Volume I — Capítulo IV
Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera sempre em aquele menino realmente uma «vocação para Esculapio».
A «vocação» revelara-se bruscamente um dia que ele descobriu no sótão, entre rumas de velhos alfarrábios, um rolo manchado e antiquado de estampas anatômicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas paredes do quarto figados, liaças de intestinos, cabeças de perfil «com o recheio á mostra». Uma noite mesmo rompera pela sala em triunfo, a mostrar ás Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa litografia de um feto de seis meses no útero materno. D. Ana recuou, com um grito, colando o leque á face: e o dr. delegado, escarlate também, arrebatou prudentemente Euzebiosinho
para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a mão. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de Affonso.
—Então que tem, então que tem? dizia ele sorrindo.
—Que tem, Sr.. Affonso da Maia!? exclamou D. Ana. São indecencias!
—Não ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente é a ignorância... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de saber como é esta pobre machina por dentro, não ha nada mais louvável...
D. Ana abanava-se, sufocada. Consentir tais horrores nas mãos da criança!... Carlos começou a aparecer-lhe como um libertino «que já sabia coisas»; e não consentiu mais que a Teresinha brincasse só com ele pelos corredores de Santa Olavia.
As pessoas sérias porém, o dr. juiz de direito, o próprio abbade, lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concordavam que aquilo mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.
—Se péga, dizia então com um gesto profético o dr. Trigueiros, temos de ali coisa grande!
E parecia pegar.
Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compêndios de logica e retorica para se ocupar de anatomia: em umas ferias, ao abrir das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras de um casaco o riso de uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia, lá estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina
da livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnósticos que o bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avô já chamava mesmo ao menino «o seu talentoso colega».
Esta inesperada carreira de Carlos (pensara-se sempre que ele tomaria capelo em Direito) era pouco aprovada entre os fieis amigos de Santa Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo tão formoso, tão bom cavaleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o Sr.. Carlos da Maia quizesse «ser medico a sério».
—Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição, como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador; educo-o para ser útil ao seu paiz...
—Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe parece a v. exc. a
que ha outras coisas, importantes também, e mais próprias talvez, em que seu neto se poderia tornar útil?...
—Não vejo, replicou Affonso da Maia. em um paiz em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é incontestavelmente saber curar.
—V. exc. a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o magistrado.
E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério», pratica e útil, as escadas
de doentes galgadas á pressa no fogo de uma vasta clinica, as existências que se salvam com um golpe de bisturí, as noites veladas á beira de um leito, entre o terror de uma família, dando grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham encantado as formas pitorescas das vísceras—atraíam-no agora estes lados militantes e heroicos da sciencia.
Matriculou-se realmente com entusiasmo. Para esses longos anos de quieto estudo o avô preparara-lhe uma linda casa em Celas, isolada, com graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as árvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) pôs-lhe o nome de «Paços de Celas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de marroquim, panóplias de armas, e um escudeiro de libré.
Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono de estes confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava também o paiz uma choldra ignóbil —os mais rígidos revolucionários começaram a vir aos Paços de Celas tão familiarmente como ao quarto do Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobília uma enxerga e uma Biblia.
Ao fim de alguns meses, Carlos, simpático a todos, conciliara Dandys e Filósofos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado, o Serra Torres, um monstro que já era addido honorário em
Berlim e todas as noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a Morte de Satanás, encolhido no seu gabão de Aveiro, com o seu grande barrete de lontra.
Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fora convertida em sala de armas—porque em aquele grupo a esgrima passava como uma necessidade social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um
whist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o
Figaro, o Times e as
Revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os literatos estirados pelas poltronas—havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metafisicas, as próprias certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes.
Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas intactas, os seus expositores de medicina. A Literatura e a Arte, sob todas as formas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no Instituto —e um artigo sobre o Parthenon: tentou, em um atelier improvisado, a pintura a óleo: e compoz contos archeologicos, sob a influencia
da Salammbô. Além de isso todas as tardes passeava os seus dois cavalos. No segundo ano levaria um R se não fosse tão conhecido e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação intelectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: imediatamente lhe deram um
accessit. Mas tinha nas veias o veneno do diletantismo: e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um de esses médicos literários que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!
O avô, ás vezes, vinha passar uma, duas semanas a Celas. Nos primeiros tempos a sua presença, agradável aos cavalheiros da partilha de
whist, desorganisou o cavaco literário. Os rapazes mal ousavam estender o braço para o copo da cerveja; e os
vossa excelência isto,
vossa excelência aquilo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porém, vendo-o aparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com ares simpáticos de patriarca bohemio, discutir arte e literatura, contar anecdotas do seu tempo de Inglaterra e de Itália, começaram a consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante de ele já se falava de mulheres e de estroinices. Aquele velho fidalgo, tão rico, que lera Michelet e o admirava—chegou mesmo a entusiasmar os democratas. E Affonso gozava ali também horas felizes, vendo o seu Carlos centro de aqueles moços de estudo, de ideal e de veia.
Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ás vezes em Paris ou Londres; mas por Nataes e Pascoas
vinha sempre a Santa Olavia, que o avô mais só se entretinha a embelezar com amor. As salas tinham agora soberbos panos de Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis de luxo e de arte. Das janelas a quinta oferecia aspectos nobres de parque inglez: através dos macios taboleiros de relva, davam curvas airosas as ruas areadas: havia mármores entre as verduras; e gordos carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existência em este meio rico não era agora tão alegre: a viscondessa, cada dia mais nutrida, caía em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos no entrudo: e já se não via também á mesa a bondosa face do abbade, que lá jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o ano. O dr. juiz de direito com a sua concertina passara para a Relação do Porto; D. Ana Silveira, muito doente, nunca saia; a Teresinha fizera-se uma rapariguinha feia, amarela como uma cidra; o Euzebiosinho, molengão e tristonho, já sem vestígios sequer do seu primeiro amor aos alfarrábios e ás letras, ia casar na Regoa. Só o dr. delegado, esquecido em aquela comarca, estava o mesmo, mais calvo talvez, sempre afável, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quase todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao portão para vir cavaquear com o colega.
As ferias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para a quinta o seu intimo, o
grande João da Ega, a quem Affonso da Maia se afeiçoara muito, por ele e pela sua originalidade, e por ser sobrinho de André da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora, hospede também em Santa Olavia.
Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente—ora reprovado, ora perdendo o ano. Sua mãe, rica, viúva e beata, retirada em uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viúva e rica também, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo esse tempo, em Coimbra. O capelão afirmava-lhe que tudo havia de acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como o titi: e esta promessa bastava á boa senhora, que se ocupava sobretudo da sua doença de entranhas e dos confortos de esse padre Serafim. Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da quinta, que ele escandalisava com a sua irreligião e as suas facecias heréticas.
João da Ega, com efeito, era considerado não só em Celorico, mas também na Academia que ele espantava pela audácia e pelos ditos, como o maior ateu, o maior demagogo, que jamais aparecera nas sociedades humanas. Isto lisonjeava-o: por sistema exagerou o seu ódio á Divindade, e a toda a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanás. O esforço da inteligência em este sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a
sua figura esgrouviada e seca, os pelos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito—tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satânico. Desde a sua entrada na Universidade renovara as tradições da antiga Bohemia: trazia os rasgões da batina cozidos a linha branca; embebedava-se com carrascão; á noite, na Ponte, com o braço erguido, atirava injúrias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em amores por meninas de quinze anos, filhas de empregados, com quem ás vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de dôce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o apetecido nas famílias.
Carlos escarnecia estes idílios futricas; mas também ele terminou por se enredar em um episodio romântico com a mulher de um empregado do governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graça de um corpo de boneca e por uns lindos olhos verdes. A ela o que a fanatisára fora o luxo, o
groom, a egoa inglesa de Carlos. Trocaram-se cartas; e ele viveu semanas banhado na poesia áspera e tumultuosa do primeiro amor adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome bárbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já Eurico o presbítero, dirigiam para Celas missivas pelo correio com este nome odioso.
Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do governo civil passou junto de ele com o filhinho pela mão. Pela primeira vez
via tão de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e macilento. Mas o pequerrucho era adorável, muito gordo, parecendo mais roliço por aquele dia de janeiro sob os agasalhos de lã azul, tremelicando nas pobres perninhas rôxas de frio, e rindo na clara luz—rindo todo ele, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas rosas das faces. O pai amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era no momento em que ele lia Michelet—e enchia-lhe a alma a veneração literária da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar ali de cima do seu
dog-cart, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas de aquele pobre pai tão inofensivo no seu paletot coçado! Nunca mais respondeu ás cartas em que Hermengarda lhe chamava seu ideal. Decerto a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil, de aí por diante, dardejava sobre ele olhares sangrentos.
Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi quando ele, ao fim de umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola, e a instalou em uma casa ao pé de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vitoria com um cavalo branco e Encarnacion fanatisou Coimbra como a aparição de uma Dama das Camelias, uma flôr de luxo das civilisações superiores. Pela Calçada, pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pálidos de emoção, quando ela passava, reclinada na vitoria, mostrando
o sapato de setim, um pouco da meia de seda, languida e desdenhosa, com um cãosinho branco no regaço.
Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada Lirio de Israel, Pomba da Arca, e Nuvem da Manhã. Um estudante de teologia, rude e sebento transmontano, quis casar com ela. Apesar das instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o teólogo começou a rondar Celas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de lhe dar bengaladas.
Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intolerável, falando sem cessar de outras paixões que inspirara em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe dera o conde de tal, o marquês sicrano, da grande posição da sua família ainda aparentada com os Medina-C œ li: os seus sapatos de setim verde eram tão antipáticos como a sua voz estridula: e quando tentava elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua
gracia, o seu salero —sendo muito conservadora como todas as prostitutas. João da Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Celas enquanto por lá aparecesse aquele montão de carne, pago ao arrátel, como a de vaca.
Emfim, uma tarde Batista, o famoso criado de quarto de Carlos surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Teatro Acadêmico. Aí estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente
paga, a parenta dos Medina-C œ li, o Lirio de Israel, a admiradora dos Bourbons, foi recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural.
Em agosto, no ato da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Celas. Affonso viera de Santa Olavia, Vilaça de Lisboa; toda a tarde no quintal, de entre as acácias e as bela-sombras, subiram ao ar molhos de foguetes; e João da Ega, que levara o seu último R no seu último ano, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a iluminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Vilaça, enfiado e tremulo, fez um speech; ia citar o nosso imortal Castilho quando sob as janelas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o Hymno Acadêmico. Era uma serenata.—Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das costas, correu á sacada, a perorar:
—Aí temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma—ou acabar de a matar, segundo as circunstâncias! A que parte remota de estes reinos não chegou já a fama do seu gênio, do seu dog-cart, do sebáceo
accessit que lhe ennodôa o passado, e de este vinho do Porto, contemporâneo dos heróis de 20, que eu, homem de revolução e homem de carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...
O grupo escuro em baixo desatou aos
vivas. A filarmônica, outros estudantes, invadiram os Paços.
Até tarde, sob as árvores do quintal, na sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de dôce, não cessou de estalar o
champagne. E Vilaça, limpando a testa, o pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo também:
—Grande coisa, ter um curso!
E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um ano passou. Chegara esse outono de 1875: e o avô instalado emfim no Ramalhete esperava por ele anciosamente. A última carta de Carlos viera de Inglaterra, onde andava, dizia ele, a estudar a admirável organisação dos hospitais de crianças. Assim era: mas passeava também por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idílio errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora holandesa, separada de seu marido, venerável magistrado da Haya, uma M. me Rughel, soberba creatura de cabelos de ouro fulvo, grande e branca como uma ninfa de Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas sucessivas de livros, outras de instrumentos e aparelhos, toda uma biblioteca e todo um laboratório—que trazia o Vilaça, manhãs inteiras, aturdido pelos armazens da alfandega.
—O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos amigos.
Havia quatorze meses que ele o não via, o «seu rapaz», a não ser em uma fotografia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E o coração batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço do Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do alto prédio fronteiro, um grande paquete do Royal Mail que, lhe trazia o seu neto.
Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Vilaça—não se fartavam de admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos». Que diferença da fotografia! Que forte, que saudável!
Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistiveis olhos do pai, de um negro liquido, ternos como os de ele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo—o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido transbordava de emoção, todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, em uma larga veia, falando da viagem, dos belos dias de Roma, do seu mau humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da Holanda...
—E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em que Carlos estivera bebendo
o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu fazer?
—Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. Descançar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
Ao outro dia, com efeito, Affonso veio encontrá-lo na sala de bilhar—onde tinham sido colocados os caixotes—a despregar, a desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com entusiasmo. Pelo chão, pelos sofás, alastrava-se toda uma literatura em rumas de volumes graves; e aqui e além, por entre a palha, através das lonas descozidas, a luz faiscava em um cristal, ou reluziam os vernizes, os metais polidos de aparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquele pomposo aparato do saber.
—E onde vais tu acomodar este museo?
Carlos pensara em arranjar um vasto laboratório ali perto no bairro, com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos anatômicos e physiologicos, a sua biblioteca, os seus aparelhos, uma concentração metódica de todos os instrumentos de estudo...
Os olhos do avô iluminavam-se ouvindo este plano grandioso.
—E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos em estes últimos anos de Santa Olavia algumas economias...
—Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Vilaça.
As semanas foram passando em estes planos de instalação.
Carlos trazia realmente resoluções sinceras de trabalho: a sciencia como mera ornamentação interior do espirito, mais inutil para os outros que as próprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitário: desejava ser útil. Mas as suas ambições fluctuavam, intensas e vagas; ora pensava em uma larga clinica; ora na composição macissa de um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas, pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de aplicação. «Alguma coisa de brilhante,» como ele dizia: e isto para ele, homem de luxo e homem de estudo, significava um conjuncto de representação social e de atividade scientifica; o remecher profundo de idéas entre as influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da filosofia entremeados com requintes de sport e de gosto; um Claude Bernard que fosse também um Morny... No fundo era um diletante.
Vilaça fora consultado sobre a localidade própria para o laboratório; e o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel. Primeira coisa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
Carlos não decidira fazer
exclusivamente clinica: mas desejava de certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. Então Vilaça suggeriu que o consultório estivesse separado do laboratório.
—E a minha razão é esta: a vista de aparelhos, machinas, coisas, faz esmorecer os doentes...
—Tem você razão, Vilaça! exclamou Affonso. Já meu pai dizia: poupe-se ao boi a vista do malho.
—Separados, separados, meu senhor, afirmou o procurador em um tom profundo.
Carlos concordou. E Vilaça bem depressa descobriu, para o laboratório, um antigo armazém, vasto e retirado, ao fundo de um pátio, junto ao largo das Necessidades.
—E o consultório, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, ali em pleno Rocio!
Esta idéa do Vilaça não era desinteressada. Grande entusiasta da Fusão, membro do Centro progressista, Vilaça Junior aspirava a ser vereador da camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando o seu aniversario natalício vinha anunciado no Illustrado, ou quando no Centro citava com aplauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultório gratuito, no Rocio, o consultório do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que de aí a dois dias tinha lá alugado um primeiro andar de esquina.
Carlos mobilou-o com luxo. em uma antecamara, guarnecida de banquetas de marroquim, devia estacionar, á francesa, um creado de libré. A sala de espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita cor, e ricas poltronas cercando a jardineira coberta de coleções do
Charivari, de vistas
estereoscópicas, de albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente o ar triste de consultório até um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quase austero, todo em veludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporâneo e agora visinho do Ramalhete, o Cruges, o marquês de Souzellas, com quem percorrera a Itália—vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano e achou-o abominável; Taveira absorveu-se nas fotografias de actrizes; e a única aprovação franca veio do marquês, que depois de contemplar o divan do gabinete, verdadeiro móvel de serralho, vasto, voluptuoso, fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a Carlos:
—A calhar.
Não pareciam acreditar em estes preparativos. E todavia eram sinceros. Carlos até fizera anunciar o consultório nos jornais; quando viu porem o seu nome em letras grossas, entre o de uma engomadeira á Boa Hora e um reclamo de casa de hospedes,—encarregou Vilaça de retirar o anuncio.
Occupava-se então mais do laboratório, que decidira instalar no armazém, ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ía visitar as obras. Entrava-se por um grande pátio, onde uma bela sombra cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro. Carlos já decidira transformar aquele espaço em fresco
jardinete inglez; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, resto de fachada de ermida, fazendo um acesso venerável para o seu sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago martelar preguiçoso em uma poeira alvadia; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar ali, desde séculos, aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os trabalhadores que andavam alargando a claraboia, não cessavam de assobiar, no sol de inverno, alguma lamuria de fado.
Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre de obras, que lhe asseverava invariavelmente «como de aí a dois dias havia de s. ex. a vêr a diferença.» Era um homem de meia edade, risonho, de falar doce, muito barbeado, muito lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e tinha no bairro fama de republicano. Carlos, por simpatia, como visinho, apertava-lhe sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um «avançado», um democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que ele desejava primeiro que tudo era um 93, como em França...
—O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliça face do demagogo.
—Não, senhor, um navio, um simples navio...
—Um navio?
—Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse pela barra fora o rei, a família
real, a cambada dos ministros, dos políticos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, ás vezes argumentava com ele.
—Mas está o sr. Vicente bem certo, que apenas a cambada, como tão exactamente diz, desaparecesse pela barra fora, ficavam resolvidas todas as coisas e tudo atolado em felicidade?
Não, o sr. Vicente não era tão «burro» que assim pensasse. Mas, suprimida a cambada, não via s. ex. a? Ficava o paiz desatravancado; e podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso...
—Sabe v. ex. a qual é o nosso mal? Não é má vontade de essa gente; é muita soma de ignorância. Não sabem. Não sabem nada. Eles não são maus, mas são umas cavalgaduras!
—Bem, então essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o relógio e despedindo-se de ele com um valente shakehands, veja se me andam. Não lho peço como proprietário, é como correligionário.
—de aqui a dois dias ha de v. ex. a vêr a diferença, respondia o mestre de obras, desbarretando-se.
No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoço. Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de jantar, acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépida suavidade de aquele fim de outono não permitia acender lume, mas verdejando todo de plantas de estufa.
Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu luxo macisso e sóbrio, as baixelas antigas; pelas tapeçarias ovais dos muros
apainelados corriam scenas de balada, caçadores medivaes soltando o falcão, uma dama entre pagens alimentando os cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio; e contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza resplandecia com as flôres entre os cristais.
O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatário da Egreja comia com os senhores, lá estava já, magestosamente sentado sobre a alvura nevada da toalha, á sombra de algum grande ramo. Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, com o seu vagar estupido, as sopas de leite servidas em um covilhete de Strasburgo, depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de ouro, gozava de leve uma sesta macia.
Affonso,—como confessava, sorrindo e humilhado—ía-se tornando com a velhice um gourmet
exigente; e acolhia, com uma concentração de critico, as obras de arte do chef francês que tinham agora, um cavalheiro de mau gênio, todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, precipitando-se sobre relógio, se lembrava do seu consultório. Bebia
um cálice de Chartreuse, acendia á pressa um charuto:
—Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquela ocupação, enquanto ele ficava ali a vadiar toda a manhã...
—Quando esse eterno laboratório estiver acabado, talvez vá para lá passar um bocado, ocupar-me de chimica.
—E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio.
O velho sorria.
—Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade!
—Quer alguma coisa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando á pressa as suas luvas de governar.
—Bom dia de trabalho.
—Pouco provável...
E no dog-cart, com aquela linda egoa, a Tunante, ou no faeton com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estilo para a Baixa, para «o trabalho.»
O seu gabinete, no consultório, dormia em uma paz tépida entre os espessos veludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda verde corridas. Na sala, porém, as três janelas abertas bebiam á farta a luz; tudo ali parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira estendiam os seus braços, amáveis e convidativas; o teclado branco do piano ria e esperava,
tendo abertas por cima as
Canções de Gounod; mas não aparecia jamais um doente. E Carlos,—exactamente como o creado que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o Diario de Noticias, acaçapado na banqueta—acendia um cigarro Laferme, tomava uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porém dos artigos estava como embebida do tédio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, deixava caír o volume.
Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, em uma vibração mais clara, por aquele ar fino de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas mesquinhas das árvores de município, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar aveludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco em aquele abafado gabinete e resvelando pelos veludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos em uma indolencia e em uma dormência... Com a cabeça na almofada, fumando, ali ficava, em essa quietação de sesta, em um scismar que se ía desprendendo, vago e tênue, como o tenuo e leve fumo que se eleva de uma brazeira meia apagada; até que com um esforço sacudia este torpor, passeiava na sala, abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois compassos de walsa, espriguiçava-se—e, com os olhos nas flores do tapete, terminava por decidir que aquelas duas horas de consultório eram estupidas!
—Está aí o carro? ía perguntar ao creado.
Acendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando consigo:
—Dia perdido!
Foi uma de essas manhãs que preguiçando assim no sofá com a Revista dos Dois Mundos na mão, ele ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro:
—Sua Alteza Real está visível?
—Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sofá.
E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
—Quando chegaste tu?
—Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! Tu vens esplendido de esses Londres, de essas civilisações superiores. Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não ha nada como a barba toda!
Carlos ria, abraçando-o outra vez.
—E de onde vens tu, de Celorico?
—Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço, uma infinidade de vísceras comprometidas. Emfim, doze anos de vinhos e águas ardentes...
Depois falaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás várzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
—Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me sucede com minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não caíu! Fiquei na quinta, fazendo epigramas ao padre Serafim e a toda a côrte do céu. Chega julho, e aparece nos arredores uma epidemia de anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diftéricas... A mamã salta imediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que ofendeu Nosso Senhor e atraiu o flagelo. Minha irmã concorda. Consultam o padre Serafim. O homem, que não gosta de me vêr na quinta, diz que é possível que haja indignação do Senhor—e minha mãe vem pedir-me quase de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja ali chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
—E a epidemia...
—Desapareceu logo, disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos magros uma longa luva cor de canário.
Carlos mirava aquelas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o cabelo que ele trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de setim
uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dândi, vistoso, paramentado, artificial e com pó de arroz—e Carlos deixou emfim escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos lábios:
—Ega, que extraordinario casaco!
Por aquele sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma peliça, uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tisico uma rica e fôfa espessura de peles de marta.
—É uma boa peliça, hein? disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exhibindo a opulência do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Benefícios da epidemia.
—Como podes tu suportar isso?
—É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
—E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto explendido!
Carlos falou dos seus planos, de altas idéas de trabalho, das obras do laboratório...
—Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o veludo dos reposteiros, mirar os torneados da secretária de pau preto.
—Não sei. O Vilaça é que deve saber...
E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da peliça, inventariando o gabinete, fazia considerações:
—O veludo dá seriedade... E o verde escuro é a cor suprema, é a cor estética... Tem a sua expressão própria, enternece e faz pensar... Gosto de este divan. Movel de amor...
Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, estudando os ornatos.
—Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E o cretonesinho agrada-me.
Apalpou-o também. Uma begônia, manchada da sua ferrugem de prata, em um vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do piano, olhando o livro de musica aberto, as
Canções de Gounod, teve uma surpreza enternecida:
—Homem, é curioso... Cá me aparece! A
Barcarolla! É deliciosa, hein?...
Dites, la jeune belê,
Ou voulez-vous aller?
La voile...
Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz!
Carlos teve outra exclamação, e crusando os braços diante de ele:
—Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro Ega!... A propósito da Foz... Quem é essa Madame Cohen, que estava também na Foz, de quem tu, em cartas sucessivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin,
na Haia, em Londres, me falavas como os arrobos do Cantico dos Canticos?
Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando negligentemente o monocolo ao lenço de seda branca:
—Uma judia. Por isso usei o lirismo bíblico. É a mulher do Cohen, hás de conhecer, um que é diretor do Banco Nacional... Démos-nos bastante. É simpática... Mas o marido é uma besta... Foi uma
flitartion de praia.
Voila tout.
Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e ainda córado.
—Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô Affonso? Quem vai por lá?...
No Ramalhete, o avô fazia o seu
whist com os velhos parceiros. Ia o D. Diogo, o decrepito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de sangue, á espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
—Não conheço. Refugiado?... Polaco?...
—Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomáticas, tantos documentos, tantas coisas com o selo real da Filandia, que o pobre Vilaça aturdido, para se desembaraçar, remeteu-o ao avô. O avô, desnorteado também, ofereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken considera isto um serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia, vai visitar o avô, em grande estado, com o secretario da legação, o cônsul, o vice-cônsul...
—Isso é sublime!
—O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, um gentleman, entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma autoridade no wisth, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete.
—E de rapazes?
De rapazes, aparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de gênio; o marquês de Souzellas...
—Não ha mulheres?
—Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa, coitada...
—Bem sei. Um apopleté...
—Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos também o Silveirinha, chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
—O de Resende, o cretino?
—O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado tisico, todo carregado de luto... Um fúnebre.
O Ega, repoltreado, com aquele ar de tranquila e solida felicidade que Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos:
—É necessário reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenáculo, uma bohemiasinha dourada, umas soirées de inverno, com arte, com literatura... Tu conheces o Craft?
—Sim, creio que tenho ouvido falar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensável conhecer
o Craft! O Craft era simplesmente a melhor coisa que havia em Portugal...
—É um inglez, uma especie de doido?...
Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos Fanqueiros; o indígena, vendo uma originalidade tão forte como a de Craft, não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz extraordinario!... Agora tinha ele chegado da Suecia, de passar três meses com os estudantes de Upsala. Estava também na Foz... Uma individualidade de primeira ordem!
—É um negociante do Porto, não é?
—Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face, enojado de tanta ignorância. O Craft é filho de um
clergiman da egreja inglesa do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou de Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. Mas não negoceia, nem sabe o que isso é. Dá largas ao seu temperamento byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo, coleciona obras de arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim vive,
vive na grande, na forte, na heroica acepção da palavra. É necessário conhecer o Craft. Vais-te babar por ele... Tens razão, caramba, está calor.
Desembaraçou-se da opulenta peliça, e apareceu em peitilho de camisa.
—O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem colete?
—Não; então não a podia aguentar... Isto é para
o efeito moral, para impressionar o indígena... Mas, não ha negal-o, é pesada!
E imediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron de arte e diletantismo, rapazes e mulheres—três ou quatro mulheres para cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das filosofias...
Carlos ria-se de esta idéa do Ega. Três mulheres de gosto e de luxo, em Lisboa, para adornar um cenáculo! Lamentavel ilusão de um homem de Celorico! O marquês de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma coisa bem mais simples—um jantar no campo com actrizes. Pois fora o escândalo mais engraçado e mais característico: uma não tinha creada e queria levar consigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia que, aceitando, o brasileiro lhe tirasse a mesada; uma consentiu, mas o amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir; aquela pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se intrigas,—emfim esta coisa banal, um jantar com actrizes, resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada...
—E aqui tens tu Lisboa.
—Emfim, exclamou o Ega, se não aparecerem
mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, idéas, filosofias, teorias, assumptos, estéticas, ciências, estilo, industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?
Desembaraçado da majestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes frases, em uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do olho, que ele procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se também, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o Nihilismo; depois, com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz...
Mas o relógio ao lado bateu quatro horas; imediatamente Ega saltou sobre a pelissa, sepultou-se em ela, aguçou o bigode ao espelho, verificou a
pose, e, encouraçado nos seus alamares, saio com um arsinho de luxo e de aventura.
—John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar, onde estás tu?
—No Universal, esse sanctuario!
Carlos abominava o Universal, queria que ele viesse para o Ramalhete.
—Não me convém...
—Em todo o caso vais hoje lá jantar, vêr o avô.
—Não posso. Estou comprometido com a besta do Cohen... Mas vou lá amanhã almoçar.
Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para cima:
—Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
—O quê! está pronto? exclamou Carlos, espantado.
—Está esboçado, á brocha larga...
O Livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dois últimos anos, que ele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulos de capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela fórma e pela idéa, uma evolução literária. Em Lisboa (onde ele vinha passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fora anunciado como um acontecimento. Bachareis, contemporâneos ou seus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelas províncias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa noticia chegara ao Brasil... E sentindo esta ansiosa espectativa em torno do seu livro—o Ega decidira-se emfim a escrevel-o.
Devia ser uma epopêa em prosa, como ele dizia,
dando, sob episódios simbólicos, a historia das grandes fases do Universo e da Humanidade. Intitulava-se
Memorias de um Atomo, e tinha a fórma de uma autobiografia. Este átomo (o átomo do Ega, como se lhe chamava a serio em Coimbra) aparecia no primeiro capítulo, rolando ainda no vago das Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faísca candente, na massa de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira folha de planta que surgiu da crosta ainda mole do globo. Desde então, viajando nas incessantes transformações da substancia, o átomo do Ega entrava na rude structura do Orango, pai da humanidade—e mais tarde vivia nos lábios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na espada dos heróis, palpitava no coração dos poetas. Gota de água nos lagos de Galiléa, ouvira o falar de Jesus, aos fins da tarde, quando os apóstolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção, sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anéis de Saturno; e as madrugadas da terra tinham-em o orvalhado, pétala resplandecente de um dormente e languido lírio. Fora omnipresente, era omnisciente. Achando-se finalmente no bico da pena do Ega, e cançado de esta jornada através do Ser, repousava—escrevendo as suas Memorias... Tal era este formidável trabalho—de que os admiradores do Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
—É uma Biblia!