Volume II — Capítulo VI
Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorara no corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:
—Então, definitivamente, v. exc. a
não vem ao sarau da Trindade?...
Ela voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa lenta que lhe cantava entre os dedos:
—Não me interessa, estou muito cançada...
—É uma seca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se estirara consoladamente, fumando, de olhos cerrados.
Ega protestou. Também era uma massada subir ás Pyramides no Egypto. E no emtanto sofria-se invariavelmente, porque nem todos os dias póde
um christão trepar a um monumento que tem cinco mil anos de existência... Ora a Sr.. a D. Maria, em este sarau, ia vêr por dez tostões uma coisa também rara,—a alma sentimental de um povo exhibindo-se em um palco, ao mesmo tempo nua e de casaca.
—Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho!
Ela sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.
—Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino... Vamos lá, Carlos, mexe-te!
Mas Carlos implorou clemencia:
—Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do
Hamlet. Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam mais tarde...
Então Ega, cedendo também a todo aquele conchego tépido e amável, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção d' Ophelia, de que Maria já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
Pâle et blonde,
Dort sous l'eau profonde...
Ega adorava esta velha balada escandinávia. Mais porém o encantava Maria que nunca lhe parecera tão bela: o vestido claro que tinha em essa noite modelava-a com a perfeição de um mármore: e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons de ouro esfiado no cabelo—o
incomparável ebúrneo da sua pele ganhava em esplendor e mimo... Tudo em ela era harmonioso, são, perfeito... E quanto aquela serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz de estes reinos! Em torno de ele só havia facilidades, doçuras. Era rico, inteligente, de uma saúde de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só tinha o numero de inimigos que é necessário para confirmar uma superioridade; nunca sofrera de dispepsia; jogava as armas bastante para ser temido; e na sua complacência de forte nem a tolice publica o irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!
—Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés pelo tapete, quando Maria findou a canção d' Ophelia.
Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
—É esse grande orador de que falavam na
Toca?
Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente, homem de eloquência e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera grande, deputado por Monção, e sublime em essa arte, antigamente nacional e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, em uma voz de teatro e de papo, combinações sonoras de palavras...
—Detesto isso! rosnou Carlos.
Maria também achava intolerável um sujeito a chilrear, sem idéas, como um pássaro em um galho de árvore...
—É conforme a ocasião, observou Ega, olhando o relógio. Uma walsa de Strauss também não tem idéas, e á noite, com mulheres em uma sala, é deliciosa...
Não, não! Maria entendia que essa retorica amesquinhava sempre a palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar fórma ás idéas. A musica, essa, fala aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma criança, ela ri-se e salta no colo...
—E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho seca-se e berra!
—Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos costumes que ela cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista, que não tenha um fraco pela força, pelos atletas, pelo sport, pelos músculos de ferro. E nós, os meridionais, por mais criticos, gostamos do palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes, um piano e gente de casaca, pelo-me por um bocado de retorica.
E, com o apetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, voar á
Trindade, em um receio de perder o Rufino.
Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:
—Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau
aqui! Maria toca Beethoven; nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se te apetece a eloquência; e passa-se a noite em uma medonha orgia de ideal!...
—E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
—Melhores poetas, afirmou Carlos.
—Bons charutos!
—Bom cognac!
Ega alçou os braços ao ar, desolado. Aí está como se pervertia um cidadão, impedindo-o de proteger as letras pátrias—com promessas pérfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto ele não tinha só uma razão literária para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
Meditações de Outono, e era necessário dar palmas ao Cruges.
—Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me o Cruges!... É um dever de honra! Abalemos.
E de aí a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao piano, os dois, surprehendidos com a beleza de essa noite de inverno, tão clara e dôce, seguiam devagar pela rua—onde Carlos ainda duas vezes se voltou para olhar as janelas alumiadas.
—Estou bem contente, exclamou ele travando do braço do Ega, em ter deixado os Olivais!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado de cavaco e de literatura...
Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto ao lado em um
fumoir
forrado com as suas colchas da Índia, depois ter um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho sonho, o cenáculo de diletantismo e de arte... Além de isso havia a lançar a Revista, que era a suprema pandega intelectual. Tudo isto anunciava um inverno chic a valer, como dizia o defunto Damaso.
—E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação ao paiz. Positivamente, menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!...
—Se me quiserem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja aqui na rua de S. Francisco... Que beleza de noite!
Pararam á porta do teatro da Trindade no momento em que, de uma tipoia de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
—É o tio do Damaso, o demagogo! Belo tipo!
—E segundo o Damaso, um dos bêbedos da família, lembrou Carlos rindo.
Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos, que dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse o Cruges...
—Qual! disse o Ega. Aquilo é aplaudir de retorica!
E com efeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés, segredando—sentiram logo um vozeirão túmido, garganteado, provinciano, de vogais arrastadas em canto, invocando lá do fundo, do estrado, «a alma religiosa de Lamartine!...»
—É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Teles da Gama que não passara da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Teles. Mas Ega, esguio e magro, foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. de ambos os lados se cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéos de senhoras picados por manchas claras de plumas ou flôres. Em volta, de pé, encostados aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o Sr.. Sousa Neto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua gaforinha ao vento; depois o marquês atabafado em um cache-nez de seda branca; e, em um grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendonça, o Pinheiro, assistindo
àquele sport da eloquência com uma mistura de assombro e tédio. Por cima, no parapeito de veludo da galeria, corria outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se molemente; por traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com um botão de camélia na casaca mal feita.
O gaz sufocava, vibrando cruamente em aquela sala clara, de um tom desmaiado de canário, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além uma tosse tímida de catarro desmanchava o silencio, logo abafada no lenço. E na extremidade da galeria, em um camarote feito de tabiques, com sanefas de veludo cor de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate.
No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo, «o
Anjo da Esmola que ele entrevira, além no azul, batendo as azas de setim...» Ega não comprehendia bem—entalado entre um padre muito gordo que pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim não se conteve:—«Sobre que está ele a falar?» E foi o padre que o informou, com a face luzidia, inflamada de entusiasmo:
—Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime... Infelizmente está a acabar!
Parecia ser, com efeito, a peroração. O Rufino
arrebatara o lenço, limpava a testa lentamente; depois arremeteu para a borda do tablado, voltando-se para as cadeiras reais com um tão ardente gesto de inspiração—que o colete repuxado descobriu o começo da ceroula. Foi então que Ega compreendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio de eles organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola que deslumbrava o Rufino—porque ele, «como todos os homens educados pela filosofia e que têm a verdadeira orientação mental do seu tempo, via nos grandes factos da historia não só a sua beleza poética, mas a sua influencia social. A multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada, para a incomparável poesia da mão calçada de fina luva que se estende para o pobre. Ele porém, filósofo, antevia já, saindo de esses delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O quê, meus senhores? O renascimento da Fé!»
De repente, um leque que escorregara da galeria, arrancando em baixo um berro a uma senhora gorda, criou um susurro, uma curta emoção. Um comissario do sarau, D. José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do tablado, com o seu laçarote de seda vermelha na casaca, dardejando severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam « chut, silencio,
fora! » E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando duramente... Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as da baronesa de Craben. Todo o rumor findava—e o Rufino, que molhara lentamente os lábios no copo, avançou um passo, sorrindo, com o lenço branco na mão:
—Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental de este século...
Mas o Ega sufocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão de que o padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou para traz, para desabafar com Carlos.
—Tu imaginavas uma besta assim?
—Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?
Ega não sabia, todo o programa fora alterado.
—E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, de azul... Hei de querer vêr logo esse encontro!
Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguém ciciar discretamente « bonsoir, messieurs...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E imediatamente Steinbroken queixou-se da ausência da família real...
—Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait
cependant assuré que la reine viendrait... C'est bien sous sa protection, em est-ce pas, toute cette musique, cês vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est três ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé?
—Merci...
Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça em uma tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura de uma aldeia, a aldeia em que ele nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se, enternecido, morrendo em um rumor de crepúsculo. Então Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande orador de que lhe tinham falado...
Ega afirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
—Em qual génerro?...
—Genero sublime, gênero de Demosthenes!
Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, falou em filandez ao seu secretario que entalou languidamente o monóculo: e com as claques debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como em um templo, os dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime.
Ruffino, no entanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade de sua alma! Apesar da poesia ambiente de essa sua aldeia natal, onde a violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus irrefutavelmente,—ele fora dilacerado pelo espinho da descrença! Sim, quantas vezes,
ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no Vale cantavam as ceifeiras, ele passara junto da cruz do adro e da cruz do cemitério, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!...
Um largo frêmito de emoção passou. Vozes sufocadas de gozo mal podiam murmurar « muito bem, muito bem...»
Pois fora em esse estado, devorado pela dúvida, que Rufino ouvira um grito de horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que sucedera? Era a Natureza que atacava seus filhos!—E lançando os braços, como quem se debate em uma catástrofe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um casal, ninho florido de amores; além, na quebrada, passava o balar choroso dos gados; mais longe as negras águas iam juntamente arrastando um botão de rosa e um berço!...
Os bravos partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para os outros, com um brilho na face, comungando no mesmo entusiasmo: «Que rajadas!... Caramba!... Sublime!...»
Rufino sorria, bebendo esta comoção, que era a obra do seu verbo. Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reais, solemnes e vazias...
Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel, ele erguera os olhos para o natural abrigo, para o exaltado logar de onde desce a salvação, para
o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre ele estenderem-se as azas brancas de um anjo! Era o anjo da esmola, meus senhores! E de onde vinha? de onde recebera a inspiração da caridade? de onde saia assim, com os seus cabelos de ouro? Dos livros da sciencia? dos laboratórios chimicos? de esses amphitheatros de anatomia onde se nega covardemente a alma? das secas escólas de filosofia que fazem de Jesus um precursor de Robespierre? Não! Ele ousara interrogar o anjo, submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaço divino, murmurara: «Venho de além!»
Então pelos bancos apinhados correu um susurro de enlevo. Era como se os estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um estremecimento devoto e poético arrepiava as cuias das senhoras.
E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! Desde esse momento, a dúvida fora em ele como a nevoa que o sol, este radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos de um Renan, de um Littré e de um Spencer, ele, que recebera a confidencia divina, podia ali, com a mão sobre o coração, afirmar a todos bem alto—havia um céo!
—Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das Secretarias, da Arcada, da
Casa Havaneza, berrando, batendo as mãos, afirmaram soberbamente o céo!
O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera. Era o Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os bigodes.
—Que te parece, Tomás?
—Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
Tremia, revoltado! em uma noite de aquelas, toda de poesia, quando os homens de letras se deviam mostrar como são, filhos da democracia e da liberdade, vir aquele pulha pôr-se ali a lamber os pés á família real... Era simplesmente ascoroso!
Lá ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto de abraços, de comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E pela porta os homens escoavam-se, afogueados, comovidos ainda, puxando das charuteiras. Então o poeta travou do braço do Ega:
—Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o Guimarães, o tio do Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que é uma coisa séria, muito séria... Está lá em baixo no botequim, com um grog.
Ega pareceu surpreendido... Coisa séria!?
—Bem, vamos nós lá baixo tomar também um
grog! E que recitas tu logo, Alencar?
— A Democracia, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva. Uma coisita nova, tu verás... São algumas verdades duras a toda essa burguezia...
Estavam á porta do botequim—e precisamente o Sr.. Guimarães saia, com o chapéo sobre o olho, de charuto aceso, abotoando a sobrecasaca. Alencar lançou a apresentação, com imensa gravidade:
—O meu amigo João da Ega... O meu velho amigo Guimarães, um bravo cá dos nossos, um veterano da Democracia.
Ega acercou-se de uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da Democracia, quis saber se ele preferia cognac ou cerveja.
—Tomei agora o meu grog de guerra, disse o Sr.. Guimarães com secura, tenho para toda a noite.
Um criado dava uma limpadela lenta sobre o mármore da mesa. Ega ordenou cerveja. E diretamente, largando o charuto, passando a mão pelas barbas a retocar a majestade da face, o Sr.. Guimarães começou com lentidão e solemnidade:
—Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar para me apresentar a v. exc. a, com o fim de o intimar a que olhe bem para mim e que diga se me acha cara de bêbedo...
Ega compreendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
—V. exc. a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
—Carta que v. exc. a dictou! Carta que v. exc. a
o forçou a assignar!
—Eu?...
—Affirmou-m'o ele, senhor!
Alencar interveio:
—Fallem vocês baixo, que diabo!... Isto é terra de curiosos...
O Sr.. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha estado, contou ele, havia semanas fora de Lisboa por negócios da herança de seu irmão. Não vira o sobrinho, porque só por necessidade se encontrava com esse imbecil. Na véspera, em casa de um antigo amigo, o Vaz Forte, deitara por acaso os olhos ao Futuro, um jornal republicano, bem escrito, mas frouxo de idéas. E avistara logo na primeira pagina, em tipo enorme, sob esta rubrica aliás justa Coisas do high-life, a carta do sobrinho... Imagine o Sr.. Ega o seu furor! Ali mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos em estes termos: «Li a tua infame declaração. Se amanhã não fazes outra, em todos os jornais, dizendo que não tinhas intenção de me incluir entre os bêbedos da tua família, vou aí e quebro-te os ossos um por um. Treme!» Assim lhe escrevera. E sabia o Sr.. João da Ega qual fora a resposta do Sr.. Damaso?
—Tenho-a aqui, é um documento humano, como diz o amigo Zola! Aqui está... Grande papel, monograma de ouro, corôa de conde. Aquele asno! Quer v. exc. a que eu leia?
A um gesto risonho do Ega, ele mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
—«Meu caro tio! A carta de que fala foi escripta pelo Sr.. João da Ega. Eu era incapaz de tal desacato á nossa querida família. Foi ele que me agarrou na mão, á força, para eu assignar: e eu, em aquela atrapalhação, sem saber o que fazia, assignei para evitar falatórios. Foi um laço que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe como eu gósto de si, que até estava o ano passado com tenção, se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de Colares, não fique pois zangado comigo. Bem infeliz já eu sou! E se quiser procure esse João da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de tirar uma vingança que ha de ser falada! Ainda não decidi qual, em esta atarantação; mas em todo o caso a nossa família ha de ficar desenxovalhada, porque eu nunca admiti que ninguém brincasse com a minha dignidade... E se o não fiz já antes de partir para Itália, se ainda não pugnei pela minha honra, é porque ha dias, com todos estes abalos, veio-me uma tremenda disenteria, que estou que me não tenho nas pernas. Isto por cima dos meus males Morais!...» V. exc. a ri-se, Sr.. Ega?
—Pois que quer v. exc. a que eu faça? balbuciou o Ega por fim, sufocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se v. exc. a Isso é extraordinario! Essa dignidade, essa disenteria...
O Sr.. Guimarães, embaçado, olhou o Ega,
olhou o poeta que fungava sob os longos bigodes, e terminou por dizer:
—Com efeito, a carta é de uma cavalgadura... Mas o facto permanece...
Então Ega apelou para o bom senso do Sr.. Guimarães, para a sua experiencia das coisas de honra. Comprehendia ele que dois cavalheiros, indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem violentamente a assignar uma carta em que ele se declara bêbedo?...
O Sr.. Guimarães, agradado com aquela deferência pelo seu tacto e pela sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco natural.
—E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a Cafraria! E diga-me o Sr.. Guimarães outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente verídico?
O Sr.. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente:
—Um refinado mentiroso.
—Então! gritou Ega em triunfo, atirando os braços ao ar.
De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe satisfactoriamente finda. E não restava senão os dois apertarem-se a mão fraternalmente, como bons democratas...
Já de pé, atirou a genebra ás guelas. Ega sorria, estendia a mão ao Sr.. Guimarães. Mas o velho
demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, desejou que o Sr.. João da Ega (se em isso não tinha dúvida) declarasse, ali diante do amigo Alencar, que não lhe achava a ele, Guimarães, cara de bêbedo...
—Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara de um perfeito cavalheiro e de um patriota!
Então trocaram um rasgado aperto de mãos—enquanto o Sr.. Guimarães afirmava a sua satisfação por conhecer o Sr.. João da Ega, moço de tantos dotes e tão liberal. E quando s. exc. a quizesse qualquer coisa, politica ou literária, era escrever este endereço bem conhecido no mundo:— Redaction du
Rappel,
Paris!
Alencar abalara. E os dois deixaram o botequim, trocando impressões do sarau. O Sr.. Guimarães estava enojado com a carolice, a sabujice de esse Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro, quase lhe gritara cá do fundo: «Quanto te pagam para isso, miserável?»
Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo:
—Oh Sr.. a baronesa, então já nos abandona?
Era a Alvim que descia devagar, com a Joaninha Villar, atando as largas fitas de uma capa de pelúcia verde. Queixou-se de uma dor de cabeça que a torturava, apesar de ter gostado loucamente
do Rufino... Mas uma noite toda de literatura, que estafa! E agora, para mais, ficara lá um homemzinho a fazer musica clássica...
—É o meu amigo Cruges!
—Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o Pirolito.
—V. exc. a aflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... Não quer que a vá acompanhar á carruagem? Paciência... Muito boa noite, Sr.. a
D. Joana!... Um servo seu, Sr.. a baronesa! E Deus lhe tire a sua dor de cabeça!
Ela voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque:
—Não seja impostor! O Sr.. Ega não acredita em Deus.
—Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dor de cabeça, Sr.. a baronesa!
O velho democrata desaparecera discretamente. E da ante-sala Ega avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca—o Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martelando sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quase vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, cançadas, bocejavam por traz dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um rancho intimo, a marquesa de Soutal, as duas Pedrosos, a Teresa
Darque. E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquele musico de cabeleira.
—Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era composição de ele, aquela coisa triste?
—É de Beethoven, Sr.. a D. Maria da Cunha, a
Sonata patética.
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marquesa de Soutal, muito séria, muito bela, cheirando devagar um frasquinho de sais, disse que era a Sonata pateta. Por toda a bancada foi um rastilho de risos sufocados. A
Sonata pateta! Aquilo parecia divino! Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, imberbe e cor de papoula:
—Muito bem, Sr.. a marquesa, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á marquesa, entre o
frou-frou dos leques. Ela triunfava, bela e séria, com um velho vestido de veludo preto, respirando os sais—enquanto adiante um amador de barba grisalha cravava em aquele rancho ruidoso dois grandes óculos de ouro que faiscavam de cólera.
No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarroados tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a
Tarde. E caído sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre Cruges, suando, estonteado por aquela
desatenção rumorosa, atabalhoava as notas, em uma debandada.
—Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximara do Ega e do rancho.
Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até que emfim se via o Sr.. Carlos da Maia, o Príncipe Tenebroso! Que fizera ele durante esse verão? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguém mesmo com ansiedade... Um
chut furioso do amador de barbas grisalhas emudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois acordes bruscos, arredara o môcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mãos ao lenço. Aqui e além algumas palmas resoaram, moles e de cortesia, entre um grande murmurio de alivio. E o Ega e Carlos correram á porta, onde já esperavam o marquês, o Craft, o Taveira—para abraçar, consolar o pobre Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
E imediatamente, no silencio atento que redominava, um sujeito muito magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mão. Alguém ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia falar sobre o Estado agrícola da província do Minho. Atraz, um criado veio colocar sobre a mesa um candelabro de duas velas: o Prata, de ilharga para a luz, mergulhou no caderno: e de entre o perfil triste e as folhas largas um rumor lento foi escorrendo, rumor de reza em uma somnolencia de novena, onde por vezes destacavam como gemidos—«riqueza
dos gados..., esfacelamento da propriedade..., fértil e desprotegida região...»
Começou então uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os chuts do comissario do sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado, podiam conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mão em concha sobre a orelha.
Ega, que fugia também «ao vecejante paraíso do Minho», achou-se em frente do Sr.. Guimarães.
—Que massada, hein?
O democrata concordou que aquele preopinante não lhe parecia divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando um botão da casaca do Ega:
—Eu espero que v. exc. a ha pouco não ficasse com a impressão de que eu sou solidário ou me importo com meu sobrinho...
Oh! decerto que não! Ega vira bem que o Sr.. Guimarães não tinha pelo Damaso nenhum entusiasmo de família.
—Asco, senhor, só asco! Quando ele foi a primeira vez a Paris, e soube que eu morava em uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquele imbecil dá-se ares de aristocrata... E como v. exc. a
sabe, é filho de um agiota!
Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
—A mãe, sim! Minha irmã era de uma boa família. Fez aquele desgraçado casamento, mas era
de uma boa família! Que, com os meus princípios, já v. exc. a
vê que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são para mim
blague e mais
blague! Mas emfim os factos são os factos, a historia de Portugal aí está... Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul.
Ega sorriu, em um assentimento cortez:
—E v. exc. a então parte brevemente para Paris?
—Amanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, já se póde lá respirar...
em esse instante Teles e o Taveira, passando de braço dado, voltaram-se, a observar curiosamente aquele velho austero, todo de preto, que falava alto com o Ega de marechais e de duques. Ega reparou: o democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquele gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.
—A república com efeito, observou ele, dando alguns passos ao lado do Sr.. Guimarães, esteve ali um momento comprometida!
—Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser expulso por causa de umas verdadesinhas que soltei em uma reunião anarchista. Até me afirmaram que em um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que é um tarimbeiro,
batera um murro na mesa e dissera: Ce sacré Guimaran, il nous embête, faut lui donner du pied dans le derrière! Eu não estava lá, não sei, mas afirmaram-me... Em Paris, como os franceses não sabem pronunciar Guimarães, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno Mr. Guimaran. Ha dois anos, quando fui á Itália, era Mr. Guimarini. E se for agora á Russia, cá por coisas, hei de ser Mr. Guimaroff... Embirro que me estropiem o nome!
Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias punham dentro, no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tédio; e no estrado o Prata continuava, de mão no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, sem que se sentisse agora surdir um som de aquele espantalho esguio. Mas o marquês, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de seda, disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da póda, e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon.
Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos lentos na ante-sala onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como em um pátio, entre fumaças furtivas de cigarro. E o Sr.. Guimarães chasqueava, achando uma boa
bêtise que se citasse Proudhon, ali em aquele teatreco, a propósito de estrumes do Minho...
—Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito, é já um monstro clássico. Até
os conselheiros de Estado já sabem que para ele a propriedade era um roubo, e Deus era o mal...
O democrata encolheu os hombros:
—Grande homem, senhor! Homem imenso! São os três grandes pimpões de este século: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
—O compadre! exclamou Ega, atônito.
Era o nome de amizade que o Sr.. Guimarães dava em Paris a Gambetta. Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe, em espanhol: «Hombre, compadre! » E ele também, logo: « Compadre, caramba! » de aí ficara a alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo de esta franqueza do sul, e patriota, até ali!
—Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
Pois Ega imaginaria que o Sr.. Guimarães, com as suas relações do
Rappel, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
—Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo!
E o Sr.. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
—É um mundo!.. E aqui onde me vê, ainda não ha três meses que ele me disse uma coisa que me foi direita ao coração!
Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou largamente esse glorioso lance que ainda o comovia:
—Foi uma noite no Rappel. Eu estava a escrever,
ele apareceu, já um pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquela bondade, aquela majestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto é, não! que se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como se ele fosse um Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Ele olhou para mim, fez assim um gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquele ar de gênio que tinha sempre: Bonsoir, mon âmi!
E o Sr.. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio, como se aquele
bonsoir, aquele
mon âmi, assim recordados, lhe fizessem mais vivamente sentir a sua importância no mundo.
De repente Alencar, que bracejava em um grupo, rompeu para eles, pálido, de olhos chamejantes:
—Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquele infame ali ha meia hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sair, não fica ninguém! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado ficara novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um cartão em grossas letras, que um criado colocara no piano, anunciava um «intervalo de dez minutos» como em um circo. E em esse instante a Sr.. a
condessa de Gouvarinho sahira pelo braço do marido,
deixando atraz um sulco largo de comprimentos, de espinhas que se vergavam, de chapéos de burocratas rasgadamente erguidos. O comissario do sarau azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc. as
A condessa porém foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ela vira, com as Pedrosos e a marquesa de Soutal, refugiada em um vão de janela. Ega imediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se beijocassem.
—Então, Sr.. a condessa, ainda muito comovida com a eloquência do Rufino?
—Muito cançada... E que calor, hein?
—Horrível. A Sr.. a baronesa de Alvim saiu ha pouco, com uma dor de cabeça...
A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos da boca, murmurou:
—Não admira, isto não é divertido... Emfim, já agora é necessário levar a cruz ao Calvário.
—Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente é uma lira!
Ela riu. E D. Maria da Cunha, em essa noite mais remoçada e viva, ficou logo toda banhada em um sorriso, com aquela carinhosa admiração pelo Ega, que era um dos seus sentimentos.
—Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que é feito do seu amigo Maia?
Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de Carlos, cochichar com Carlos. Mas conservou um ar inocente:
—Está aí, anda por aí, assistindo a toda essa literatura.
De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha rebrilharam com uma faísca de malicia:
—Falai no mau... em este caso seria falar do bom. Emfim aí nos vem o Príncipe Tenebroso!
E era com efeito Carlos que passava, se encontrara diante dos braços do conde de Gouvarinho, estendidos para ele com uma efusão em que parecia renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechara com ódio a portinhola da tipoia onde ela ficava chorando. Ambos baixaram os olhos, ao adiantar a mão um para o outro, lentamente. E foi ela que findou o embaraço, abrindo o seu grande leque de penas de avestruz:
—Que calor, não é verdade?
—Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc. a
apanhar ar de essa janela.
Ela forçou os lábios brancos a um sorriso:
—É conselho de medico?
—Oh, minha senhora, não são as horas da minha consulta! É apenas caridade de christão.
Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a marquesa de Soutal, para o reprehender por ele não ter aparecido terça-feira na rua de S. Marçal. Surpreendido com tanto interesse, tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho,
balbuciou que nem sabia, fora o seu infortúnio, tinham-se metido umas coisas...
—Além de isso não imaginei que v. exc. a
começasse a receber tão cedo... V. exc. a
antigamente era só depois da Cerração da Velha. Até me lembro que o ano passado...
Mas emudeceu. O conde de Gouvarinho voltara-se, pousando a mão carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impressão sobre o «nosso Rufino». Ele conde estava encantado! Encantado sobretudo com a
variedade de escala, aquela arte tão difícil de passar do solene para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de linguagem. Extraordinario!
—Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas, outros muitos. Mas não são estes vôos, esta opulência... É tudo muito seco, idéas e factos. Não entra em alma! Vejam os amigos aquela imagem tão pujante, tão respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as azas de setim... É de primeira ordem.
Ega não se conteve:
—Eu acho esse gênio um imbecil.
O conde sorriu, como á tonteria de uma criança:
—São opiniões...
E estendeu em redor as mãos ao Sousa Neto, ao Darque, ao Teles da Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo—enquanto os seus correligionários, os seus colegas do Centro e da Camara, o Gonçalo, o Neves, o Vieira da Costa rondavam de
longe, sem poder roçar pelo ministro que tinham creado, agora que ele conversava e ria com rapazes e senhoras da «sociedade». O Darque, que era parente do Gouvarinho, quis saber como o amigo Gastão se ia dando com os encargos do Poder... O conde declarou para os lados que não fizera mais por ora do que passar em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De resto, em questões de trabalho, o ministério fora infelicissimo! O presidente do conselho de cama com uma catarreira, inutil para uma semana. Agora o colega da fazenda com as febres do Aterro...
—Está melhor? Já sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
—Está na mesma, vai amanhã para o Dáfundo. Mas realmente esse não se acha de todo inutilisado. Ainda ontem eu lhe dizia: «Você parte para o Dáfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manhã dá os seus passeios, respira o bom ar... E á noite, depois de jantar, á luz do candieiro, entretem-se a resolver a questão de fazenda!»
Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate de azafama, veio, furando, anunciar a s. exc. a o fim do intervalo—oferecer o braço á Sr.. a condessa. Ao passar, ela lembrou a Carlos as suas «terças-feiras», com a delicada simplicidade de um dever. Ele curvou-se em silencio. Era como se todo o passado, o sofá que rolava, a casa da titi em Santa
Isabel, as tipoias em que ela deixava o seu cheiro de verbena—fossem coisas lidas por ambos em um livro e por ambos esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabeça e as lunetas, como representante do Poder em aquela festa da Inteligência.
—Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem topete!
—Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixão, e agora contínua tranquilamente na rotina da vida.
—E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo contigo, que a viste em camisa!... Bonito mundo!
Mas o Alencar apareceu no alto da escada, voltando do botequim e da genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braço, já preparado para gorgear. E o marquês juntou-se a eles, abafado no cache-nez de seda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto a garganta se lhe punha peor... Aquela canalha de aquela garganta ainda lhe vinha a pregar uma!...
Depois, muito sério, considerando o Alencar:
—Ouve lá, isso que tu vais recitar, a
Democracia, é politica ou sentimento? Se é politica, raspo-me. Mas se é sentimento, e a humanidade, e o santo operário, e a fraternidade, então fico, que de isso gósto e até talvez me faça bem.
Os outros afirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapéo, passou os dedos pelos anéis fôfos da grenha inspirada:
—Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra, vejam vocês Danton!... Mas já não falo emfim de esses leões da Revolução. Vejam vocês o Passos Manoel! Está claro, é necessário logica... Mas, também, caramba, sêbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de infinito!
Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão mais forte que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. João de Castro e de Affonso de Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era um maganão gordo, de barba em bico e camélia na casaca, que, de mão fechada no ar como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros que nós portuguezes, possuindo este nobre estuário do Tejo e tão formosas tradições de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do indiferentismo, a sublime herança dos avós!...
—É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
Mas o marquês reteve-os, gostando também de um bocado de Quinas. E foi o pobre marquês que o patriota pareceu interpelar, alçando na ponta dos botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora aí, que, agarrando em uma das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o convés de uma caravela a ir levar o nome portuguez através dos mares desconhecidos? Quem havia aí, heroico bastante, para imitar o grande João de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancara
todas as árvores de fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?...
—Aquele miserável quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
Em torno correram risos alegres. O marquês virou costas, enojado com aquela patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão, em um tédio completo de «todas as nossas glorias». E Carlos, enervado, preso ali pelo dever de aplaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao botequim espairecer a impaciência—quando viu o Eusebiosinho que descia a escada, enfiando á pressa um paletot alvadio. Não o encontrara mais desde a infâmia da Corneta, em que ele fora «embaixador». E a cólera que tivera contra ele em esse dia reviveu logo em um desejo irresistivel de o espancar. Disse ao Ega:
—Vou aproveitar o tempo, enquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as orelhas àquele maroto!
—Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsável!
Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo uma violência. Quando chegaram á porta, Eusebio metera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, àquela hora deserto, mudo, com dois bicos de gaz mortiços. Ao vêr Carlos fender assim sobre ele, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio, encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...»
—Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então também andaste metido em essa maroteira da
Corneta? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
Agarrára-lhe o braço, ainda sem ódio. Mas, apenas sentiu na sua mão de forte aquela carne molenga e tremula, resurgiu em ele essa aversão nunca apagada—que já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de luto que lhe rolara nas lages, dançava, escanifrado e desengonçado. Por fim Carlos atirou-o contra a porta de uma cocheira.
—Acudam! Aqui de el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.
Já a mão de Carlos lhe empolgara as guelas. Mas Ega interveio:
—Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse...
Ele mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de bruços, Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima de uma sargeta onde restavam imundícies e humidade de cavalo.
O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baços. Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristilo, cheio de
luz e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado de amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o pescoço e a face, exclamando com o cansaço radiante de um triumphador:
—Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com efeito Alencar aparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de duas velas.
Esguio, mais sombrio em aquele fundo cor de canário, o poeta derramou pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de tanta solemnidade.
— A Democracia! anunciou o auctor d' Elvira, com a pompa de uma revelação.
Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois atirou para a mesa. E levantando a mão em um gesto demorado e largo: