Volume I — Capítulo III Os Maias · Capítulo 3 de 18
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Volume I — Capítulo III

Mas esse ano passou, outros anos passaram.

Por uma manhã de abril, nas vésperas de Paschoa, Vilaça chegava de novo a S. ta

Olavia.

Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito de essa primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o sr. administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço.

As três portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se estendia ao sol, com a sua balustrada de mármore coberta de trepadeiras: e Vilaça, adiantando-se

para os degraus que desciam ao jardim, mal pôde reconhecer Affonso da Maia em aquele velho de barba de neve, mas tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu neto pela mão.

Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado em um cache-nez de pelúcia, correu a miral-o, curioso—e achou-se arrebatado nos braços do bom Vilaça, que largara o guarda sol, o beijava pelo cabelo, pela face, balbuciando:

—Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido que está...

—Então, sem avisar, Vilaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura!

Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se comovidos.

Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos bolsos das suas largas bragas de flanela branca, o casquete da mesma flanela posta de lado sobre os belos anéis do cabelo negro—continuava a mirar o Vilaça, que com o beiço tremulo, tendo tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos óculos.

—E ninguém a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia Affonso. Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo, Vilaça!

—E v. ex. a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço. Nem uma ruga! Branco

sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!... Quando me lembro, a última vez que o vi... E cá isto! cá esta linda flor!...

Ia abraçar Carlos outra vez entusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma bela risada, saltou do terraço, foi pendurar-se de um trapesio armado entre as árvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso, gritando: «tu és o Vilaça!»

O Vilaça, de guarda sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido.

—Está uma linda criança! Faz gosto! E parece-se com o pai. Os mesmos olhos, olhos dos Maias, o cabelo encaracolado... Mas ha de ser muito mais homem!

—É são, é rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento? Venha você cá para dentro, Vilaça, que ha muito que conversar...

Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminé de azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canários pareciam doudos de alegria.

A Gertrudes, que ficara a observar, acercou-se, com as mãos cruzadas sob o avental branco, familiar, terna.

—Então, meu senhor, aqui está um regalo, vêr outra vez este ingrato em S. ta Olavia!

E, com um clarão de simpatia na face, alva e redonda como uma velha lua, ornada já de um buço branco:

—Ah! sr. Vilaça, isto agora é outra coisa! Até os canários cantam! E também eu cantava, se ainda pudesse...

E foi saindo, subitamente comovida, já com vontade de chorar.

O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia de uma á outra ponta dos seus altos colarinhos de mordomo.

—Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Vilaça, hein? disse Affonso. No quarto em que você costumava ficar dorme agora a viscondessa...

Então o Vilaça apressou-se a perguntar pela sr. a

viscondessa. Era uma Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de Caminha a cantavam, casara com um fidalgote galego, o sr. visconde de Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viúva e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentela, e para haver uma senhora em S. ta Olavia.

Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relógio, Affonso interrompeu a relação de esses achaques.

—Vilaça, vá-se arranjar, depressa, que de aqui a pouco é o jantar.

O administrador surpreendido olhou também o relógio, depois a mesa já posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.

—Então v. ex. a agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...

—Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regímen. De madrugada está já na quinta; almoça ás sete; e

janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar as maneiras do rapaz...

—E o sr. Affonso da Maia, exclamou Vilaça, a mudar de hábitos, em essa edade! O que é ser avô, meu senhor!

—Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas avie-se Vilaça, avie-se que Carlos não gosta de esperar... Talvez tenhamos o abbade.

—O Custodio? Rica coisa! Então, se v. ex. a

me dá licença...

Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr. administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o do guarda sol e do chale-manta:

—Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta sr. Vilaça?

—Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a S. ta Olavia.

E, pousando familiarmente a mão no hombro do escudeiro, piscando o olho ainda humido:

—Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão!

O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da casa...

—Olá! Quem toca por cá? exclamou Vilaça, parando nos degraus da escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.

—É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, é um regalo ouvil-o; toca ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Vilaça, o quarto de v. s. a...

—Muito bonito, sim senhor!

O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janelas, sobre o tapete alvadio semeado de florsinhas azuis: e as bambinelas, os reposteiros de cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Vilaça.

Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o mármore da comoda, provou a solidez das cadeiras. Eram as mobílias compradas no Porto, hein? Pois, elegantes. E, realmente, não tinham sido caras. Nem ele fazia idéa! Ficou ainda em bicos de pés a examinar duas aguarelas inglezas representando vacas de luxo, deitadas na relva, á sombra de ruínas românticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relógio na mão:

—Olhe que v. s. a tem só dez minutos... O menino não gosta de esperar.

Então o Vilaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu pesado colete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-se ainda uma flanela escarlate por causa dos reumatismos, e os bentinhos de seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do corredor, a rebeca atacara o Carnaval de Veneza; e através das janelas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos, todo o verde de abril.

Vilaça, sem óculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha molhada pelo pescoço, por traz da orelha, e ia dizendo:

—Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar,

hein? Já se sabe, é ele quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...

Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desiludiu o sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizia s. s. a? Coitadinho de ele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos já dormia em um quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, ás vezes a gear lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não, parece que era sistema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ás árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E ás vezes a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.

E o Teixeira acrescentou:

—Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós approvassemos a educação que tem levado, isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes.

Olhou outra vez o relógio, preso por uma fita negra sobre o colete branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o Vilaça acamava as duas longas repas sobre a calva:

—Sabe v. s. a apenas veio o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar! A remar, sr. Vilaça, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as habilidades de palhaço; eu em isso nem gosto de falar... Que eu sou o primeiro a dizê-lo: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excelente musico. Mas é o que eu tenho repetido á Gertrudes: póde ser muito bom para inglez, não é para ensinar um fidalgo portuguez... Não é. Vá v. s. a

falar a esse respeito com a sr. a D. Ana Silveira...

Bateram de manso á porta, o Teixeira emudeceu. Um escudeiro entrou, fez um sinal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca, e ficou com ela junto do toucador, onde o Vilaça, vermelho e apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.

O Teixeira, da porta, disse com o relógio na mão:

—É o jantar. Tem v. s. a dois minutos, sr. Vilaça.

E o administrador de aí a um momento abalava também, abotoando ainda o casaco pelas escadas.

Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o Times. Carlos, a cavalo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia de rapazes e de bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio, com o lenço de rapé esquecido nas mãos, escutava, de boca aberta, em um riso paternal e terno.

—Olhe quem ali vem, abbade, disse-lhe Affonso.

O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na côxa:

—Esta é nova! Então é o nosso Vilaça? E não me tinham dito nada! Venham de lá esses ossos, homem!...

Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aqueles longos abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos—uma com as repas achatadas sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta em uma mata de cabelo branco. E como eles, de mãos dadas, continuavam a admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos anos, Affonso disse:

—Vilaça! a sr. a viscondessa...

O administrador porém procurou-a debalde, com os olhos abertos pela sala. Carlos ria, batendo as mãos:—e Vilaça descobriu-a emfim a um canto, entre o aparador e a janela, sentada em uma cadeirinha baixa, vestida de preto, tímida e queda, com os braços rechonchudos pousados sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e mole, branco como papel, as roscas do pescoço, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; não achou uma palavra para dizer ao Vilaça, e estendeu-lhe a mão papuda e pálida, com um dedo embrulhado em um pedaço de seda negra. Depois ficou a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos no regaço, como exhausta de aquele esforço.

Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeira esperava, perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.

Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra historia. Era o Manuel, trazia uma pedra

na mão... Ele primeiro pensara ir ás boas; mas os dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos...

—E maiores que tu?

—Três rapagões, vôvô, póde perguntar á tia Pedra... Ela viu, que estava na eira. Um de eles trazia uma foice...

—Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que está a sopa a esfriar. Upa! upa!

E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarca feliz, veio sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:

—Já se vai fazendo pesado, já não está para colo...

Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentação do procurador.

—O sr. Brown, o amigo Vilaça... Peço perdão, descuidei-me, foi culpa de aquele cavalheiro lá ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!

O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu toda a volta á meza, rígido e teso, para vir sacudir o Vilaça em um tremendo

shake-hands; depois, sem uma palavra, reocupou o seu logar, desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi então que disse ao Vilaça, com o seu forte acento inglez:

— Muito belo dia... glorioso!

—Tempo de rosas, respondeu o Vilaça, comprimentando, intimidado diante de aquele atleta.

Naturalmente, em esse dia, falou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço da mala-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Vilaça já viera no comboio até ao Carregado.

—De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que ia levar á boca.

O excelente homem nunca saíra de Resende; e todo o largo mundo, que ficava para além da penumbra da sua sachristia e das árvores do seu passal, lhe dava o terror de uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, de que tanto se falava...

—Faz arripiar um bocado, afirmou com experiencia Vilaça. Digam o que disserem, faz arripiar!

Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraças de essas machinas!

O Vilaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaça, quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no quarto...

O abbade gostava do progresso... Achava até necessário o progresso. Mas parecia-lhe que se queria fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas...

—E economia! disse o Vilaça, puxando para si os pimentões.

—Bucelas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.

O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe

á luz a cor rica, provou-o com a ponta do lábio, e piscando o olho para Affonso:

—É do nosso!

—Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom néctar?

— Magnificente! exclamou o perceptor com uma energia fogosa.

Então Carlos, estendendo o braço por cima da meza, reclamou também Bucelas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Vilaça. O avô não consentiu; o menino teria o seu cálice de Colares, como de costume, e um só. Carlos crusou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Vilaça poderia apanhar uma gotinha de Bucelas? Aí estava uma linda maneira de receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera o sr. administrador, havia de pôr á noite para o chá o fato novo de veludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para Bucelas... Então não entendia.

O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão severo.

—Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que palram à meza.

Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:

—Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...

Houve um sorriso em volta da meza. A própria

viscondessa, deleitada, agitou preguiçosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em extasi para o menino, apertava as mãos cabeludas contra o peito, tanto aquilo lhe parecia engraçado: e Affonso tossia por traz do guardanapo, como limpando as barbas—a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava nos olhos.

Tanta vivacidade surprehendeu também Vilaça. Quis ouvir mais o menino, e pousando o seu talher:

—E diga-me, Carlinhos, já vai adiantado nos seus estudos?

O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das flanelas, e respondeu com um tom superior:

—Já faço ladear a

Brigida.

Então o avô, sem se conter, largou a rir, caído para o espaldar da cadeira:

—Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a

Brigida! E é verdade, Vilaça, já a faz ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita é uma piorrita, mas fina...

—Oh vovô, gritou Carlos já excitado, dize ao Vilaça, anda. Não é verdade que eu era capaz de governar o dog-cart?

Affonso reassumio um ar severo.

—Não o nego... Talvez o governasse, se lho consentissem. Mas faça-me favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bom cavaleiro deve ser modesto... E sobre tudo não enterrar assim as mãos pela barriga abaixo...

O bom Vilaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavalo com as regras... Mas ele queria dizer se o Carlinhos já entrava com o seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...

—Vilaça, Vilaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de santa malicia, não se deve falar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admite, acha que é antigo... Ele, antigo é...

—Ora sirva-se de esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim...

O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave, ia murmurando:

—Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é a basesinha!

—Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo...

E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:

—Prrimeiro músculo, músculo!...

Affonso apoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era um luxo de erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma criança em uma língua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos Grachos, e outros negócios de uma nação extincta, deixando-o ao mesmo tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que

come, e todas as outras coisas do Universo em que vive...

—Mas emfim os clássicos, arriscou timidamente o abbade.

—Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste em isto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armal-o de uma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...

O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado.

—A instrucçãosinha é necessária, disse ele. Você não acha, Vilaça? Que v. ex a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas emfim a instrucçãosinha...

—A instrução para uma criança não é recitar

Tityre, tu patulae recubans... É saber factos, noções, coisas uteis, coisas praticas...

Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, em um sinal ao Vilaça, mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos de força, uma historia de briga com rapazes que ele lhe estava a contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor aprovava, retorcendo os bigodes. E á mesa os senhores com os garfos suspensos, por traz os escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos, em um silencio reverente, admiravam o menino a falar inglez.

—Grande prenda, grande prenda, murmurou Vilaça, inclinando-se para a Viscondessa.

A excelente senhora corou, através de um sorriso. Parecia assim mais gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada gole de Bucelas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque negro e lentejoulado.

Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma saúde ao Vilaça. Todos os copos se ergueram em um rumor de amizade. Carlos quis gritar

Hurrah! O avô, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicção:

—Oh avô, eu gosto do Vilaça. O Vilaça é nosso amigo.

—Muito, e ha muitos anos, meu senhor! exclamou o velho procurador, tão comovido que mal podia erguer o cálice na mão.

O jantar findava. Fora, o sol deixara o terrasso e a quinta verdejava na grande doçura do ar tranquilo, sob o azul ferrete. Na chaminé só restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo, a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limão: os creados, de coletes brancos, moviam o serviço de onde se escapava algum som argentino: e toda a alva toalha adamascada desaparecia sob a confusão da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam entre as compoteiras de cristal. A Viscondessa afogueada abanava-se. Padre Custodio enrolava devagar

o guardanapo, a sua batina coçada luzia nas pregas das mangas.

Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a última saúde.

—Viva v. s. a Sr.. Carlos de Matta-sete!

—Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo.

A cabeçinha de cabelos negros, a velha face de barbas de neve, saudavam-se das extremidades da mesa—em quanto todos sorriam, no enternecimento de aquela cerimonia. Depois o abbade, de palito na boca, murmurou as

graças. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou também as mãos. E Vilaça que tinha crenças religiosas não gostou de vêr Carlos, sem se importar com as graças, saltar da cadeira, vir atirar-se ao pescoço do avô, falar-lhe ao ouvido.

—Não senhor! não senhor! dizia o velho.

Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões, em um murmurio de mimo dôce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma fraqueza indulgente.

—É por ser festa, disse ele emfim vencido. Mas veja lá, veja lá...

O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Vilaça pelos braços, fêl-o redemoinhar, e foi cantando em um ritmo seu:

—Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Teresinha, inha, inha, inha!

—É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa. Já tem amores, é a pequena das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira.

O dia fora convidava, adorável, de um azul suave, muito puro e muito alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os gerânios vermelhos estavam já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, de uma delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flôres do campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos baixos, a areia fina faiscava de leve àquele sol tímido de primavera tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa hora de sesta em uma luz fresca e loura.

Os três homens sentaram-se á mesa do café. Defronte do terraço, o Brown, de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na boca, puchava ao alto a barra do trapézio para Carlos se balouçar. Então o bom Vilaça pedio para voltar as costas. Não gostava de vêr gymnasticas; bem sabia que não havia perigo; mas mesmo nos cavalinhos, as cabriolas, os arcos, atordoavam-em o; saia sempre com o estomago embrulhado...

—E parece-me imprudente, sobre o jantar...

—Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquilo!

Mas Vilaça não se moveu, com a face sobre a chávena.

O abbade, esse, admirava, de lábios entreabertos, e o pires cheio de café esquecido na mão.

—Olhe para aquilo Vilaça, repetio Affonso. Não lhe faz mal, homem!

O bom Vilaça voltou-se, com esforço. O pequeno

muito alto no ar, com as pernas retesadas contra a barra do trapézio, as mãos ás cordas, descia sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com os cabelos ao vento; depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo ele sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se á aragem; e via-se passar, fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.

—Não está mais na minha mão, não gosto, disse o Vilaça. Acho imprudente!

Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou

bravo, bravo. Vilaça voltou-se para aplaudir, mas Carlos tinha já desaparecido; o trapézio parava, em oscilações lentas; e o Brown, retomando o

Times que pusera ao lado sobre o pedestal de um busto, foi descendo para a quinta envolvido em uma nuvem de fumo do cachimbo.

—Bela coisa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, acendendo com satisfação outro charuto.

Vilaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bela frase, arranjada em máxima:

—Esta educação faz atletas mas não faz christãos. Já o tenho dito...

—Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso alegremente. Diz-mo todas as semanas... Quer você saber, Vilaça? O nosso Custodio mata-me o bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...

Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a caixa de rapé aberta na mão; a irreligião de aquele velho fidalgo, senhor de quase toda a freguezia, era uma das suas dôres:

—A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex. a

o diga assim com esse modo escarnica... A cartilha. Mas já não quero falar na cartilha... Ha outras coisas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, é pelo amor que tenho ao menino.

E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custodio jantava na quinta.

O bom homem achava horroroso que em aquela edade um tão lindo moço, herdeiro de uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Vilaça a historia da D. Cecília Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do escrivão, tendo passado diante do portão da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanças como era, e pedira-lhe que lhe dissesse o ato de contricção. E que respondeu o menino? Que nunca em tal ouvira falar! Estas coisas entristeciam. E o sr. Affonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora ali estava o amigo Vilaça que podia dizer se era caso para jubilar. Não, o sr. Affonso da Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas de uma coisa não o podia convencer, a ele pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, é que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do catecismo.

E Affonso da Maia respondia com bom humor:

—Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, por que isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao inferno, hein? É isso?...

—Ha mais alguma coisa...

—Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já ele sabe que se não deve praticar, por que é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem...

—Mas, meu senhor...

—Ouça abbade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por medo ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino do céu...

E acrescentou, erguendo-se e sorrindo:

—Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, é quando vem, depois de semanas de chuva, um dia de estes, ir respirar pelos campos e não estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Vilaça não está muito cançado, vamos dar aí um giro pelas fazendas...

O abbade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a chávena e sorveu com delicias o resto do seu café.

Quando Affonso da Maia, Vilaça e o abbade recolheram do seu passeio pela freguezia, escurecera, havia

luzes pelas salas, e tinham chegado já as Silveiras, senhoras ricas da quinta da

Lagoaça.

D. Ana Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da família, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande autoridade em Resende. A viúva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma excelente e pachorrenta senhora, de agradável nutrição, trigueirota e pestanuda; tinha dois filhos, a Teresinha, a noiva de Carlos, uma rapariguinha magra e viva com cabelos negros como tinta, e o morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito falada em aqueles sítios.

Quase desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado em um cobertor, folheando in-fólios, com o craneosinho calvo de sábio curvado sobre as letras garrafais de boa doutrina: depois de crescidinho tinha tal propósito que permanecia horas imóvel em uma cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar algarismos, com a lingoasinha de fora.

Assim na família tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, a tia Annica instalava-o logo á mesa, ao pé do candieiro, a admirar as pinturas de um enorme e rico volume,

os Costumes de todos os Povos do Universo. Já lá estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com o plaid de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso cavaleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o bonet onde se arqueava com heroísmo uma rutilante pena de galo; e nada havia mais melancólico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de lombrigas dava uma moleza e uma amarelidão de manteiga, os seus olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lhas tivesse já consumido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e para os guerreiros ferozes do Montenegro apoiados a escupetas, em píncaros de serranias.

Diante do canapé das senhoras lá se achava também o fiel amigo, o dr. delegado, grave e digno homem, que havia cinco anos andava ponderando e meditando o casamento com a Silveira viúva, sem se decidir—contentando-se em comprar todos os anos mais meia duzia de lenções, ou uma peça mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras eram discutidas em casa das Silveiras, á brazeira: e as alusões recatadas, mas inevitaveis, ás duas fronhasinhas, ao tamanho dos lenções, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro—em logar de inflamar o magistrado, inquietavam-em o. Nos dias seguintes aparecia preocupado—como se a perspectiva da santa consumação do matrimonio lhe desse o arrepio de uma façanha a emprehender,

o ter de agarrar um toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer rasão especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E aliviado, tranquilo, o respeitável Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a chás, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, afável, serviçal, sorrindo a D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os de essa convivência paternal.

Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o dr. juiz de direito e a senhora não podiam vir, por que o magistrado tivera a dor; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete anos que morrera o mano Manuel...

—Bem, disse Affonso, bem. A dor, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos nós um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?

O excelente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que «estava ás ordens.»

—Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos, no ardor já da partida.

Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo—que um reposteiro de damasco separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos círculos de luz que cahiam dos abat-jour os baralhos abertos em leque. de aí a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os deixara para um roquesinho de três»; e retomou o seu logar ao lado de D. Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre. As senhoras estavam

falando da dor do dr. juiz de direito. Costumava dar-lhe todos os três meses: e era condemnavel a sua teima em não querer consultar médicos. Quanto mais que ele andava acabado, ressequindo, amarelando—e a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar cores!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Espanha vira um caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; e ao principio fora o contrario; até sobre isso se tinham feito uns versos...

—Humores, disse com melancolia o dr. delegado.

Depois falou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de juízo! D. Ana Silveira não se esquecera, como todos os anos, de lhe acender uma lamparina por alma, e de lhe rezar três padre-nossos. A viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter lembrado... E ela que tinha o propósito feito!

—Pois estive para to mandar dizer! exclamou D. Ana. E as Brancos que tanto o agradecem, filha!

—Ainda está a tempo, observou o magistrado.

D. Eugenia deu uma malha indolente no

crochet de que nunca se separava, e murmurou com um suspiro:

—Cada um tem os seus mortos.

E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da viscondessa, que de certo se recordara do fidalgo de Urigo de la Sierra, e murmurava:

—Cada um tem os seus mortos...

E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar reflectidamente a mão pela calva:

—Cada um tem os seus mortos!

Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, as chamas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava com cautela e arte as estampas dos Costumes de todos os Povos. E na saleta de jogo, através do reposteiro aberto, sentia-se a voz já arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquilo, «passo, que é o que tenho feito toda a santa noite!»

em esse momento Carlos arremetia pela sala dentro arrastando a sua noiva, a Teresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas vozes reanimou o canapé dormente.

Os noivos tinham chegado de uma pitoresca e perigosa viagem, e Carlos parecia descontente de sua mulher; comportara-se de uma maneira atroz; quando ele ia governando a mala-posta, ela quisera empoleirar-se ao pé de ele na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada.

—E ele atirou-me ao chão, titi!

—Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos á estalagem... Ela quis-se deitar, e eu não quis... A gente, quando se apeia de viagem, a primeira coisa que faz é tratar do gado... E os cavalos vinham a escorrer...

A voz de D. Ana interrompeu, muito severa:

—Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te aí ao pé da sr. a

Viscondessa, Teresa... Olhe essa travessa do cabelo... Que desproposito!

Sempre detestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dez anos, brincar assim com o Carlinhos. Aquele belo e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem propósito, aterrava-a; e pela sua imaginação de solteirona passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages que ele poderia fazer á menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S. ta Olavia, recomendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas, apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados, por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a sua vida aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras lançadas a galope, viagens a terras de nomes bárbaros que o Brown lhe ensinava. Ela, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido, chamava-lhe

arrieiro; ele ameaçava boxal-a, á inglesa;—e separavam-se sempre arrenegados.

Mas quando ela se acomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as mãos no regaço—Carlos veio logo estirar-se ao pé de ela, meio deitado para as costas do canapé, bamboleando as pernas.

—Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito seca D. Ana.

—Estou cançado, governei quatro cavalos, replicou ele, insolente e sem a olhar.

De repente porém, de um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. Queria-o levar á Africa, a combater os selvagens: e puchava-o já pelo seu belo

plaid de cavaleiro de Escossia, quando a mamã acudiu aterrada.

—Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saúde para essas cavaladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!

Mas o Eusebiosinho, a um repelão mais forte, rolara no chão, soltando gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula, agachada junto de ele, punha-o de pé sobre as perninhas moles, limpando-lhe as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quase a chorar também. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e cofiava melancolicamente a bela pena de galo. E a Viscondessa apertava ás mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a sufocassem.

O Eusebiosinho foi então preciosamente colocado ao lado da titi; e a severa senhora, com um fulgôr de cólera na face magra, apertando o leque fechado como uma arma, preparava-se a repelir o Carlinhos que, de mãos atraz das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o Eusebiosinho um lábio feroz. Mas em esse momento davam nove horas, e a desempenada figura do Brown apareceu á porta.

Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detrás da Viscondessa, gritando:

—Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!

Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:

—Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.

—Oh vôvô, é festa, que está cá o Vilaça!

Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor—em quanto ele, de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:

—É festa, vôvô... É uma maldade!... O Vilaça póde-se escandalisar... Oh vôvô, eu não tenho sono!

Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo aquela rigidez: aí estava uma coisa incomprehensivel; o avô deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da soirée...

—Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a criança?

—É necessário método, é necessário método, balbuciou ele, entrando, todo pálido do seu rigor.

E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia ainda:

—É necessário método. Creanças á noite dormem.

D. Ana Silveira voltando-se para o Vilaça—que cedera o seu lugar ao dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras—teve aquele sorriso mudo

que lhe franzia os lábios, sempre que Affonso da Maia falava em «métodos.»

Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, declarou, a transbordar de ironia, que, talvez por ter a inteligência curta, nunca comprehendera a vantagem dos «métodos»... Era á inglesa, segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ela estava enganada, ou S. ta

Olavia era no reino de Portugal...

E como Vilaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse, desabafou. O sr. Vilaça naturalmente não sabia, mas aquela educação do Carlinhos nunca fora aprovada pelos amigos da casa. Já a presença do Brown, um herético, um protestante, como perceptor na família dos Maias, causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha aquele santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber... Não ensinaria á criança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar uma educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.

em esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente de ar, erguera-se da mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia ouvir, D. Ana ergueu a voz:

—E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Vilaça. Que o Carlinhos, coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar o que sucedeu com a Macedo.

Vilaça já sabia.

—Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do ato de contricção...

A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao céu através do tecto.

—Horroroso! continuou D. Ana. A pobre mulher chegou lá a nossa casa embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquilo três noites a fio...

Calou-se um momento. Vilaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as pálpebras pesadas, fazia de vez em quando uma malha mole no

crochet; e a noiva de Carlos, estirada para o canto do sofá, já dormia, com a boquinha aberta, os seus lindos cabelos negros caindo-lhe pelo pescoço.

D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:

—Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!

—Mas é muito esperto, minha rica senhora! acudiu Vilaça.

—É possível, respondeu secamente a inteligente Silveira.

E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado de ela, quieto como se fosse de gesso:

—Oh filho, dize tu aqui ao sr. Vilaça aqueles lindos versos que sabes... Não sejas atado, anda!... Vá, Euzebio, filho, sê bonito...

Mas o menino, molengão e tristonho, não se descolava das saias da titi: teve ela de o pôr de pé, amparal-o, para que o tenro prodígio não alluisse sobre as perninhas flácidas; e a mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela...

Isto decidio-o: abrio a boca, e como de uma torneira lassa veio de lá escorrendo, em um fio de voz, um recitativo lento e babujado:

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