Capítulo X O Primo Basílio · Capítulo 10 de 16
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Capítulo X

em esse dia pela uma hora Jorge e Luísa acabavam de almoçar, como na véspera da partida de ele. Mas agora não pesava a faiscante inclemência da calma, as janelas estavam abertas ao sol amável de outubro; já passavam no ar certas frescuras outonais; havia uma palidez meiga na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarelados começavam a envelhecer as verduras. —Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!—disse Jorge, estirando-se na voltaire. Estivera contando a Luísa a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos de um belo relatório; creára amigos em aquela boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos de hospedaria; e ali estava emfim na sua casinha. E como na véspera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,—porque tinha cortado a barba! Fora a grande admiração de Luísa, quando o viu.

Ele explicara, com humilhação e melancolia, que tivera um furúnculo no queixo, com o calor... —Mas que bem te fica!—tinha ela dito—que bem que te fica! Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito antigos, com mandarins bojudos, de túnicas esmaltadas, suspensos magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em casa de umas velhas miguelistas, em Mertola. Luísa dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés, com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do cabelo pesado, um pouco desmanchado sobre as costas—parecia a Jorge mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira tanto os braços. —A última vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te? —Lembro—disse Luísa sem se voltar, colocando muito delicadamente um prato. —E é verdade—perguntou Jorge de repente—teu primo? Vistel-o? Veio vêr-te?

O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. —Sim, veio—disse Luísa, depois de um silencio—esteve aí umas poucas de vezes. Demorou-se pouco... Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo as mãos: —Pronto! E foi sentar-se nos joelhos de Jorge. —Como te fica bem!—dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, de um modo ardente. Quando se atirara aos seus braços em aquela madrugada, sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com humildade; era uma sensação múltipla, de uma doçura infinita, que a traspassara até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço pelo pescoço, murmurava com um movimento de uma adulação quase lasciva: —Estás contente? Sentes-te bom? Dize!

Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois de aquela separação dava-lhe as admirações, os enlevos de uma paixão nova. —É o Sr.. Sebastião—veio dizer Juliana toda risonha para Jorge. Jorge deu um pulo, afastou Luísa bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando: —Aos meus braços! aos meus braços, celerado! de aí a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministério, Juliana entrou no quarto de Luísa, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amável: —Eu desejava falar á senhora em uma coisa. E começou a dizer,—que o seu quarto em cima no sótão era peor que uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os persevejos, a falta de ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, desejava mudar pra baixo, pra o quarto dos baús.

O quarto dos baús tinha uma janela nas trazeiras; era alto e espaçoso; guardavam-se ali os oleados de Jorge, as suas malas, os paletots velhos, e veneraveis baús do tempo da avó, de couro vermelho com pregos amarelos. —Ficava ali como no céo, minha senhora! E... aonde se haviam de pôr os baús? —No meu quarto, em cima.—E com um risinho:—Os baús não são gente, não sofrem... Luísa disse um pouco embaraçada: —Bem, eu verei, eu falarei ao Sr.. Jorge. —Conto com a senhora. Mas apenas em essa tarde Luísa explicou a Jorge «a ambição da pobre de Cristo», ele deu um salto: —O quê? Mudar os baús? Está douda! Luísa então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera para a casa! Enterneceu-o. Não, ele não imaginava, ninguém imaginava o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fora lá ha dias, e ia tombando para o lado... —Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias de Almeida!

Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos baús no sótão. Quando Juliana soube o favor: —Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lho pague! Que eu não tinha saúde para viver em um cacifro de aqueles. Ultimamente queixava-se mais: andava amarela, trazia os beiços um pouco arroxeados; tinha dias de uma tristeza negra, ou de uma irritabilidade mórbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!... Foi por isso que de aí a dois dias veio pedir a Luísa, «se fazia o favor de ir ao quarto dos baús». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso: —Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a senhora, mas... —Bem, bem, eu arranjarei—disse Luísa com uma voz paciente. E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar atônito a Luísa o que era aquilo, «rolos de esteira no corredor»?

Ela pôs-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros: —Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lha descontasse nas soldadas. Ora por uma ridicularia...—E com um gesto compassivo:—Também são creaturas de Deus, não são escravas, filho! —Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança foi essa, tu que a não podias vêr? —Coitada!—fez Luísa—reconheci que era boa mulher. E como estive tão só, dei-me mais com ela. Não tinha com quem falar, fez-me muita companhia. Até quando estive doente... —Estiveste doente?—exclamou Jorge espantado. —Oh! três dias, só—acudiu ela—uma constipação. Pois olha que dia e noite não se tirou de ao pé de mim. Luísa ficou logo com receio que Jorge falasse na doença, e Juliana desprevenida negasse; por isso, em essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao quarto: —Eu disse ao Sr..

Jorge que você me tinha feito muito boa companhia em uma doença...—E o seu rosto abrazava-se de vergonha. Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade: —Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada! Com efeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para Juliana, e com bondade: —Parece que você fez boa companhia á Sr.. a D. Luísa. —Fiz o meu dever—exclamou, curvando-se com a mão no peito. —Bem, bem—fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sair da sala meteu-lhe na mão meia libra. —Palerma!—rosnou ela. Foi em essa semana que começou a queixar-se a Luísa, «que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar tudo! Se ela tivesse dinheiro, não vinha com aqueles pedidos á senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava uma comoda.

Luísa sentiu uma raiva acender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos do bordado: —Uma meia comoda? —Se a senhora quer fazer o favor, então uma comoda inteira... —Mas você tem pouca roupa—disse Luísa. Começava a instalar-se na humilhação e já regateava as condescendências. —Tenho, sim, minha senhora—replicou Juliana—mas vou agora completar-me! A comoda foi comprada em segredo, e introduzida ocultamente. Que dia de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira nova! Passava a mão, com a tremura de uma caricia, sobre o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de seda, e começou a completar-se! Foram semanas de amargura para Luísa. Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira, começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa: —Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me pudesse ajudar... Luísa ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente a pôr á parte as peças mais usadas.

Adorava a sua roupa branca: tinha tudo ás duzias, com lindas marcas, sachets para perfumar; e aquelas dadivas dilaceravam-em a como mutilações! Juliana por fim já pedia com secura, com direito: —Que bonita que é esta camisinha!—dizia simplesmente.—A senhora não a quer; não? —Leve, leve!—dizia Luísa sorrindo, por orgulho, para não se mostrar violentada. E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, inchada de alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, desfazendo as duas letras de Luísa, marcando regaladamente as suas, a linha vermelha, enormes— J. C. T., —Juliana Couceiro Tavira! Mas emfim cessou, porque, como ela dizia, «de roupa branca estava como um ovo». —Agora, se a senhora me quiser ajudar com alguma coisa para sair... E Luísa começou a vestil-a. Deu-lhe um vestido roxo de seda, um casaco de casimira preta, com bordados a soutache.

E receando que Jorge estranhasse as generosidades, transformava-as para ele as não reconhecer: mandou tingir de castanho o vestido, ela mesmo por sua mão pôs uma guarnição de veludo no casaco. Trabalhava para ela, agora!—Como acabaria tudo aquilo, Santo Deus? Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo: —Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos. D. Felicidade, á noite, também notou: —Que chic! Nem uma criada do paço! —Coitada! coisas que ela aproveita... Prosperava, com efeito! Não punha na cama senão lenções de linho. Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os sachets que perfumavam a roupa de Luísa iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a comoda dois vasos da Vista Alegre dourados! Emfim um dia santo, em lugar da cuia de retroz, apareceu com um chignon de cabelo! Joana pasmava de aquelas tafularias.

Atribuía-as á bondade da senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana estreara uma sombrinha, disse diante de Luísa, com uma voz de despeito: —Para umas tudo, para outras nada!... Luísa riu, acudiu: —Tolices! Eu sou a mesma pra todas. Mas refletiu: Joana podia ter desconfianças também, ter ouvido alguma coisa a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar contente e amiga, deu-lhe dois lenços de seda, depois dois mil reis para um vestido; e de aí por diante nunca lhe recusou licença para sair á noitinha a casa de uma tia... A Joana ia por toda a parte falando da «senhora, que era um anjo». Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do «quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com indignação, «que ali positivamente havia marosca». Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas. —Ora! dizem que tenho isto e aquilo. Não é tanto! Tenho as minhas comodidades.

Mas também a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que arruinei a minha saúde! Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a família agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta! E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da vizinhança a vaga seducção de um paraíso: dizia-se que as soldadas eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as semanas, ceava-se todas as noites caldo do galinha! Cada um invejava aquela «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro» alargou-se. Criou-se uma legenda. Jorge, atônito, recebia todos os dias cartas de pessoas oferecendo-se para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha...

Citavam as casas titulares de que tinham saído; pediam audiência; suspeitando certas coisas uma bonita criada de quarto juntou a sua fotografia; um cozinheiro trouxe uma carta de empenho do diretor geral do ministério. —Estranho caso!—dizia Jorge, pasmado—disputam-se a honra de me servir! Imaginarão que me saiu a sorte grande? Mas não dava muita atenção àquela singularidade. Vivia então muito ocupado: andava escrevendo o seu relatório; e todos os dias saia ao meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mapas, brochuras, fatigado, berrando pelo jantar, radiante. Contou o caso, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro observou logo: —Com o bom gênio da D. Luísa, com o seu, Jorge, em este bairro saudável, em uma casa sem escândalos, sem questões de família, toda virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma posição tão agradável. —Somos os amos ideais!—disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de Luísa. A casa, com efeito, tornava-se «agradável».

Juliana exigira que o jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joana. —Esta Joana é uma revelação—dizia Jorge—vê-se-lhe crescer o talento!... Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pele, colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçara-se em aquelas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Vitória, fazia o seu serviço com um zelo minucioso e hábil. Os vestidos de Luísa andavam cuidados como relíquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham resplandecido tanto! O sol de outubro alegrava a casa, muito aceada, de uma pacatez de abbadia. Até o gato engordava. E no meio de aquela prosperidade—Luísa definhava-se. Até onde iria a tirania de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ela se voltasse subitamente, como ferida pelas costas.

E via-a satisfeita, cantarolando a Carta adorada, dormindo em colxões tão bons como os seus, pavoneando-se na sua roupa, reinando na sua casa! Era justo, justos céus? Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasfemava, debatia-se na sua desgraça, como nas malhas de uma rêde; mas, não encontrando nenhuma solução, recahia em uma melancolia áspera—em que o seu gênio se pervertia. Seguia com satisfação a amarelidão crescente das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria um dia, o demônio? E diante de Jorge tinha de a elogiar! A vida pesava-lhe. Apenas ele pela manhã saia e fechava a cancela, logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em chinelas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir meter-se em um convento!

A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de certo a alguma resolução melodramática,—se a não retivesse, com a força de uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava agora, imensamente! Amava-o com cuidados de mãe, com ímpetos de concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministério, até do relatório! Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a pena da mão, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos de ele no corredor davam-lhe o alvoroço dos amores ilegítimos... De resto ela mesma se esforçava por desenvolver aquela paixão, achando em ela a compensação inefável das suas humilhações. Como lhe viera aquilo? Porque sempre o amara, de certo, reconhecia-o agora,—mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ela sabia. Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente em aquela violência amorosa pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um capricho. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente casto... Que lhe importava, de resto?

Aquilo fazia-a feliz, prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso! Ao principio a idéa do outro pairava constantemente sobre este amor, pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas pouco a pouco esquecêra-o tanto, o outro —que a sua recordação, quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um torrão de sal póde dar ás águas de uma torrente. Que feliz que seria—se não fosse a infame! Era a infame que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se a olhar em redor com um riso de avaro: desdobrava, batia os vestidos de seda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extática; e debruçada sobre as gavetas abertas da comoda contava, recontava a roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da Piorrinha!—murmurava, afogada em jubilo. —Ai! estou muito bem!—dizia ela á tia Vitória. —Que dúvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas olha que te trouxe um par de regalos.

E é que há de ser uma pingadeira: há de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a! Mas já havia pouco que cardar. E lentamente Juliana começou a pensar, que agora o que devia era gozar. Se tinha bons colxões—para que se havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos—porque não havia de ir espairecer para a rua? Toca a tirar partido! Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove horas, com as janelas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou secamente, que tinha estado com a dor. de aí a dois dias Joana, ás dez horas, veio dizer baixo a Luísa: —A Sr.. a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar. Luísa ficou aterrada. O quê? Teria de sofrer os seus desmazelos, como sofrera as suas exigências? Foi ao quarto de ela: —Então você levanta-se a estas horas? —Foi o que me recomendou o medico—replicou muito insolente.

E de aí por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de servir ao almoço. Luísa pediu logo a Joana que fizesse «o serviço por ela»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! E para acomodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda de um vestido. Juliana depois, sem pedir licença, começou a sair. Quando voltava tarde, para o jantar, não se desculpava! Um dia Luísa não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a calçar as luvas pretas: —Você vai sair? Ela respondeu, muito atrevidamente: —É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.—E abalou, batendo os tacões. Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da Piorrinha! Joana começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a Sr.. a Juliana, e eu é que aguento...» —Se você estivesse doente, também ninguém lhe ia á mão—acudia Luísa, afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa.

Havia agora um desperdício na casa. Os roes cresciam. Luísa andava sucumbida.—Como acabaria tudo aquilo? Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves. Para sair mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luísa que acabava de encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que levava para o sótão roupa suja que ficava pelos cantos... Um dia Jorge que entrara ás quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luísa apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandara-a ela á modista». de aí a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luísa. —Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra criada para fazer o serviço da casa—disse ele. Àquelas palavras secas Luísa fez-se pálida, duas lagrimas rolaram-lhe pela face. Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luísa não se dominou, rompeu em um choro nervoso, histérico. —Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...

Ela não podia responder, sufocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de toilete, beijou-a muito. Só quando o choro acalmou é que ela pôde dizer, com uma voz soluçada: —Fallaste-me tão secamente, e eu estou tão nervosa... Ele riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas—mas ficou inquieto. Já então lhe notara certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria? Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luísa começou a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito tranquilamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma manhã não vasou as águas sujas. Luísa foi espreitar no corredor que Joana não descesse, não a visse, e fez ela mesma os despejos! Quando veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!... D.

Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a varrer a sala. —Que eu o faça—exclamou—que tenho só uma criada, mas tu!... A Juliana tinha tanto que engomar... —Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não to agradece. E ainda se ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente! Luísa sorriu, disse: —Ora, por uma vez na vida! A sua tristeza augmentava cada dia. Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua única consolação. A noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava por ela! Era ela mesma, era Luísa, como de antes! Estava na sua alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, conversar, ter até apetite! E trazia com efeito ás vezes marmelada e pão para o quarto—para fazer uma cêasinha! Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe ave nocturna.

Ela ria em saia branca pelo quarto, com os braços nús, o colo nú, o cabelo em um rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava—até que Jorge lhe dizia: —Passa da uma hora, filha! Despia-se então rapidamente, caía-lhe nos braços. Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com repugnância—entrando no seu dia como em uma prisão. Perdera agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe vinha, como um relâmpago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e ele tão cheio sempre de admiração por ela, parecia-lhe mais fácil sair pra a rua, pedir dinheiro ao primeiro homem que encontrasse—que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a criada roubou-m'a!

Não, antes morrer em aquela agonia de todos os dias, e ter ela mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, pensava:—Mas com que conto eu?—Não sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma coisa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria! Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam mal engomadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada: —Isto não se póde vestir, está indecente! Juliana fez-se amarela, cravou em Luísa um olhar chamejante; mas, com os beiços trêmulos, desculpou-se: «a goma era má, fora já trocal-a», etc. Apenas, porém, Jorge saiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a porta e pôs-se a gritar—que a senhora sujava um rôr de roupa, o senhor um rôr de camisas, que se não tivesse alguém que a ajudasse não podia dar aviamento!...

Quem queria negras trazia-as do Brasil! —E não estou para aturar o gênio de seu marido, percebe a senhora? Se quer é arranjar quem me ajude. Luísa disse simplesmente: —Eu a ajudarei. Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo! Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio dizer—que se a senhora passasse, ela engomava. Senão, não! Estava um dia adorável, Luísa tencionava sair... Pôs um roupão, e, sem uma palavra, foi buscar o ferro. Joana ficou atônita. —Então a senhora vai engomar? —Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada! Installou-se no quarto dos engomados,—e estava laboriosamente passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana apareceu, de chapéo. —Você vai sair?—exclamou Luísa. —É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sair.—E abotoava as luvas pretas. —Mas as camisas, quem as engoma? —Eu vou sair—disse a outra secamente. —Mas, com os diabos, quem engoma as camisas? —Engomme-as a senhora!

Olha a sarna! —Infame!—gritou Luísa. Atirou o ferro para o chão, saiu impetuosamente. Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôs-se logo a tirar o chapéo e as luvas, assustada. de aí a um momento ouviu a cancela da rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luísa arremessado, a chapeleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar o marido? C'os diabos! Fora estupida, com o gênio! Arrumou depressa o quarto, foi-se pôr a engomar, com o ouvido á escuta, muito arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impelisse a fazer algum desproposito, quem perdia? Ela, que teria de sair da casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa! Luísa sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vê-la, precisava de ela, sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se vingar!

Porque a vontade de se libertar de aquela tirania—era agora menor que o desejo de se vingar de aquelas humilhações. Vinham-lhe idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um prazer delicioso em a vêr torcer-se com vômitos dilacerantes, uivando de agonia, largando a alma! Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril. A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor: —É a Sr.. a D. Luísa, minha senhora, é a Sr.. a D. Luísa! E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, correu estendendo os braços: —És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá pra o quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é isto? Abriu as janelas que estavam ainda cerradas.

Havia um forte cheiro de vinagre de toilette; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, com água ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da véspera os rolos de cabelo, o colete, uma chávena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo: —Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!... Mas vendo o rosto perturbado de Luísa, os seus olhos vermelhos de lagrimas: —Que é? Que tens tu? Que sucedeu? —Um horror, Leopoldina!—exclamou, apertando as mãos. A outra foi fechar a porta, rapidamente. —Então? Mas Luísa chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada. —A Juliana apanhou-me umas cartas!—disse emfim por entre soluços.—Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!—E as lagrimas redobravam. —E as tuas joias? —Valem duzentos mil reis.

E Jorge, que lhe havia eu de dizer? Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braços: —Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!... Luísa murmurava, limpando os olhos: —Que expiação esta, Santo Deus, que expiação! —Que diz a carta? —Horrores! Estava douda... É uma minha, duas de ele. —De teu primo? Luísa disse «sim», com a cabeça, lentamente. —E ele? —Não sei! Está em França, nunca me respondeu. —Pulha! Como t'as apanhou, a mulher? Luísa contou rapidamente a historia do sarcófago, e do cofre. —Mas tu também, Luísa, atirar uma carta de essas! Oh mulher, isso é medonho! E Leopoldina pôs-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava: —A questão é de dinheiro... Luísa, prostrada no sofá, repetia: —A questão é de dinheiro!

Então Leopoldina, parando bruscamente diante de ela: —Eu sei quem te dava o dinheiro!... —Quem? —Um homem. Luísa ergueu-se, espantada: —Quem? —O Castro. —O de óculos? —O de óculos. Luísa fez-se muito córada: —Oh Leopoldina!—murmurou. E depois de um silencio, rapidamente: —Quem to disse? —Sei-o eu. Disse-o ele ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais de uma vez. —Que horror!—exclamou Luísa subitamente indignada.—E tu propões-me semelhante coisa?—O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de cólera. Ir com um homem por dinheiro!—Tirou o chapéo, violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e com passos rápidos pelo quarto:—Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas! —Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse o dinheiro, desinteressadamente... —Acreditas tu?

Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anéis nos dedos. —E quando fosse outra coisa?—exclamou de repente—Era um conto de reis, eram dois, estavas salva, estavas feliz! Luísa sacudia os hombros, indignada de aquelas fazia girar os anéis nos dedos. —E quando fosse outra coisa?—exclamou de repente—Era um conto de reis, eram dois, estavas salva, estavas feliz! Luísa sacudia os hombros, indignada de aquelas palavras—dos seus próprios pensamentos, talvez! —É indecente! É horrível!—dizia. Ficaram caladas. —Ah! fosse eu!...—disse Leopoldina. —Que fazias? —Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro! —Isso és tu!—exclamou Luísa, arrebatadamente. Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó de arroz. Mas Luísa atirou-lhe os braços ao pescoço: —Perdoa-me, perdoa-me! estou douda, não sei o que digo!... Começaram ambas a chorar, muito nervosas. —Tu zangaste-te!—dizia Leopoldina cortada de soluços.—Mas é pra teu bem. É o que me parece melhor.

Se eu pudesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita! E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime: —Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o amanhã! Nós de dedos bateram á porta. —Quem é? —Eu—disse uma voz rouca. —É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso abrir. Logo. Luísa limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo. —Quando voltas?—perguntou Leopoldina. —Quando puder, senão escrevo-te. —Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar... Luísa agarrou-lhe o braço: —E de isto, nem palavra. —Douda! Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja da Misericórdia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho de armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo de entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação apaixonada em que vibrara, o fresco silencio da igreja a calmaria.

E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava alguma coisa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar ao pé de um altar, persignou-se, rezou o Padre-Nosso, depois a Salve Rainha. Mas aquelas orações, que ela recitava em pequena, não a consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, nem se aplicavam ao seu caso: Deus por elas, nunca poderia saber o que ela pedia, ali, prostrada na afflicção. Quereria falar a Deus, abrir-se toda a ele: mas com que linguagem? Com as palavras triviais, como se falasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, que o alcançassem? Estaria ele tão perto, que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os braços moles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda de um menino Jesus!

Lentamente perdeu-se em um scismar que ela não dirigia, que se formava e se movia no seu cérebro, como a fluctuação de um fumo que se eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia então; e ela, com o coração quebrado—quando o outro, Bazilio, lhe escrevera, rompendo—procurava dissipar a sua tristeza nas consolações da devoção. Uma amiga sua, a Joana Silveira, fora por esse tempo professar a França: e ela ás vezes lembrava-se de partir também, ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou viver na paz de uma cela mistica! Que diferente a sua vida teria sido—de esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de pecado!... Onde estaria? Longe, em algum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, em um Vale solitário e contemplativo: na Escocia, talvez, paiz que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott.

Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, em alguma velha abbadia saxônia. Em redor os montes cobertos de abetos, esbatidos nas nevoas, isolam aqueles retiros em uma paz funerária: em um céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som festivo quebra a meiga taciturnidade das coisas: revoadas de corvos cortam á tarde o ar em um vôo triangular. Ali viveria entre as monjas de alta estatura e olhar céltico, filhas de duques normandos, ou de lords de clans convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das coisas do céo: sentada na estreita janela da sua cela, veria passar nas matas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas escutaria o som distante da bagpipe, que vai tristemente tocando o pastor que vem dos vales de Callendar: e todo o ar estaria cheio do murmurio choroso e gotejante dos fios de água, que por entre as relvas escuras cahem de rocha em rocha!

Ou então seria outra existência mais regalada, no convento pacato de uma boa província portuguesa. Ali os tectos são baixos; as paredes caiadas faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no vivo ar azul; em roda, nos campos de oliveiras que dão azeite para o convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pátio lageado de uma pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada empoeirada e branca; galos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras gordinhas, de olho negro, chalram nos frescos corredores.

Ali viveria, engordando, com uma quebrasinha de sono á hora do coro, bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da boca da madre abbadessa a historia edificante da sua santa morte... Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de pássaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz suplicante e baixa: —A senhora por quem é perdoe, que depois estava douda! Estava com a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais afflicta... Luísa não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava a serenata de D.

Juan—e apenas ela apareceu: —de onde vem, tão pálida? —Debilidade, Sebastião, venho da igreja... Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão: —Da igreja!—exclamou—Que horror!

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