Capítulo XVII O Primo Basílio · Capítulo 15 de 16
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Capítulo XVII

Ao outro dia Jorge foi ao ministério, onde não tinha aparecido nos últimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que todo o mundo sabia; nos olhares mais naturais via uma intenção maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma irônica pressão de pezames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do Paraiso. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao entrar ouviu Luísa cantarolando, como outr'ora, a Mandolinata! Estava-se a vestir. —Como estás tu?—perguntou, pondo a um canto a sua bengala. —Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda... Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno. —E tu?—perguntou-lhe ela. —Pra aqui ando—disse tão desconsoladamente que Luísa pousou o pente, e com os cabelos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa: —Que tens tu?

Tu tens alguma coisa. Estranho-te tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réu... Que é? Dize. E os seus olhos procuravam os de ele, que se desviavam perturbados. Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha». —Dize. Que tens? Ele olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta: —Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, podes ouvir... Luísa! vivo em um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade! E estendeu-lhe a carta de Bazilio. —O que é?—fez ela muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão. Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, em um relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento de um modo desvairado, estendeu os braços sem poder falar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se sentisse ferida, e oscilando, com um grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete. Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama.

Ele quis que Joana corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, em quanto Mariana toda tremula desatacava os espartilhos da senhora. Sebastião veio logo. Felizmente havia éter, fizeram-lh'o respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ela: —Luísa, ouve, fala! Não, não tem dúvida. Mas fala. Dize, que tens? Ao ouvir a voz de ele desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião. Luísa parecia adormecida agora, imóvel, branca como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces. Um trem parou. Julião apareceu esbaforido. —Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!—disse Jorge. Fizeram-lhe respirar mais éter; despertou outra vez. Julião falou-lhe, tomando-lhe o pulso. —Não, não, ninguém!—murmurou ela, retirando a mão. Repetiu com impaciência:—Não, vão-se, não quero...—As suas lagrimas redobravam.

E como eles saiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:—Jorge! Ele ajoelhou-se ao pé da cama, e falando-lhe junto do rosto: —Que tens tu? Não se fala mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, não. E como ela ia falar, ele pousou-lhe a mão na boca: —Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não sofras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos amanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma coisa que passou... Ela disse apenas com a voz sumida: —Oh! Jorge! Jorge! —Bem sei... Mas agora vais ser feliz outra vez... Dize, que sentes? —Aqui—disse ela, e levava as mãos á cabeça.—Dóe-me! Ele ergueu-se para chamar Julião, mas ela reteve-o, atraiu-o; e devorando-o com olhos onde a febre se acendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os lábios. Ele deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão. —Oh! minha pobre cabeça!—gritou ela.

As fontes latejavam-lhe, e uma cor ardente, seca, esbrazeava-lhe o rosto. Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recomendou um socego imóvel e sinapismos de mostarda aos pés,—até que ele voltasse. Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes. Eram então quatro horas; caía uma chuva miudinha, enevoada; a alcova tinha uma luz lúgubre. —Não há de ser nada...—dizia Sebastião. Luísa agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela dor crescente, cheia de sede. Mariana acabava de arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada de aquela casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil dos seus passos fazia sofrer Luísa, como se fossem marteladas sobre o craneo. Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto de ela inquietou-o. Acendeu um fosforo, aproximou-lh'o do rosto; e aquela luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a cabeça.

Os olhos dilatados tinham um reluzir metálico. Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma expressão de afflicção serena e muda. Julião fez logo pôr três travesseiros, para lhe conservar a cabeça alta. Fora caía o crepúsculo humido. Andavam em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relógio da parede para afastar o tic-tac monótono. Ela começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou imóvel gemia de um modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas em um longo sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a língua tornara-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. Julião fez logo aplicar na cabeça compressas de água fria. Mas o delírio exacerbava-se.

Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento—onde os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupila se sumia. Socegava mais; dava risadinhas de uma doçura idiota; tinha gestos lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como em um gozo tépido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a cabeça freneticamente, pedia que lha abrissem, que a tinha cheia de pedras, que tivessem piedade de ela!—e fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús ao vapor de água a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre adstringia o ar do quarto.

Jorge falava-lhe com toda a sorte de palavras consoladoras e suplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o conhecesse; mas de repente ela desesperava-se, gritava pela carta, maldizia Juliana—ou então dizia palavras de amor, enumerava somas de dinheiro... Jorge temia que aquele delírio revelasse tudo a Julião, ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabelos—e quando ela, um momento, julgando-se no Paraiso e nas exaltações do adultério, chamou Bazilio, pediu champagne, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da alcova alucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a soluçar, arrepelou-se, blasfemou. —Está em perigo?—perguntou Sebastião. —Está—disse Julião.—Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas malditas febres cerebrais... Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado. E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fora: —Ouve lá, é necessário cortar-lhe o cabelo, e rapar-lhe a cabeça.

Jorge olhou-o com um ar estupido: —O cabelo?—E agarrando-lhe os braços:—Não, Julião, não, hein? Póde-se fazer outra coisa. Tu deves saber. O cabelo não! Não! Isso não, pelo amor de Deus! Ela não está em perigo. Pra quê? Mas aquela massa de cabelo era o diabo, impedia a acção da água! —Amanhã, se for necessário. Amanhã! Espera até amanhã... Obrigado, Julião, obrigado! Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente as compressas da cabeça, e como Mariana tremula, desgeitosa, molhava muito o travesseiro, foi Sebastião que se colocou á cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, de onde a água gotejava lentamente; tinham jarros fora da varanda, na sala, para dar á água uma frialdade gelada. O delírio alta noite acalmara um pouco. Mas o seu olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupilas pareciam apenas um ponto negro.

Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava para ela: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, quando ela tivera a pneumonia: e melhorara! Até ficara mais linda, com tons de palidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo quando ela convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ela gemia, ele erguia os olhos sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia dissipando, desaparecendo em aquele ar de febre que enchia a alcova, no silencio mórbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o, e recahia na sua imobilidade. Joana, em cima, rezava. As velas, com uma chama alta e direita, extinguiam-se. Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não chovia; a calçada secava.

O ar tinha uma vaga cor de aço. Tudo dormia: e uma toalha, esquecida á janela das Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente. Quando entrou na alcova Luísa falava com uma voz extincta: sentia muito vagamente os sinapismos, mas a dor de cabeça não cessava. Começou a agitar-se—e o delírio de aí a pouco voltou. Julião, então, determinou que se lhe rapasse o cabelo. Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla—que veio logo, com um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou a tirar imediatamente de um saco de couro as navalhas, as tesouras, devagar, com as mãos moles da gordura das pomadas. Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços mutilados da sua felicidade cahiam com aquelas lindas tranças, destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos penteados que ela usava, noites em que os seus cabelos se tinham desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz...

Voltou ao quarto, atraído irresistivelmente; sentiu na alcova o ruido seco e metálico das tesouras; sobre a mesa, em uma caixa de sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos de espuma... Chamou Sebastião baixo: —Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que ande depressa! Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens de um tom alvadio. Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a mesma lentidão mole; e tomando o seu chapéo desabado, saiu em bicos de pés, murmurando em um tom funerário: —Estimo as melhoras. Deus há de permitir que não seja nada... O delírio com efeito de aí a uma hora acalmou:—e Luísa cahiu em uma somnolencia prostrada com gemidos fracos, que saiam de seus lábios como a lamentação interior da vida vencida. Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor Caminha.

Era um medico velho que tratara sua mãe, e que curara Luísa da pneumonia, no segundo ano de casada. Jorge conservara uma admiração agradecida por aquela reputação antiquada; e agora a sua esperança voltava-se sofregamente para ele, anciando pela sua presença como pela aparição de um santo. Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, para ir a casa do dr. Caminha. Luísa, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os falar baixo. A sua voz extincta chamou Jorge: —Cortaram-me o cabelo...—murmurou tristemente. —É para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quase tão agonizante como ela.—Cresce logo. Até te vem melhor... Ela não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos dos olhos.

Devia ser a sua última sensação: a prostração comatosa ia-a immobilisando, apenas a sua cabeça rolava em um movimento dôce e vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; a pele empalidecia como um vidro de janela, por traz do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão. Ao meio dia D. Felicidade apareceu. Ficou petrificada quando a viu tão mal: e ela que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás lojas! Tirou logo o chapéo, instalou-se; fez arranjar a alcova, tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama—«porque não havia peor pra um doente que desarranjo no quarto»: e muito corajosamente animava Jorge. Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!...

Entrou atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se muito do frio;—e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que pôs dentro do chapéo metodicamente, adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito coladas ao craneo pela escova. Julião e ele ficaram sós na alcova. No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pálido como cêra, com os olhos vermelhos como carvões. —Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca—veio dizer Julião. Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pusera a calçar tranquilamente as suas luvas de casimira, dizendo: —Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu volto, meu amigo, eu volto. O caustico foi inutil. Não o sentia, imóvel e branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como vibrações fugitivas. —Está perdida—disse Julião baixo a Sebastião. D.

Felicidade ficou muito aterrada, falou logo nos sacramentos. —Pra quê?—resmungou Julião impaciente. Mas D. Felicidade declarou que tinha escrúpulos, que era um pecado mortal; e chamando Jorge para o vão da janela, toda tremula: —Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos... Ele murmurava como assombrado: —Os sacramentos! Julião chegou-se bruscamente, e quase zangado: —Nada de tolices! Qual sacramentos! Pra quê? Ela nem ouve, nem comprehende, nem sente. É necessário deitar-lhe outro caustico, talvez ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos! Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo. —Pelo que Deus faz por mim...—exclamou Jorge, saindo do seu torpôr. E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:—Porque realmente, que fiz eu pra isto? Que fiz eu!... Julião ordenara outro caustico. Havia agora na casa um movimento alucinado.

Joana entrava de repente com um caldo inutil que ninguém pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Mariana soluçava pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o doutor Barral. E Luísa no entanto estava imóvel; uma cor macilenta ia-lhe dando ás faces tons cavados e rígidos. Julião extenuado pediu um cálix de vinho, uma fatia de pão. Lembraram-se então que desde a véspera não tinham comido, e foram á sala de jantar onde Joana, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha. Depois de um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. Mariana estava sentada aos pés do leito:

Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores: e apenas ela saiu, deixou-se cahir de joelhos, tomou uma das mãos de Luísa, chamou-a baixo; depois mais forte: —Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por melhorar. Não me deixes em este mundo, não tenho mais ninguém! Perdoa-me. Dize que sim. Faze sinal que sim ao menos. Não me ouve, meu Deus! E olhava-a anciosamente. Ela não se movia. Ergueu então os braços ao ar em uma desesperação alucinada. —Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!—E arremessava a sua alma para as alturas:—Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom! Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu mais imóvel. A face livida cavava-se; o lenço que lhe envolvia a cabeça desarranjara-se, via-se o craneo rapado, de uma cor ligeiramente amarelada. Pôs-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria!

Abafou um grito, correu para fora do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas. —Doutor! Está morta! Veja. Não fala, está fria... —Então! Então!—disse ele—Nada de barulho, nada de barulho! Tomou o pulso de Luísa, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração expirante de uma corda. Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram inúteis. —Já as não sente—disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos. —Se se lhe desse um copo de cognac?...—lembrou de repente Julião. E vendo o olhar espantado do doutor:—Ás vezes estes symptomas de coma não querem dizer que o cérebro esteja desorganisado: podem ser apenas a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediável não se perde nada; se é apenas uma depressão do sistema nervoso, póde-se salvar... O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscilava incredulamente a cabeça: —Theorias!—murmurou. —Nos hospitais ingleses...—começou Julião.

O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo. —Mas se o doutor lêsse...—insistiu Julião. —Não leio nada!—disse o doutor Caminha com força—tenho lido de mais! Os livros são os doentes...—E curvando-se, com ironia:—Mas se o meu talentoso colega quer fazer a experiencia... —Um copo de cognac ou de aguardente!—pediu Julião á porta. E o doutor Caminha sentou-se comodamente «para gozar o fracasso do talentoso colega». Levantaram Luísa; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram ficou na mesma imobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o relógio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar as luvas. Jorge foi com ele até á porta: —Então, doutor?—disse, agarrando com uma força desvairada o braço. —Fez-se o que se pôde—disse o velho, encolhendo os hombros. Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer.

As suas passadas vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração. Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os olhos; Jorge pôs as mãos para ele, com uma ansiedade humilde: —Então não é possível mais nada? O doutor fez um gesto vago, indicou o céo. Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, atirou-se de joelhos aos pés da cama, e ali ficou com a cabeça entre as mãos em um soluçar baixo e continuo. Luísa morria: os seus braços tão bonitos, que ela costumava acariciar diante do espelho, estavam já paralisados; os seus olhos, a que a paixão dera chamas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob a camada ligeira de uma pulverisação muito fina. D. Felicidade e Mariana tinham acendido uma lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam. O crepúsculo triste descia, parecia trazer um silencio funerário.

A campainha, então, tocou discretamente; e de aí a momentos apareceu a figura do Conselheiro Acácio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: —Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe! Explicou «que encontrara por acaso o bom doutor Caminha, que lhe contara a fatal ocorrência»! Mas muito discretamente não quis entrar na alcova. Sentou-se em uma cadeira, colocou melancolicamente o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. Felicidade: —Continue as suas orações. Deus é imperscrutável em seus decretos. Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luísa; olhou então Sebastião, fez-lhe o gesto de alguma coisa que vôa e desaparece... Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face enterrada no leito: —Jorge—disse baixinho Sebastião. Ele levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabelos nos olhos, as olheiras escuras. —Vá, vem—disse Julião.

E vendo o espanto do seu olhar:—Não, não está morta, está em aquela somnolencia... Mas vem. Ele ergueu-se, dizendo com mansidão: —Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado. Sahiu da alcova. O Conselheiro levantou-se, foi abraçá-lo com solemnidade: —Aqui estou, meu Jorge! —Obrigado, Conselheiro, obrigado. Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preocupar-se com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as pontas, e viu os cabelos de Luísa. Ficou a olhal-os, erguendo-os, passando-os de uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer: —Fazia tanto gosto em eles, coitadinha! Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o afastar do leito. Ele debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a: —Talvez a incomode a luz... Julião respondeu comovido: —Já não a vê, Jorge!

Ele soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ela; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a um momento; depois pousou-lhe sobre os lábios frios um beijo, outro, outro, e murmurava: —Adeus! Adeus! Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão. Todos correram. Levaram-no para a chaise-longue. E em quanto D. Felicidade em um pranto afflicto fechava os olhos de Luísa, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e oscilando a sua calva respeitável, dizia a Sebastião: —Que profundo desgosto de família!

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