Capítulo XII
Foi por esse tempo que, em um sabbado, o Diario do Governo publicou a nomeação do conselheiro Acácio ao grau de cavaleiro da ordem de S. Tiago, atendendo aos seus grandes merecimentos literários, ás obras publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes... Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por um, em uma pressão nervosa e comovida, cahiu no sofá, exhausto, e murmurou: —Não o esperava tão cedo da real munificência! Não o esperava tão cedo!—E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:—Direi como o filósofo: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida! E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugúrio, para festejarem a regia graça». —Ás cinco e meia, meus bons amigos!
Na quinta-feira, os três, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarelo ocupava a parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao laço um búfalo cor de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons cor de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia o intervalo das duas janelas. Sobre uma mesa de jogo, entre dois castiçais de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de 18 peças! O Conselheiro recebeu-os, com o habito de S. Tiago sobre a lapela do frac preto. Havia outro sujeito na sala, o Sr.. Alves Coutinho.
Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode pelado arreganhava-se logo por habito, em um sorriso alvar que mostrava uma boca medonha cheia de dentes pôdres; falava pouco, esfregava sempre as mãos, concordava em tudo; havia em ele o ar de um deboche banal, e de um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministério do reino, ilustre pela sua boa letra. de aí a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redator do Século. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto reluzia de brilhantina; as lunetas de ouro acentuavam o seu tom oficial: trazia ainda no queixo o pó de arroz, que lhe pusera momentos antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta mentira, vinha aperreada em uma luva nova, cor de gema de ovo! —Estamos todos!—disse com jubilo o Conselheiro. E curvando-se:—Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade no meu quarto de estudo! Por aqui.
Ha um degrau, cuidado! Eis o meu Sanctus Sanctorum! em uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de duas janelas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os lápis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete de armas do Conselheiro, pousado sobre a Carta Constitucional ricamente encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a carta regia que o nomeara Conselheiro; defronte uma litografia de El-Rei; e sobre uma mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas—que ao mesmo tempo o glorificava e o chorava. Julião pusera-se logo a examinar a livraria. —Prezo-me de ter os autores mais ilustres, amigo Zuzarte!—disse com orgulho o Conselheiro. Mostrou-lhe a Historia do consulado e do império, as obras de Delille, o Dicionário da conversação, a ediçãosinha bojuda da Encyclopedia Roret, o Parnaso lusitano.
Falou dos seus trabalhos; e acrescentou que, vendo ali reunidas pessoas de tão subida ilustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava revendo do seu novo livro— Descripção das principais cidades do reino e seus estabelecimentos, para ouvir a opinião de eles, desassombrada e severa! —Se não acham massada... —Prazer, Conselheiro! prazer! Escolheu então «como mais própria para dar idéa da importância do trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, colocou-se no meio da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos pausados, leu: «—...Reclinada molemente na sua verdejante colina, como odalisca em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Atenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe de amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus melancólicos trilos.
Quando vos aproximais pela estrada de Lisboa, onde outr'ora uma bem organisada mala-posta fazia o serviço que o progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando, coroada do edifício imponente da Universidade, asilo da sabedoria. Lá campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade estudiosa chama a cabra. Para além logo uma copada árvore vos atrai as vistas: é a celebrada árvore dos Dorias, que dilata seus seculares ramos no jardim de um dos membros de esta respeitável família.
E avistais logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus inocentes recreios, os briosos moços, esperança da pátria, ou requebrando galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais árduos de seus bem elaborados compêndios...» —Está a sôpa na mesa—veio dizer uma criada, de avental branco, muito nutrida. —Muito bem, Conselheiro, muito bem!—disse logo o Savedra do Século, erguendo-se.—É admirável! Declarou para os lados com autoridade: «que o estilo era digno de um Rebelo ou de um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em Portugal de uma obra daquele quilate...» E pensava baixo: «Grandissima cavalgadura!...» O que era a sua apreciação genérica de todas as obras contemporâneas—exceptuando os seus artigos no Século. —Que lhe pareceu, meu bom amigo?—perguntou baixo o Conselheiro a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.—Mas uma opinião desafrontada, meu Zuzarte! —Sr..
Conselheiro—disse Julião com uma voz profunda—tenho-lhe inveja!—E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preocupação crescente em um chale-manta pardo, que a um canto cobria cuidadosamente, a julgar pelas saliências, altas pilhas de livros. Que seria?—Tenho-lhe inveja!—repetiu—E outra coisa, Conselheiro, não se me dava de lavar as mãos. Acácio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião, sempre curioso, observou, surpreendido, duas grandes litografias aos lados da cama—um Ecce Homo! e a Virgem das sete Dôres. O quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e teve a consolação de verificar,—que havia sobre o travesseiro duas fronhasinhas chegadas de um modo conjugal e terno!
Apenas ele saiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente: —Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio de um humilde filósofo! Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas de dôce; havia creme crestado a ferro de engomar, um prato de ovos queimados, aletria com as iniciais do Conselheiro desenhadas a canela. —É um grande dia para Sebastião!—disse Jorge. O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com um riso na face amarela: —É cá dos meus, hein? Gosta do belo dôce! Também me pelo, também me pelo!... Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e moles do macarrão. O Conselheiro disse: —Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão! —Gosta do macarrão?—acudiu o Alves. —Muito, meu Alves. Lembra-me a Itália!—E acrescentou:—Paiz que sempre desejei vêr.
Dizem-me que as suas ruínas são de primeira ordem. Póde ir trazendo o cozido, Sr.. a Philomena...—Mas detendo-a, com um gesto grave:—Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um pargo. Houve uma hesitação, Jorge disse: —O cozido talvez. E o Conselheiro com affecto: —O nosso Jorge opina pelo cozido. —Também estou pela sua!—exclamou o Alves Coutinho, voltado para Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:—O cozidinho! E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa: —Dizem-me que é muito liberal a constituição da Itália! Liberal! Segundo Julião, se a Itália fosse liberal, devia ter ha muito expulso a coronhadas o papa, o sacro colégio, e a sociedade de Jesus! O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolência do amigo Zuzarte para o «chefe da Igreja». —Não—explicou—que eu seja um sectário do Syllabus. Não que eu queira vêr os jesuítas enthronisados no seio da família!
Mas—e a sua voz tornou-se profunda—o respeitável prisioneiro do Vaticano é o vigário de Cristo! Meu Sebastião, sirva o arroz! Não havia que estranhar aquelas opiniões católicas do Conselheiro, ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á cabeceira da cama... A calva de Acácio fez-se rubra. O Savedra do Século exclamou com a boca cheia: —Não o sabia carola, Conselheiro! Acácio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu: —Eu peço ao meu Savedra que não tire de esse facto ilações erradas. Os meus princípios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio... —Para os que o precisam—interrompeu Julião. Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio: —Não o precisamos nós de certo, que somos as classes ilustradas.
Mas precisa-o a massa do povo, Sr.. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a estatística dos crimes. E o Savedra do Século, erguendo as sobrancelhas, com a fisionomia muito séria: —Pois olhe que diz uma grandissima verdade.—Repetiu a máxima, modificando-a:—A religião é um bridão!—Fazia com o gesto o esforço de conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava. O Conselheiro continuava, explicando: —Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas litografias ou gravuras, alusivas ao mistério da Paixão, tem o seu lugar em um quarto de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade, meu Jorge? Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face acesa em uma jovialidade libertina: —Eu, em um quarto de dormir, as únicas pinturas que admito são uma bela ninfa núa, ou uma bacchante desenfreada! —Isso, isso!—bradou o Alves Coutinho. A boca dilatava-se-lhe em uma admiração sensual.—Este Savedra! Este Savedra!—E baixo para Sebastião:—Tem um talento! Tem um talento!
O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o estomago: —Espero que não sejam esses os paineis imorais, que se veem no seu gabinete de estudo. Julião emendou: —No meu cubículo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas litografias—uma é um homem sem pele para representar o sistema arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pele para se vêr o sistema nervoso. O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e exprimiu a opinião—que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia coisas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos teatros anatômicos, os estudantes de idéas mais avançadas levavam o seu desprezo pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros humanos, pés, coxas, narizes... —Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!—disse Julião, enchendo o copo—é matéria inerte! —E a alma, Sr.. Zuzarte?...—exclamou o Conselheiro.
Fez um gesto de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquela palavra suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protetor: —E que diz o nosso bondoso Sebastião? —Estou a ouvir, Sr.. Conselheiro. —Não dê ouvidos a estas doutrinas!—Com o garfo mostrava a figura biliosa de Julião.—Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o nosso Jorge (o que é de lamentar em um homem estabelecido e empregado do Estado) também vai um pouco para estas exagerações materialistas! Jorge riu; afirmou que sim, que tinha essa honra... —Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de matemática, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas brancas, túnicas azuis, e tocando instrumentos? O Conselheiro acudiu: —Não, instrumentos não!—E como apelando para todos:—Não creio que tivesse falado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. São, podemos dizê-lo, tácticas do partido reaccionario...
Ia fulminar a doutrina ultramontana—mas a Sr.. a Philomena colocou-lhe diante a travessa com a perna de vitela assada. Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na aplicação de uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou: —E o ministério, cai ou não cai? Sebastião ouvira dizer no vapor de Almada, de tarde, que «a situação estava firme». Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas semanas «estavam em terra». Nem aquele escândalo podia continuar! Não tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por exemplo, ele...—E meteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas da cadeira—Ele tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. Porque era leal! Sempre o fora em politica!
Pois bem, não lhe tinham despachado o primo recebedor de Aljustrel, tendo-lh'o prometido! e nem lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possível fazer politica! Era uma coleção de idiotas! Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua comissão no ministério; e ele o que queria era estar quieto ao seu cantinho... O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão. —Eu que caiam, ou que fiquem—disse Julião—que venham estes, ou que venham aqueles... Obrigado, Conselheiro—e recebeu o seu prato de vitela—...é-me inteiramente indiferente. É tudo a mesma podridão! O paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma choldra: e esperava breve que, pela logica das coisas, uma revolução varresse a porcaria... —Uma revolução!—fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo.
O Conselheiro sentara-se, e disse, então: —Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir as famílias mais unidas, mas só lhe lembrarei, Sr.. Zuzarte, uma coisa, os excessos da Comuna... Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquila: —Mas onde está o mal, Sr.. Conselheiro, se fuzilarmos alguns banqueiros, alguns padres, alguns proprietários obesos, e alguns marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...—E fazia o gesto de afiar a faca. O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquela sahida sanguinária. O Savedra porém interpoz-se, com autoridade: —Eu no fundo sou republicano... —E eu—disse Jorge. —E eu—fez o Alves Coutinho, já inquieto.—Contem-me a mim também! —Mas—continuou o Savedra—sou-o em principio. Porque o principio é belo, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?—E voltava para todos os lados a sua face balofa. —Sim, na pratica!—exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo. —A pratica é impossível!—declarou o Savedra.
E encheu a boca de vitela. O Conselheiro então resumiu: —A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á família real... Não acha, meu bom Sebastião?—Dirigia-se a ele, como proprietário e possuidor de inscripções. Sebastião, interpelado, corou, declarou que não entendia nada de politica; havia todavia factos que o afligiam; parecia-lhe que os operários eram mal pagos; a miséria crescia; os cigarreiros, por exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com família, era triste... —É uma infâmia—disse Julião, encolhendo os hombros. —E ha poucas escólas...—observou timidamente Sebastião. —É uma torpeza!—insistiu Julião. O Savedra calava-se, ocupado com o alimento; tinha desabotoado a fivela do colete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma cor de enfartação, e sorria vagamente, inchado. —E os idiotas de S. Bento?...—exclamou Julião. Mas o Conselheiro interrompeu-o: —Meus bons amigos, falemos de outra coisa. É mais digno de portuguezes e de súbditos fieis.
E voltando-se logo para Jorge, quis saber como ficara a interessante D. Luísa? Estava um pouco adoentada havia dias—disse Jorge.—Mas não era nada, mudança de estação, um bocadito de anemia... O Savedra pousando o copo, e comprimentando: —Tive o prazer de a vêr passar este verão quase todas as manhãs por minha casa—disse.—Ia para os lados de Arroios. Ás vezes de trem, ás vezes a pé... Jorge pareceu um pouco surpreendido; mas o Conselheiro ia dizendo quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar de aquele modesto repasto; como celibatário porém... não tendo uma esposa para fazer as honras... —E é o que eu admiro, Conselheiro—observou Julião—é que tendo uma casa tão confortável, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego de uma senhora... Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado. —São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades de um chefe de família—considerou ele. Mas emfim—disseram—é o estado mais natural.
E depois, que diabo, ás vezes havia de se sentir só! E em uma doença! Sem contar a alegria que dão os filhos!... O Conselheiro objetou: «os anos, as neves da fronte...» Também ninguém lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze anos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que tivesse atrativos, cuidados de interior... Era mesmo moral. —Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a natureza!—disse Julião com malicia. —Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões. Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era impossível que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse indiferente a uns belos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!... O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio pudico—que nenhuma idade se eximia á influencia de Venus. Toda a questão é nos gostos—disse:—aos quinze anos gosta-se de uma matrona cheia, aos cincoenta de um fructosinho tenro... Pois não é verdade, amigo Alves?
O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a língua. E o Savedra continuou: —Eu, a minha primeira paixão foi uma vizinha, mulher de um capitão de navios, mãe de seis filhos, e que não cabia por aquela porta. Pois senhores, fiz-lhe versos, e a excelente creatura ensinou-me um par de coisas agradaveis... Deve-se começar cedo, não é verdade?—E voltou-se para Sebastião. Quiseram então saber as opiniões de Sebastião—que se fez escarlate. Por fim, muito solicitado, disse com timidez: —Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a vida... Aquelas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, reclinando-se, classificou uma tal opinião de «burgueza»; o casamento era um fardo; não havia nada como a variedade...
E Julião expôz dogmaticamente: —O casamento é uma formula administrativa, que há de um dia acabar...—De resto, segundo ele, a fêmea era um ente subalterno; o homem deveria aproximar-se de ela em certas épocas do ano (como fazem os animais, que comprehendem estas coisas melhor que nós), fecundal-a, e afastar-se com tédio. Aquela opinião escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a achou «de um materialismo repugnante». —Essas fêmeas para quem é tão severo, Sr.. Zuzarte—exclamava ele—essas fêmeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa do Chefe do Estado, as damas ilustres da nobreza... —São o melhor bocadinho de este Vale de lagrimas—interrompeu com fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher espanhola!
O Alves votava pelas francesas: citava algumas do Café Concerto, creaturas de fazer perder a cabeça!...—E injectavam-se-lhe os olhos. O Savedra disse com um trejeito hostil: —Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can não ha como as francesas... Mas muito chupistas! O Conselheiro afirmou ageitando as lunetas: —Viajantes instruidos têm-me afiançado que as inglezas são notáveis mães de família... —Mas frias como esta madeira—disse o Savedra, batendo no mesa.—Mulheres de gêlo!—E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria salero! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida acendia-lhe o sentimento! —Uma bela gaditana, hein, amigo Alves? Mas em presença dos dôces que a Sr.. a Philomena dispôz sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. Domingos!
Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os olhos: —Porque—dizia—o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por dentro a alma. Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com solicitude, entre as confeitarias e os lupanares. Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redator do Século gabava a profissão de jornalista—quando a gente, já sabe, tem alguma coisa de seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois as entradas nos teatros, a influencia nas cantoras. Sempre se é um bocado temido... E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivência, dizia a Jorge: —Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, todos de reconhecida ilustração, discutir as questões mais importantes, e vêr travada uma conversação erudita?... Parecem excelentes os ovos. A Sr.. a Philomena, então, com solemnidade, veio colocar-lhe ao pé uma garrafa de champagne.
O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito chic. E apenas a rolha saltou, e, no silencio que criou a cerimônia, se encheram os copos, o Savedra, que ficara de pé, disse: —Conselheiro! Acácio curvou-se, pálido. —Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, á saúde de um homem, que—e arremessando o braço, deu um puxão ao punho da camisa com eloquência—pela sua respeitabilidade, a sua posição, os seus vastos conhecimentos, é um dos vultos de este paiz. Á sua saúde, Conselheiro! —Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro! Beberam com ruido. Acácio, depois de limpar os beiços, passou a mão tremula pela calva, levantou-se comovido, e começou: —Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circumstancia. Se o soubesse de antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vão embargar a voz...
Falou então de si, com modéstia: reconhecia, quando via na capital tão ilustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consumados estilistas, reconhecia que era um Zero!—E com a mão erguida formava no ar, pela junção do polegar e do indicador, um 0: um zero! Proclamou o seu amor á pátria: que amanhã as instituições ou a família real precisassem de ele—e o seu corpo, a sua pena, o seu modesto pecúlio, tudo oferecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu sangue pelo trono!—E, prolixo, citou o Eurico, as instituições da Belgica, Bocage e passagens dos seus prólogos. Honrou-se de pretencer á Sociedade Primeiro de Dezembro...—em esse dia memorável—exclamou—eu mesmo ilumino as minhas janelas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera!
E terminou dizendo:—Não esqueçamos, meus amigos, como portuguezes, de fazer votos pelo ilustrado monarcha, que deu ás neves da minha fronte, antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com o honroso habito de S. Tiago! Meus amigos, á família real!—e ergueu o copo—á família modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...—Procurou o fecho; havia um silencio ancioso—dirige...—Através das lunetas negras, os seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na travessa de aletria—dirige...—Coçou a calva, afflicto; mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrara a frase; e estendendo o braço:—...dirige a barca da governação publica com inveja das nações vizinhas! Á família real! —Á família real!—disseram com respeito. O café foi servido na sala.
As velas de estearina punham uma luz triste em aquela habitação fria; o Conselheiro foi dar corda á caixa de musica; e, ao som do coro nupcial da Lucia, ofereceu em redor charutos. —E a Sr.. a Adelaide póde trazer os licôres—disse á Philomena. Viram então aparecer uma bela mulher de trinta anos, muito branca, de olhos negros, e formas ricas, com um vestido de merino azul, trazendo em uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa de cognac e o frasco de curaçáo. —Boa moça!—rosnou com o rosto aceso o Alves Coutinho. Julião quase lhe tapou a boca com a mão. E falando-lhe ao ouvido, olhando o Conselheiro, recitou: Não ouses, temerário, erguer teus olhos Para a mulher de Cesar! E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante pé dirigiu-se ao escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o preocupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,—as obras do Conselheiro, intactas!
Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luísa já deitada lia, esperando-o. Quis saber do jantar do Conselheiro. Excelente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. Tinha havido speechs... E de repente: —É verdade, onde ias tu a Arroios? Luísa passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse bocejando ligeiramente: —A Arroios? —Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé. —Ah!—fez Luísa, depois de tossir—ia vêr a Guedes, uma rapariga que andou comigo no colégio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes! —Silva Guedes!...—disse Jorge reflectindo—Imaginei que estava secretario geral em Cabo-Verde! —Não sei. Estiveram aí um mez no verão. Moravam a Arroios. Ela estava doente, coitada: eu ia lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá. Põe essa luz fora, está-me a fazer impressão. Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita.
Sentia-se fraca, e com uma pontinha de febre... E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente de peso na cabeça, mal estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge não saiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luísa insistiu que «não era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...» Foi também a opinião de Juliana, em cima na cozinha. —Que aquela senhora é fraca; ali ha coisa do peito—disse com importância. Joana que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo: —O que ela é, é uma santa!... Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho: —A Sr.. a Joana diz isso como se as outras fossem uma peste. —Que outras? —Eu, vossemecê, a mais gente... Joana sempre remexendo nas panelas sem se voltar: —Olhe, outra não encontra vossemessê, Sr.. a Juliana! Uma senhora que lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ela mesma o serviço! em outra dia andava a despejar as águas. É uma santa!
Aquele tom hostil de Joana exasperou-a; mas conteve-se; apesar da sua posição na casa, dependia de ela para os caldinhos, os bifes, os petiscos; tinha diante de ela a vaga timidez respeitosa das constituições franzinas pelos corpos possantes; pôs-se a dizer com uma voz tortuosa, ambígua: —Ora!—são gênios! Gosta de arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É gênio. Tenho visto outras assim...—E punha a cabeça de lado, franzindo os beiços. —O que ela é, é uma santa—repetiu a Joana. —É gênio! Está sempre em uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo em um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até em outro dia, lá em baixo a passar a roupa... Eu ia a sair, pois tirei logo o chapéo, e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter filhos... Que ela não lhe falta nada...
Calou-se, remirou o pé, e com satisfação: —Nem a mim—disse reclinando-se na cadeira. A Joana pôs-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente achava «tudo aquilo muito fora dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou metida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emagrecer! Não, ali havia coisa! Mas o seu Pedro que ela consultara, disse-lhe com finura, retorcendo o buço:—Elas lá se entendem! Trata tu de gozar, e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar partido! Mas Joana sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela Sr.. a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um piparote desfazia aquela magricela! e ia tirando partido da casa, também.
O Pedro tinha razão... Juliana com efeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da roupa», assustara-se, porque, emfim, o escândalo podia-lhe fazer perder a posição; durante alguns dias não saiu, foi cuidadosa: mas quando viu Luísa resignar-se, abandonou-se logo, quase com fervor, ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava, costurava fechada no seu quarto, e a Piorrinha que se arranjasse! Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas ele saia! Que desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando—e, mal o sentia fechar a cancela, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá estava a Piorrinha, para acabar! Luísa, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres efêmeras; emagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge. Ela explicava tudo pelo nervoso. —Que será, Sebastião?—era a pergunta incessante de Jorge. E lembrava-se com terror que a mãe de Luísa morrera de uma doença de coração!
Na rua, pela cozinheira, pela tia Joana, sabia-se que a do Engenheiro «ia mal». A tia Joana jurava que era a solitária. Porque emfim, uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, uma boa casa, todos os seus cômodos—e a esmorecer, a esmorecer... Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Vila Nova de Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha». O Paula explicava de outro modo. —Ali anda coisa de cabeça—dizia, franzindo a testa, com o ar profundo.—Sabe o que ela tem, Sr.. a Helena? É muita dóse de novelas em aquela cachimônia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Aí têm o resultado: arrazada! Um dia Luísa de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados.
Jorge foi logo buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o dia seguinte, e «sentia cólicas». Durante todo o caminho não deixou de falar excitadamente da sua tese, do escândalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem injustos,—arrependido agora de não ter «metido mais cunhas»! Depois de ter examinado Luísa veio dizer, furioso, a Jorge: —Não tem nada! E vais-me buscar pra isto! Tem anemia, o que todos temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito ferro... E água fria, água fria pra cima de aquela espinha! Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge. Luísa tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a vestir-se, aborrecia-lhe ir ao teatro...
Depois, logo que viu Jorge preocupar-se do seu estado, quis affectar força, alegria, bom humor; e aquele esforço abatia-a, extraordinariamente. —Vamos para o campo, queres tu?—dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a esmorecida. Ela, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia bastante forte, dizia: onde estava mais confortável que em casa? Depois as despezas, os incômodos... Uma manhã, que Jorge voltara a casa inesperadamente, encontrou-a em robe-de-chambre, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo, lugubremente. Ficou á porta atônito: —Que andas tu a fazer? andas a varrer? Ela corou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçá-lo. —Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava aborrecida, além de isso faz-me bem, é um exercício. Jorge, á noite, contou a Sebastião aquela «tolice, de se andar a esfalfar...» —Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...—observou reprehensivamente Sebastião. Mas não! dizia ela, achava-se bem melhor!
Até agora andava muito melhor... Todavia, quase não falou em essa noite, curvada sobre o seu crochet, um pouco pálida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga triste, sorrindo silenciosamente, de um modo desconsolado. Pediu a Sebastião que tocasse algum coisa do Requiem de Mozart. Achava tão lindo! Gostava que lho cantassem na igreja quando ela morresse... Jorge zangou-se. Que mania de falar em coisas ridículas! —Mas então, não é possível que eu morra?... —Pois bem, morre e deixa-nos em paz!—exclamou ele furioso. —Que bom marido!—dizia ela sorrindo a Sebastião.—Deixou cahir o crochet no regaço, pediu-lhe então os Dezesseis compassos da Africana.
Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aqueles sons entravam-lhe na alma com a doçura de vozes misticas que a chamavam; parecia-lhe que ia levada por elas, se desprendia de tudo o que era terrestre e agitado, se achava em uma praia deserta, junto ao mar triste, sob um frio luar—e ali, puro espirito, livre das misérias carnais, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, passava sobre as urzes nos sopros salgados... A melancólica atitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge: —Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o canto-chão! E cantou, com um tom fúnebre: