Capitulo 2
Então escutei uma explosão que veio da direção do laboratório.
Cheguei na frente dele e tentei enxergar alguma coisa lá dentro pela janela de vidro, mas avistei apenas fumaça para todos os lados. Pelo tablet fiz uma varredura simples dos níveis de gás lá dentro e o hélio estava perfeito, havia apenas um nível baixo de oxigênio e precisava verificar sua fonte de saida. Não consegui entender o que havia feito ocorrer a explosão, porque o gás hélio que estava abundante lá dentro não possuía esse efeito e o nível de oxigênio era pouco para causar aquela situação.
Verifiquei novamente os níveis e havia uma porcentagem de gás nitrogênio e amônia. Seria algo impossível, nada ali dentro poderia liberar aqueles gases. Teria que entrar lá e verificar melhor, pois se aumentassem mais a quantidade poderiam explodir.
Passei pela câmara de descontaminação. Entrei na outra câmara para vestir a minha roupa o mais rápido que consigo. Ativei a despressurização. O estranho era que a fumaça estava ali, era uma densidade estranha, nada comum para uma fumaça de explosão.
Encontrei os controles da sala e verifiquei todos os níveis de gás existentes ali dentro. O gás hélio ainda perfeito, mas a leitura daqueles gases de nitrogênio e amônia que estavam me incomodando e precisava encontrar sua fonte. Aquilo era muito ruim para o experimento.
Então me lembrei da máquina de lazer que deveria estar ligada ainda e corri até os botões que estavam ao meu lado para desliga-la. Por estarem tudo na mesma mesa foi fácil de encontrar seus comandos. Não contendo faíscas, não haveria mais explosões. Abri a tela de um computador e fiz a varredura do local procurando a origem do vazamento de oxigênio e o encontrei, vinha de uma rachadura do vidro da janela. Peguei uma massa plástica debaixo do balcão, encontrei a fissura, com certeza com a explosão deve ter rachado o vidro e passei a massa ali vedando o furo.
Agora precisava encontrar o motivo e de onde vinha o hidrogênio e a amônia, ele sim era perigoso ali dentro. A fumaça densa ainda atrapalhava a minha visão, era muito interessante a forma como pairava igual as nuvens no céu. Só que precisava focar e checar o experimento, como estava a pedra. Tentei informações pelo tablet, mas a câmera acabou parando alguns segundos antes da fumaça toda sair.
Senti algo passar voando pela minha cabeça, alguém reclamar em outra língua que não reconheci nem a voz e muito menos o idioma. Havia tantos alferes naquela missão de diferentes países que poderia ser qualquer um deles.
— Idiota — resmungo baixo por conta do que levaria alguém entrar numa sala e ficar se escondendo. — Oi? Alferes? Você está bem aí? Olha, se seguir a minha voz consigo te tirar daqui de dentro.
Mais alguns resmungos. Outra vez algo passa voando por cima da minha cabeça e aquilo começa a me deixar assustada.
— Olha alferes. Aqui não é um local para brincar, isto aqui é um laboratório e estou com alguns problemas no momento para resolver e estou pedindo educadamente que saia — respondi no meu idioma, como não obtive resposta, comecei a repetir a mesma frase nos idiomas que era fluente e nada, então arrisquei no grego, poderia ser alguém da equipe de Rita que falava em grego, arrisquei, nas poucas palavras que aprendi.
O silêncio na sala foi estranho. Além do barulho do alarme e a fumaça complicando a vista. Dei um passo na direção da parede para apertar o botão que iria acionar novamente os exaustores e assim sugar toda aquela fumaça para fora quando escuto uma resposta.
— Onde eu estou? — escutei em grego uma voz grave masculina.
— Sério isso, alferes, que decidiu beber e dar uma volta por aqui? — respondi em grego, espero que tenha dito o que imaginei.
— O que falou?
— Você poderia… — comecei, então surgiu um enorme rosto de dragão a minha frente e dei um passo para trás. — Sabe, isso não tem graça alguma. Ocorreu uma explosão extremamente perigosa aqui, que poderia ter levado junto a metade da estação e você brincando com uma máscara chinesa? — respondi em português.
O vi torcer a cabeça para o lado levemente.
— Ah, que ótimo. Um alferes que não sabe falar português. Tudo bem que meu idioma não é muito conhecido, mas, poxa vida, você deveria ter lido os memorandos que o capitão mandou, que deveríamos aprender os idiomas de todos até começarmos as escavações para caso ocorresse algum problema pudéssemos nos entender. Olha nós aqui, tentando se comunicar e você não entendendo nada do que eu digo — reviro os olhos.
Ele torceu a cabeça para o outro lado e uma lufada de fumaça saiu de seu nariz. Olho em volta que a fumaça se condensou e ficou nos circulando. Algo não estava certo. Aquele tipo de coisa acontecia apenas quando a água evaporava e esfriava rápido. Então ele poderia ser o causador daquela fumaça estranha, mas para isso devia estar usando algum produto que estava…
— Olha esse seu experimento é muito interessante, contudo, é extremamente perigoso, porque tenho um escape de duas substâncias aqui dentro e preciso encontra-las, não sei de onde ele está escapando e preciso deixar a experiência totalmente em hélio para que não estrague e você brincando com essa porcaria de máscara da cultura chinesa.
— Experiência? Hélio? — vi a máscara mexer os lábios como se estivesse viva enquanto pronunciava as palavras devagar no meu idioma.
— Olha você está me desviando e atrapalhando o meu serviço, peço por gentileza que saia daqui para que eu possa verificar como está a pedra e…
— Pedra? Que tamanho seria o que procura? Porque tem vários tamanhos no fundo desse lugar que chamou de…sala —- olhou para trás e então percebi que a máscara tomou conta completamente de sua cabeça como se fosse um capacete. Tentei procurar onde estava o restante do seu corpo para tentar o puxar dali de dentro e terminar logo com aquela brincadeira. Devia estar usando uma roupa de proteção por baixo daquela máscara, porque não havia como alguém respirar com hélio. Entretanto, quando comentou que havia diversas pedras aquilo fez congelar meu corpo inteiro.
— Não pode. A escavação. O espécime que encontrei dentro dela… —- corri até o fundo da sala. Conhecia aquele lugar como a palma da minha mão, porque o ajudei a montar, não seria uma fumaça que não queria dissipar, que me impediria naquele momento.
— Nunca vi tanta preocupação com pedras. Espécime dentro dela? — o idiota atrás de mim com aquela sua voz grave. Com certeza devia estar usando algum modulador para a deixar daquela maneira parecendo que era um dragão.
— Como é? O que tem na cabeça alferes? Você veio nessa missão para isso mesmo, pesquisar, estudar e encontrar vida em Marte. Qual seu problema? Bebeu muito na comemoração? — perguntei chegando na mesa onde deveria estar a enorme pedra e encontrando apenas migalhas e caí ajoelhada em sua frente.
— Por que fariam isso? O que houve com você, por que está tão triste por causa dessas pequenas pedras? — senti o seu bafo fajuto nas minhas costas.
— Olha aqui seu idiota, eu já perdi a paciência com você — Aquilo foi a gota da água para a minha paciência. Estiquei as minhas mãos para trás para pegar seu pescoço e assim retirar aquela mascara idiota, entretanto encontrei algo largo e escamoso e antes que fizesse algo fui içada do chão e me agarrei no que fosse aquilo que estava sentindo para não cair.
— Não sei que ser é você, mas não tem autoridade alguma de me chamar de idiota, que isso é algo que passo longe de ser — informou o alferes.
— Mas olha o que está fazendo, alferes? Por que está levando tão longe uma brincadeira? O que quer com isso?
— O que seria um alferes?
— Ah não, isso eu me nego a explicar o que seja. Poxa.
— O que seria poxa?
— Hein? De que país vem, alferes?... Espere. Esqueci que poxa é uma expressão brasileira — respiro fundo, me lembrando dos anos de treinamento que tive. Não seria um simples alferes que me irritaria.
— Então em que país se chama alferes?
— Você só pode ter minhocas na cabeça, como não sabe o que significa… poderia me colocar no chão? Como está fazendo isso? Está usando alguma mochila a jato ou algo assim? … Espere a jato? Alferes, eu recomendo que desligue essa mochila, porque não sabemos quanto de gás pode ter pelo ar por conta da explosão.
— Fiquei perdido, quer que eu responda qual das perguntas?
— Faça tudo o que eu pedi, agora.
— Você é meio mandona, sabia?
— Se não fosse, não teria vindo para essa missão.
Ele me colocou no chão e soltei o que estivesse segurando e o encarei.
— Agora poderia retirar essa fantasia e sairmos daqui de dentro para conversar melhor?
— Fantasia? O que seria isso? — perguntou torcendo a cabeça um pouco para o lado.
— Alferes eu lhe ordeno que faça o que estou mandando — perco a paciência com suas perguntas idiotas.
— Mas essa é a minha verdadeira cabeça e você o que é?
— Claro e eu sou um filhote de mamute.
— Olha aqui ser que não sei de onde é, que fala estranho e usa vestimentas estranhas — uma garra enorme abraçou meu corpo inteiro e me ergueu do chão, a cabeça do dragão a seguiu soltando uma fumaça quente na minha direção. — Eu já disse que eu existo e para sua informação eu que sai de dentro daquela pedra.
— Vou entrar no seu joguinho — olhei para tudo e ele só pode ter criado aquilo com nanorrobôs e muitos deles, precisava saber mais para levar para o Capitão Kanne, era tecnologia que deveria estar sendo usada nas escavações e não como brinquedo na mão de alferes. — Se saiu dela, como conseguiu despertar e como parou lá dentro?
— Com a explosão. Nós marcianos usamos a criptobiose para hibernar por longos anos e daqui a pouco meus parentes vão estar aqui para me levar embora.
— Então a explosão que desativou a criptobiose? Mas isso não faz sentido algum. Porque ela deveria te ter destruído e não o despertado, pois o despertar teria que ter acontecido pela vontade do espécime e não o acordado.
— Você ainda não está acreditando em mim, não é? O que você é?
— Olha aqui alferes, você já está passando dos… esqueci, estou no jogo — revirei os olhos. — Eu sou uma humana, me chamo…
— Joana! — alguém gritou de algum lugar.
Então escutei cliques de armas, as pontas de lasers pegando em mim e no alferes dragão ao meu lado.
— Que exagero, pra que tudo isso? Estou apenas conversando com o …
Ele pousou no chão e ficou caminhando de um lado para o outro comigo, me segurando em sua garra enorme como se fosse uma cobra e os lasers o seguindo. Rosnou alto e soltou uma bola de fogo na direção dos alferes que estavam na porta. Então me lembrei dos gases ali dentro, se ele continuasse atirando aquilo iria explodir tudo e nos jogar no espaço.
— Hei, hei, alferes — tentei o chamar o cutucando na garra, mas seu rosto estava seguindo o movimento dos alferes.
— Joana, você está bem? — escutei alguém me chamar.
— Estou sim e… Ei…marciano — mas nada dele olhar para mim e reviro os olhos. — Idiota de guampas e barbixa de velho! — então ele me encarou e vi uma bola de fogo formar dentro de sua boca enquanto sua cabeça aumentava de altura enquanto se erguia do chão.
Naquele momento os dutos foram ativados sugando a fumaça do ambiente e seu corpo foi revelado. Era um dragão chinês completo, de corpo vermelho, quatro patas, escamas e que estávamos flutuando. Arregalei os olhos e pisquei algumas vezes. Não conseguia acreditar no que via. Havia dito a verdade e eu estava realmente discutindo com um alienígena ou como ele se chamou, marciano. Eu queria fazer todos os tipos de testes para compreender melhor como funcionava o seu corpo, seu organismo e como conseguia se manter voando numa gravidade que não era a sua.
Só que precisava focar no problema do agora. Ele sendo quem era e não tínhamos a mínima ideia de como agia era um perigo para toda a estação. Óbvio que não teria como entrar em confronto com ele. Então precisava resolver o problema mais óbvio ali.
— Isso ai idiota, só assim para dar atenção para mim? O que falei de fogo aqui dentro? Tem gases que podem explodir por conta do que havia dentro da pedra que saiu.
— Agora está vendo o que sou — a bola de fogo sumiu de sua boca e chegou perto com sua enorme cabeça.
— Aham e acho que deveria escovar os dentes. Não seria melhor sentarmos e conversarmos como estávamos fazendo antes?
— Eles estão mirando em… — o marciano virou para os alferes na porta e chicoteou o rabo na direção deles.
— Calma lá. Você está me agarrando com suas garras, logo eles presumiram que estava me machucando.
— Mas não estou e por que não agiu como eles quando me viu?
— Te vi como? Olha marciano, eu só percebi que era um alienígena agora que a fumaça toda saiu.
— Isso eu percebi quando ficou me chamando de máscara, estou dizendo que não ficou medo, o que eles estão vendo que você não viu?
Pensei na resposta para dar para ele, contudo não consegui, pois os alferes entraram em formação atirando dardos tranquilizantes nele que amoleceu no mesmo instante e me soltou. Acabei caindo e batendo a cabeça no chão. Tudo ficou escuro.
Até o próximo capítulo, não esqueça de curtir, comentar e compartilhar pra ajudar a autora :D