Capitulo 1
Os festejos naquele dia começaram cedo, pois comemorariamos duas coisas, o réveillon e a descoberta de uma rocha que continha DNA suficiente para nos dar explicações do que aconteceu no planeta vermelho: Marte.
Os alferes caminhavam alegres transitando pelos corredores, outros ocupados com a organização da festa que aconteceria pela noite. Usávamos a contagem de tempo da Terra porque ali em Marte o dia funcionava diferente.
Eu por outro lado não queria nada de comemoração ou bebidas, queria apenas abrir a pedra e assim pesquisar com mais afinco o que continha em seu interior. Contudo, trazer aquela pedra até o laboratório não fora nada fácil.
Depois que estávamos instalados em Marte fomos em busca de rochas. Pelo meio delas que faríamos os estudos. Através de anos coletando e analisando informações trazidas pelos satélites, fora detectado que num determinado tempo houve água em Marte e logo em algum momento existiu vida. Era para isso que viemos, para pesquisar e encontrar resquícios de forma de vida ou quem sabe um espécime de verdade.
A exploração começou numa caverna, quanto mais fundo fossemos, mais fácil seria encontrar algum tipo de sinal de vida.
Numa das cavernas encontramos uma abundância enorme de petróleo e milhares de pedras ovais parcialmente submersas nele o que foi bem estranho por conta do formato delas.
Começamos com testes simples preocupados com o petróleo por ali, pois uma faísca faria aquilo tudo explodir. Não haveria como executar qualquer tipo de diagnóstico por ali, porque poderia danificar ou alterar os resultados. Então usamos dois rovers, um deles usou nitrogênio líquido em volta da pedra, impedindo que o petróleo ali se agarrasse e impedisse que a retirássemos. Depois o outro que era robusto, podendo aguentar mais de quinhentos quilos, ergueu a pedra e a carregou para a base.
Quando chegamos na estação todos cientistas que entrariam em contato com a pedra vestiram trajes pressurizados robóticos, inclusive eu. A rocha foi colocada dentro de uma caixa selada com atmosfera de gás hélio, sem oxigênio e sem umidade.
A carregamos com cuidado até o laboratório que estava com a mesma atmosfera. Começamos as pesquisas. Foram usados lasers pulsados ultravelozes. Eles vaporizavam pedaço por pedaço da rocha em nível microscópico, camada por camada, sem esquentar o objeto. Veio a parte estranha, quando conseguimos recolher uma quantidade significativa do pedra ela não estava dispersa entre os detritos da rocha, o que era mais comum encontrar.
Peguei a Micro-CT, que era a sigla de Tomografia Computadorizada Computada, que usei um raios-X 3D de alta resolução para mapear a forma exata do objeto por dentro, apenas por curiosidade.
Levei um susto dando diversos passos para trás. Havia algo ali muito bem enrolado como se estivesse dormindo.
Então se conseguíssemos abrir a pedra, extrair o espécime sem o danificar poderíamos descobrir qual foi o motivo que o deixou daquela maneira e quem sabe o despertar. Seria uma descoberta incrível, despertar o primeiro marciano e confirmar definitivamente que houve vida em Marte.
No momento, estava colocando a rocha para ser aberta por uma máquina com um lazer que cortaria primeiro em volta do espécime, o retirando da primeira camada que o envolvia. Depois com lasers controlados por IA faríamos a remoção da última camada e assim o expondo.
Ativei a máquina. Escutei risadas vindo do fundo do corredor e olhei para o relógio no pulso, estava quase na hora. Encarei o tempo da máquina, levaria algumas horas até ela extrair a primeira camada. Olhei para o corredor.
— Acho que posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Vai demorar até chegar ao núcleo da pedra. Então dá tempo de comemorar, tomar uns drinques e quem sabe ter algum avanço com o Capitão Kanne, ele já vinha soltando sinais que…— escuto mais risadas e olho para a pedra novamente. — Preciso ser um pouco humana também.
Sai do laboratório. Passei pela câmara de despressurização, entrando na atmosfera de oxigênio. Verifiquei os níveis se estavam perfeitos para respirar. Retirei a roupa de proteção que estava usando. Passei para uma nova câmara de descontaminação.
Peguei o tablet que ficava por ali e verifiquei os níveis de ar dentro do laboratório enquanto a máquina estava fazendo seu serviço. O gás hélio estava perfeito e vou em direção ao refeitório arrumando o cabelo no caminho.
Encontrei no caminho o Capitão Kanne, era o comandante da missão. Ele que organizava os grupos e mandava nos líderes de cada grupo, como também cuidava da segurança com seus diversos soldados. No momento estava muito bem arrumado com seu uniforme impecável, seu cabelo ébano penteado para trás. Olhou para mim e sorri de volta.
— Então conseguimos? — perguntou com um sorriso de lado.
— Ainda não, começou o processo do corte superior para assim chegar na última parte… — mostrei o tablet para ele que havia uma câmera na direção da experiência.
— Essa fase é aquela que demora, não é? — questionou chegando perto e senti o calor de seu rosto contra o meu. Fazia algum tempo que estava focada em apenas trabalho e desde que vi o Capitão Kanne em serviço, minhas convicções começaram a mudar de uma certa forma.
— Sim.
— Ela pode trabalhar sozinha ou vai precisar de supervisão constante? — questionou adentrando ao refeitório e me deparei com a decoração de balões dourados para todos os lados e uma mesa farta de comida. Resmunguei por conta de seu afastamento abrupto.
— Essa parte não, porque estará retirando apenas pedras, digamos assim.
Ele soltou um sorriso de lado e foi até a mesa, o segui.
— Você verificou o protocolo de emergência, caso ocorra algum problema durante a extração?
— Sim, acionei todos, deixei ativado o sistema de ventilação, caso ocorra algum problema de queimação de resíduos que possa ocorrer e também um alerta de vazamento caso algum outro tipo de gás…
— Servida? — esticou para mim uma taça com champanhe que havia servido.
— Acho que não é muito apropriado ingerir bebida alcoólica, porque estou em serviço e…
— Joana, todos aqui estão de serviço, mas temos que comemorar, não achas?
— Certo, temos mesmo.
Acabei bebendo champanhe. O Capitão Kanne soltou alguns flertes para mim e fiquei sem reação. Apenas sorri e desviava o assunto para alguma coisa.
Eu devia estar mais relaxada e aceitar suas investidas como prometi para mim mesma no laboratório, contudo parecia que não conseguia por conta do que estava rolando por lá. Bebi mais e meu corpo deu uma relaxada e consegui paquerar. O Capitão Kanne nos levou para um canto mais sossegado e começamos a conversar.
A contagem regressiva começou.
— 3, 2, 1 …
O alerta para problemas surgiu na tela do meu relógio. Vibrou diversas vezes. Alguma coisa estava errada no laboratório. Abri a câmera do tablet e levei um susto, porque não conseguia ver nada por ela, apenas um branco total. Todo mudo gritou feliz ano novo. Olhei para Kanne que estava com as sobrancelhas franzidas. Sorri de lado.
— Eu preciso só dar uma olhada rapidinha lá e depois eu volto para continuarmos a conversar, tudo bem?
— Não demore, tenho coisas para conversar com você lá na minha cabine depois.
Sorri já imaginando o que poderia ser e com passos apressados fui em direção ao laboratório.
Até o próximo capítulo, não esqueça de curtir, comentar e compartilhar pra ajudar a autora: D