã de uma pétala de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz movia-se em um fluido dôce.
Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco trêmulos nas fontes, nos cabelos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde: —Nem um beijo na face, um só? —Um só?...—fez ela. Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas aquele contacto exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, pela face, pelo chapéo... —Não! não!—balbuciava ela, resistindo.—Quero descer! Dize que pare! Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os dedos na dura corrêa suja. Bazilio pôs-se a suplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se por um beijo! Se ela estava tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir quieto, muito quieto... A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miúda; nas terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam imóveis na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente em uma fulguração continua.
Bazilio tinha descido um dos vidros; o store corrido palpitava brandamente; pôs-se então a falar-lhe ternamente de si, do seu amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa—dizia.—Não tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia nada melhor do que viver ao pé de ela, sempre. Dizia-se desiludido, enfastiado. Que mais lhe podia oferecer a vida? Tinha tido as sensações dos amores efêmeros, as aventuras das longas viagens. Ajuntára alguma coisa de seu,—e sentia-se velho. Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos: —Não é verdade que estou velho? —Não muito—e os seus olhos humedeciam-se. Ah! estava! estava! O que lhe apetecia agora era viver para ela, vir descançar nas doçuras da sua intimidade. Ela era a sua única família.—Fazia-se muito parente.—A família no fim de tudo é o que ha de melhor ainda. Não te incomoda que eu fume? E acrescentou, raspando o fosforo: —O que ha de bom na vida é uma afeição profunda como a nossa. Não é verdade?
Contento-me com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias, conversar muito, saber que me estimas...—Por dentro do campo, ó Pintéos!—gritou com força pela portinhola. O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os stores; um ar mais vivo penetrou. O sol caía sobre o arvoredo, traspassando-o de uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarelada. Saloios passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando as pernas, abrigados sob os vastos guarda-sóis escarlates; e a luz que vinha de um céo azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua as paredes muito caiadas, as águas de algum balde esquecido ás portas, todas as brancuras de pedras. E Bazilio continuava: —Vendo tudo o que tenho lá fora, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em Buenos-Ayres, talvez...
Não te agrada? Dize... Ela calava-se; aquelas palavras, as promessas, a que a voz de ele metálica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriação de um licôr forte. O seu seio arfava. Bazilio baixou a voz, disse: —Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz, parece-me tudo tão bom!... —Se isso fosse verdade!—suspirou ela, encostando-se para o fundo do coupé. Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua fortuna em inscripções. Começou a dar-lhe provas: já falara a um procurador; citou-lhe o nome, um seco, de nariz agudo... E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: —E se fosse verdade, dize, que fazias? —Nem eu sei—murmurou ela. Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os stores.
Ela afastou um, e, espreitando, via fora passar rapidamente, ao lado do trem, árvores empoeiradas; um muro de quinta de uma cor de rosa sujo; fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrelado; mulheres sentadas ao portal, á sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido de branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as cortinas fechadas do coupé. E ia desejando habitar ali em uma quinta, longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das janelas, parreiras sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruasinhas amáveis sob árvores entrelaçadas, um tanque debaixo de uma tília, onde de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao escurecer, ela e ele, um pouco quebrados das felicidades da sésta, iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o céo que se Estrela, o coaxar triste das rãs. Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do coupé, o calor, a presença de ele, o contacto da sua mão, do seu joelho, amoleciam-na.
Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito. —Em que vais tu a pensar?—perguntou-lhe ele baixo, muito terno. Luísa fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de falar, de lhe dizer... Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito, com cuidado, como uma coisa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade de um negro e a unção de um devoto. Aquela caricia tão humilde, tão tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para o canto do coupé, rompeu a chorar... Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe palavras loucas. —Queres que fujamos? As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre aquela face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma vibração quase dolorosa. —Foge comigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! Ela soluçou, murmurou muito doridamente: —Não digas tolices.
Ele calou-se; pôs a mão sobre os olhos com uma atitude melancólica, pensando:—Estou a dizer tolices, não ha que vêr! Luísa limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho. —É nervoso—disse.—É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. Dize que volte. Bazilio mandou «bater» para Lisboa. Ela queixava-se de um ameaço de enxaqueca. Ele tinha-lhe tomado a mão, repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal». E pensava baixo:—Estás cahida! Pararam na praça da Alegria. Luísa espreitou, saltou depressa, dizendo: —Amanhã, não faltes, hein? Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente para a Patriarcal. Bazilio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Acendeu outro charuto, estendeu as pernas, gritou: —Ao Gremio, ó Pintéos! Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia anos vivia em Londres, e muito em Paris também, lia o Times languidamente, enterrado em uma poltrona.
Tinham vindo ambos de Paris, com promessa de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava a temperatura de Lisboa reles; trazia lunetas defumadas; e andava saturado de perfumes, por causa «do cheiro ignóbil de Portugal». Apenas viu Bazilio deixou escorregar o Times no tapete, e com os braços moles, a voz desfalecida: —E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrível, menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! Acaba com essa prima. Viola-a. Se ela te resiste, mata-a! Bazilio, que se estendera em uma poltrona, disse, estirando muito os braços: —Oh! Está cahidinha! —Pois avia-te, menino, avia-te! Apanhou moribundamente o Times, bocejou, pediu soda—soda inglesa! «Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto, com terror, e murmurou soturnamente: —Que abjecção de paiz! Quando Luísa entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo á porta: —O Sr.. Sebastião está na sala.
Tem estado um rôr de tempo á espera... Já cá estava quando eu cheguei. Tinha vindo com efeito havia meia hora. Quando a Joana lhe veio abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou «que a senhora estava para fora», Sebastião ia logo descer, com o alivio delicioso de uma dificuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, entrou, pôs-se a esperar... Na véspera tinha decidido falar-lhe, avisal-a que aquelas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, em uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lho!... Mas era um dever! Por ela, pelo marido, pelo respeito da casa! Era forçoso acautelal-a!... E não se sentia acanhado. Perante as reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração batia-lhe um pouco, sim, e estava pálido... Mas, que diabo, havia de lho dizer!... E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas frases, procurando-as muito delicadas, bem amigas...
Mas a campainha retiniu, um frou-frou de vestido roçou o corredor,—e a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao piano, pôs-se a bater vivamente no teclado. Quando Luísa entrou, sem chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado: —Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava á espera... Então de onde vem? Ela sentou-se, cançada. Vinha da modista—disse. Fazia um calor! Porque não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de cerimônia! Era família, era seu primo que viera de fora. —Está bom, seu primo? —Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! Ora, quem vive lá fora! Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos: —Está claro, quem vive lá fora! —E Jorge, tem-lhe escrito?—perguntou Luísa. —Recebi carta ontem. Também ela. Falaram de Jorge, dos tédios da jornada, do que contava do fantástico parente de Sebastião, da demora provável... —Faz-nos uma falta, aquele maroto!—disse Sebastião. Luísa tossiu.
Estava um pouco pálida, agora. Passava ás vezes a mão pela testa, cerrando os olhos. Sebastião de repente, teve uma decisão: —Pois eu vinha, minha rica amiga...—começou. Mas viu-a ao canto do sofá, com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos. —Que tem? Está incomodada? —É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E com uma força! Sebastião tomou logo o chapéo: —E eu a massal-a! É necessário alguma coisa? Quer que vá chamar o medico? —Não! Vou-me deitar um momento, passa logo. Que não apanhasse ar, ao menos, recomendava ele. Talvez sinapismos ou rodelas de limão nas fontes... E em todo o caso, se não estivesse melhor que o mandasse chamar... —Isto passa! E apareça, Sebastião! Não se esconda... Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:—Eu não me atrevo, santo Deus!...
Mas á porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro da loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, estendendo o olhar, cocando; por cima, três das Azevedos, entre as velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas em algum conciliábulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava, com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na loja de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota. —Não passa um gato que esta gente não dê fé!—pensou Sebastião.—E que línguas! Que línguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ela amanhã está melhor, digo-lhe tudo! Estava com efeito já boa, ás nove horas, no dia seguinte, quando Juliana a foi acordar, com «uma cartinha da Sr.. a D. Leopoldina». A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de buço e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana, beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas.
E depois de ter guardado a resposta de Luísa em um cabazinho que trazia no braço, traçou o chale, e muito risonha: —Então que ha por cá de novo, Sr.. a Juliana? —Tudo velho, Sr.. a Justina. E mais baixo: —O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz! Tossiram ambas, baixinho, com malicia. —E por lá, Sr.. a Justina, quem vai por lá? Justina fez um aceno de desprezo. —Um rapazola, um estudante. Fraca coisa!... —Sempre pinga!—disse Juliana com um risinho. A outra exclamou: —Olha quem! o pelintra! Nem cheta! E erguendo o olhar com saudade: —Ai, como o Gama não ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me não desse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai, devo dizê-lo, foi ele que me ajudou para o meu vestido de seda! Este agora!... é um fedelho. Eu nem sei como a senhora suporta aquilo! E amarelado, enfesado! Aquilo póde prestar para nada!
Juliana disse então: —Pois olhe, Sr.. a Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde se está bem, é em casas em que ha pôdres! Encontrei ontem a Agostinha, a que está em casa do comendador, ao Rato... Pois senhor, não se imagina. É tudo o que se póde! Tudo! Annel, vestido de seda, sombrinha, chapéo! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro, o que está com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que é um homem rasgado. Ela também, verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo jardim, e para o fazer sair tem de esperar... —Ah, lá não!—acudiu a Justina.—Lá é pela escada. Riram baixinho, saboreando o escândalo. —Genios...—disse Juliana. —Ai, lá isso, o nosso tem estomago—afirmou Justina.—Encontra-os na escada, e tanto se lhe dá!... E muito affectuosamente, arranjando o chale: —E adeusinho, que se faz tarde, Sr.. a Juliana. Ela vem hoje cá jantar, a senhora.
Estive toda a manhã a engomar uma saia; desde as sete! —Também eu por cá—disse Juliana.—Elas é o que tem; quando ha amante sempre ha mais que engomar. —Deitam mais roupa branca, deitam—observou a Justina. —As que deitam!—exclamou Juliana, com desprezo. Mas Luísa tocou a campainha dentro. —Adeus, Sr.. a Juliana—disse logo a outra, ageitando o chapéo. —Adeus, Sr.. a Justina. Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito apressada ao quarto de Luísa; estava já a pé, vestindo-se, muito alegre, cantarolando. O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta: «Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não posso ir antes das seis. Convém-te?» Ficou muito contente. Havia semanas que a não via... O que iam rir, palrar! E Bazilio devia vir ás duas. Era um dia divertido, bem preenchido... Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar.
Quando descia, o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, «a saber se a senhora estava melhor». —Que sim, que sim!—gritou logo Luísa.—E para o tranquilizar, para que ele não viesse:—Que estava boa, que até talvez sahisse... As rosas, sim, é que vinham a propósito. Foi ela mesma pôl-as nos vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida que se tornava interessante, cheia de incidentes... E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôs-se ao piano a estudar a Medjé de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito, com os seus acentos suspirados e cálidos. Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos embrulhavam-se-lhe no teclado.—Já devia ter vindo, Bazilio!—pensava. Foi abrir as janelas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor, que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sôfregos que Luísa fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já nervosa. Uma carruagem rolou.
Ergueu-se agitada, batia-lhe o coração. A carruagem passou... Três horas já! O calor parecia-lhe maior, insuportável; sentia-se afogueada, foi cobrir-se de pó de arroz. Se Bazilio estivesse doente! E em um quarto de hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia escrito em esse caso!... Não viera, não se importara! Que grosseiro, que egoísta! Era bem tola em se afligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! Foi buscar um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram em um frenesi a gaveta, que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, não o tornaria a receber! E acabava tudo! E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, desapareceu! Sentiu um alivio, um grande desejo de tranquilidade. Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar em outro homem, um leviano, um estroina!... Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escriptorio de Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu á pressa: « Querido Bazilio. «Porque não vens?
Estás doente? Se soubesses os tormentos por que me fazes passar...» A campainha retiniu. Era ele! Amarrotou o bilhete, meteu-o no bolso do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos de homem pisaram o tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião. Sebastião, um pouco pálido, que lhe apertou muito as mãos. Estava melhor? Tinha dormido bem? Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sofá, muito vermelha. Mal sabia que dizer. Repetiu com um sorriso vago:—Estou muito melhor!—E pensava:—Não me deixa agora a casa, este massador! —Então, não saiu?—perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o chapéo desabado nas mãos. Não, estava um pouco fatigada ainda. Sebastião passou devagar a mão pelos cabelos, e com uma voz que o embaraço engrossava: —Também agora tem sempre companhia pela manhã... —Sim, meu primo Bazilio tem aparecido. Ha tanto tempo que nos não viamos! Fomos creados de pequenos, quase... Tenho-o visto quase todos os dias.
Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a voz: —Eu mesmo tinha vindo para lhe falar a esse respeito... Luísa abriu um olhar surpreendido. —A respeito de quê? —É que se repara... A vizinhança é a peor coisa que ha, minha rica amiga. Repara em tudo. Já se tem falado. A criada do lente, o Paula. Até já vieram á tia Joana. E como o Jorge não está... O Neto também reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias... Luísa ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado: —Então eu não posso receber os meus parentes sem ser insultada?—exclamou. Sebastião levantou-se também. Aquela cólera súbita em ela, uma pessoa tão dôce, atarantou-o como um trovão que estala em um céo claro de verão. Pôs-se a dizer, quase anciosamente: —Oh minha rica senhora! mas repare, eu não digo... É por causa da vizinhança!... —Mas que póde dizer a vizinhança? A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos, apertando-as, exaltada: —Isto é curioso!
Tenho um parente único, com quem fui creada, que não vejo ha uns poucos de anos, vem-me fazer três ou quatro visitas, está um momento, e já querem deitar maldade! Falava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o coupé... Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas mãos tremulas. E com uma voz abafada: —Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião também... —O Julião!—exclamou ela.—Mas que tem o Julião com isso? Com que direito se metem no que se passa em minha casa? O Julião! A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acrescimo de afronta. Cahiu em uma cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos no tecto. —Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se ele aqui estivesse, Santo Deus! Sebastião balbuciou aniquilado: —Era para seu bem... —Mas que mal me póde suceder? E erguendo-se, indo de um móvel a outro, em uma excitação: —É o meu único parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em casa da mamã, na rua da Magdalena, estava lá sempre.
Ia lá jantar todos os dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me ao colo... E amontoava detalhes de aquela fraternidade, exagerando uns, inventando outros ao acaso, na improvisação da cólera. —Vem aqui—acrescentava—está um bocado, fazemos musica, ele toca admiravelmente, fuma um charuto, vai-se... Instinctivamente justificava-se. Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe aquela uma outra Luísa, diferente, que o assustava; e quase curvava os hombros sob a estridência da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando em uma loquacidade trapalhona. Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancólica: —Eu entendi que era o meu dever, minha senhora. Fez-se um silencio grave. Aquele tom sóbrio, quase severo, obrigou-a a córar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada: —Perdoe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe, estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastião!
Ele exclamou logo, vivamente: —Para evitar qualquer calumnia de essas línguas damnadas! Pois não é verdade? Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: ás vezes por uma palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida... —De certo, Sebastião!—repetiu ela.—Fez perfeitamente bem em me avisar. De certo!... Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento limpava com o lenço os cantos secos da boca. —Mas que hei de eu fazer, Sebastião! Diga! Ele comovia-se agora de a vêr assim ceder, aconselhar-se; quase lamentava vir, com a gravidade das suas advertências, perturbar a alegria das suas intimidades. Disse: —Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre é bom uma certa reserva, com esta vizinhança! Eu se fosse a si contava-lhe... explicava-lhe... —Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião? —Repararam. Quem seria? quem não seria? Que vinha, que estava, o diabo! Luísa ergueu-se impetuosamente: —Eu bem tenho dito a Jorge!
Tantas vezes lho tenho dito! Isto é uma rua impossível! Não se mexe um dedo que não espreitem, que não cochichem! —Não têm que fazer... Houve um silencio. Luísa passeava pela sala, com a cabeça baixa, a testa franzida; e parando, olhando quase anciosamente para Sebastião: —O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus! —Escusa de saber!—exclamou logo Sebastião.—Isto fica entre nós! —Para o não afligir, não é verdade?—acudiu ela. —Está claro! Isto fica entre nós. E Sebastião estendendo-lhe a mão, quase humildemente: —Então não está zangada comigo, hein? —Eu, Sebastião! Que tolice! —Bem, bem. Acredite!—e espalmou a mão sobre o peito—eu entendi que era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada... —Estava bem longe!... —De certo. Bem, adeus. Não a quero massar mais.—E com uma voz profunda, comovida:—Cá estou ás ordens, hein! —Adeus, Sebastião... Mas que gente!
Por vêr entrar o pobre rapaz três ou quatro vezes!... —Uma canalha, uma canalha!—disse Sebastião, arregalando os olhos. E saiu. Apenas ele fechou a porta: —Que desafôro!—exclamou Luísa—Isto só a mim! Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a mais que os mexericos da vizinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da sua casa era discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por tutti quanti! Aos vinte e cinco anos tinha mentores! Não estava má! E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu único parente, vinha vê-la!... Mas então, de repente, emudecia interiormente. Lembravam-lhe os olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aqueles beijos, o passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia declamando alto:—de certo, havia um sentimento, mas era honesto, ideal, todo platônico!... Nunca seria outra coisa! Podia ter lá dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem, fiel, só de um!...
E esta certeza irritava-a então contra os «palratórios» da rua! Que de resto era lá possível, que só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco vezes, ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, a cortar na pele?... Sebastião era um caturra, com terrores de ermitão! E que idéa, ir consultar Julião! Julião! Era ele, de certo, que o instigara a vir prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque Bazilio tinha beleza, toilette, maneiras, dinheiro!... Se tinha! As qualidades de Bazilio apareciam-lhe então magnificas e abundantes como os atributos de um deus. E estava apaixonado por ela! E queria vir viver junto de ela! O amor de aquele homem, que tinha esgotado tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como a afirmação gloriosa da sua beleza e da irresistibilidade da sua seducção. A alegria que lhe dava aquele culto trazia-lhe o receio de o perder.
Não o queria vêr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo, balouçando sem cessar, diante de ela, o murmurio languido das ternuras humildes! Podia lá separar-se de Bazilio! Mas se a vizinhança, as relações começavam a comentar, a cochichar... Jorge podia saber!... Àquela suposição o coração arrefecia-lhe...—Sebastião tinha razão, no fundo, era evidente! em uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquele lindo rapaz, tão elegante, agora que seu marido não estava... Era terrível!—Que havia de fazer, Santo Deus!... A campainha retiniu com força; Leopoldina entrou. Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ela, hein! Tinha parado ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!... —E que calor, ouf!—Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mãos no ar para descer o sangue, dar-lhes palidez; e diante do toucador, compondo ligeiramente os frisados do cabelo, com uma cor na pele, muito espartilhada, admirável no seu corpete couraçado: —Que tens tu, filha?
Estás toda no ar! Nada. Tinha-se zangado com as criadas... —Ai! estão insupportaveis!—Contou as exigências da Justina, os seus desmazelos.—E muito agradecida ainda que ela se me não vá! Quando a gente depende de elas!...—E pondo pó de arroz no rosto, com uma voz lenta:—Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fora com...—Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luísa, mais baixo, com um tom alegre, muito sincero:—Mas olha, a falar a verdade, nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que ele coitado com a sua mesada mal lhe chega. Disse comigo: nada, vou vêr a Luísa. Também os homens sempre, sempre, secam!...—Que tens tu para jantar? Não fizeste cerimônia, hein? E com uma idéa súbita: —Tens tu bacalhau? Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque? —Ai!—exclamou—Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta o bacalhau! aquele animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e alho!—Mas calou-se, contrariada.—Diabo! —O que? —É que hoje não posso comer alho...
E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, pôl-a em uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,—pensava, olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dois grandes espelhos, um lustre de gaz, e o seu retrato a óleo de corpo inteiro, decotada, ao pé de um rico vaso de flôres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado, tocou motivos do Barba Azul. E vendo Luísa entrar: —Mandaste arranjar o bacalhau? —Mandei. —Assado? —Sim. —Gracias!—E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da Gran-Duqueza: