Volume II — Capítulo III
Carlos, que almoçara cedo, estava para sair no coupé, e já de chapéo—quando Batista veio dizer que o Sr.. Ega, desejando falar-lhe em uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O Sr.. Ega ficara a fazer a barba.
Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ela chegara a Lisboa, Ega ainda a não vira, e falava de ela raramente. Mas Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhãs o pobre Ega mostrava um desapontamento ao receber o correio, que só lhe trazia algum jornal cintado, ou cartas de Celorico. Á noite percorria dois, três teatros, já quase vazios em aquele começo de verão; e ao recolher era outra desconsolação, quando os criados lhe afirmavam, com certeza, que não viera carta alguma para s. exc. a
Decerto Ega não se resignava a perder Rachel, anciava por a encontrar; e roía-o o despeito de que ela, de qualquer modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração permanecia ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na véspera Ega aparecera á hora do jantar, transtornado: cruzara-se com o Cohen na rua do Ouro, e parecera-lhe que «esse canalha» lhe atirara de lado um olhar atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha» ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente, a uma esquina da Baixa.
Na ante-camara o relógio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir ao quarto do Ega. Mas em esse instante o correio chegava, com a
Revista dos Dois Mundos, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos acabava de a lêr—quando o Ega apareceu, de jaquetão, e em chinelas.
—Tenho a falar-te em uma coisa grave, menino.
—Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.
A Gouvarinho, em um tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, Carlos faltara ao
rendez-vous em casa da titi, sem lhe ter sequer escrito uma palavra; ela vira em isto uma ofensa, uma brutalidade; e vinha agora intimal-o, «em nome de todos os sacrifícios que por ele fizera», a que
aparecesse na rua de S. Marçal, domingo ao meio dia, para terem uma explicação definitiva antes de ela partir para Cintra.
—Excelente ocasião de acabar! exclamou Ega, entregando a carta a Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não vás, nem respondas... Ela parte para Cintra, tu para Santa Olavia, não vos vêdes mais, e assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o Império Romano, e como o Reno, por dispersão, insensivelmente...
—É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a calçar as luvas. Jesus! Que mulher massadora!
—E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrifícios!...» Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá de extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao sétimo céo, delira, e depois põe dolorosamente os olhos no chão, e chama a isso «sacrifícios...» Só com um chicote!...
Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se nas condessas de Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia e dólo.
—E que é isso que tu me tinhas a dizer?
Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma cigarrette, abotoou devagar o jaquetão.
—Tu não tens visto o Damaso?
—Nunca mais me apareceu, disse Carlos. Creio que está amuado... Eu sempre que o encontro,
aceno-lhe de longe amigavelmente com dois dedos...
—Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda aí, por toda a parte, falando de ti e de essa senhora, tua amiga... A ti chama-te
pulha, a ela peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou, que te meteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro, e tu és o mais rico, ela lhe passou o pé... Vês de aí a infamiasinha. E isto tagarelado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe pôr cobro.
Carlos, muito pálido, disse simplesmente:
—Ha de se fazer justiça.
Desceu, indignado. Aquela torpe insinuação sobre «dinheiro» parecia-lhe poder ser castigada só com a morte. E um instante mesmo, com a mão no fecho da portinhola do coupé, pensou em correr a casa do Damaso, tomar um desforço brutal.
Mas eram quase onze horas, e ele tinha de ir aos Olivais. No dia seguinte, sabbado, dia belo entre todos e solene para o seu coração, Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficara combinado, na véspera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós, em aquela casa solitária e sem criados, escondida entre as árvores. Ele pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ela consentira logo, sorrindo e naturalmente. em essa manhã ele mandara aos Olivais dois
criados para arejar as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá, como um devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrário da sua deusa... E era através de estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe aparecia outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarelice do Damaso!
Até aos Olivais, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não haveria paz, enquanto aquele vilão o andasse comentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessário enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que ele não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Damaso, uma tarde, no Chiado, com aparato...
Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisára a linda rua de acácias que os pés de ela pisariam na manhã seguinte: dera um longo olhar ao leito que seria o leito de ela, rico, alçado sobre um estrado, envolto em cortinados de brocatel cor de ouro, com um esplendor sério de altar profano... de aí a poucas horas, encontrar-se-hiam sós em aquela casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão os seus amores viveriam escondidos em esse fresco retiro de aldêa; e de aí a três meses estariam longe, na Itália, á beira de um claro lago, entre as flôres de Isola Bela... No meio de estas voluptuosidades magnificas, que lhe
podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calão nos bilhares do Gremio! Quando chegou á rua de S. Francisco resolvera, se visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
Maria Eduarda fora passear a Belém com Rosa deixando-lhe um bilhete, em que lhe pedia para vir á noite
faire un bout de causerie. Carlos desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na carteira como uma dôce reliquia; e saia o portão, no momento em que o Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.
Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com efusão o seu Carlos. E falou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, em Colares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrara do rico dia passado com Carlos e com o maestro em Seteais!... Cintra uma beleza. Ele, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão erudito e tão profundo, apesar da excelente musica da mulher, da Julinha (que para ele era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão de velhice...
—Com efeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o teu ar aureolado.
O poeta encolheu os hombros.
—O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia que o diz...? Não; é S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a autoridade não faz ao caso. em um de esses santos livros se afirma que este mundo é um Vale de lagrimas...
—Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na véspera ele dissera isso mesmo em casa dos Cohens...
E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço de Carlos:
—E agora por falar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo, ninguém lhe admira mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu aprovas que ele, apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse meter em Lisboa? Depois do que houve!...
Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo da chegada, horas depois, soubera pela Gazeta Ilustrada a vinda dos Cohens... E de resto se não pudessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas entre as quais tivesse havido atritos desagradaveis, as sociedades humanas tinham de se desfazer...
Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeça baixa. Depois parou de novo, franzindo a testa:
—Outra coisa em que te quero falar. Houve entre ti e o Damaso alguma péga? Eu pergunto-te isto porque em outro dia, lá em casa dos Cohens, ele veio com uns ditos, umas insinuações... Eu declarei-lhe logo: «Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, é como se fosse meu irmão.» E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que eu em estas coisas de lealdade e de coração sou uma fera!
Carlos disse simplesmente:
—Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.
—Pois é verdade, continuou Alencar tomando o braço de Carlos, lembrei-me muito de ti em Cintra. Até fiz lá um coisita que me não saiu má, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho de Cintra ao pôr do sol. Quis provar aí a esses da Idéa Nova, que, sendo necessário, também por cá se sabe cinzelar o verso moderno e dar o traço realista. Ora espera aí, eu te digo, se me lembrar. A coisa chama-se— Na estrada dos Capuchos...
Tinham parado á esquina do Seixas; e o poeta tossira já de leve, antes de recitar,—quando justamente lhes apareceu o Ega, vindo de baixo, vestido de campo, com uma bela rosa branca no jaquetão de flanela azul.
Alencar e ele não se encontravam desde a fatal soirée dos Cohens. E ao passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo
em ele o inventor de essa pérfida lenda da «carta obscena»—Alencar odiava-o pela certeza secreta de que ele fora o amante amado da sua divina Rachel. Ambos se fizeram pálidos; o aperto de mão que deram foi incerto e regelado; e ficaram calados, todos três, enquanto Ega nervoso levava uma eternidade a acender o charuto no lume de Carlos. Mas foi ele que falou, por entre uma fumaça, affectando uma superioridade amável:
—Acho-te com boa cor, Alencar!
O poeta foi amável também, um pouco de alto, passando os dedos no bigode:
—Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos dás essas
Memorias, homem?
—Estou á espera que o paiz aprenda a lêr.
—Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, ele ocupa-se da Instrução publica... Olha, ali o tens tu, grave e ocó como uma coluna do
Diario do Governo...
O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado de eles, de chapéo branco, de colete branco, o Damaso deitava olhares pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus domínios. Já aquele arzinho gordo de tranquilo triunfo irritou Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de costas para ele, ostentando rir alto com o Gouvarinho, não se conteve, atravessou a rua.
Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:
—Ouve lá. Se contínuas a falar de mim e de pessoas das minhas relações, do modo como tens falado, e que não me convém, arranco-te as orelhas.
O conde acudiu, metendo-se entre eles:
—Maia, por quem é! Aqui no Chiado...
—Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sério e muito sereno. É apenas um aviso a este imbecil.
—Eu não quero questões, eu não quero questões!... balbuciou o Damaso, livido, enfiando para dentro de uma tabacaria.
E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho.
Vinha apenas um pouco pálido: mais perturbado estava o Ega, que julgara vêr de novo, em um olhar do Cohen, uma provocação intolerável. Só o Alencar não reparara em nada: continuava a discursar sobre coisas literárias, explicando ao Ega as concessões que se podiam fazer ao naturalismo...
—Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de paizagem é necessário copiar a realidade... Não se pode descrever um castanheiro a priori, como se descreveria uma alma... E lá isso faço eu... Aí está esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É realista, está claro que é realista... Pudéra, se é paizagem! Ora eu vol-o digo... Ia justamente dizê-lo, quando tu apareceste, Ega... Mas vejam lá vocês se isto os massa...
Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S. Francisco, mais silenciosa. Aí, dando um passo lento, depois outro, o poeta murmurou a sua écloga. Era em Cintra, ao pôr do sol: uma inglesa, de cabelos soltos, toda de branco, desce em um burrinho por uma vereda que domina um Vale; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das madresilvas; então a inglesa para, deixa o burrinho, olha enlevada o céo, os arvoredos, a paz das casas;—e aí, no último terceto, vinha «a nota realista» de que se ufanava o Alencar: