Capítulo Seis
Na tarde seguinte, Scott estava no pátio de treinamentos supervisionando as tropas. Também buscava ali um pouco de exercício. E distração.
Caminhando pelo chão de terra batida, observou homens de todas as idades — desde guerreiros experientes até recrutas recém alistados — espalhados em diferentes estações de treinamento.
Com as mangas arregaçadas e o olhar atento, ele caminhou entre os grupos, observando posturas de combate, comportamentos em campo, habilidades com espadas e escudos.
O exército do clã tinha um histórico de eficiência em batalhas, com sucessos significativos, embora fizesse algum tempo desde que houvera necessidade de envolvimento em grandes combates.
O último conflito significativo entre clãs, motivado por disputas de território, havia acontecido há sete anos. Na época, os Callahan ainda eram chefiados pelo pai de Scott e o número de baixas fora significativo. Sobretudo porque o antigo chefe não inspirava muito as tropas.
A situação piorou quando o pai firmou uma aliança com os Maklair, oferecendo a mão de Brianna, sua única filha, em troca de apoio militar. Fora uma medida necessária — eles precisavam aumentar o número de tropas não apenas para aquele conflito, mas garantir um engordamento militar a longo prazo. A decisão de Lorde Callahan havia sido controversa e não muito popular. Afinal, havia uma antipatia antiga entre os dois clãs que figuravam entre os maiores em território.
Scott sabia que, não fosse por sua presença e a de Declan em campo de batalha, muitos homens teriam abandonado a luta.
Mas isso tinha ficado no passado. Confiava na lealdade de suas tropas. Principalmente porque Declan havia feito um ótimo trabalho nos últimos anos. O irmão cultivara um exército disciplinado, eficiente e leal. Embora o número de homens treinados fosse menor do que gostariam.
Era um dilema que tentavam resolver há algum tempo. E o principal motivo pelo qual suportavam o cunhado.
Próximo à área de espadas, Scott encontrou Declan supervisionando combates em duplas. Ele parou às margens da luta em andamento. Era uma disputa com espadas de madeira entre dois recrutas.
— Concentre-se nos pés, Alec! — gritou Declan para um rapaz de cabelos pretos.
Alec mudou a posição, abrindo mais as pernas e espalhando o peso do corpo. O rapaz contra quem lutava deu uma guinada para a frente com a espada, quase atingindo-o no flanco.
— Se abrir a guarda assim numa luta real, vai acabar com a lâmina do inimigo no estômago. — Declan cruzou os braços e acrescentou para o adversário de Alec: — Zane, pare de brincar e ataque. Não se deve desperdiçar uma oportunidade em campo.
— Tenho tudo sobre controle, general. — Zane atacou de novo, mas Alec estava pronto dessa vez, com os pés mais firmes e o corpo pronto para esquivar-se. Os dois rapazes se cercaram, as espadas erguidas, os olhares concentrados um no outro.
— Estou envelhecendo aqui — cantarolou Declan, o tom entediado. — Acabem logo com isso!
Dessa vez, Alec foi aquele que atacou, em um movimento duplo e rápido que confundiu Zane, que bloqueou a primeira investida contra seu abdômen, mas não foi rápido o suficiente para a manobra seguinte, quando Alec levou a espada ao seu pescoço.
— Bom — disse Declan. O tom carregava aprovação, mas sem floreios. Ele encarou os outros recrutas, que assistiam à luta. — Quem quer me dizer os erros e acertos cometidos?
Os rapazes trocaram olhares. Um jovem espinhento de olhos castanhos e cabelos escuros indomados falou:
— Zane deveria ter atacado quando pôde.
Declan assentiu.
— Esse foi um dos erros — disse. — O que mais?
Um rapaz franzino, mais baixo que seus companheiros de luta, pigarreou. Ele baixou o olhar quando Declan olhou em sua direção.
— Tem algo a dizer, Loyd?
— Eu… Zane demorou a atacar… — Ele trocou o peso dos pés. Corou quando os outros começaram a rir.
Declan lançou um olhar gelado para o grupo. Então parou na frente do rapaz.
— Loyd?
O rapaz respirou fundo. Então endireitou a postura.
— Quando Zane demorou a atacar — A voz tremia, apesar da postura aprumada —, Alec usou isso a seu favor e o induziu ao erro. Ele sabia que… Se atacasse no abdômen, Zane baixaria a guarda. E deixaria o pescoço à mostra. — A cor começou a dominar seu rosto quando Declan apenas o analisou, demorando a comentar suas observações.
Um sorriso lento e satisfeito surgiu no rosto de Declan.
— Muito bom — disse, assentindo em aprovação na direção de Loyd. O rapaz retribuiu com um sorriso aliviado. Declan apontou para o grupo de recrutas. — Cérebro. Usem ele tanto quanto a espada. É essa combinação que vai garantir que sobrevivam. Estão dispensados.
Isso e a mudança na expressão do general fez os rapazes relaxarem, trocando comentários e insultos entre si.
Quando Declan se virou e começou a se afastar, Zane disse em tom alto:
— Que tal uma demonstração de luta de verdade, general? — Diante do arquear de sobrancelha de Declan, ele lançou um olhar na direção de Scott. — Lorde Callahan está aqui. Dizem que ninguém consegue derrotá-lo em lutas de espadas. Nem mesmo você.
Declan se virou novamente.
— Que tipo de boato é esse?
O rapaz deu de ombros. Os outros riram.
— É o que corre por aí.
— Bem — Declan deu as costas aos homens —, não ligo para boatos.
Scott cruzou os braços e encontrou o olhar do irmão com um brilho provocador. Além de conferir os treinamentos, também estava ali em busca de algo para desanuviar a mente. A ideia de uma luta de espadas era uma opção que o animava.
Ele se dirigiu aos recrutas:
— Talvez o general esteja enferrujado demais para uma demonstração — Os lábios curvaram-se, os olhos acompanhando a provocação com um brilho malicioso.
Semicerrando os olhos para o irmão, Declan disse:
— Talvez você esteja enferrujado. A idade chega para todos.
Para o deleite dos recrutas, a resposta de Scott foi sacar a espada. Ele a moveu de um lado a outro, girando-a com o pulso num gesto habilidoso, que era também um desafio ao irmão.
Quando Declan sacou a própria espada, urros e gritos de celebração soaram entre os rapazes. Os que ainda treinavam pararam o que estavam fazendo. Moedas de ouro começaram a mudar de mãos.
Em meio a palavras de incentivo e xingamentos vivos, Scott e Declan assumiram suas posições e prepararam-se para a luta.
— w —
Em uma das sacadas no segundo patamar, ao lado de Finn, Cassandra apoiou as mãos sobre o corrimão de pedra e observou a disputa de espadas que se iniciava abaixo.
O som metálico das lâminas colidindo ecoou alto e ritmado. Alheios à comoção que os cercava, os dois homens moviam-se com uma precisão hipnotizante. Se no pátio a luta era vista com euforia pelos soldados, do lugar onde estava Cassandra a enxergava com sentimentos que iam muito além disso. Havia assombro — se aquela luta amistosa já parecia perigosa, mal conseguia imaginar como seria num campo de batalha, quando o preço a pagar ia muito além da satisfação da vitória; também havia fascínio. E atração.
Ela sentiu o corpo vibrar com o impacto da luta.
Scott era paciente e econômico. Seus olhos cinzentos eram atentos e pareciam acompanhar cada movimento de Declan. Ele mantinha uma posição de defesa, aparando as investidas do irmão, os músculos das costas e dos ombros trabalhando em perfeita sincronia sob a túnica de treino.
Declan, por outro lado, atacava com fluidez, usando velocidade para imprimir força em cada golpe.
A compostura de Scott contrastava com a ousadia de Declan, mas nenhum dos dois baixava a guarda, analisando-se a cada passo. O tilintar das lâminas ecoava como um corte frio e preciso.
— Eu apostaria cinco moedas de prata em Lorde Callahan — disse Finn ao lado dela, inclinado sobre o corrimão com os olhos brilhando. Ele ainda segurava uma das mãos contra as costelas, mas a empolgação falava mais alto que a dor. — O general é mais rápido, mas Lorde Scott... Ele nunca perde a paciência.
Cassandra umedeceu os lábios.
— Eu não seria capaz de apostar — murmurou ela. — Não entendo nada de…
Abaixo, Declan girou o corpo, tentando cortar a guarda de Scott por baixo. O som das espadas travadas em um impasse de força soou como uma sucessão de chicotadas. Seus passos ágeis fizeram a poeira subir ao redor dos pés de ambos. Scott disse algo que fez Declan soltar uma risada curta antes de empurrar o irmão com o ombro. Scott cedeu apenas dois passos antes de retomar a postura, o semblante concentrado, mas com um leve curvar de lábios provocador que Cassandra estava começando a reconhecer.
— Ele está se divertindo — observou ela, quase para si mesma. Era uma nova faceta do homem que a intrigara desde o início. Era uma reação que aumentava seu fascínio.
Cassandra levou uma mão ao peito. Ver Scott naquele ambiente — desprovido da imponência solene de um lorde e entregue à força bruta e à estratégia do combate… causou um nó estranho em sua barriga. Havia um controle absoluto em cada gesto dele, uma presença física que parecia dominar não apenas o pátio, mas a atenção de qualquer um que o observasse.
Incluindo a dela.
Ela pigarreou.
— Os dois estão.
Finn assentiu, animado.
— Eles conhecem os movimentos um do outro. A luta é, ao mesmo tempo, um espetáculo.
— Estou vendo — Ela piscou diante da próxima pancada.
O golpe de Scott foi forte o bastante para fazer a espada de Declan vibrar. Declan precisou recuar rápido, os pés riscando a terra batida para não perder o equilíbrio. Os soldados no pátio soltaram um urro coletivo de entusiasmo.
Ela sentiu o coração disparar, e não tinha nada a ver com o fato de que os dois homens lá embaixo travavam uma batalha com armas verdadeiras. O ar tornou-se levemente rarefeito e ela se viu tão ofegante quanto se estivesse participando da disputa.
Os irmãos avançaram um contra o outro, as espadas formando um “x”. Com um sorriso mordaz, Declan afastou-se e, usando a vantagem da velocidade, virou-se já com a espada empunhada. Scott desviou com um movimento fluido, que quase parecia um passo de dança cheio de agilidade e habilidade.
Houve uma nova rodada de gritos, palmas e assobios entusiasmados. A agitação na barriga de Cassandra tornou-se um latejar quente e intenso que se espalhou por todo o corpo.
Ela engoliu em seco quando a lâmina de Declan passou raspando pelo rosto de Scott. No instante seguinte, o general executou uma série de manobras com a espada — que Scott rebateu uma por uma — até que, num movimento veloz e eficiente, Declan conseguiu apontar a lâmina para o peito de Scott.
Houve um longo instante de silêncio. O pátio parecia ter prendido o fôlego.
Ambos os homens encararam-se, ofegantes. Devagar, Declan baixou a espada.
Quando Scott curvou os lábios e ergueu os braços num gesto de redição, todos pareceram soltar o ar coletivo e a vida voltou ao pátio. A risada do chefe ecoou e aqueles que torciam para o general gritaram de alegria.
Os irmãos aproximaram-se. Scott fingiu empurrar o irmão antes de abraçá-lo como cumprimento.
Quando viu as moedas trocando de mãos, Scott arqueou uma sobrancelha.
— Se eu soubesse que havia aposta envolvida, não teria deixado você ganhar.
— Continue mentindo para si mesmo, irmão — disse Declan, segurando-o pelo ombro com um sorriso. — Como eu disse, todos nós envelhecemos.
— Idiota — Scott guardou a espada. Satisfeito, sentiu a energia da luta revigorá-lo. Os homens o cumprimentavam ou provocavam à medida que ele se afastou da área de treinos.
Até que sentiu um calor diferente na nuca. Levou uma mão ao local e, franzindo o cenho, ergueu a cabeça.
Seu olhar encontrou o de Cassandra.
Ela ocupava um lugar na sacada acima e o observava. Os olhos dourados brilhavam com algo que o atingiu diretamente no estômago. Foi um golpe forte, mais potente que qualquer pancada já sofrida em batalha.
Scott perdeu o fôlego que acabara de recuperar.
Quando ela desviou o olhar, a sensação permaneceu. E ele se deu conta de que a luta com o irmão servira como distração por menos tempo do que gostaria.
— w —
Cassandra levou Finn de volta ao quarto dele e foi para seu espaço de cura. Precisava de um tempo sozinha. Longe de lutas de espadas ou de um chefe de clã de olhar perigoso. Sedutor e perigoso.
Com um estremecimento, ela ignorou o episódio no pátio e vestiu um avental. Avivando o fogo com um movimento da mão, colocou-se diante da mesa de trabalho e dedicou o resto da tarde para a preparação de remédios.
Concentrando a atenção nos passos a seguir, começou usando a alfazema recém colhida para fazer um unguento contra feridas e picadas de inseto. Em um almofariz de pedra, esmagou e macerou as flores de alfazema até liberar seus óleos essenciais naturais. Na panela de ferro que a cozinheira havia cedido, colocou cera de abelha e aqueceu-a até derreter. Quando a cera começou a formar uma mistura mais fluida, adicionou a alfazema esmagada e misturou tudo com uma colher de madeira.
Era um processo demorado, pois precisava deixar a mistura em fogo baixo, mexendo de tempos em tempos, de modo que a gordura permanecesse líquida, nunca fervente, para não queimar os princípios ativos da planta.
Enquanto aguardava, Cassandra dedicou um tempo para registrar os acontecimentos do dia em seu diário. Invariavelmente, seus pensamentos, bem como a escrita, voltaram-se para Scott.
Como estivera ocupada nos últimos três dias, envolvida com a arrumação da alcova, não caminhara muito pela propriedade. Logo, mal tinha visto o chefe do clã desde que se instalara naquela parte do castelo. A troca de olhares naquela tarde — quando estivera auxiliando Finn em um passeio para exercitar as pernas em desuso — fora a interação mais longa que tiveram desde a noite do jantar.
Cassandra não conseguia decidir se o afastamento dele era um alívio ou um aborrecimento. Deveria se sentir aliviada com o espaço que ele lhe dera. Mas, se fosse honesta consigo mesma, admitiria que algo nela gostava da presença próxima dele. O modo como havia reagido ao observá-lo mais cedo tinha sido inesperado… e não totalmente desagradável.
A maneira como ele a olhava, com a mesma atenção e paciência com que encarava uma luta de espadas. Tinha também a postura confiante. Ele era um homem poderoso. Em título e em batalha. E ela não era imune a reparar em tais… qualidades. Sobretudo quando ele não exibia isso com presunção como outros homens teriam feito.
Scott simplesmente era assim.
Ela se perguntou como seria quando ele concentrava todo aquele poder e paciência em outras atividades…
O cheiro suave de alfazema começou a tomar conta do ambiente.
Levemente ofegante, Cassandra guardou o diário e voltou ao trabalho que sempre a ajudava a acalmar o corpo e a mente.
Ela verificou a mistura na panela, satisfeita ao constatar que a gordura mudara de cor, ficando levemente amarelada. Ela mexeu um pouco mais, murmurando um encantamento simples, infundindo um pouco do próprio poder na mistura. Ao final, usou um pano de linho para coar, separando o líquido dos resquícios de flores.
Distraída, sentindo-se tranquilizada pelo aroma da alfazema, despejou o unguento em pequenos potes de vidro. Satisfeita, começou a cantarolar uma canção qualquer enquanto enchia os frascos cor de grama molhada.
Foi assim que Scott a encontrou quando entrou na alcova. O semblante sereno, os ombros relaxados, uma voz sedutora e baixa cantando uma balada de amor.
Era difícil ignorar os boatos de que Cassandra era uma bruxa quando se sentia tão enfeitiçado só de olhá-la. Havia uma sedução e um apelo que a envolviam, como se um feitiço tivesse sido conjurado. A voz levemente rouca e a postura altiva exalavam uma atração quase hipnótica. Elas a cercavam de sensualidade como outras mulheres cercavam-se de perfume.
Cassandra sentiu um comichão na nuca, uma sensação de antecipação que fez o coração acelerar. Ela ergueu a cabeça e viu Scott na soleira da porta aberta.
A troca de olhares no pátio ressurgiu entre eles.
Um estremecimento a percorreu, o corpo respondendo antes mesmo que seus pensamentos pudessem registrar completamente a presença dele.
— Lorde Callahan — disse ela e cuidou para o tom não sair trêmulo. — Bem-vindo.
Scott lutou para manter o semblante calmo, apesar do corpo latejando. O brilho nos olhos dourados o assombrara durante todo o restante da tarde. Chamando-o. Atraindo-o como mel chamando a abelha que o cerca.
Agora que estava ali, percebeu que o desejo dominava seu corpo, deixando um rastro de tensão doce e latente. Parecia que a tensão era uma companheira constante desde que a conhecera. Ele descobriu que controlar o próprio corpo mostrava-se uma batalha mais penosa que mil lutas de espada.
E era uma que ele tinha perdido — em partes. Afinal, tinha dito a si mesmo que se manteria afastado de Cassandra, dando a ela bastante tempo para ocupar aquele espaço sem sua interferência.
O máximo de tempo que conseguira esperar fora três dias. Ele entrou no cômodo devagar, também lutando para afastar o desejo da voz.
— Disseram-me que você havia feito progressos aqui — Scott tinha uma vaga noção de que aquele lugar estivera abandonado e uma bagunça. Mas ninguém seria capaz de imaginar isso agora. Ele franziu o cenho. — Você conseguiu fazer muita coisa em pouco tempo.
Cassandra voltou à tarefa de encher os potes. Concentrou-se em manter as mãos firmes.
— Um pouco de determinação e uma vassoura são capazes de grandes feitos — disse ela, selando o frasco com uma tampa de rolha. Ela pegou o último vidro. Pelo canto do olho, viu que Scott caminhava pelo cômodo.
Ele passou os dedos por umas folhas de manjericão, penduradas sobre a lareira para secar. Depois, vasculhou as prateleiras com o olhar, franzindo o cenho quando se deparava com algo desconhecido ou curioso.
Quando ela fechou o último frasco e colocou-o junto com os outros sobre uma pedra de mármore a fim de resfriar, Scott se virou e observou-a por um instante.
Ele parecia… hesitante, como quem debate internamente se diz algo ou não. Era uma atitude incomum. Desde que ela o conhecera, seus gestos, palavras e silêncios sempre pareciam ter um propósito claro.
Cassandra franziu o cenho.
— Há algo que queira conversar comigo, milorde?
— Só quis verificar como você estava se instalando.
— Bem… — Ela gesticulou com as mãos, abrangendo a sala em geral. — Eu diria que deu tudo certo.
— Significa que vai ficar? — Ele não tinha a intenção de perguntar isso. Sentiu-se tolo por as palavras terem escapado, mas sustentou o olhar de Cassandra quando ela o fitou com surpresa.
Com o coração acelerado, ela baixou os olhos para as mãos, a fim de ganhar tempo. Não queria pensar no que via nos olhos cinzentos. Parecia… esperança? Não. Não podia ser. Aquele era um sentimento muito suave para um homem tão determinado e pragmático.
Mas, quando o olhava… quase parecia que ele — Scott, não o chefe do clã — queria que ela tornasse sua presença permanente.
— Ficarei por enquanto — disse ela. Dessa vez, não conseguiu disfarçar um tremor na voz. Não sabia se tentava convencê-lo ou a si mesma de que o arranjo era temporário.
— O que preciso fazer para sua decisão se tornar definitiva? — Agora que havia começado, Scott pretendia ir até o fim. Queria que ela ficasse pelo clã. E por ele. Queria tê-la perto. Nem que fosse para apenas vê-la de três em três dias. Dois. Algumas horas. Não importava, desde que ela estivesse a uma sala de distância. — Posso compensá-la pelo seu trabalho.
Os olhos dourados tornaram-se tempestuosos.
— Pensei que já tínhamos superado essa sua mania de me oferecer dinheiro — disse ela com um tom ríspido. — Minha permanência não tem nada a ver com compensação financeira.
Scott xingou a si mesmo.
— Tem razão — disse. Ele coçou a garganta. — Peço desculpas.
Cassandra abriu a boca para falar, mas fechou-a em seguida. Não esperava um pedido de desculpas tão rápido. Tão honesto.
— Eu… — Irritada consigo mesma por titubear, ela contornou a mesa de trabalho e foi preparar uma infusão calmante com a alfazema que sobrara. Sentia que ia precisar. Ela o fitou de esguelha. — Vamos esquecer. Talvez possamos combinar de… ser amigáveis a partir de agora.
Scott assentiu. Sentiu algo surgir em seu peito. Começariam com “amigáveis”. Tudo bem. Tinham que começar de algum lugar mesmo.
— Eu gostaria disso.
Havia uma pequena mesa de madeira no canto do cômodo, com duas cadeiras e um pote com biscoitos. Ela indicou uma das cadeiras.
— Que tal se juntar a mim para tomar um chá?
Ele se acomodou na cadeira e soltou um longo suspiro, sentindo as preocupações do dia abrandarem. Havia algo tranquilizador naquele lugar. Talvez fossem os aromas confortadores ou os reflexos suaves da luz nos cristais espalhados pelo cômodo.
Ou talvez fosse a mulher que dominava aquele espaço.
Cassandra observou a água borbulhar e ocupou-se em coar o chá. Os olhos acinzentados dele estavam atribulados e ela sabia que nem tudo tinha a ver com o que acontecia entre eles.
— Vi você treinando com seus homens. Está tudo bem?
— Com o clã, sim — respondeu Scott, olhando através da janela, esquadrinhando a noite como se em busca de algo. — Mas Ronan, meu cunhado, já deveria ter voltado de uma incursão.
— Você vai atrás dele?
Scott refletiu sobre o assunto, tamborilando os dedos sobre a mesa.
— Espero que não chegue a isso — disse, por fim. Ele desviou o olhar da janela e observou-a colocar o bule de chá sobre a mesa, arrumando os biscoitos em dois pratinhos com mãos delicadas e eficientes. — Ronan é um problema a ser resolvido. E isso é algo que venho adiando há um tempo.
— Por causa da sua irmã.
— Brianna é uma das razões — concordou Scott. — Mas o fato é que Ronan tem uma quantidade significativa de soldados leais a ele. Não seria prudente antagonizá-lo.
Ela se sentou.
— E isso o irrita.
— Meu pai me deixou de herança um cunhado em quem nunca pude confiar, mas de quem também não consigo me livrar. — Diante do olhar paciente dela, suspirou e acrescentou: — Sim, isso me irrita profundamente.
Ela podia ver o quanto isso o incomodava. Havia uma fúria adormecida nos olhos de tempestade, que apenas um homem muito estúpido ou muito arrogante ousaria despertar. Cassandra se perguntou qual das duas opções esse tal Ronan seria.
— Lamento por Brianna.
— Eu gostaria que ela não precisasse lidar com Ronan. O casamento foi arranjado pelo meu pai antes de sua morte. Ele só estava interessado no poder militar dos Maklair, o clã de Ronan, e não na felicidade da filha.
— Isso é terrível — murmurou Cassandra, com um tom frio. Ocupou-se em servir o chá a ambos.
Scott inclinou-se para a frente, observando com um olhar desconfiado a xícara que ela acabara de lhe entregar.
— O que é isso mesmo? — perguntou ele, franzindo a testa.
Os cantos dos lábios de Cassandra curvaram-se. Ela deu um gole na própria xícara.
— Chá.
— Tem cheiro de… flor.
— É alfazema com um pouco de camomila. Faz bem para os nervos e também ajudará a combater a dor de cabeça que você está sentindo.
Lentamente, ele ergueu o olhar da xícara e encarou Cassandra com um brilho perigoso.
— Eu nunca disse que estava com dor de cabeça.
Ela bebeu o chá para molhar a garganta subitamente seca.
— Posso ver nos seus olhos — disse, com simplicidade, e conteve mais um sorriso quando o viu observar o chá como se algo fosse pular da xícara. — Scott Callahan, o grande guerreiro, com medo de uma xícara de chá?
— Não é medo. Eu só… — O divertimento e o desafio nos olhos dourados o fizeram praguejar. Ele pegou a xícara e deu um gole… surpreendendo-se com o gosto suave e levemente adocicado. — Está bom.
— Só porque é um remédio não significa que precisa ter um gosto ruim. É o que sempre digo.
— Alguns remédios são mais fáceis de engolir que outros. — Ele bebeu mais um gole. Franziu o cenho. — Você pôs algo mais no chá?
— Sim. Conhecimento e anos de estudo sobre plantas medicinais — replicou Cassandra com um curvar de lábios afiado — Ah, e um pouco de mel para adoçar.
Scott gargalhou.
— Isso certamente me pôs no meu lugar.
Ela hesitou. Diante da risada — livre, leve, divertida — e também diante do que estava prestes a dizer.
— Eu poderia ajudar com a sua dor — ofereceu e esperou que o sentido do que dizia fosse absorvido. — Se quiser.
Ele ficou em silêncio, ciente de que falavam sobre curas que iam além de chás e ervas medicinais.
— Como faria?
Ela respirou fundo e soltou o ar devagar. Não sabia o que esperava, mas sentia que uma recusa imediata teria partido algo dentro dela.
Sem dizer nada — algumas coisas eram melhores mostradas, não explicadas —, Cassandra levantou-se e se aproximou. Devagar, observando os olhos dele como uma pessoa que encontra um lobo imprevisível, ergueu as mãos. Quando ele assentiu, tocou-lhe as têmporas com as pontas de dois dedos.
Ela arfou com a intensidade da dor que encontrou. Regulando a própria respiração, moveu os dedos em movimentos circulares e vagarosos. Imaginou a dor como ondas ferozes que, à medida que quebravam contra sua resistência, dissipavam-se gradualmente.
Era um encantamento de cura que estava habituada a fazer em si mesma. Por isso, sabia que a agitação em seu corpo nada tinha a ver com o feitiço. Conforme o latejar na cabeça desaparecia, uma latência deliciosa tomava seu lugar, espalhando-se por todo o corpo.
O calor da lareira pareceu intensificar-se.
Cassandra viu quando a dor sumiu dos olhos de Scott. O cinza escureceu, o desconforto sendo substituído pela realização do que tinha acabado de acontecer. Por um instante, o latejar em seu corpo pareceu pertencer aos dois.
Scott sentia uma leveza na cabeça que nem mesmo todo o uísque do mundo já lhe proporcionara. Podia, se estivesse disposto a ser teimoso, atribuir o alívio ao chá que havia bebido. Ou mesmo à massagem nas têmporas. Mas seria idiotice ignorar a completa ausência da dor. Uma ausência, pensou, que ocorrera com muita rapidez. Ele não se considerava idiota. E sabia o que Cassandra acabara de fazer.
Com o coração na garganta, ciente da proximidade entre eles, ela abaixou as mãos e prendeu a respiração diante do olhar dele. Não sabia o que esperava ver nos olhos de Scott após o que fizera. Havia surpresa e choque, claro. Mas a admiração que brilhava — viva e intensa — estava deixando-a nervosa. Ela começou a se afastar, mas ele segurou suas mãos.
Ainda com os olhos nela, Scott levou uma das mãos dela aos lábios, beijando-lhe os nós dos dedos vagarosamente.
— Há mágica aqui — sussurrou e virou a mão dela, tocando os lábios na palma, subindo para o pulso onde a pulsação acelerada era um rio rápido que refletia sua própria agitação.
Cassandra sabia que precisava pará-lo. Uma parte dela gritava para recuar. Mas quando os olhos de Scott concentraram-se na sua boca... Ela sentiu os lábios formigarem em resposta.
— Lorde Callahan… Scott… Por favor. — Pare? Continue? Nunca pare. O que ela queria? — É um erro.
— Sim, sim — Ele vasculhou a expressão dela, em busca de algo. Uma negação. Uma hesitação sequer. Mas tudo o que via era seu desejo refletido nos misteriosos olhos dourados. Ele a puxou com suavidade. — Impeça-me, Cassandra.
— Eu… — Ela moveu a cabeça. — Não quero impedi-lo.
Ele curvou os lábios. Aquela era toda a permissão de que precisava.
— Graças aos deuses — disse e colou os lábios aos dela. Cassandra não resistiu. Pelo contrário, retribuiu com a mesma energia.
O beijo foi ardente, urgente, como se os dias de resistência entre eles tivessem potencializado aquele momento. Todas as barreiras desabaram naquele instante. Quando as mãos de Scott apertaram a cintura de Cassandra, ela arfou contra a boca dele, desesperada e ansiosa. A boca dele a reivindicou, invadindo, consumindo. Sem qualquer delicadeza. Exatamente como ela queria.
Scott sentiu que morreria de prazer. Ela era tudo o que os olhos sedutores prometiam. E mais, muito mais. Ele aprofundou o beijo, os lábios generosos dela cedendo e exigindo na mesma medida. Seu sistema tornou-se completamente inundado por ela. Se estava sendo enfeitiçado, não reclamaria. Queria mais.
Era difícil pensar — tomar qualquer decisão — quando tudo o que ela era resumia-se a sentir. Querer. Desejar. Uma das mãos dele subiu por sua cintura, os dedos roçando suas costelas, parando um centímetro antes do seio que subia e descia com a respiração irregular. Cassandra afundou as mãos nos cabelos dele e deliciou-se com a suavidade, usando as unhas para arranhar a nuca dele.
A mente de Scott apagou completamente. Por um instante, todos os seus pensamentos e necessidades resumiam-se à Cassandra. Ao gosto doce e poderoso em sua boca. Ao corpo delicado e sinuoso contra o seu.
O fogo na lareira estalou, as chamas agitando-se momentaneamente, o calor tomando conta do cômodo. Lá fora, uma agitação de vozes começou a soar, entrando pelas janelas abertas.
Levou alguns longos segundos para que eles se dessem conta disso.
Cassandra foi a primeira a perceber o que estava acontecendo. Ela interrompeu o beijo, o corpo protestando, sentindo falta do contato. Quando Scott inclinou-se em sua direção, ela colocou uma mão sobre o peito dele. Chocada, ela percebeu que, em algum momento, acabara completamente sentada no colo de Scott, com as mãos dele cercando-a firmemente pela cintura em uma posição íntima e maravilhosa.
Ela o empurrou no peito.
— Scott — disse, chamando a atenção dele. — Eles estão falando o seu nome.
Scott precisou de vários segundos para que os sons do pátio fizessem sentido em sua cabeça. Lutando para recuperar o fôlego — e a sanidade —, ele inspirou fundo e ouviu alguém ordenar que o chefe fosse chamado.
Cassandra deu dois tapinhas no peito dele.
— Solte-me — Por um instante, um brilho de desafio surgiu nos olhos de Scott. Ele analisou o rosto dela, concentrando-se nos lábios inchados do beijo. Cassandra sentiu-o apertá-la contra si. Mas, no instante seguinte, ele a soltou e se levantou.
— Obrigado pelo chá — disse e saiu a passos apressados.
Sozinha, com os sons da agitação do lado de fora dominando o ambiente, Cassandra levou uma mão ao coração acelerado. Fechou os olhos, ainda sentindo o gosto dele na boca, o peso das mãos em seu corpo. Mesmo depois que ele saiu, o corpo dela permaneceu em alerta. Como se o toque dele ainda estivesse gravado em sua pele.
Por todos os deuses, o que tinham feito?