Capítulo XVI
Luísa passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da frequência do seu pulso e do calor seco da pele. Ele mesmo, muito nervoso, não pudera dormir. O quarto, onde se não acendera luz havia muito, tinha uma frialdade desabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do século passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de convivências extinctas. O achar-se ali com sua mulher, em uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma alteração brusca—e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a sua existência, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos diferentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua. Pela manhã, Luísa não se pôde levantar. Julião, chamado á pressa, tranquilizou-os: —É uma febresita nervosa.
Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho de ontem, hein? —Sonhei toda a noite com ela—disse Luísa.—Que tinha resuscitado... Que horror! —Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher? —O Sebastião lá anda com a massada—disse Jorge.—E eu vou dar uma vista de olhos. Na rua já se sabia a morte da tripa-velha. A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida da Sr.. a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do estanque: —Muito que fazer agora, Sr.. a Margarida, hein? —Bastante, bastante, Sr.. a Helena—disse a amortalhadeira com a voz um pouco rouca.—No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem um corpinho bonito pra vestir... A Sr.. a Margarida tinha predilecções artísticas. Gostava de um bonito corpo de dezoito anos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha.
Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o chic de uma flôr, de um laço; trabalhava com os requintes ajanotados de uma modista do sepulchro. A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias de ela, os luxos do quarto tapetado... A Sr.. a Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria agora tudo aquilo?—perguntavam.—A tripa-velha não tinha parentes... —Era uma riqueza pra a minha Antoninha!—disse a amortalhadeira, traçando o chale com tristeza. —Como vai ela, a pequena?... —Aquilo vai mal, Sr.. a Helena. Aquela cabeça douda!—E exhalando a sua dor com loquacidade:—Deixar o brasileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por aquele desalmado, que lhe come tudo, que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que ele é bonito rapaz! Mas um bêbedo!... Coitada!...
Pois vou vestir a boneca, Sr.. a Helena.—E entrou na casa compungidamente. O padre já chegara também. Estava na sala com Sebastião, que conhecia de Almada, e falava de lavoura, de enxertos, das regas, em uma voz grossa—passando, com um gesto lento da sua mão cabeluda, o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janelas em toda a casa estavam abertas ao sol muito dôce. Os canários chilreavam. —E estava ha muito tempo na casa, a defunta?—perguntou o padre, a Jorge que passeava pela sala, fumando. —Ha quase um ano. O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar: —A sua senhora há de sentir muito... É um tributo universal!... E assoou-se, com estrondo. A Joana, então, de chale e lenço, apareceu, em bicos de pés. Soubera pelos visinhos que a Juliana «arrebentara», que os senhores estavam em casa do Sr.. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandara-a entrar no quarto. Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito.
Luísa disse-lhe—«que agora estava tudo como de antes, podia voltar...» —E ouça, Joana, se o Sr.. Jorge lhe perguntar... que esteve em Belas, com a tia... A rapariga fora logo buscar a trouxa e vinha instalar-se—um pouco assustada da morte em casa. de aí a pouco o Paula bateu discretamente á porta. Ali vinha oferecer-se para o que fosse necessário em aquele transe! E tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz catarrosa: —Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortais... —Bem, bem, Sr.. Paula, não é necessário nada—disse Jorge.—Obrigado! E fechou bruscamente a cancela. Estava impaciente por se desembaraçar «de aquela estopada»: e mesmo como o enfastiavam as marteladas espaçadas dos homens pregando o caixão, em cima, chamou a Joana: —Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida! A Joana foi logo dizer que o senhor estava em um frenesi! Tinha-se feito já intima da Sr.. a Margarida.
A amortalhadeira fora mesmo com ela á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho. —Sopinha de burro—dizia, fazendo estalar a língua. Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo de sardinha seca! E pondo um olhar complacente nas belas formas de Joana:—A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom corpo...—E parecia calcular como talharia a mortalha para aquelas linhas robustas. Joana disse escandalisada: —Longe vá o agouro, cruzes! A outra sorriu; faltavam-lhe dois dentes: e aflautando a voz: —Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito aveludado! rica gota! Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens desceram o caixão. A vizinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por fanfarronada, disse com dois dedos adeus ao esquife, murmurando: —Boa viagem!
Jorge em cima, ao sair, perguntou a Joana: —E você não tem medo de ficar aqui só? —Eu não, meu senhor. Quem vai não volta! Tinha medo, com efeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do divan da sala. Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde Luísa estava deitada: —Tudo pronto—disse, esfregando as mãos.—Lá vai para o Alto de S. João, devidamente acondicionada. Per omnia sæcula sæculorum! A tia Joana, que estava á cabeceira de Luísa, acudiu: —Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ela! —Era um bom estafermo—disse Jorge.—Esperemos que a esta hora esteja a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joana? —Jorge!—fez Luísa reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo dois padre-nossos por alma.
Foi tudo o que a terra deu na sua morte àquela que ia rolando a essa hora, ao trote de duas velhas éguas, para a vala dos pobres, e que fora na vida Juliana Couceiro Tavira! No dia seguinte Luísa estava melhor: falaram mesmo, com grande desconsolação da tia Joana, em voltar para casa. Sebastião não dizia nada, mas quase desejava secretamente que uma convalescença a retivesse ali semanas indefinidas. Ela parecia tão agradecida! Tinha olhares tão reconhecidos, que só ele comprehendia! E era tão feliz tendo-a ali e a Jorge na sua casa!
Conferenciava com a tia Vicência sobre o jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quase em bicos de pés, como se a presença de ela santificasse a casa; enchia os vasos de camélias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma coisa de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que quando ela partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza de ruína! Mas de aí a dois dias voltaram para casa. Luísa ficou muito agradada com a criada nova. Fora Sebastião que a arranjara. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos bonitos e pasmados, um ar amorável: chamava-se Mariana; e foi logo correndo dizer a Joana «que morria pela senhora! tinha uma carinha de anjo! que linda que era!» Jorge logo em essa manhã mandou os dois baús de Juliana á tia Vitória.
Luísa, quando ele saiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, acendeu uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, dissiparem-se em um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fora Sebastião, aquele querido Sebastião! Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua vida cheia de doçura: abriu todas as janelas; experimentou o piano; rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da Médjé, que lhe dera Bazilio; conversou muito com a Mariana; e saboreando o seu caldo de galinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade: —Que bem que vou passar agora!—pensava. Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro de ele: —Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a Mariana!
Mas em essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor. —Crescimentos...—disse descontente. Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou toda surprehendida de vêr Luísa doente; e debruçando-se sobre ela, disse-lhe logo ao ouvido: —Tenho que te contar! Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,—com uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto da indignação: Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandara a Tuy, o grande ladrão, tinha escrito á Gertrudes, á criada, que não estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudara de povoação; que ele não queria saber mais de esse negocio e que até o achava exquisito; que oferecia o seu préstimo em Tuy,—tudo isto em uma boa letra de escrevente publico, em um portuguez horrível,—e do dinheiro nem palavra! —Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha, ia direita á policia... Ai! os galegos pra mim acabaram!
Por isso o Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a sorte!...—Porque se já não acreditava na honestidade dos galegos, não perdera a fé no poder das bruxas. Que ela não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe onde estaria agora a mulher! Ai, era de endoudecer!... Que te parece, hein? Luísa encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, cerravam-se-lhe os olhos em uma somnolencia pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luísa não lhe podia dar consolações, saiu para ir á Encarnação desabafar com a Silveira. em essa madrugada Luísa peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, tossindo o seu catarro. —Cartas?—perguntou Jorge. —Uma pra a senhora—disse o homem.—Há de ser pra a senhora...
Jorge olhou o envelope: tinha o nome de Luísa, vinha de França. —De quem diabo é isto?—pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e saiu. de aí a meia hora voltava com Julião, em um trem. Luísa dormitava, amodorrada. —É preciso cautela... Vamos a vêr...—murmurou Julião, coçando devagar a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente. Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. A Mariana, abafada em um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando em alma. A que se podia atribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor... —Estas febres veem por tudo—replicou Julião, partindo tranquilamente uma torrada.—Ás vezes por uma corrente de ar ás vezes por um desgosto.
Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que esteve pra falir, e que viveu, coitado, durante dois meses em torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,—a velhaca ás vezes tem de estes caprichos,—arranjou todos os seus negócios, viu-se livre. Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á casca. Faz então a falência geral, a grande, aquela em que o crédor é implacavel, saca á vista, e... per omnia sæcula! Ergueu-se, e acendendo o cigarro: —Em todo o caso um repouso absoluto. É necessário ter-lhe o espirito em algodão em rama. Nada de palestra, nada de frases, e se tiver sede, limonada. Até logo! E saiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia ao Posto Medico. Jorge voltou á alcova: Luísa ainda dormitava.
Mariana sentada ao pé em uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de Luísa os seus grandes olhos vagamente espantados. —Tem estado muito inquieta—murmurou. Jorge apalpou a mão de Luísa que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janela, defronte da alcova.—E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do negociante, recordava aquele estado de abatimento e de fraqueza de Luísa que o preocupara tanto, ultimamente, tão inexplicável! Ora, tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada! Nem a morte da outra lhe fizera abalo!—De resto acreditava pouco nas febres de desgosto! Julião tinha uma medicina literária. Pensou mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha... Ao meter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luísa.
Tornou a examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era de homem, vinha de França... Atravessou-o um desejo rápido de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro. Voltou á alcova. Luísa permanecia na sua modorra: a manga do chambre arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua penugem loura; a face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no adormecimento das pálpebras finas; um anel do cabelo cahira-lhe sobre a testa, e pareceu a Jorge adorável e tocante com aquela cor, a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam achar linda, desejal-a, dizer-lho, se pudessem... Para que lhe escreviam de França, quem? Voltou ao escriptorio, mas aquela carta sobre a mesa irritava-o: quis lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e pôs-se a passear, torcendo muito nervoso o forro das algibeiras.
Agarrou então a carta, quis vêr, através do papel delgado do envelope; os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do sobrescripto. Ah! Não era delicado aquilo!... Mas a curiosidade, que governava o seu cérebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocínios, com uma tentação persuasiva:—Ela estava doente, e podia ter alguma coisa urgente; se fosse uma herança? depois ela não tinha segredos, e então em França! Os seus escrúpulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira por engano. E se a carta contivesse o segredo de aquele desgosto, do desgosto das teorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar melhor! Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. em um relanço avido devorou-a. Mas não compreendeu bem; as letras embrulhavam-se; chegou-se á janela, releu devagar: