Capitulo 4 Meu Reveillon Favorito · Capítulo 4 de 5
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Capitulo 4

Foi assim que se seguiu os dias. Trabalhava pela tarde. Conversava com o marciano pela noite. Dormia a manhã toda. Ele era um bom ouvinte. Sabia de muitas coisas. Possuía um humor encantador. Era um jogo de perguntas e respostas para ambos os lados. Ele sempre fazia o relatório para mim do que havia escutado dos alferes. Quando alguém chegava perto ainda ficava arredio soltando fogo, querendo os morder. Mesmo depois de um mês ainda não havia conseguido fazer ele contar o que havia acontecido com o povo dele, se havia mais deles. Nunca me dizia tudo sobre a sua espécie, quando forçava ficava agitado, bravo, soltava algumas bolas de fogo até o chamar de idiota e voltar ao normal. Alguma coisa havia acontecido ao seu passado que o deixava conturbado. Só não conseguia entender o motivo dele parar quando o chamava de idiota.

Ainda havia os problemas que essas conversas noturnas estavam me causando. Como não estava descansando tempo suficiente, meu rendimento diminuiu muito e poderia chamar atenção do Capitão Kaine, pois ele era o meu superior, pois eu era a responsável em controlar o laboratório.

Acabei tendo que ir duas vezes até a enfermaria pedir por comprimidos de suplementos dando a desculpa que o trabalho estava puxado e ficando muito exausta. Como também solicitei energéticos para tomar nos dias que não conseguia dormir nada, pois o serviço no laboratório precisava ser monitorado cedo. Ou seja, eu terminava a conversa com o marciano, passava na minha cabine para trocar de roupa e me encaminhava direto pro laboratório tomando o energético em grandes goles para que ninguém visse eu carregando a lata na mão.

— Joana, o capitão Kanne quer falar contigo na sala dele — um alferes aparecendo no laboratório.

— Claro, estou indo — larguei as coisas e fui até a sala do capitão. Bati na porta e ela abriu.

— Entre Joana, preciso conversar com você.

— Diga, senhor — entrei e fechei a porta e fiquei em posição de sentido.

— Precisamos de mais respostas do marciano.

— Não entendi.

— Achou mesmo, que ninguém ficaria sabendo de suas conversas noturnas com aquela cobra gigante?

— Ele não é uma cobra, suas características físicas lembram muito mais um dragão chinês, ou o nome certo seria marciano mesmo.

— Você entendeu. Achou mesmo que ficaria um mês conversando com ele, saindo de seu alojamento em horário que não é permitido, pegando uma enorme quantidade de comida, conversando com quem foi proibido de conversar e não aconteceria nada?

O olhei sem saber o que dizer. Havia agido por impulso, fui negligente, queria só conversar com o marciano e não me dei conta das consequências que causaria depois. Tentei controlar a minha respiração, mas estava complicado. Eu tinha um sentimento estranho por aquele grande lagarto e só naquele momento havia me dado conta.

— Agora é o seguinte, daqui por diante quem conduzirá as suas perguntas será eu. Viemos aqui atrás de respostas, elas estão trancadas numa cela e parece que o dono delas fica manso em sua presença.

— Não é verdade, ele…

— Já ouviu algum alferes comentar que conseguiu conversar com ele ou dar comida para o mesmo sem sair chamuscado?

— Achei que ele falou brincando quando disse que…

— Ele não estava, não devia acreditar tanto no que aquela co… marciano fala. Quero que o visite durante o dia, porque recebi um aviso da enfermaria que passou por lá duas vezes essa semana para tomar vitaminas e energéticos por não estar aguentando a rotina.

Arregalei os olhos.

— O que foi? Achou mesmo que não ficaria monitorando o andamento físico dos ocupantes dessa estação? Preciso que todos estejam bem. Qualquer coisa que anda fora do normal sou avisado— Capitão Kanne caminhou em minha direção e colocou a mão no meu ombro. — Entenda, viemos para pesquisá-lo e não gosto que meus tripulantes se sacrifiquem por isso. Sabe que me preocupo mais ainda com você.

— Certo, como fará as perguntas para mim? — perguntei mesmo não gostando, porque seria controlada, contudo estava ali numa missão e o marciano possuía todas as respostas que estavamos procurando.

— Pelo comunicador. Pelo que vi em suas conversas, ele nunca comentou sobre sua espécie, então terá que ser mais firme nisso.

— Mas ele não gosta de falar sobre.

— Então seja mais incisiva.

— Então me deixe entrar na cela com ele.

— Joana, isso é…

— Eu sei que é perigoso, mas preciso mostrar que ele pode confiar em mim. Entrar na cela mostra que eu confio nele, porque o deixar bravo com uma parede de vidro entre nós é fácil, mas ficar a sua frente sem proteção alguma é algo bem diferente.

— Vou pensar e mando o recado em seu alojamento antes do lanche da tarde, para começar a visitá-lo por esse horário.

— Sim senhor, obrigada. Posso ir?

— Sim, dispensada… Espere, Joana. A nossa conversa que começamos na virada de ano, eu queria que a continuássemos — sua mão desceu até o meu braço.

— Senhor, estamos numa missão importante e o tempo que vai me sobrar vai ser apenas para dormir, como vamos…

— Venha até a minha cabine depois que terminar com o marciano. Você precisa relaxar um pouco, não é saudável ficar tão focada assim.

— Sim senhor, entendi — sorri e sai de sua sala.

Enquanto estava no lanche recebi o comunicado do Capitão Kanne. Havia sido autorizada a entrar na cela do marciano somente com escolta. Revirei os olhos e bufei. Da última vez haviam atirado nele o fazendo desmaiar, sendo que nem havia atacado ninguém. Olhei para a cozinha, precisava de algo para o deixar manso. Lembrei do doce da minha terra natal, não havia quem não gostasse, tudo bem que ele era um marciano com gostos bem peculiares. Contudo não custava tentar. Vou para a cozinha e preparo o doce. Peguei a panela e duas colheres, com certeza iria comer junto dele.

Passei pelo corredor e seis guardas estavam parados na frente da cela dele com as mãos nas suas armas tranquilizantes. Olho para a cela e o marciano parecia que estava disfarçando, como sempre fazia quando passava por ali, para não mostrar que interagiamos. Sorrio com aquilo. Sinto borboletas no estômago. Não entendia o motivo, iria apenas abrir sua cela e entrar lá dentro para conversar de perto com ele. O fiquei olhando e seus olhos grudaram em meus movimentos e arregalaram quando cheguei perto da porta.

— Pois é, nos descobriram. Sabe que poderia me contar seu nome, que tal? — abri a porta da cela com a senha que recebi pelo comunicador do capitão, a digitei e depois a fechei.

Escutei o engatilhar das armas de todos os guardas nas minhas costas. Marciano chegou perto da janela e sua pele na garganta começou a ficar mais vermelha, era sinal que iria atirar fogo.

— Idiota! Olha não posso te chamar disso o tempo todo, poderia me dar um nome, qualquer que seja, se não vou te chamar de …—- dei uma colherada no doce e soltei um gemido de satisfação. — Brigadeiro, como essa coisa é boa.

— Que barulho é esse que fez? — marciano me olhou e voou em minha direção. Olhei para os guardas que ficaram o seguindo e controlei a risada, porque havia um vidro que os impediria de nos acertar ali dentro.

Ele seguiu meu olhar e sorriu completamente, mostrando todos os dentes. Batucou no vidro. Deu um giro completo em seu corpo.

— Teria algum xingamento para o que aqueles obtusos estão fazendo?

— Essa palavra os definiu perfeitamente.

— Por que Joana, ela quer dizer…

Segurei a panela por uma alça e tampei sua boca com as duas mãos.

— Se eles não entendem o significado, fica mais divertido ainda — pisquei um olho.

— Ah, agora sim — seu olhar foi para a panela e ficou a observando. — Que cheiro estranho vem dela? Por que o conteúdo não caiu quando a girou de lado? Que coisa anômala?

Tirei a mão de sua boca rindo e segurei direito a panela. Peguei uma colher que tinha guardado no bolso, peguei uma quantidade generosa e ofereci para ele. O marciano recuou como sempre fazia com algo estranho demais para ele e depois se aproximou cheirando e suas pupilas dilataram e por alguns segundos focaram em mim e depois voltou a olhar a colher. Ainda não havia entendido aquela sua reação, sempre o via fazer aquele movimento de me observar por alguns segundos com um olhar estranho e depois desviar para outra coisa.

— Não mesmo, primeiro um nome, se não vou o chamar de idiota.

— Aceito ser chamado de idiota por você.

— E por eles? Porque é assim que vão te chamar pela estação.

Bufou soltando fumaça e recuou.

— Qual o problema de me dizer seu nome? É apenas um nome, não é?

— Não, vocês humanos e sua mania de fazer tudo ficar simples.

— Bom de onde eu venho um nome não te define, se não o coitado do Xerox ou da Hipotenusa nunca sairiam de casa — dou uma colherada no brigadeiro e enfio na boca, soltando um gemido. Amava aquele doce, que pena que ninguém sabia que enrolado com granulado ele ficava mais gostoso ainda e acabaram não trazendo para a viagem um saco de granulado, seria uma festa por ali.

Quando abro os olhos encontro o Idiota me encarando com seus olhos amarelos e muito bem concentrados em mim. Com certeza aquilo não era um olhar normal, mas se contar sobre ele era complicado, imagina perguntar sobre aquele seu olhar em minha direção.

— Você e essa mania de ficar me encarando. Então vai querer provar?

— Gosto de te observar. Se eu provar em troca vou ter que dizer meu nome, não é?

— Ele é tão feio assim?

— Meu pai que era um grande obtuso com nomes na época, poxa, um bebê não entende as coisas, podemos fazer coisas idiotas e…

— Não espera aí, ele não fez isso contigo. Ele te deu o nome de…não acredito — deixei a panela cair no chão e dou um passo para trás. Dando conta de qual era o nome do marciano e que sempre o chamava daquilo. — Por isso que sempre quando o chamo reage… por isso que veio até mim no laboratório, porque o chamei, mesmo que resmungando, mas chamei…

Devia ter me contado, eu podia ter parado. Realmente é um nome horrível para dar para um bebê. O que seu pai tinha na cabeça, aquele saco de bosta, jumento, balde de chorume, odor de gambá, deposito de mosca — xingava tentando não usar palavrões e fiquei caminhando de um lado para o outro. Com a fúria exalando pelo meu nariz por conta do que o pai do idiota havia feito com ele.

Escuto uma gargalhada tão linda que paro o que estava fazendo e acabo rindo junto. O idiota estava rolando, quer dizer girando pelo ar enquanto ria e serpenteando aquele seu corpo de um lado para o outro.

— Pois é, pais nunca tem boas ideias em nomear seus filhos — sorriu parando na minha frente e flutuando como sempre fazia.

— O que você estava fazendo para ele ter te dado o nome de…

— Estava mordendo o rabo — senta no chão, pega a panela da minha mão. Enfia a colher na boca, seus olhos arregalam e me encara. — O que é essa coisa? — sem retirar a colher da boca e nem se mexer.

Era estranho ver o seu corpo inteiro parado, pousado no chão e não tremular como sempre fazia, nem mesmo os seus bigodes, tudo estava em forma de estátua. O que havia acontecido com ele?

— Doce, por quê?

— Mas o que tem na mistura, Joana? — perguntou ainda sem mover um músculo do corpo.

— Leite condensado e chocolate.

— Chocolate? A base dele é feita com que, Joana?

— Cacau.

— Joana, por favor, não se apavore, mas eu preciso que se retire daqui o mais rápido possível — ainda sem mexer um milímetro de seu corpo.

— O que houve?

— Depois te explico, só me escute — o idiota ainda sem mover nada, apenas o canto dos lábios para sair o ar e o som de suas palavras enquanto segurava a panela e a colher em sua boca.

— Mas…

— Joana! — sua garganta ficou muito vermelha e vi a colher derreter em sua mão.

— Está bem. Mas eu poderia ajudar, se for algo ruim…

— Joana! — A fumaça saiu de suas narinas.

— É sério. Se fizer algo muito errado eles não vão pensar duas vezes em atirar em você e se atirarem acabou regalia comigo, entende?— comecei a ficar preocupada quando vi o corpo do idiota começar a vibrar todo.

— Mas se ficar aqui vai se machucar — disse ainda no controle.

— Você vai se machucar se eu sair. Eu sou quem está os impedindo de tomar alguma ação — uma lágrima estranha escorreu do meu olho.

— Joana — sua voz saiu mais branda, contudo sua cauda começou a bater freneticamente. — Então os impeça, estou no meu limite.

Olhei para os guardas que deram passos em direção à porta. Respirei fundo. Eu sabia como resolver aquele problema e daria tempo para o idiota fazer o que devia fazer.

Precisava mostrar para ele que poderia confiar em mim, que eu faria qualquer coisa para ajudá-lo. Precisava criar um laço de confiança com ele. Corri até a porta. A destravei. Então diversas bolas soltaram para tudo que é lado. Olhei para o vidro e o idiota se contorcia para todo lado como se estivesse levando diversos choques. Então abria a boca e soltava mais bolas de fogo para tudo que era canto, uma delas atingiu a panela do doce a dizimando em cinzas.

Os guardas vieram em minha direção para passar pela porta prontos para agir. Engoli em seco. Era agora que mostraria o que era feita. Dei um golpe na garganta de um, desviei de um chute, chutei no meio das pernas de outro. Um soco veio em minha direção e defendi usando o antebraço. Arranquei a arma de um e usei a coronha da arma para bater de baixo pra cima no queixo de outro, roubei mais uma arma e a joguei para longe.

Olhei para o vidro e o idiota ainda estava tendo seus ataques e aquilo apertou meu coração. Ele estava daquela maneira por culpa minha. Fechei a mão e soquei outro guarda no meio do rosto. Quando todos estavam no chão, olhei para a cela e o idiota estava ainda da mesma forma.

Peguei duas armas e adentrei a cela.

Engatilhei uma e mirei.

Esperei um ponto adequado e o acertei. O idiota parou de soltar as bolas de jogo, mas ainda continuava a ter os ataques.

Engatilhei a outra arma e mirei.

Esperei.

Esperei.

Então atirei.

Ele pousou no chão devagar e corri até ele. Peguei sua enorme cabeça no colo.

— Desculpa, mas não aguentei vê-lo sofrer. Agora eles confiam mais em mim em estar perto de você — disse sentindo lágrimas estranhas escorrendo dos meus olhos enquanto fazia carinho em sua cabeça. Era estranho estar demonstrando aquele tipo de sentimento por um ser que havia conhecido fazia um mês.

— Joana, minha Joana.

— Desculpa, por favor, desculpa, eles…— lágrimas escorrendo de meus olhos.

Esticou sua enorme garra quase apagando e a peguei na minha pequena mão.

— Viu cinco dedinhos, somos parecidos. — Sorriu e fechou os olhos.

Até o próximo capítulo, não esqueça de curtir, comentar e compartilhar pra ajudar a autora: D

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